












Dan Brown

O Smbolo Perdido

















     Para Blythe





     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     AGRADECIMENTOS
     
     Meus sinceros agradecimentos a trs amigos queridos com quem tenho a grande honra de trabalhar: meu editor, Jason Kaufman; minha agente, Heide Lange; e meu 
advogado, Michael Rudell. Alm disso, gostaria de expressar minha imensa gratido  Doubleday, a meus editores mundo afora e,  claro, a meus leitores.  
     Este livro no poderia ter sido escrito sem o generoso auxlio de incontveis pessoas que compartilharam comigo seus conhecimentos em suas reas de especialidade. 
A todos vocs, manifesto meu profundo apreo.   
     
     Viver no mundo sem tomar conscincia do significado do mundo  como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros.
     Os Ensinamentos Secretos de Todos os Tempos
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     FATOS
     
     Em 1991, um documento foi trancado no cofre do diretor da CIA. O documento continua l at hoje. Seu texto em cdigo inclui referncias a um antigo portal e 
a uma localizao subterrnea desconhecida. O documento tambm contm a frase: "Est enterrado l em algum lugar"!  
     
     Todas as organizaes citadas neste romance existem, incluindo a Francomaonaria, o Colgio Invisvel, o Escritrio de Segurana, o Centro de Apoio dos Museus 
Smithsonian (CAMS) e o Instituto de Cincias Noticas.  
     
     Todos os rituais, informaes cientficas, obras de arte e monumentos citados neste romance so reais 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     Prlogo
     
     Casa do Templo 
     20h33  
     
     O segredo  saber como morrer.  
     Desde o incio dos tempos, o segredo sempre foi saber como morrer.  
     O iniciado de 34 anos baixou os olhos para o crnio humano que segurava com as duas mos. O crnio era oco feito uma tigela e estava cheio de vinho cor de sangue. 
     Beba, disse ele a si mesmo. Voc no tem nada a temer.
     Como rezava a tradio, ele havia comeado aquela jornada vestido com os trajes ritualsticos de um herege medieval a caminho da forca, com a camisa frouxa 
deixando entrever o peito plido, a perna esquerda da cala arregaada at o joelho e a manga direita enrolada at o cotovelo. De seu pescoo pendia um pesado n 
feito de corda - uma "atadura", como diziam os irmos. Nessa noite, porm, assim como os companheiros que assistiam  cerimnia, ele estava vestido de mestre.  
     O grupo que o rodeava estava todo paramentado com aventais de pele de cordeiro, faixas na cintura e luvas brancas. Em volta do pescoo usavam jias cerimoniais 
que cintilavam  luz mortia como olhos espectrais. Muitos daqueles homens ocupavam cargos de poder l fora, mas o iniciado sabia que suas posies mundanas nada 
significavam entre aquelas paredes. Ali todos eram iguais, irmos unidos pelo juramento compartilhando um elo mstico.  
     Correndo os olhos pelo impressionante grupo, o iniciado se perguntou quem, no mundo exterior, seria capaz de acreditar que todos aqueles homens pudessem se 
reunir em um mesmo lugar... principalmente naquele lugar. O recinto parecia um santurio sagrado do mundo antigo.  
     A verdade, porm, era ainda mais estranha. 
     Estou a poucos quarteires da Casa Branca.  
     Aquele edifcio colossal, situado no nmero 1.733 da Rua 16 Noroeste, em Washington, D.C., era a rplica de um templo pr-cristo - o Templo do Rei Mausolo, 
o primeiro mausolu... um lugar para onde se era levado aps a  morte. Diante da entrada principal, duas esfinges de 17 toneladas montavam guarda ao lado das portas 
de bronze. O interior era um labirinto de cmaras ritualsticas, corredores, alcovas secretas, bibliotecas e at mesmo um compartimento contendo os restos mortais 
de dois corpos humanos. O iniciado havia aprendido que cada cmodo daquele edifcio guardava um segredo, mas sabia que nenhum deles ocultava mistrios mais profundos 
do que a cmara colossal na qual se encontrava agora, ajoelhado, segurando um crnio nas mos. A Sala do Templo.  
     Sua forma era a de um quadrado perfeito. E o ambiente era sombrio e grandioso. O teto altssimo se erguia a surpreendentes 30 metros, sustentado por  colunas 
monolticas de granito verde. Ao redor da sala, fileiras de cadeiras russas de nogueira escura, estofadas com couro de porco trabalhado  mo, estavam dispostas 
em nveis. Um trono de 10 metros de altura dominava a parede oeste, e um rgo escondido ocupava o lado oposto. As paredes eram um caleidoscpio de smbolos antigos... 
egpcios, hebraicos, astronmicos, alqumicos e outros ainda desconhecidos. 
     Nessa noite, a Sala do Templo estava iluminada por uma srie de velas minuciosamente posicionadas. Seu brilho fraco era complementado apenas por um facho de 
luar que entrava pela ampla clarabia do teto jogando luz sobre o elemento mais surpreendente da sala - um imenso altar feito de um bloco macio de mrmore belga 
preto polido, situado bem no meio do recinto quadrado.  
     O segredo  saber como morrer, lembrou o iniciado a si mesmo. 
     - Chegou a hora - sussurrou uma voz.  
     O iniciado deixou seu olhar subir at o rosto do distinto personagem vestido de branco  sua frente. O Venervel Mestre Supremo. O homem, de quase 60 anos, 
era um cone norte-americano, estimado, robusto e dono de uma fortuna incalculvel. Seus cabelos outrora escuros estavam ficando grisalhos, e o semblante conhecido 
refletia uma vida inteira de poder e um vigoroso intelecto.  
     - Preste o juramento - disse o Venervel Mestre, com uma voz suave feito a neve. - Complete sua jornada.  
     A jornada do iniciado, assim como todas as daquele tipo, havia comeado no grau 1. Naquela noite, em um ritual parecido com este de agora, o Venervel Mestre 
o vendara com uma faixa de veludo e pressionara uma adaga cerimonial contra seu peito nu, indagando:  
     - Voc declara seriamente, pela sua honra, sem influncia de motivaes mercenrias ou quaisquer outras consideraes indignas, candidatar-se de forma livre 
e espontnea aos mistrios e privilgios desta irmandade?  
     - Sim - havia mentido o iniciado.   
     - Ento que isso seja um estmulo  sua conscincia - alertara o mestre -, bem como a morte instantnea caso algum dia voc venha a trair os segredos que lhe 
sero revelados.  
     Na poca, o iniciado no sentira medo. Eles jamais sabero meu verdadeiro motivo para estar aqui.  
     Nessa noite, porm, uma atmosfera de ameaadora solenidade pairava na Sala do Templo, levando-o a rememorar todos os avisos severos recebidos durante a jornada, 
ameaas de punies terrveis caso ele algum dia revelasse os antigos segredos que estava prestes a conhecer: garganta cortada de orelha a orelha ... lngua arrancada 
pela raiz... entranhas removidas e queimadas... espalhadas aos quatro ventos ... corao retirado do peito e jogado aos animais selvagens ...  
     - Irmo - disse o mestre de olhos cinzentos, pousando a mo esquerda no ombro do iniciado. - Preste o juramento final.
     Tomando coragem para dar o ltimo passo de sua jornada, o iniciado endireitou o corpo e voltou sua ateno para o crnio que segurava nas mos.  fraca luz 
das velas, o vinho cor de carmim parecia quase negro. Um silncio sepulcral reinava na sala, e ele podia sentir os olhos das testemunhas cravados nele,  espera 
que prestasse o juramento final e se unisse quele grupo de e1ite.  
     Hoje  noite, pensou ele, entre estas paredes, est acontecendo algo que nunca aconteceu antes na histria desta irmandade. Nem sequer uma vez em sculos.  
     Ele sabia que aquilo seria a fasca ... e que lhe daria um poder inimaginvel.  Cheio de energia, respirou fundo e repetiu as mesmas palavras pronunciadas antes 
dele por incontveis homens espalhados por todo o mundo.  
     - Que este vinho que agora bebo se transforme em veneno mortal para mim ... caso algum dia eu descumpra meu juramento de forma consciente ou voluntria.  
     Suas palavras ecoaram no espao oco. Ento o silncio foi total.  
     Firmando as mos, o iniciado levou o crnio  boca e sentiu os lbios tocarem o osso seco. Fechou os olhos e o inclinou, bebendo o vinho em goles demorados, 
generosos. Depois de sorver tudo at a ltima gota, abaixou o crnio.  
     Por um instante, pensou sentir os pulmes se contrarem, e seu corao comeou a bater descompassado. Meu Deus, eles sabem! Ento, com a mesma rapidez que havia 
surgido, a sensao passou.  
     Um agradvel calor comeou a percorrer seu corpo. O iniciado soltou o ar, sorrindo consigo mesmo enquanto observava o homem de olhos cinzentos que no desconfiava 
de nada e que acabara de cometer o erro de deix-lo entrar para o crculo mais secreto de sua irmandade.  
     Voc logo perder tudo o que lhe  mais precioso.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 1
     
     O elevador Otis que subia a coluna sul da Torre Eiffel estava lotado de turistas. Em seu interior abarrotado, o austero executivo de terno bem passado baixou 
os olhos para o menino ao seu lado.  
     - Voc est plido, filho. Devia ter ficado l embaixo.  
     - Estou bem... - respondeu o garoto, esforando-se para controlar a prpria  ansiedade. - Vou descer no prximo andar. - No consigo respirar. 
     O homem chegou mais perto.  
     - Pensei que a esta altura voc j tivesse superado isso. - Ele acariciou com afeto a bochecha do filho.  
     O menino estava com vergonha por desapontar o pai, mas mal conseguia escutar qualquer coisa, tamanho o zumbido em seus ouvidos. No consigo respirar. Preciso 
sair de dentro desta caixa!  
     O ascensorista estava dizendo alguma coisa tranqilizadora sobre os pistes articulados e a estrutura de ferro forjado do elevador. Muito abaixo deles, as ruas 
de Paris se estendiam em todas as direes.  
     Estamos quase chegando, disse o menino para si mesmo, esticando o pescoo e erguendo os olhos para a plataforma de desembarque. Agente firme.  
      medida que o elevador se aproximava num ngulo acentuado do deque de observao, o poo se estreitava, e seus enormes tirantes se contraam formando um tnel 
apertado, vertical.  
     - Pai, eu acho que no...  
     De repente, um estalo abrupto ecoou acima dele. O elevador deu um tranco e pendeu para um dos lados, desequilibrado. Cabos esgarados comearam a chicotear 
em volta do compartimento, agitando-se feito cobras. O menino estendeu a mo para o pai.  
     - Pai!  
     Durante um segundo aterrorizante, seus olhares se cruzaram.
     Ento o fundo do elevador se soltou.  
     Robert Langdon teve um sobressalto, despertando assustado daquele sonho diurno semiconsciente. Estava sentado sozinho em sua macia poltrona de couro na imensa 
cabine de um jatinho corporativo Falcon 2000EX que atravessava    aos solavancos uma rea de turbulncia. Ao fundo, ouvia-se o zumbido constante dos dois motores 
Pratt & Whitney.  
     - Sr. Langdon? - O alto-falante chiou acima dele. - Estamos na fase final de aproximao.  
     Langdon se endireitou no assento e tornou a guardar as notas da palestra dentro da bolsa de viagem de couro. Estava no meio de uma reviso da simbologia manica 
quando havia cochilado. Desconfiava que o sonho sobre o pai j falecido tivesse sido causado pelo inesperado convite, recebido naquela manh, de seu antigo mentor, 
Peter Solomon.  
     O outro homem que nunca vou querer decepcionar.  
     O filantropo, historiador e cientista de 58 anos havia se tornado o protetor de Langdon quase 30 anos antes, preenchendo sob muitos aspectos o vazio deixado 
pela morte do pai. Apesar da influente dinastia familiar e da imensa fortuna de Solomon, Langdon encontrou humildade e calor humano em seus suaves olhos cinzentos. 
     Do lado de fora da janela, o sol havia se posto, mas Langdon ainda podia distinguir a silhueta esguia do maior obelisco do mundo, erguendo-se acima do horizonte 
como a coluna de um antigo relgio de sol. O obelisco de quase 170 metros de altura revestido de mrmore marcava o centro daquela nao. A partir dele, a meticulosa 
geometria de ruas e monumentos se espalhava por todas as direes.  
     Mesmo vista de cima, Washington exalava um poder quase mstico. 
     Langdon adorava aquela cidade e, quando o jatinho tocou o solo, sentiu uma animao crescente em relao ao que o dia lhe reservava. A aeronave taxiou at um 
terminal privado em algum lugar em meio  vastido do Aeroporto Internacional Dulles e parou.  
     Langdon juntou suas coisas, agradeceu aos pilotos e emergiu do interior luxuoso do jatinho para a escada dobrvel. O ar frio de janeiro dava uma sensao de 
liberdade.  
     Respire, Robert, pensou ele, apreciando os grandes espaos abertos.  
     Uma manta de bruma branca cobria a pista de pouso e, ao descer para o asfalto enevoado, Langdon teve a sensao de estar pisando em um pntano. 
     - Ol! Ol! - chamou uma voz melodiosa com sotaque britnico. - Professor Langdon?  
     Langdon ergueu os olhos e viu uma mulher de meia-idade, de crach e com uma prancheta na mo, caminhando apressada em sua direo, acenando alegremente enquanto 
ele se aproximava. Cabelos louros cacheados despontavam de baixo de um estiloso gorro de l. 
- Bem-vindo a Washington, professor!   
     Langdon sorriu. - Obrigado.  
     - Meu nome  Pam, do servio de atendimento a passageiros. - A mulher  falava com uma exuberncia quase perturbadora. - Se quiser me acompanhar, seu carro est 
aguardando.
     Langdon a seguiu pela pista em direo ao terminal exclusivo, cercado por reluzentes jatinhos privados. Um ponto de txi para os ricos e famosos.  
     - Sem querer constrang-lo, professor - disse a mulher, um pouco encabulada -, o senhor  o Robert Landgon que escreve livros sobre smbolos e religio, no 
?  
     Langdon hesitou, mas assentiu com a cabea.  
     - Bem que eu achei! - disse ela, radiante. - Meu grupo de leitura leu o seu livro sobre o sagrado feminino e a Igreja! Ele provocou um escndalo delicioso! 
O senhor gosta mesmo de soltar a raposa no galinheiro!  
     Langdon sorriu.  - Criar escndalo no foi bem a minha inteno.  
     A mulher pareceu perceber que Langdon no estava disposto a conversar sobre o prprio trabalho.  
     - Desculpe. Olhe eu aqui falando. Sei que o senhor provavelmente est cansado de ser reconhecido ... mas a culpa  toda sua. - Com ar brincalho, ela indicou 
as roupas que ele usava. - O seu uniforme o entregou.  
     Meu uniforme? Langdon baixou os olhos para examinar as prprias roupas.  Estava usando seu suter grafite de gola rul, um palet de tweed Harris, uma cala 
cqui e sapatos fechados de couro de cabra ... seu traje padro para aulas, palestras, sesses de fotos e eventos sociais.  
     A mulher riu.  
     - Essas golas ruls que o senhor usa so muito fora de moda. O senhor ficaria bem melhor de gravata!  
     De jeito nenhum, pensou Langdon. Pequenas forcas.  
     Quando Langdon estudava na Academia Phillips Exeter, o uso da gravata era obrigatrio seis dias por semana e, apesar da viso romntica do diretor, segundo 
a qual a origem da gravata remontava  fascalia de seda usada pelos oradores romanos para aquecer as cordas vocais, Langdon sabia que, do ponto de vista etimolgico, 
gravata na verdade vinha de um bando de cruis mercenrios croatas que amarravam lenos em volta do pescoo antes de partir para a batalha. At hoje, esse antigo 
traje de combate  usado por guerreiros corporativos modernos, que esperam intimidar os inimigos nas batalhas dirias das salas de reunio.   
     - Obrigado pelo conselho - disse Langdon com uma risadinha. - Daqui para a frente, vou pensar em usar gravata.  
     Por sorte, um homem de aspecto profissional vestindo um terno escuro desceu de um Lincoln estacionado junto ao terminal e chamou seu nome.  
     - Sr. Langdon? Sou Charles, da Beltway Limusines. - Ele abriu a porta traseira. - Boa noite. Bem-vindo a Washington.
     Langdon deu uma gorjeta a Pam para lhe agradecer pela hospitalidade e, em seguida, entrou no interior luxuoso do carro. O motorista lhe mostrou os controles 
da calefao, a gua mineral e o cesto de muffins quentinhos. Segundos depois, o Lincoln j seguia por uma rua de acesso exclusivo. Ento  assim que vive a outra 
metade.  
     Enquanto disparava pela Windsock Drive, o motorista consultou a lista de passageiros e deu um telefonema rpido. 
     - Aqui  da Beltway Limusines - disse ele, com eficincia profissional. - Recebi instrues para confirmar quando meu passageiro tivesse aterrissado. - Ele 
fez uma pausa. - Sim, senhor. Seu convidado, Sr. Langdon, j chegou e eu o estou levando para o prdio do Capitlio. Devemos chegar l antes das sete. De nada, senhor. 
- E desligou.  
     Langdon teve de sorrir. Ele pensou em todos os detalhes. A ateno que Peter Solomon dedicava s mincias era uma de suas maiores qualidades, algo que lhe permitia 
administrar com aparente facilidade seu considervel poder. Alguns bilhes de dlares no banco tambm no fazem mal.  
     O professor se acomodou no confortvel assento de couro e fechou os olhos  medida que o rudo do aeroporto ia ficando para trs. A viagem at o Capitlio demoraria 
meia hora, e ele ficou satisfeito por ter esse tempo sozinho para organizar os prprios pensamentos. Tudo havia acontecido to depressa naquele dia que s agora 
Langdon tinha comeado a pensar a srio na incrvel noite que tinha pela frente.  
     Chegando sob um vu de mistrio, pensou ele, divertindo-se com a idia.  
     
     A pouco mais de 15 quilmetros do Capitlio, uma figura solitria se preparava ansiosamente para a chegada de Robert Langdon.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 2
     
     O homem que se apresentava como Mal'akh pressionou a ponta da agulha no couro cabeludo raspado, suspirando de prazer enquanto o instrumento pontiagudo entrava 
e saa de sua pele. O leve ronco do aparelho eltrico era viciante ... assim como as espetadelas da agulha que penetravam profundamente em sua derme para ali depositar 
o pigmento. Eu sou uma obra-prima.  
     O objetivo da tatuagem nunca foi a beleza. O objetivo era a mudana. Desde os sacerdotes nbios escarificados de 2000 a.C. at as cicatrizes moko dos maoris 
modernos, passando pelos aclitos tatuados do culto a Cibele na Roma antiga, os seres humanos haviam se tatuado como uma forma de oferenda, um sacrifcio parcial 
do prprio corpo, suportando a dor fsica do embelezamento e sendo por ela transformados.
     Apesar dos avisos ameaadores em Levtico 19:28, que proibiam marcas na pele, as tatuagens se tornaram um rito de passagem compartilhado por milhes de pessoas 
na era moderna - de adolescentes mauricinhos a viciados em drogas e donas de casa suburbanas. 
O ato de tatuar a prpria pele era uma transformadora declarao de poder, um anncio ao mundo: eu tenho controle sobre a minha prpria carne. A embriagante sensao 
de poder advinda dessa transformao fsica deixara milhares de pessoas viciadas em prticas de alterao corporal - cirurgia plstica, piercings, fisiculturismo, 
anabolizantes e at mesmo bulimia e mudana de sexo. O esprito humano anseia por dominar seu invlucro carnal.  
     O relgio de pndulo de Mal'akh deu uma nica badalada, e ele ergueu os olhos. Seis e meia da tarde. Deixando as ferramentas de lado, envolveu o corpo nu de 
1,90m no roupo de seda japons de Kiryu e desceu o corredor. O ar dentro da grande manso estava pesado com o aroma pungente de seus pigmentos para a pele e da 
fumaa das velas de cera de abelha que ele usava para esterilizar as agulhas.  
     Ao atravessar o corredor, o homem alto passou por antiguidades italianas de preo inestimvel - uma gua-forte de Piranesi, uma cadeira Savonarola, uma lamparina 
de prata Bugarini. Enquanto andava pela casa, olhou por uma janela que ia do cho at o teto para admirar o contorno clssico da paisagem distante. O domo luminoso 
do Capitlio reluzia com um poder solene contra o cu escuro de inverno.  
      l que ele est escondido, pensou. Est enterrado l em algum lugar.  
     Poucos eram os homens que sabiam da sua existncia ... e mais raros ainda os que conheciam seu impressionante poder ou a forma engenhosa como havia sido escondido. 
At hoje, era o maior segredo no revelado daquele pas. Os poucos que de fato conheciam a verdade mantinham-na oculta atrs de um vu de smbolos, lendas e alegorias. 
     Agora eles abriram suas portas para mim, pensou Mal'akh.
     Trs semanas antes, em um ritual obscuro testemunhado pelos homens mais influentes dos Estados Unidos, Mal'akh havia alcanado o grau 33, o mais alto escalo 
da mais antiga irmandade ainda ativa no mundo. No entanto, apesar da  nova posio de Mal'akh, os irmos nada haviam revelado. E nem vo contar, sabia ele. No era 
assim que funcionava. Havia crculos dentro de crculos... irmandades dentro de irmandades. Mesmo que Mal'akh esperasse muitos anos, talvez nunca viesse a conquistar 
sua total confiana. 
     Felizmente, no precisava disso para descobrir seu mais bem guardado segredo.  
     Minha iniciao cumpriu seu objetivo.  
     Animado com o que estava por vir, ele seguiu a passos largos at seu quarto de dormir. Espalhados por toda a casa, alto-falantes transmitiam os sons fantasmagricos 
de uma rara gravao de um castrato cantando o "Lux Aeterna" do Rquiem de Verdi - um lembrete de uma vida anterior. Mal'akh acionou o controle remoto para fazer 
soar o tonitruante "Dies Irae". Ento, embalado por um fundo musical de furiosos tmpanos e quintas paralelas, disparou escadaria de mrmore acima, com o roupo 
a esvoaar conforme galgava os degraus com as pernas musculosas.
     Enquanto corria, sua barriga vazia reclamou com um ronco. J fazia dois dias que Mal'akh estava em jejum, bebendo apenas gua, preparando o corpo segundo os 
antigos costumes. A sua fome ser saciada ao raiar do dia, lembrou a si mesmo. Assim como a sua dor.  
     Mal'akh adentrou o santurio de seu quarto com uma atitude de reverncia, trancando a porta atrs de si. Enquanto seguia em direo ao toucador, parou, sentindo-se 
atrado pelo enorme espelho dourado. Incapaz de resistir, virou-se para encarar o prprio reflexo. Vagarosamente, como quem desembrulha um precioso presente, abriu 
o roupo para revelar o corpo nu. A viso o deixou maravilhado.  
     Eu sou uma obra-prima.  
     Seu imenso corpo estava todo raspado e liso. Ele baixou os olhos primeiro para os ps, tatuados com as garras de um gavio. Mais acima, as pernas musculosas 
desenhadas como pilastras esculpidas em relevo - a esquerda em espiral, a direita com estrias verticais. Boaz e Jaquim. A virilha e o abdmen eram um arco decorado, 
acima do qual o peito forte exibia o braso da fnix de duas cabeas ... ambas em perfil, com os olhos aparentes formados por seus mamilos. Os ombros, o pescoo, 
o rosto e a cabea raspada estavam completamente tomados por uma intrincada tapearia de smbolos e marcas.  
     Eu sou um artefato... um cone em construo.  
     Dezoito horas antes, um mortal tinha visto Mal'akh nu. O homem soltara um grito de medo.  
     - Meu Deus, voc  um demnio!  
     - Se  assim que voc me v... - havia respondido Mal'akh, ciente, como os  antigos, de que anjos e demnios eram idnticos, arqutipos intercambiveis, e de 
que tudo era uma questo de polaridade: o anjo guardio que derrotava o inimigo no campo de batalha era considerado por ele um demnio destruidor.  
     Mal'akh ento inclinou o rosto para baixo, obtendo uma viso oblqua do prprio cocuruto. Ali, dentro do halo que parecia uma coroa, reluzia um pequeno crculo 
de pele clara, sem tatuagem. Aquela tela cuidadosamente preservada era o nico pedao de pele virgem do corpo de Mal'akh. O lugar sagrado vinha aguardando pacientemente... 
e naquela noite seria preenchido. Embora Mal'akh ainda no tivesse em mos aquilo de que precisava para completar sua obra-prima, sabia que a hora estava se aproximando 
depressa.  
     Empolgado com o prprio reflexo, j podia sentir seu poder aumentar.  Fechou o roupo e andou at a janela, olhando novamente para a cidade mstica  sua frente. 
Ele est enterrado l em algum lugar.  
     Tornando a se concentrar na tarefa em questo, Mal'akh foi at a penteadeira e, com cuidado, cobriu o rosto, o couro cabeludo e o pescoo com uma camada de 
corretivo at as tatuagens sumirem. Ento vestiu as roupas e outros acessrios especiais que havia preparado meticulosamente para aquela noite. Ao terminar, examinou-se 
no espelho. Satisfeito, alisou o couro cabeludo com a palma suave de uma das mos e sorriu.  
     Ele est l, pensou. E hoje  noite um homem vai me ajudar a encontr-lo. 
     Enquanto saa de casa, Mal'akh se preparava para o acontecimento que abalaria o prdio do Capitlio dos Estados Unidos naquela noite. Fizera um esforo imenso 
para colocar todas as peas em seus devidos lugares.  
     E agora, finalmente, seu ltimo peo havia entrado no jogo.   
     
     CAPTULO 3
     
     Robert Langdon estava ocupado relendo suas fichas de anotaes quando o barulho dos pneus do carro mudou de tom. Ele ergueu os olhos, surpreso ao ver onde estavam. 
     J chegamos  Memorial Bridge?  
     Largou as anotaes e olhou para fora, fitando as guas mansas do Potomac que corriam logo abaixo. Uma bruma pesada pairava sobre a superfcie do rio.  Aquele 
local, muito apropriadamente chamado de Foggy Bottom, sempre lhe parecera singular para se construir a capital do pas. De todos os lugares do Novo Mundo, os pais 
fundadores haviam escolhido um brejo lamacento  beira de um rio para assentar a pedra angular de sua sociedade utpica.  
     Langdon olhou para a esquerda, para alm da pequena enseada conhecida como Tidal Basin, em direo  silhueta graciosamente arredondada do Jefferson Memorial 
- o monumento em homenagem a Jefferson que muitos chamavam de Panteo dos Estados Unidos da Amrica. Bem na frente do carro, um segundo monumento, o Lincoln Memorial, 
se erguia com rgida austeridade, lembrando com suas linhas ortogonais o antigo Partenon de Atenas. Mas foi mais adiante que Langdon viu a pea central da cidade 
- a mesma coluna que avistara do cu. Sua inspirao arquitetnica era muito, muito mais antiga do que os romanos ou os gregos.  
     O obelisco egpcio dos Estados Unidos.  
     A coluna monoltica do Monumento a Washington assomava bem  frente, iluminada contra o cu como o majestoso mastro de um navio. Da perspectiva oblqua de Langdon, 
o obelisco parecia suspenso ... oscilando no cu soturno como se estivesse num mar agitado. Langdon se sentia igualmente sem cho. Sua visita a Washington tinha 
sido totalmente inesperada. Acordei hoje de manh imaginando um domingo tranqilo em casa... e agora estou a poucos minutos do Capitlio.  
     Naquela manh, s 4h45, Langdon havia mergulhado em uma gua completamente calma, iniciando o dia como sempre fazia, percorrendo 50 vezes a piscina deserta 
de Harvard. Sua forma fsica j no era exatamente a mesma de seus dias de estudante, quando jogava plo aqutico e era um tpico rapaz norte-americano, mas ele 
ainda era esbelto e tinha um corpo tonificado e respeitvel para um homem de 46 anos. A nica diferena agora era a quantidade de esforo que precisava fazer para 
mant-lo assim.     
     Ao chegar em casa, por volta das seis, ele iniciou seu ritual matutino de moer manualmente os gros de caf de Sumatra e saborear o aroma extico que enchia 
sua cozinha. Naquela manh, porm, surpreendeu-se ao ver a luzinha vermelha piscando na secretria eletrnica. Quem  que liga s seis da manh de um domingo? Apertou 
o boto e escutou o recado. 
     "Bom dia, professor Langdon, sinto muitssimo por ligar assim to cedo." A voz educada hesitava perceptivelmente e exibia um leve sotaque do sul dos Estados 
Unidos. "Meu nome  Anthony Jelbart e sou assistente executivo de Peter Solomon. O Sr. Solomon me disse que o senhor costuma acordar cedo... ele precisa contat-lo 
com urgncia. Assim que receber este recado, ser que poderia fazer a gentileza de ligar direto para ele? O senhor j deve ter o novo nmero pessoal dele, mas caso 
no tenha  202329-5746."  
     Langdon sentiu uma sbita preocupao com seu velho amigo. Peter Solomon era um homem corts e de boas maneiras, com certeza no era do tipo que ligava no domingo, 
quando o dia ainda mal nasceu, a menos que houvesse algo muito errado.  
     Langdon parou de fazer o caf e foi depressa at o escritrio retornar a ligao. 
     Espero que ele esteja bem.  
     Solomon era seu amigo e mentor e, embora fosse apenas 12 anos mais velho do que Langdon, representava uma figura paterna para ele desde que se conheceram na 
Universidade de Princeton. Em seu segundo ano, Langdon tivera de assistir a uma palestra vespertina de um renomado convidado, o jovem historiador e filantropo Peter 
Solomon. Falando com um entusiasmo contagiante e apresentando uma fascinante viso da semitica e da histria dos arqutipos, Solomon despertou em Langdon o que 
mais tarde se transformaria numa paixo da vida inteira pelos smbolos. Mas no fora o brilhante intelecto de Peter, e sim a humildade em seus bondosos olhos cinzentos, 
que dera a Robert a coragem para lhe escrever uma carta de agradecimento. O estudante de segundo ano jamais havia sonhado que um dos mais ricos e intrigantes jovens 
intelectuais dos Estados Unidos pudesse lhe responder. Mas ele respondeu. E isso marcou o comeo de uma amizade verdadeiramente gratificante.  
     Clebre acadmico cujos modos calmos desmentiam sua poderosa linhagem, Peter vinha da riqussima famlia Solomon, cujo nome podia ser visto em prdios e universidades 
de todo o pas. Assim como os Rothschild na Europa, os Solomon sempre carregaram consigo todo o imaginrio da realeza e do sucesso norte-americanos. Peter assumira 
a posio de chefe da famlia ainda jovem, aps a morte do pai. Agora, aos 58 anos, j havia ocupado os mais diversos cargos de poder ao longo da vida. Atualmente, 
estava  frente do Instituto Smithsonian. Langdon de vez em quando provocava Peter, dizendo que a nica mcula em seu pedigree irretocvel era o diploma de uma universidade 
de segunda categoria - Yale.  
     Ao entrar em seu escritrio, Langdon se espantou ao ver que tambm havia recebido um fax de Peter.  
     
     
     
     Peter Solomon 
     ESCRITRIO DO SECRETRIO 
     INSTITUTO SMITHSONIAN  
     
     Bom dia, Robert,  
     Preciso falar com voc imediatamente. 
     Por favor, me ligue hoje de manh assim que puder no telefone 202 329-5746.  
     Peter  
     
     Langdon discou o nmero na mesma hora, sentando-se diante da escrivaninha de carvalho esculpida  mo para esperar a ligao se completar.  
     - Escritrio de Peter Solomon - atendeu a j conhecida voz do assistente.  - Anthony falando. Em que posso ajudar?  
     - Al, aqui  Robert Langdon. O senhor me deixou um recado mais cedo...  
     - Sim, professor Langdon! - O rapaz pareceu aliviado. - Obrigado por retornar a ligao to depressa. O Sr. Solomon est ansioso para falar com o senhor. Deixe-me 
avisar a ele que est na linha. Pode aguardar um momento?  
     - Claro.  Enquanto Langdon esperava Solomon atender, baixou os olhos para o nome de Peter no cabealho do papel timbrado do Smithsonian e teve de sorrir. O 
cl dos Solomon no inclui muitos preguiosos. A rvore genealgica de Peter estava coalhada de magnatas dos negcios, polticos influentes e cientistas consagrados, 
alguns dos quais haviam chegado a integrar a Real Sociedade de Londres. O nico membro vivo da famlia de Solomon, sua irm caula Katherine, aparentemente herdara 
o gene da cincia, pois agora era uma das figuras mais importantes de uma disciplina recente e inovadora chamada cincia notica.  
     Tudo isso  grego para mim, pensou Langdon, achando graa ao recordar a mal-sucedida tentativa de Katherine de lhe explicar a cincia notica em uma festa na 
casa do irmo no ano anterior. Langdon havia escutado com ateno e ento respondido:  
     - Parece mais magia do que cincia. 
     Katherine piscara o olho, brincalhona.  
     - As duas so mais prximas do que voc pensa, Robert. 
     Ento o assistente de Solomon voltou ao telefone.  
     - Sinto muito, o Sr. Solomon est tentando organizar uma teleconferncia.  As coisas por aqui esto um pouco caticas esta manh. 
     - No tem problema. Eu posso ligar depois.  
     - Na verdade, ele me pediu que lhe comunicasse o motivo da ligao, se o  senhor no se importar.  
     -  claro que no me importo. 
     O assistente respirou fundo.  
     - Como o senhor j deve saber, professor, todos os anos aqui em Washington o conselho do Smithsonian organiza um evento de gala para agradecer aos nossos mais 
generosos patrocinadores. Boa parte da elite cultural do pas comparece. 
     Langdon sabia que sua conta bancria tinha uma quantidade de zeros pequena demais para inclu-lo na elite cultural, mas ficou imaginando se Solomon iria convid-lo 
mesmo assim.  
     - Este ano, como de costume - prosseguiu o assistente -, o jantar vai ser precedido por um discurso de abertura. Tivemos a sorte de conseguir o Salo Nacional 
das Esttuas do Capitlio para esse evento.  
     O melhor salo de toda a capital, pensou Langdon, recordando uma palestra poltica que assistira certa vez no impressionante salo circular. Era difcil esquecer 
500 cadeiras dobrveis dispostas em um arco perfeito, cercadas por 38 esttuas em tamanho natural, em um lugar onde outrora havia funcionado a primeira Cmara dos 
Representantes da nao.  
     - O problema  o seguinte - disse o assistente. - Nosso orador adoeceu e acabou de nos informar que no vai poder fazer o discurso. - Ele fez uma pausa, constrangido. 
- Isso significa que estamos desesperados atrs de um substituto. E o Sr. Solomon esperava que o senhor pudesse considerar a possibilidade de cumprir essa funo. 
     Langdon ficou surpreso.  
     - Eu? - Aquilo no era absolutamente o que ele imaginava. - Tenho certeza de que Peter pode encontrar um substituto muito melhor.  
     - O senhor  a primeira escolha do Sr. Solomon, professor, e est sendo excessivamente modesto. Os convidados do instituto ficariam encantados em ouvi-lo, e 
o Sr. Solomon pensou que o senhor poderia dar a mesma palestra que fez no canal de TV Bookspan h alguns anos, o que acha? Assim, no precisaria preparar nada. Ele 
disse que o tema era o simbolismo na arquitetura da nossa capital... Parece perfeito para a ocasio.  
     Langdon no tinha tanta certeza.  
     - Se bem me lembro, essa palestra tinha mais a ver com a histria manica do prdio do que...  
     - Exato! Como o senhor sabe, o Sr. Solomon  maom, assim como muitos dos homens de negcios que estaro presentes. Tenho certeza de que eles adorariam ouvi-lo 
falar sobre esse assunto.  
     Reconheo que seria fcil. Langdon guardava as anotaes de todas as palestras que fazia.  
     - Acho que eu poderia pensar no assunto. Qual  a data do evento? 
     O assistente pigarreou, soando subitamente pouco  vontade.
     - Bem, na verdade o evento  hoje  noite, professor. 
     Langdon deu uma sonora risada.  
     - Hoje  noite?  
     -  por isso que est um caos aqui esta manh. O Smithsonian est em uma  situao profundamente embaraosa ... - O assistente comeou a falar mais depressa. 
- O Sr. Solomon est disposto a mandar um jatinho particular busc-lo em Boston. O vo dura apenas uma hora, e o senhor estaria de volta  sua casa antes da meia-noite. 
Conhece o terminal areo particular do Aeroporto Logan, em Boston?  
     - Conheo - admitiu Langdon com relutncia. No  de espantar que Peter sempre consiga o que quer.  
     - Maravilha! O senhor poderia encontrar o jatinho l, digamos ... s cinco horas?  
     - O senhor no me deixa muita escolha, no ? - disse Langdon com uma risadinha.  
     - Eu s quero agradar ao Sr. Solomon, professor.  Peter tem esse efeito nas pessoas. Langdon pensou no assunto por alguns instantes, sem ver nenhuma sada. 
     - Tudo bem. Diga a ele que eu topo.  
     - Incrvel! - exclamou o assistente, parecendo profundamente aliviado.  Ento, deu a Langdon o nmero da aeronave e vrias outras informaes.  Quando Langdon 
finalmente desligou, pensou se Peter Solomon algum dia havia escutado um no.  
     Voltando a preparar seu caf, Langdon ps mais alguns gros dentro do moedor. Um pouco de cafena extra hoje de manh, pensou. O dia vai ser longo.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 4
      
     O prdio do Capitlio dos Estados Unidos se ergue, imponente, na extremidade leste da esplanada conhecida como National Mall, sobre uma colina que o arquiteto 
da cidade, Pierre L'Enfant, descreveu como "um pedestal  espera de um monumento". O Capitlio tem descomunais 230 metros de comprimento por 107 de largura. Com 
quase 6,5 hectares de rea, abriga a impressionante quantidade de 541 aposentos. A arquitetura neoclssica foi meticulosamente projetada para reproduzir a grandiosidade 
da Roma antiga, cujos ideais serviram de inspirao aos fundadores dos Estados Unidos para estabelecer as leis e a cultura da nova repblica. 
     O novo posto de controle de segurana para os turistas que chegam ao prdio fica bem no fundo do recm-concludo centro de visitantes subterrneo, debaixo de 
uma magnfica clarabia de vidro que emoldura a cpula do Capitlio. O agente de segurana Alfonso Nuez, contratado havia pouco tempo, estudou cuidadosamente o 
visitante que se aproximava de seu posto de controle. O homem tinha a cabea raspada e passara alguns minutos no saguo terminando de falar ao telefone antes de 
entrar no prdio. Seu brao direito estava preso em uma tipia e ele mancava um pouco. Vestia um casaco militar surrado que, somado  cabea raspada, fez Nuez supor 
que pertencia s foras armadas. Os membros das foras armadas norte-americanas estavam entre os visitantes mais freqentes da capital.  
     - Boa noite, senhor - disse Nuez, respeitando o protocolo de segurana que mandava abordar verbalmente qualquer homem que entrasse sozinho.  
     - Ol - disse o visitante, olhando em volta para a entrada quase deserta. - Noite tranqila.  
     - Hoje  dia de play-off da NFC - respondeu Nuez, referindo-se a uma partida da fase decisiva e eliminatria do campeonato de futebol americano. - Est todo 
mundo vendo os Redskins jogar. - Nuez tambm queria estar fazendo isso, mas aquele era seu primeiro ms no emprego e ele havia perdido no palitinho. - Objetos metlicos 
na bandeja, por favor.  
     Enquanto o visitante se esforava para esvaziar os bolsos do casaco comprido usando apenas uma das mos, Nuez o observou com ateno. O instinto humano fazia 
concesses especiais aos feridos e deficientes, mas esse era um instinto que Nuez havia sido treinado para superar.  
     O guarda esperou o visitante tirar do bolso a coleo habitual de moedas e chaves, alm de dois telefones celulares.  
      - Toro? - perguntou Nuez olhando para a mo ferida do homem, que  parecia envolta em vrias ataduras elsticas grossas.  
     O homem careca assentiu.  
     - Escorreguei no gelo. Faz uma semana. Ainda est doendo  bea.  
     - Sinto muito. Pode passar, por favor.  
     Mancando, o visitante atravessou o detector de metais, ao que a mquina protestou com um apito.  
     O visitante franziu o cenho.  
     - Estava com medo que isso acontecesse. Estou usando um anel debaixo das ataduras. Meu dedo estava inchado demais para tirar, ento os mdicos enfaixaram o 
brao por cima.  
     - Sem problemas - disse Nuez. - Vou usar o detector manual. 
     Ele passou o detector manual por cima da mo enfaixada do visitante. Como era previsto, o nico metal que o aparelho localizou foi uma grande protuberncia 
no dedo anular machucado do homem. O guarda no se apressou ao esfregar o detector por cada centmetro da tipia e do dedo do homem. Sabia que o seu supervisor provavelmente 
o estava monitorando pelo circuito fechado na central de segurana do prdio, e Nuez precisava daquele emprego. Seguro morreu de velho. Com cautela, ele inseriu 
o detector dentro da tipia do homem.  
     O visitante fez uma careta de dor. 
     - Desculpe.  
     - Tudo bem - disse o homem. - Hoje em dia todo o cuidado  pouco.  
     - No ? - Nuez estava gostando daquele cara. Estranhamente, isso contava  muito ali. O instinto humano era a primeira linha defensiva dos Estados Unidos contra 
o terrorismo. Estava provado que a intuio humana detectava o perigo com mais eficcia do que todos os equipamentos eletrnicos do mundo - o dom do medo, como dizia 
um de seus livros-texto sobre segurana.  
     Naquele caso, os instintos de Nuez no percebiam nada que lhe causasse medo. A nica coisa estranha que ele percebeu, agora que os dois estavam muito prximos, 
era que aquele cara com pinta de duro parecia ter aplicado no rosto algum tipo de autobronzeador ou corretivo. Cada louco com a sua mania. Todo mundo detesta ficar 
branco no inverno.  
     - Liberado - disse Nuez, concluindo a verificao e guardando o detector.  
     - Obrigado. - O homem comeou a recolher seus pertences da bandeja.  
     Enquanto ele fazia isso, Nuez reparou que os dois dedos que emergiam das ataduras exibiam cada qual uma tatuagem: a ponta do indicador tinha a imagem de uma 
coroa e a do polegar, a de uma estrela. Parece que todo mundo tem tatuagem hoje em dia, pensou Nuez, embora a ponta do dedo parecesse um lugar dolorido para se 
tatuar.  
     - Doeu fazer essas tatuagens?  
     O homem baixou os olhos para as pontas dos prprios dedos e deu uma risadinha.  
     - Menos do que o senhor imagina.  
     - Que sorte - comentou Nuez. - A minha doeu para caramba. Fiz uma  sereia nas costas quando estava no campo de treinamento. 
     - Uma sereia? - O careca sorriu.  
     -  - respondeu o guarda, sentindo-se acanhado. - Erros da juventude.  
     - Sei como  - disse o careca. - Eu tambm cometi uma grande tolice na  juventude. Agora acordo com ela todo dia de manh.  
     Ambos riram enquanto o homem se afastava.  
     Brincadeira de criana, pensou Mal'akh enquanto passava por Nuez e subia a escada rolante em direo ao prdio do Capitlio. Entrar tinha sido mais fcil do 
que ele previra. A postura corcunda e a falsa barriga acolchoada haviam ocultado a verdadeira forma fsica de Mal'akh, enquanto a maquiagem no rosto e nas mos escondera 
as tatuagens que lhe cobriam o corpo. O golpe de mestre, porm, tinha sido a tipia, que disfarava o poderoso objeto que Mal'akh estava levando para dentro do prdio. 
Um presente para o nico homem do mundo capaz de me ajudar a obter o que procuro.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 5
     
     O maior e tecnologicamente mais avanado museu do mundo  tambm um dos segredos mais bem guardados da face da Terra. Ele abriga mais peas do que o Hermitage, 
o Museu do Vaticano e o Metropolitan de Nova York... juntos. No entanto, apesar da magnfica coleo, poucos cidados comuns tm acesso a suas instalaes superprotegidas. 
     Situado no nmero 4.210 da Silver Hill Road, logo depois dos limites da cidade de Washington, o museu  um imenso edifcio em zigue-zague, constitudo por cinco 
blocos interligados - cada um deles maior do que um campo de futebol. O exterior de metal azulado do complexo no d nenhuma pista da estranheza que existe l dentro 
- um mundo aliengena de quase 56 mil metros quadrados do qual fazem parte uma "zona morta", um "galpo molhado" e quase 20 quilmetros de armrios.  
     Naquela noite, a cientista Katherine Solomon estava um pouco nervosa ao conduzir seu Volvo branco at o porto de segurana principal do complexo.  
     O guarda sorriu.  
     - No gosta de futebol americano, Sra. Solomon? - Ele abaixou o volume da TV porttil que transmitia o show que precedia o play-off dos Redskins.  
     Katherine forou um sorriso tenso. 
     - Hoje  domingo  noite.  
     - Ah,  mesmo. A sua reunio.  
     - Ele j chegou? - perguntou ela, ansiosa.  
     O guarda baixou os olhos para alguns papis. 
     - No estou vendo o nome dele no registro.  
     - Eu cheguei cedo. - Katherine deu um aceno simptico e continuou subindo o sinuoso acesso at sua vaga no fundo do pequeno estacionamento em dois nveis. Comeou 
a recolher seus pertences e usou o retrovisor para dar uma rpida conferida no visual, mais por fora do hbito do que por vaidade.  Katherine Solomon tinha sido 
abenoada com a pele mediterrnea resistente de seus ancestrais e, mesmo aos 50 anos, sua tez continuava lisa e morena. Ela estava quase sem maquiagem e usava os 
grossos cabelos pretos soltos e ao natural. Assim como Peter, seu irmo mais velho, tinha olhos acinzentados e uma elegncia esguia, aristocrtica.  
     Vocs poderiam muito bem ser gmeos, as pessoas sempre lhes diziam.  
     O pai deles havia sucumbido a um cncer quando Katherine tinha apenas 7 anos, e ela quase no se lembrava dele. Na ocasio, o irmo, com apenas 15 anos, oito 
a mais do que ela, teve que iniciar sua jornada para se tornar o patriarca dos Solomon, muito antes do que qualquer pessoa jamais havia sonhado. Como era de esperar, 
porm, Peter se adaptara ao papel com dignidade e fora  altura do nome da famlia. At hoje, cuidava de Katherine como se os dois ainda fossem crianas.  
     Apesar dos empurrezinhos ocasionais do irmo e de no lhe faltarem pretendentes, Katherine nunca havia se casado. A cincia se tornara sua parceira de vida, 
e seu trabalho se revelara mais recompensador e estimulante para ela do que qualquer homem jamais poderia desejar ser. Katherine no se arrependia de nada.   
     A disciplina que ela havia escolhido - cincia no tica - era praticamente desconhecida quando Katherine ouvira falar nela na primeira vez, mas nos ltimos 
anos tinha comeado a abrir novas portas para a compreenso do poder da mente humana.  
     O nosso potencial desconhecido  realmente impressionante.
     Os dois livros de Katherine sobre notica a haviam firmado como lder nessa disciplina obscura, mas as suas mais recentes descobertas, quando publicadas, prometiam 
transformar a cincia no tica em assunto de conversas mundo afora. 
     Naquela noite, no entanto, ela estava pensando em tudo menos em cincia.  Mais cedo, tinha recebido informaes preocupantes sobre o irmo. Ainda no consigo 
acreditar que seja verdade. No havia pensado em mais nada a tarde inteira.
     Com uma chuva fina tamborilando em seu pra-brisa, Katherine juntou rapidamente suas coisas para entrar. Estava prestes a descer do carro quando seu celular 
tocou.  
     Ela viu o nome de quem estava ligando e respirou fundo.
     Ento ajeitou os cabelos atrs das orelhas e se acomodou para atender.  
     
     A uns 10 quilmetros dali, Mal'akh percorria os corredores do prdio do Capitlio com um celular colado  orelha. Esperou pacientemente enquanto o telefone 
tocava do outro lado.  
     Por fim, uma voz de mulher atendeu. 
     - Sim?  
     - Precisamos nos encontrar de novo - disse Mal'akh.  
     Houve uma longa pausa. 
     - Est tudo bem?  
     - Tenho novas informaes - disse Mal'akh.  
     - Pode falar.  
     Mal'akh respirou fundo.  
     - Aquilo que seu irmo acredita que est escondido na capital...?  
     - Sim.  
     - Pode ser encontrado.  
     Katherine Solomon soou espantada. 
     - Est me dizendo que ...  real?  
     Mal'akh sorriu.  
     - s vezes uma lenda que dura muitos sculos... tem um motivo para durar.    
     
     
     CAPTULO 6
     
     - No pode chegar mais perto? - Robert Langdon sentiu uma sbita onda de ansiedade quando o motorista parou na Rua 1, a uns bons 400 metros do prdio do Capitlio. 
     - Infelizmente no - respondeu o motorista. - Segurana nacional. Hoje em dia nenhum veculo pode se aproximar dos prdios importantes. Sinto muito, senhor. 
     Langdon verificou o relgio, surpreso ao ver que j eram 18h50. Uma rea em obras em torno do National Mall os atrasara, e sua palestra comearia dali a 10 
minutos.  
     - O tempo est virando - disse o motorista, saltando do carro e abrindo a porta do passageiro. -  melhor o senhor se apressar. - Langdon fez meno de pegar 
a carteira, mas o homem o deteve com um gesto. - O seu anfitrio j me deu uma generosa gorjeta alm da tarifa.  
     Tpico de Peter, pensou Langdon, recolhendo suas coisas. 
     - Est bem, obrigado por me trazer.  
     As primeiras poucas gotas de chuva comearam a cair quando Langdon pisou na esplanada central graciosamente curva que descia para a entrada subterrnea de visitantes. 
     O Centro de Visitantes do Capitlio tinha sido um projeto caro e controverso.  Descrito como uma cidade subterrnea comparvel a partes da Disney World, ele 
supostamente disponibilizava mais de 46 mil metros quadrados de espao para exposies, restaurantes e sales de conferncia.
     Langdon estava curioso para conhec-lo, embora no tivesse previsto uma caminhada to longa. O cu ameaava desabar a qualquer momento. Ele apressou o passo 
para uma corrida leve, mas seus sapatos sociais patinhavam no cimento molhado. Eu me vesti para dar uma palestra, no para uma corrida de 400 metros ladeira abaixo 
na chuva!  
     Quando chegou ao final da esplanada, estava sem ar e ofegante. Empurrou a porta giratria e parou por alguns instantes no saguo para recuperar o flego e secar 
as roupas com as mos. Enquanto fazia isso, ergueu os olhos para o espao recm-concludo  sua volta.  
     Confesso que estou impressionado.  
     O Centro de Visitantes do Capitlio no se parecia em nada com o que ele esperava. Como era subterrneo, Langdon estava apreensivo antes de entrar ali.  Um 
acidente na infncia o havia deixado preso durante uma noite inteira dentro de um poo fundo, o que lhe causara uma averso quase incapacitante a espaos fechados. 
Mas, apesar de estar debaixo da terra, aquele lugar era de alguma forma ... arejado. Leve. Amplo.  
     O teto era uma vasta superfcie de vidro com uma srie de impressionantes luminrias que lanavam um brilho tnue sobre os acabamentos interiores em tom de 
prola.
     Normalmente, Langdon teria se demorado ali uma hora inteira para admirar a arquitetura, mas, com cinco minutos faltando para o incio da palestra, abaixou a 
cabea e percorreu apressado o saguo principal em direo ao posto de controle de segurana e s escadas rolantes. Relaxe, disse a si mesmo. Peter sabe que voc 
est a caminho. O evento no vai comear sem voc.  
     No posto de controle, um jovem guarda hispnico conversou com Langdon enquanto ele esvaziava os bolsos e retirava do pulso o relgio antigo.  
     - Mickey Mouse? - indagou o guarda, parecendo achar um pouco de graa. 
     Langdon assentiu, acostumado com aquele tipo de comentrio. A edio de colecionador do relgio do Mickey tinha sido presente dos pais em seu aniversrio de 
9 anos.  
     - Uso este relgio para me lembrar de ter calma e levar a vida menos a srio.  
     - Acho que no est dando certo - comentou o guarda com um sorriso. - O  senhor parece muito apressado.  
     Langdon sorriu e ps a bolsa de viagem na esteira de raios X. 
     - Para que lado fica o Salo das Esttuas?  
     O guarda fez um gesto em direo s escadas rolantes. 
     - O senhor vai ver as placas.  
     - Obrigado. - Langdon pegou a bolsa da esteira e se afastou depressa.  
     Enquanto a escada rolante subia, ele respirou fundo e tentou organizar os pensamentos. Olhou para cima, atravs do teto de vidro salpicado de chuva, para a 
cpula iluminada do Capitlio, cujo formato parecia o de uma montanha. Era uma construo espantosa. A pouco mais de 90 metros de altura do cho, a esttua Liberdade 
Armada fitava a escurido enevoada como uma sentinela fantasmagrica. Langdon sempre achara irnico o fato de os trabalhadores que haviam erguido cada pedao da 
esttua de bronze de seis metros at l em cima terem sido escravos - um segredo do Capitlio que raramente constava do currculo das aulas de Histria do ensino 
mdio. 
     Na verdade, todo aquele prdio era uma mina de ouro de mistrios bizarros, que incluam uma "banheira da morte" responsvel pelo "assassinato" por pneumonia 
do vice-presidente Henry Wilson, uma escadaria com uma mancha de sangue indelvel na qual um nmero exagerado de visitantes parecia tropear, e uma cmara lacrada 
no subsolo dentro da qual, em 1930, trabalhadores descobriram o falecido cavalo empalhado do general John Alexander Logan.  
     Mas nenhuma lenda era to longeva quanto os 13 fantasmas que supostamente assombravam o prdio. Muitos diziam que o esprito do arquiteto da cidade, Pierre 
L'Enfant, perambulava pelos sales tentando receber seus honorrios, a essa altura 200 anos atrasados. O fantasma de um operrio que cara da cpula do Capitlio 
durante a construo era visto vagando pelos corredores com uma caixa de ferramentas. E,  claro, a mais famosa apario de todas, que teria sido vista diversas 
vezes no subsolo do Capitlio - um gato preto efmero que  percorria o sinistro labirinto de passagens estreitas e cubculos da subestrutura.  
     Langdon saiu da escada rolante e tornou a verificar as horas. Trs minutos.  Percorreu apressado o corredor amplo, seguindo as placas que indicavam o Salo 
das Esttuas e ensaiando mentalmente as palavras inaugurais. Precisava admitir que o assistente de Peter tinha razo; o tema de sua palestra era perfeitamente adequado 
a um evento organizado em Washington por um clebre maom.  
     No era nenhum segredo a capital norte-americana ter uma rica histria manica. A prpria pedra angular daquele prdio havia sido assentada por George Washington 
em pessoa durante um ritual completo de Maonaria. A cidade fora concebida e projetada por mestres maons - George Washington, Benjamin Franklin e Pierre L'Enfant 
-, mentes poderosas que enfeitaram sua nova capital com simbolismo, arquitetura e arte manicas.  
     As pessoas,  claro, projetam nesses smbolos todo tipo de idias malucas. 
     Muitos tericos da conspirao alegam que os pais fundadores dos Estados Unidos esconderam poderosos segredos e mensagens simblicas no desenho das ruas de 
Washington. Langdon nunca deu importncia a isso. Informaes equivocadas sobre os maons eram to comuns que mesmo alunos de Harvard pareciam ter noes surpreendentemente 
distorcidas a respeito da irmandade.  
     No ano anterior, um calouro havia entrado na sala de aula com os olhos esbugalhados, trazendo uma pgina impressa da internet. Era um mapa da capital no qual 
determinadas ruas haviam sido destacadas para formar diversos desenhos - pentculos satnicos, um esquadro e um compasso manicos, a cabea de Baphomet -, provando 
aparentemente que os maons que projetaram Washington estavam envolvidos em algum tipo de conspirao obscura e mstica.  
     - Interessante - disse Langdon -, mas est longe de ser convincente. Se voc traar um nmero suficiente de linhas de interseo em um mapa, obrigatoriamente 
vai encontrar todo tipo de forma.  
     - Mas no pode ser coincidncia! - exclamou o aluno.   
     Com pacincia, Langdon lhe mostrou que as mesmas formas podiam ser desenhadas em um mapa de Detroit.  
     O rapaz pareceu profundamente desapontado.  
     - No desanime - disse Langdon. - Washington de fato tem alguns segredos  incrveis ... s que nenhum deles est neste mapa.  
     O jovem se empertigou. 
     - Segredos? De que tipo?  
     - Toda primavera, eu dou um curso chamado Smbolos Ocultos. Falo muito  sobre a capital. Voc deveria se matricular.  
     - Smbolos ocultos! - O calouro pareceu novamente animado. - Ento existem mesmo smbolos demonacos na capital! 
     Langdon sorriu.  
     - Desculpe, mas a palavra oculto, apesar de remeter a imagens de adorao ao demnio, na verdade significa "escondido" ou "velado". Em pocas de opresso religiosa, 
todo conhecimento que contrariasse a doutrina tinha de ser escondido ou "oculto" e, como a Igreja se sentia ameaada por isso, redefiniu tudo o que fosse "oculto" 
como uma coisa m, e o preconceito perdurou.  
     - Ah. - O rapaz encurvou os ombros.  
     Ainda assim, naquela primavera, Langdon reconheceu o rapaz sentado na primeira fila em meio aos 500 alunos que enchiam o Teatro Sanders de Harvard, uma antiga 
sala de conferncias cheia de ecos, com assentos de madeira que rangiam. 
     - Bom dia a todos - exclamou de cima do grande tablado. Ligou um projetor de slides, e uma imagem se materializou s suas costas. - Enquanto se acomodam, quantos 
de vocs reconhecem o prdio desta foto?  
     - O Capitlio dos Estados Unidos! - ecoaram em unssono dezenas de vozes.  - Em Washington!  
     - Isso mesmo. H mais de quatro milhes de quilos de ferro nessa cpula.  Um feito incomparvel de engenhos idade arquitetnica para os anos 1850. 
     - Surreal! - gritou algum.  
     Langdon revirou os olhos, desejando que algum banisse aquela expresso. 
     - Muito bem, e quantos de vocs j foram a Washington?
     Umas poucas mos se levantaram.  
     - S isso? - Langdon fingiu surpresa. - E quantos de vocs j foram a Roma, Paris, Madri ou Londres?  
     Quase todas as mos da sala se levantaram.  
     Como sempre. Um dos ritos de passagem para os universitrios norte-americanos era viajar de trem pela Europa nas frias de vero antes de encarar a dura realidade 
da vida.    
     - Parece que h mais gente aqui que j visitou a Europa do que a sua prpria capital. Qual a explicao para isso?  
     - Na Europa no existe idade mnima para beber! - gritou algum no fundo  da sala.  
     Langdon sorriu.  
     - E por acaso a idade mnima daqui impede algum de vocs de beber? 
     Todos riram.  
     Era o primeiro dia de aula, e os alunos estavam demorando mais do que de costume para se acomodarem, remexendo-se e fazendo ranger os bancos de madeira. Langdon 
adorava lecionar naquela sala porque podia medir o grau  de interesse da turma escutando quanto as pessoas se agitavam nos bancos.
     - Falando srio - disse Langdon -, a arquitetura, a arte e o simbolismo de Washington esto entre os mais interessantes do mundo. Por que vocs cruzam  oceano 
antes de visitar a sua prpria capital?  
     - As coisas mais antigas so mais legais - disse algum.  
     - E por coisas antigas - esclareceu Langdon - suponho que voc queira dizer  castelos, criptas, templos, esse tipo de coisa?  
     Cabeas aquiesceram simultaneamente.  
     - Muito bem. Mas e se eu dissesse a vocs que Washington tem todas essas coisas? Castelos, criptas, pirmides, templos ... est tudo l.  
     Os rangidos diminuram.  
     - Meus amigos - disse Langdon, baixando a voz e avanando at a beira do tablado -, ao longo da prxima hora, vocs vo descobrir que o nosso pas transborda 
de segredos e de histrias ocultas. E, exatamente como na Europa, todos os melhores segredos esto escondidos  vista de todos.  
     Os bancos de madeira silenciaram por completo. 
     Pronto.  
     Langdon diminuiu as luzes e passou para o slide seguinte.  
     - Quem pode me dizer o que George Washington est fazendo aqui?  
     O slide era de um conhecido mural que mostrava George Washington vestido com os trajes completos de um maom, parado diante de uma estranha engenhoca - um gigantesco 
trip de madeira com um sistema de cordas e polias, no qual estava suspenso um imenso bloco de pedra. Um grupo de espectadores bem-vestidos o rodeava.  
     - Levantando esse grande bloco de pedra? - arriscou algum.
     Langdon no disse nada, pois preferia, sempre que possvel, que algum outro aluno fizesse a correo.  
     - Na verdade - sugeriu outro aluno -, acho que Washington est baixando a pedra. Ele est vestido com trajes manicos. J vi imagens de maons assentando pedras 
angulares. Na cerimnia sempre tem essa espcie de trip para colocar a primeira pedra.  
     - Excelente - disse Langdon. - O mural mostra o pai do nosso pas usando um trip e uma polia para assentar a pedra angular do Capitlio em 18 de setembro de 
1793, entre 11h15 e 12h30. - Langdon fez uma pausa, correndo os olhos pela sala. - Algum pode me dizer o significado dessa data e hora?
     Silncio.  
     - E se eu dissesse a vocs que esse momento exato foi escolhido por trs famosos maons: George Washington, Benjamin Franklin e Pierre L'Enfant, o principal 
arquiteto da capital?  
     Mais silncio.  
     - A pedra angular foi assentada nessa data e hora simplesmente porque,  entre outras coisas, a auspiciosa Caput Draconis estava em Virgem.  
     Todos trocaram olhares intrigados.  
     - Espere a - disse algum. - O senhor est falando de ... astrologia?  
     - Exato. Embora seja uma astrologia diferente da que conhecemos hoje em dia.  
     Algum levantou a mo.  
     - Est querendo dizer que os nossos pais fundadores acreditavam em astrologia?  
     Langdon deu um sorriso.  
     - E muito. O que voc diria se eu lhe contasse que a cidade de Washington tem mais signos astrolgicos em sua arquitetura do que qualquer outra cidade do mundo... 
zodacos, mapas de estrelas, pedras angulares assentadas em datas e horrios astrolgicos precisos? Mais da metade dos homens que elaboraram a nossa Constituio 
eram maons, estavam convencidos de que as estrelas e o destino eram interligados e prestavam muita ateno  posio dos astros no cu enquanto estruturavam seu 
novo mundo.  
     - Mas essa histria toda de a pedra angular do Capitlio ter sido assentada quando Caput Draconis estava em Virgem... Que diferena faz? No pode ser s coincidncia? 
     - Uma coincidncia impressionante, considerando-se que as pedras angulares das trs estruturas que formam o Tringulo Federal, ou seja, o Capitlio, a Casa 
Branca e o Monumento a Washington, foram todas assentadas em anos diferentes, mas tudo foi cuidadosamente programado para que isso ocorresse exatamente nessas mesmas 
condies astrolgicas.  
     Langdon se deparou com uma sala cheia de olhos arregalados. Algumas cabeas se abaixaram  medida que os alunos comeavam a tomar notas.    
     Algum levantou a mo no fundo da sala.  
     - Por que eles fizeram isso?  
     Langdon deu uma risadinha.  
     - A resposta para essa pergunta  material para um semestre inteiro. Se estiver curioso, deve fazer meu curso sobre misticismo. Para ser franco, no acho que 
vocs estejam emocionalmente preparados para ouvir a resposta.  
     - Como assim? - gritou o aluno. - Experimente!  
     Langdon fez uma pausa exagerada, como se estivesse pensando no assunto, e em seguida balanou a cabea, brincando com os alunos.  
     - Desculpe, no posso. Alguns de vocs so calouros. Tenho medo de  impression-los.  
     - Conte para a gente! - gritaram todos. 
     Langdon deu de ombros.  
     - Talvez vocs devessem virar maons ou membros da Ordem da Estrela do Oriente e descobrir a resposta na origem.  
     - A gente no pode entrar - argumentou um rapaz. - Os maons so uma sociedade supersecreta!  
     - Supersecreta?  mesmo? - Langdon se lembrou do grande anel manico que seu amigo Peter Solomon ostentava com orgulho na mo direita. - Ento por que os maons 
usam anis, prendedores de gravatas ou broches manicos  vista de todos? Por que os prdios manicos possuem indicaes claras? Por que os horrios das suas reunies 
so publicados no jornal? - Langdon sorriu ao ver todas as expresses intrigadas. - Meus amigos, os maons no so uma sociedade secreta ... eles so uma sociedade 
com segredos.  
     - D na mesma - murmurou algum.  
     - ? - desafiou Langdon. - Voc diria que a Coca-Cola  uma sociedade  secreta?  
     -  claro que no - respondeu o aluno.  
     - Bom, e se voc batesse na sede da corporao e pedisse a receita da Coca-Cola original?  
     - Eles nunca iriam me dar.  
     - Exatamente. Para conhecer o maior segredo da Coca-Cola, voc precisaria  entrar para a empresa, trabalhar por muitos anos, provar que  de confiana e, depois 
de muito tempo, alcanar os mais altos escales, nos quais essa informao poderia ser compartilhada com voc. E ento voc assinaria um termo de confidencialidade. 
     - Ento o senhor est dizendo que a Francomaonaria  como uma grande empresa?   
     - S na medida em que tem uma hierarquia rgida e leva a confidencialidade muito a srio.  
     - Meu tio  maom - entoou a voz aguda de uma moa. - E a minha tia detesta, porque ele no conversa sobre isso com ela. Ela diz que a Maonaria  tipo uma 
religio estranha.  
     - Um equvoco muito comum.  
     - Mas ento no  uma religio?  
     - Faam a prova dos nove - disse Langdon. - Quem aqui assistiu ao curso  do professor Whiterspoon sobre religio comparada?  
     Vrias mos se levantaram.  
     - Muito bem. Ento me digam, quais so os trs pr-requisitos para uma ideologia ser considerada religio?  
     - Garantir, acreditar, converter - respondeu uma jovem.  
     - Correto - disse Langdon. - As religies garantem a salvao; as religies  acreditam em uma teologia especfica; e as religies convertem os no fiis. - 
Ele fez uma pausa. - Mas a Maonaria no se enquadra em nenhum desses trs critrios. Os maons no fazem promessas de salvao, no tm uma teologia especfica, 
nem tentam converter ningum. Na verdade, nas lojas manicas, conversas sobre religio so proibidas.  
     - Ento ... a Maonaria  anti-religiosa?  
     - Pelo contrrio. Um dos pr-requisitos para se tornar maom  que voc  precisa acreditar em uma fora superior. A diferena entre a espiritual idade Manica 
e uma religio organizada  que os maons no impem a esse poder nenhuma definio especfica ou nomenclatura. Em vez de identidades teolgicas definitivas como 
Deus, Al, Buda ou Jesus, os maons usam termos mais genricos como Ser Supremo ou Grande Arquiteto do Universo. Isso possibilita a unio de maons de crenas diferentes. 
     - Parece meio esquisito - comentou algum.  
     - Ou, quem sabe, estimulante e libertador? - sugeriu Langdon. - Nesta  poca em que culturas diferentes se matam para saber qual  a melhor definio de Deus, 
poderamos afirmar que a tradio manica de tolerncia e liberdade  louvvel. - Langdon caminhou pelo tablado. - Alm do mais, a Maonaria est aberta a homens 
de todas as raas, cores e credos, e proporciona uma fraternidade espiritual que no faz qualquer tipo de discriminao.  
     - No faz discriminao? - Uma integrante da Associao de Alunas da universidade se levantou. - Quantas mulheres tm permisso para serem maons, professor 
Langdon?  
     Langdon ergueu as mos, rendendo-se. 
     - Bem colocado. As razes tradicionais da Francomaonaria so as guildas de pedreiros da Europa, o que a tornava, portanto, uma organizao masculina. Centenas 
de anos atrs, h quem diga que em 1703, foi fundado um brao feminino chamado Estrela do Oriente. Essa organizao possui mais de um milho de integrantes.  
     - Mesmo assim - disse a mulher -, a Maonaria  uma organizao poderosa da qual as mulheres esto excludas. 
     Langdon no sabia ao certo quo poderosos os maons ainda eram e no estava disposto a enveredar por essa seara. As opinies sobre os maons modernos iam de 
um bando de velhotes inofensivos que gostavam de se fantasiar ... at um conluio secreto de figures que controlava o mundo. A verdade estava sem dvida em algum 
lugar entre essas duas concepes.  
     - Professor Langdon - disse um rapaz de cabelos encaracolados na ltima fileira -, se a Maonaria no  uma sociedade secreta, nem uma empresa, nem uma religio, 
ento o que ?  
     - Bem, se voc perguntasse isso a um maom, ele daria a seguinte definio: a Francomaonaria  um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por 
smbolos.  
     - Isso me parece um eufemismo para "seita de malucos".  
     - Malucos, voc disse?  
     -  isso a! - disse o aluno, levantando-se. - Sei muito bem o que eles fazem  dentro desses prdios secretos! Rituais esquisitos  luz de velas, com caixes, 
forcas e crnios cheios de vinho para beber. Isso, sim,  maluquice!  
     Langdon correu os olhos pela sala.  
     - Algum mais acha que isso  maluquice?  
     - Sim! - entoaram os alunos em coro.  
     Langdon deu suspiro fingido de tristeza.  
     - Que pena. Se isso  maluco demais para vocs, ento sei que nunca vo querer entrar para a minha seita.  
     Um silncio recaiu sobre a sala. A integrante da Associao de Alunas pareceu incomodada.  
     - O senhor faz parte de uma seita?  
     Langdon assentiu com a cabea e baixou a voz at um sussurro conspiratrio. 
     - No contem para ningum, mas, no dia em que o deus-sol R  venerado  pelos pagos, eu me ajoelho aos ps de um antigo instrumento de tortura e consumo smbolos 
ritualsticos de sangue e carne.  
     A turma toda fez uma cara horrorizada. 
     Langdon deu de ombros.   
     - E, se algum de vocs quiser se juntar a mim, v  capela de Harvard no  domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faa a santa comunho.  
     A sala continuou em silncio. 
     Langdon deu uma piscadela.  
     - Abram a mente, meus amigos. Todos ns tememos aquilo que foge  nossa compreenso.
     
     As badaladas de um relgio comearam a ecoar pelos corredores do Capitlio.  
     Sete horas.  
     quela altura, Robert Langdon estava correndo. Isso  o que eu chamo de entrada dramtica. Ao passar pelo corredor de ligao da Cmara, viu a entrada do Salo 
Nacional das Esttuas e se encaminhou direto para l.  
     Ao se aproximar da porta, diminuiu o passo at um ritmo descontrado e respirou fundo vrias vezes. Abotoando o palet, ergueu o queixo s um pouquinho e fez 
a curva bem na hora em que soava a ltima badalada.  
     Hora do show.  
     Ao entrar no salo, o professor Robert Langdon ergueu os olhos e abriu um sorriso caloroso. Um segundo depois, o sorriso evaporou. Ele estacou na hora.  
     Alguma coisa estava muito, muito errada.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 7
     
     Katherine Solomon atravessou apressada o estacionamento sob a chuva fria, desejando estar usando algo mais do que uma cala jeans e um suter de caxemira. Ao 
se aproximar da entrada principal do complexo, o ronco dos gigantescos purificadores de ar ficou mais alto. Ela mal os escutou, pois seus ouvidos ainda estavam zumbindo 
por causa do telefonema que acabara de receber.  
     Aquilo que seu irmo acredita que est escondido na capital... pode ser encontrado. 
     Katherine achava isso quase impossvel. Ela e a pessoa do telefone ainda tinham muito a conversar e haviam combinado fazer isso mais tarde naquela noite.  
     Quando chegou  entrada principal, ela se viu invadida pela mesma empolgao que sempre sentia ao entrar no edifcio gigantesco. Ningum sabe que este lugar 
existe.  
     A placa na porta dizia:  
     
     CENTRO DE APOIO DOS MUSEUS SMITHSONIAN (CAMS)
     
     Apesar de contar com mais de uma dzia de enormes museus no National Mall, o Instituto Smithsonian possua uma coleo to descomunal que apenas 2% do acervo 
podia ser exibido ao mesmo tempo. Os outros 98% precisavam ser guardados em algum lugar. E o lugar... era ali.  
     No era de espantar que aquele complexo abrigasse uma coleo de artefatos surpreendentemente diversificada: Budas gigantes, cdices escritos  mo, dardos 
envenenados da Nova Guin, facas incrustadas de jias, um caiaque feito de osso de baleia. Igualmente de cair o queixo eram os tesouros naturais do complexo: fsseis 
de plesiossauro, uma coleo de meteoritos de valor inestimvel, uma lula gigante e at mesmo uma coleo de crnios de elefante trazida por Teddy Roosevelt de um 
safri na frica.  
     Mas no fora por nenhum desses motivos que o secretrio do Smithsonian, Peter Solomon, havia levado sua irm ao CAMS trs anos antes. Ele a chamara at ali 
no para ver maravilhas cientficas, mas sim para cri-las. E era exatamente isso o que Katherine vinha fazendo.  
     Bem l no fundo desse complexo, na escurido de seus recantos mais remotos, havia um pequeno laboratrio cientfico diferente de todos os outros do mundo. As 
recentes descobertas feitas ali por Katherine no campo da cincia notica tinham ramificaes em todas as disciplinas - da fsica  histria,  filosofia e  religio. 
Logo tudo ir mudar, pensou ela.  
     Quando Katherine chegou ao saguo, o guarda que ocupava o balco da entrada guardou rapidamente o rdio e arrancou das orelhas os fones de ouvido.  
     - Sra. Solomon! - Ele deu um largo sorriso.  
     - Redskins?  
     Ele corou, fazendo cara de culpado. 
     - O jogo ainda no comeou.  
     Ela sorriu.  
     - No vou dedurar voc. - Ento andou at o detector de metais e esvaziou os bolsos. Ao tirar do pulso o Cartier de ouro, sentiu a costumeira pontada de tristeza. 
O relgio fora presente da me no seu aniversrio de 18 anos. Quase  10 anos j haviam transcorrido desde que a me morrera de forma violenta ... seu corpo aninhado 
em seus braos.  
     - Ento, Sra. Solomon? - sussurrou o guarda em tom de brincadeira. -  Algum dia vai contar a algum o que est fazendo l atrs?  
     Ela ergueu os olhos.  
     - Algum dia, Kyle. Hoje no.  
     - Por favor - insistiu ele. - Um laboratrio secreto ... dentro de um museu  secreto? A senhora deve estar fazendo alguma coisa bacana.  
     Muito mais que bacana, pensou Katherine enquanto juntava seus pertences.  A verdade era que ela estava praticando uma cincia to avanada que nem sequer parecia 
mais cincia.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  8
     
     Robert Langdon parou na soleira da porta do Salo Nacional das Esttuas, petrificado, e estudou a surpreendente cena  sua frente. A sala era exatamente como 
ele se lembrava - um semicrculo harmonioso, construdo no mesmo estilo de um anfiteatro grego. As graciosas paredes curvas de arenito e marmorino italiano eram 
pontuadas por colunas de breccia multicolorida, entremeadas pela coleo nacional de esttuas - esculturas em tamanho natural de 38 norte-americanos importantes, 
dispostas ao redor de um vasto espao revestido com ladrilhos de mrmore preto e branco.  
     Tudo estava do mesmo jeito que no dia da palestra que assistira ali. 
     Exceto por um detalhe.  
     Desta vez, o salo estava deserto.  
     Nada de cadeiras. Nada de espectadores. Nada de Peter Solomon. Apenas um punhado de turistas zanzando para l e para c, alheios  entrada triunfal de Langdon. 
Ser que Peter quis dizer na Rotunda? Ele espiou pelo corredor sul na direo da Rotunda e viu turistas circulando por l tambm.
     Os ecos das badaladas do relgio haviam silenciado. Agora Langdon estava  oficialmente atrasado.  
     Ele voltou s pressas para o corredor e encontrou um guia turstico.  
     - Com licena, onde ser a palestra do evento do Smithsonian hoje  noite? 
     O guia hesitou.   
     - No saberia dizer, senhor. Quando vai comear?  
     - Agora!  
     O homem balanou a cabea.  
     - No estou sabendo de nenhum evento do Smithsonian hoje  noite ... pelo menos no aqui.  
     Atarantado, Langdon voltou depressa para o meio do salo, correndo os olhos por todo o espao. Ser que isso  algum tipo de brincadeira de Solomon? A hiptese 
lhe parecia inimaginvel. Sacou o celular e o fax recebido naquela manh e discou o nmero de Peter.  
     O telefone levou alguns segundos para captar um sinal dentro do imenso  prdio. Por fim, comeou a tocar.  
     O conhecido sotaque sulista atendeu.  
     - Escritrio de Peter Solomon, Anthony falando. Em que posso ajudar?  
     - Anthony! - disse Langdon, aliviado. - Que bom que voc ainda est a.  Aqui  Robert Langdon. Parece que est havendo alguma confuso em relao  palestra. 
Estou no meio do Salo das Esttuas, mas no h ningum aqui. A palestra foi transferida para alguma outra sala?  
     - Acho que no, professor. Deixe-me verificar. - O assistente fez uma pausa.  - O senhor confirmou diretamente com o Sr. Solomon?  
     Langdon ficou confuso.  
     - No, eu confirmei com voc, Anthony. Hoje de manh!  
     - Sim, eu me lembro disso. - Houve um silncio na linha. - Foi um pouco  descuidado da sua parte, no acha, professor?
     quela altura, Langdon estava totalmente alerta. 
     - Como disse?  
     - Pense no seguinte ... - disse o homem. - O senhor recebeu um fax pedindo-lhe que ligasse para um nmero de telefone, o que fez sem titubear. Falou com um 
total desconhecido que se apresentou como assistente de Peter Solomon. Em seguida, o senhor embarcou por livre e espontnea vontade em um jatinho particular para 
Washington e entrou em um carro que o estava aguardando. Correto?  
     Langdon sentiu um calafrio percorrer seu corpo. 
     - Quem est falando, droga? Onde est Peter?  
     - Infelizmente, acho que Peter Solomon no tem a menor idia de que o  senhor est em Washington hoje. - O sotaque sulista do homem desapareceu, e sua voz se 
transformou em um sussurro mais grave, melfluo. - O senhor est aqui, professor Langdon, porque eu quero que esteja.   
         
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 9
     
     No Salo das Esttuas, Robert Langdon pressionou o celular contra a orelha e ps-se a andar de um lado para o outro em um crculo fechado. 
     - Quem  voc, droga?  
     A resposta do homem veio em um sussurro sedoso, calmo.  
     - No fique alarmado, professor. O senhor foi convocado a vir aqui por um motivo.  
     - Convocado? - Langdon se sentiu como um animal enjaulado. - Que tal seqestrado?  
     - No  bem assim. - A voz do homem era de uma serenidade sinistra. - Se eu quisesse machuc-lo, o senhor agora estaria morto dentro daquele Lincoln. - Ele 
deixou as palavras pairarem no ar por alguns instantes. - As minhas intenes so as mais nobres possveis, posso lhe garantir. Eu gostaria simplesmente de lhe fazer 
um convite.  
     No, obrigado. Desde as suas experincias na Europa nos ltimos anos, a indesejada celebridade o transformara em um m de malucos, e aquele ali havia acabado 
de ultrapassar os limites.  
     - Olhe aqui, no sei que diabos est acontecendo, mas vou desligar...  
     - Eu no faria isso - disse o homem. - A sua janela de oportunidade  muito  pequena se deseja salvar a alma de Peter Solomon.  
     Langdon puxou o ar com fora. 
     - O que foi que voc disse?  
     - Tenho certeza de que o senhor me ouviu.  
     A forma como aquele homem pronunciara o nome de Peter deixou Landgon petrificado.  
     - O que voc sabe sobre Peter?  
     - Neste exato momento eu conheo os mais profundos segredos dele. O Sr.  Solomon  meu convidado, e eu sei ser um anfitrio persuasivo.  
     Isto no pode estar acontecendo. 
     - Voc no est com Peter.  
     - Eu atendi o celular pessoal dele. Isso deveria fazer o senhor parar e pensar.  
     - Vou chamar a polcia.  
     - No precisa - disse o homem. - As autoridades estaro com o senhor  daqui a pouco.  
     Do que esse louco est falando? O tom de Landgon ficou mais rspido.     
     - Se voc est com Peter, ponha ele na linha agora mesmo.  
     - Impossvel. O Sr. Solomon est preso em um lugar nada agradvel. - O  homem fez uma pausa. - Ele est no Araf.  
     - Onde? - Langdon percebeu que estava apertando o celular com tanta fora que seus dedos estavam ficando dormentes.  
     - O Araf? O Hamistagan? Aquele lugar ao qual Dante dedicou o livro imediatamente posterior ao seu lendrio Inferno?  
     As referncias religiosas e literrias do homem aumentavam as suspeitas de Langdon de que estava lidando com um louco. O segundo livro. Langdon o conhecia bem; 
ningum consegue escapar da Academia Phillips Exeter sem ler os cantos de Dante.  
     - Est dizendo que acha que Peter Solomon est... no purgatrio?  
     - Vocs cristos usam uma palavra rude, mas sim, o Sr. Solomon est no  mundo intermedirio.  
     As palavras do homem se demoraram nos ouvidos de Langdon. 
     - Est dizendo que Peter est ... morto?  
     - No, no exatamente.  
     - No exatamente?! - berrou Langdon, sua voz ecoando com fora pelo  salo. Uma famlia de turistas olhou para ele. Ele lhes virou as costas e baixou a voz. 
- Em geral a morte  ou no !  
     - O senhor me surpreende, professor. Imaginava que tivesse uma compreenso melhor dos mistrios da vida e da morte. Existe de fato um mundo intermedirio... 
um mundo no qual Peter Solomon est atualmente suspenso. Ele pode voltar para o seu mundo ou pode passar para o outro... dependendo de como voc aja neste momento. 
     Langdon tentou processar o que ele dizia. 
     - O que voc quer de mim?  
     -  simples. O senhor obteve acesso a algo muito antigo. E hoje  noite vai  compartilhar isso comigo.  
     - No fao idia do que voc est falando.  
     - No? O senhor finge no entender os antigos segredos que lhe foram confiados?  
     Langdon teve uma sbita sensao de vertigem, suspeitando por fim do que aquilo provavelmente se tratava. Antigos segredos. No havia mencionado a ningum sequer 
uma palavra sobre suas experincias de vrios anos atrs em Paris. Contudo, os fanticos do Graal haviam acompanhado de perto a cobertura da mdia, sendo que alguns 
conseguiram ligar os pontos e acreditavam que Langdon agora detinha informaes secretas relacionadas ao Santo Graal - e talvez at a sua localizao.   
     - Olhe aqui - disse Langdon -, se isso tiver a ver com o Santo Graal, posso lhe garantir que no sei nada mais do que...  
     - No ofenda a minha inteligncia, Sr. Langdon - disparou o homem. - No tenho nenhum interesse em algo to frvolo quanto o Santo Graal ou o pattico debate 
da humanidade para saber qual verso da histria est correta. Discusses inteis sobre a semntica da f no me interessam nem um pouco. So perguntas que s se 
respondem com a morte.
     Aquelas palavras duras deixaram Langdon confuso. 
     - Ento do que voc est falando?  
     O homem fez uma pausa de vrios segundos.  
     - Como o senhor talvez saiba, nesta cidade existe um antigo portal. 
     Um antigo portal?  
     - E hoje  noite o senhor vai destranc-lo para mim. Deveria se sentir honrado por eu ter entrado em contato ... Professor, o senhor vai receber o convite da 
sua vida. O senhor foi o nico escolhido.  
     E voc enlouqueceu.  
     - Desculpe, mas voc escolheu mal - disse Langdon. - Eu no sei nada sobre nenhum antigo portal.  
     - O senhor no est entendendo, professor. No fui eu que o escolhi ... foi Peter Solomon.  
     - O qu? - retrucou Langdon, sua voz pouco mais que um sussurro.  
     - O Sr. Solomon me disse como encontrar o portal e confessou que somente um homem no mundo seria capaz de destranc-lo. Ele tambm falou que esse homem  o 
senhor.  
     - Se Peter disse isso, estava enganado ... ou mentindo.  
     - Acho que no. Ele estava fragilizado quando fez essa confisso, e tendo a  acreditar nele.  
     Langdon sentiu uma pontada de raiva.  
     - Estou avisando, se voc machucar Peter de alguma forma ...
     -  muito tarde para isso - disse o homem como se estivesse achando graa.  - Eu j tirei o que precisava de Peter Solomon. Mas, para o bem dele, sugiro que 
me d o que necessito do senhor. O tempo urge... para vocs dois. Sugiro que o senhor encontre o portal e o destranque. Peter apontar o caminho.  
     Peter?  
     - Pensei que voc tivesse dito que ele est no "purgatrio".  
     - Assim em cima como embaixo - disse o homem.  
     Langdon sentiu um calafrio. Aquela estranha resposta era um antigo adgio hermtico que afirmava uma crena na conexo fsica entre o cu e a terra. Assim em 
cima como embaixo. Langdon correu os olhos pelo amplo salo e se perguntou como as coisas tinham fugido to subitamente ao seu controle naquela noite.  
     - Olhe aqui, eu no sei como encontrar portal antigo nenhum. Vou chamar a polcia.  
     - O senhor realmente ainda no entendeu, no ? O motivo por que foi escolhido?  
     - No - disse Langdon.  
     - Mas vai entender - retrucou o homem com uma risadinha. - A qualquer  momento.  
     Ento a ligao foi cortada.  
     Langdon ficou parado por vrios segundos aterrorizantes, tentando processar  o que havia acabado de acontecer.  
     De repente, ao longe, ouviu um som inesperado. 
     Vinha da Rotunda.  
     Algum estava gritando.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 10
     
     Robert Langdon j havia entrado na Rotunda do Capitlio vrias vezes na vida, mas nunca correndo a toda a velocidade. Quando atravessou s carreiras a entrada 
norte, viu um grupo de turistas aglomerado no centro da sala. Um menininho gritava e seus pais tentavam acalm-lo. Outras pessoas se juntavam  sua volta enquanto 
os seguranas faziam o possvel para restaurar a ordem.  
     - Ele tirou de dentro da tipia - disse algum com a voz histrica - e simplesmente largou ali!  
     Ao se aproximar, Langdon viu pela primeira vez o que estava causando todo aquele estardalhao. De fato, o objeto no cho do Capitlio era estranho, mas a sua 
presena no justificava tanta gritaria.  
     Langdon j vira muitas vezes o objeto cado no cho. O departamento de artes de Harvard tinha dezenas deles - modelos de plstico em tamanho natural, usados 
por escultores e pintores para ajud-los a reproduzir a parte mais complexa do corpo humano, que surpreendentemente no era o rosto, e sim a mo. Algum deixou a 
mo de um manequim dentro da Rotunda?    
     Mos de manequim tinham dedos articulados que permitiam a um artista coloc-los na posio que quisesse, o que, para os alunos de segundo ano da universidade, 
geralmente significava com o dedo mdio em riste. Aquela, porm, havia sido posicionada com o indicador e o polegar apontados para o teto.  
     No entanto, quando Langdon se aproximou, percebeu que aquela mo de manequim era peculiar. Sua superfcie de plstico no era lisa como a maioria. Pelo contrrio, 
era cheia de manchas e levemente enrugada, quase parecida com ...
     Pele de verdade.  
     Langdon parou abruptamente.  
     Foi ento que viu o sangue. Meu Deus!  
     O pulso cortado parecia ter sido fincado em uma base de madeira com um prego para ficar em p. Uma onda de nusea atravessou seu corpo. Langdon foi se aproximando 
devagar, sem conseguir respirar, vendo agora que as pontas do indicador e do polegar haviam sido decoradas com minsculas tatuagens. Mas no foram as tatuagens que 
chamaram sua ateno. Seu olhar se moveu instantaneamente para o conhecido anel de ouro no dedo anular.  
     No.  
     Langdon recuou. O mundo  sua volta comeou a girar quando ele percebeu que estava olhando para a mo direita cortada de Peter Solomon.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  11
     
     Por que Peter no atende?, perguntou-se Katherine Solomon enquanto desligava o celular. Onde ele est?  
     Durante trs anos, Peter Solomon sempre tinha sido o primeiro a chegar a seus encontros semanais s sete da noite de domingo. Aquele era o ritual familiar deles, 
uma forma de permanecerem em contato antes do incio de uma nova semana e de Peter se manter atualizado em relao ao trabalho de Katherine no laboratrio.  
     Ele nunca se atrasa, pensou ela, e sempre atende o telefone. Para piorar, Katherine ainda no tinha certeza do que iria dizer ao irmo quando ele finalmente 
chegasse. Como vou lhe perguntar sobre o que descobri hoje?  
     O clicar ritmado dos seus passos ecoava pelo corredor de cimento que percorria o CAMS como uma espinha dorsal. Conhecido como "A Rua", o corredor    interligava 
os cinco imensos galpes de armazenagem do edifcio. A 12 metros do cho, um sistema circulatrio composto de dutos laranja latejava com as batidas do corao do 
complexo - os sons pulsantes de milhares de metros cbicos de ar filtrado que circulavam pelo ambiente.  
     Em geral, durante a caminhada de quase 400 metros at o laboratrio, Katherine se sentia tranqilizada pelos rudos da respirao do complexo. Naquela noite, 
entretanto, a pulsao a deixou nervosa. O que ela descobrira a respeito do irmo deixaria qualquer um perturbado, mas, como Peter era seu nico parente na face 
da Terra, Katherine se sentia especialmente incomodada ao pensar que ele pudesse estar lhe escondendo algum segredo.  
     At onde ela sabia, o irmo s ocultara algo dela uma vez... um segredo maravilhoso escondido no final daquele corredor. Trs anos antes, Peter havia conduzido 
Katherine por ali, apresentando-a ao CAMS enquanto lhe exibia alguns dos objetos mais incomuns do complexo: o meteorito de Marte ALH-84001, o dirio pictogrfico 
de Touro Sentado, uma coleo de jarros lacrados com cera de abelha contendo espcimes originais coletados por Charles Darwin.  
     Em determinado momento, os dois passaram por uma porta pesada com uma  pequena janela. Katherine viu de relance o que havia atrs dela e levou um susto. 
     - Mas o que  isso?  
     Seu irmo deu uma risadinha e continuou andando.  
     - Galpo 3.  o que chamamos de Galpo Molhado. Bem inusitado, no ? Aterrorizante, eu diria. Katherine apertou o passo para alcan-lo. Aquele  complexo parecia 
outro planeta.  
     - O que eu realmente quero lhe mostrar  o Galpo 5 - disse Peter enquanto a conduzia pelo corredor aparentemente sem fim. -  o nosso mais novo anexo. Foi 
construdo para abrigar artefatos do poro do Museu Nacional de Histria Natural. A coleo est programada para ser transferida para c daqui a uns cinco anos, 
o que significa que o Galpo 5 est vazio no momento.  
     Katherine olhou naquela direo.  
     - Vazio? Ento por que estamos indo para l?  
     Os olhos cinzentos de seu irmo exibiram um brilho travesso familiar.  
     - Pensei que, j que ningum est usando o espao, talvez voc pudesse us-1o.  
     - Eu?  
     - Claro. Imaginei que voc gostaria de ter um laboratrio exclusivo... um  lugar onde possa de fato realizar alguns dos experimentos sobre os quais vem teorizando 
durante todos esses anos.  
     Chocada, Katherine encarou o irmo.  
     - Mas, Peter, essas experincias so tericas! Realiz-las seria quase impossvel!   
     - Nada  impossvel, Katherine, e este lugar  perfeito para voc. O CAMS no  apenas um depsito de tesouros;  um dos centros de pesquisa cientfica mais 
avanados do mundo. Freqentemente pegamos alguma pea da coleo para examin-la usando as melhores tecnologias quantitativas que o dinheiro pode comprar. Voc 
teria  sua disposio todo equipamento de que pudesse vir a precisar.  
     - Peter, as tecnologias necessrias para fazer essas experincias esto...  
     - Bem aqui. - Ele deu um largo sorriso. - O laboratrio est pronto.  
     Katherine parou onde estava.  Seu irmo apontou para o final do longo corredor. 
     - Estamos indo para l agora.  
     Katherine mal conseguia falar.  
     - Voc ... voc construiu um laboratrio para mim?  
     -  o meu trabalho. O Smithsonian foi criado para promover o avano do  conhecimento cientfico. Como secretrio, devo levar a srio esse dever. Eu acredito 
que as experincias que voc props tm potencial para expandir as fronteiras da cincia a territrios inexplorados. - Peter parou, olhando-a bem nos olhos. - Quer 
voc fosse ou no minha irm, eu me sentiria obrigado a apoiar essa pesquisa. Suas idias so brilhantes. O mundo merece ver aonde elas podem chegar.  
     - Peter, eu no posso de jeito nenhum...  
     - Tudo bem, relaxe ... eu paguei do meu prprio bolso, e ningum est usando o Galpo 5 neste momento. Quando voc terminar suas experincias, pode desocup-lo. 
Alm disso, o Galpo 5 tem propriedades singulares que so perfeitas para o seu trabalho.  
     Katherine no conseguia imaginar o que um gigantesco galpo vazio poderia proporcionar no sentido de auxiliar sua pesquisa, mas tinha a sensao de que estava 
prestes a descobrir. Eles haviam acabado de chegar a uma porta de ao com letras grossas gravadas:  
     
     GALPO 5
     
     Seu irmo inseriu o carto de acesso e um teclado eletrnico se acendeu. Ele ergueu o dedo para digitar o cdigo de segurana, mas se deteve, arqueando as sobrancelhas 
com o mesmo ar travesso de quando era menino.  
     - Tem certeza de que est pronta?     
     Ela aquiesceu. Meu irmo, sempre perfeito no comando do espetculo. 
     - Para trs. - Peter apertou as teclas.  
     A porta de ao se abriu com um silvo alto. 
     Alm da soleira havia apenas um breu total... um imenso vazio. Um gemido oco parecia ressoar das profundezas. Katherine sentiu uma corrente de ar frio emanar 
l de dentro. Era como olhar para o Grand Canyon  noite. 
     - Imagine um hangar vazio esperando uma frota de Airbus - disse-lhe o irmo -, e vai ter uma idia geral. 
     Katherine se pegou dando um passo para trs. 
     - O galpo em si  grande demais para ser aquecido, mas seu laboratrio  uma sala de concreto, mais ou menos no formato de um cubo, com isolamento trmico. 
Ela est situada bem l no fundo do galpo para ficar o mais afastada possvel. 
     Katherine tentou visualizar aquilo. Uma caixa dentro de uma caixa. Esforou-se para enxergar na escurido, mas esta era impenetrvel.  
     - A que distncia ela est?  
     - A uma boa distncia... um campo de futebol caberia facilmente aqui dentro. Mas devo avisar que o trajeto  um pouco perturbador.  excepcionalmente escuro. 
     Katherine espiou pela quina, hesitante. 
     - No tem interruptor?  
     - O Galpo 5 no tem fiao eltrica.  
     - Mas ... ento como  que um laboratrio pode funcionar a dentro?  
     Ele deu uma piscadela.  
     - Gerador de hidrognio.  
     O queixo de Katherine caiu.  
     - Voc est de brincadeira, no ?  
     - Energia limpa suficiente para abastecer uma cidade pequena. O seu laboratrio est totalmente isolado das ondas de rdio emitidas pelo restante do complexo. 
Alm disso, toda a parte externa do galpo  revestida de membranas foto-resistentes de modo a proteger da radiao solar os artefatos em seu interior. Basicamente, 
este galpo  um ambiente isolado e neutro do ponto de vista energtico. 
     Katherine estava comeando a entender o atrativo do Galpo 5. Como grande parte do seu trabalho consistia em quantificar campos energticos anteriormente desconhecidos, 
suas experincias precisavam ser feitas em um local isolado de qualquer radiao externa ou "rudo branco". Isso inclua interferncias to sutis quanto "radiaes 
cerebrais" ou "emisses de pensamento" geradas por pessoas prximas. Por esse motivo, um laboratrio situado em um campus universitrio ou em um hospital no daria 
certo, mas um galpo deserto no CAMS no poderia ser mais perfeito. 
     - Vamos at l dar uma olhada. - Peter estava sorrindo ao adentrar a vasta escurido. -  s me seguir. 
     Katherine ficou parada na soleira da porta. Mais de 100 metros na escurido total? Quis sugerir uma lanterna, mas seu irmo j havia desaparecido no abismo. 
     - Peter? - chamou ela.  
     - D o salto da f - disse ele l da frente, com a voz j comeando a sumir. - Voc vai encontrar o caminho. Confie em mim. 
     Ele est de brincadeira, no ? O corao de Katherine batia disparado enquanto ela avanava poucos metros alm da soleira, tentando ver alguma coisa no escuro. 
No enxergo nada! De repente, a porta de ao sibilou, fechando-se atrs dela com um baque e fazendo-a mergulhar nas trevas. No havia uma s centelha de luz em lugar 
nenhum.  
     - Peter? 
     Silncio.  
     Voc vai encontrar o caminho. Confie em mim. 
     Hesitante, ela foi avanando vagarosamente, s cegas. Salto da f? Katherine no conseguia sequer enxergar a prpria mo diante do rosto. Continuou seguindo 
em frente, mas em poucos segundos ficou totalmente perdida. Para onde estou indo?  
     Isso fazia trs anos. 
     Agora, ao chegar diante da mesma porta de ao, Katherine percebeu o enorme caminho que havia percorrido desde aquela primeira noite. Seu laboratrio - apelidado 
de Cubo - havia se tornado seu lar, um santurio nos recnditos do Galpo 5. Exatamente como Peter previra, ela havia encontrado seu caminho em meio  escurido 
naquela noite, e em todos os outros dias desde ento - graas a um sistema de direcionamento engenhosamente simples que seu irmo lhe permitira descobrir sozinha. 
     Muito mais importante, a outra previso de Peter tambm havia se realizado: as experincias de Katherine tinham produzido resultados impressionantes, sobretudo 
nos ltimos seis meses - avanos que iriam alterar paradigmas inteiros de pensamento. Katherine e o irmo haviam concordado em guardar segredo total quanto aos resultados 
at suas implicaes ficarem mais claras. Mas ela sabia que um dia, em breve, divulgaria algumas das revelaes cientficas mais transformadoras da histria humana. 
     Um laboratrio secreto dentro de um museu secreto, pensou ela, inserindo o carto de acesso na porta do Galpo 5. O teclado se acendeu e Katherine digitou sua 
senha.  
     A porta de ao se abriu com um silvo.  
     O conhecido gemido oco foi acompanhado pela mesma rajada de ar frio.  Como sempre, Katherine sentiu sua pulsao se acelerar.  
     O trajeto mais estranho do mundo para chegar ao trabalho. 
     Tomando coragem para a travessia, Katherine Solomon olhou de relance para o relgio de pulso ao pisar no vazio. Naquela noite, porm, no conseguiu  se livrar 
das preocupaes ao entrar no galpo. Onde est Peter?         
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 12
     
     Fazia mais de uma dcada que Trent Anderson, chefe de polcia do Capitlio, supervisionava a segurana daquele complexo. Era um homem musculoso e de ombros 
largos, com traos finos e cabelo ruivo cortado  escovinha, o que lhe dava um ar de autoridade militar. Deixava sua arma bem visvel como aviso a qualquer um que 
casse na besteira de questionar seu poder.  
     Anderson passava a maior parte do tempo coordenando seu pequeno exrcito de agentes a partir de um centro de segurana de alta tecnologia situado no subsolo 
do Capitlio. Dali, comandava uma equipe de tcnicos encarregados de examinar monitores e dados de computador, alm disso controlava uma mesa telefnica que o mantinha 
em contato com os funcionrios da segurana.  
     Aquela noite tinha sido estranhamente tranqila, e Anderson estava satisfeito.  Tinha esperanas de conseguir ver um pouco do jogo dos Redskins na TV de tela 
plana da sua sala. A partida havia acabado de comear quando seu interfone tocou. 
     - Chefe?  
     Anderson resmungou e manteve os olhos grudados na televiso enquanto atendia o interfone.  
     - O que foi?  
     - Houve algum problema na Rotunda. Os agentes esto chegando l agora,  mas acho que o senhor vai querer dar uma olhada.  
     - Certo. - Anderson entrou no centro nervoso do sistema de segurana: uma instalao compacta, neomoderna, cheia de monitores de computador. - O que voc tem 
a?   
     O tcnico estava ajustando uma imagem de vdeo digital em seu monitor.  
     - Cmera da galeria leste da Rotunda. Vinte segundos atrs. - Ele acionou o vdeo.  
     Anderson ficou olhando por cima do ombro do tcnico.  
     A Rotunda estava quase deserta naquele dia, ocupada apenas por uns poucos turistas. O olho treinado de Anderson foi atrado imediatamente para a nica pessoa 
sozinha que se movia mais depressa do que as outras. Cabea raspada. Casaco militar verde. Brao ferido em uma tipia. Um pouco manco. Postura curva. Falando no 
celular.  
     Os passos do homem careca ecoaram de forma distinta no udio at que, de repente, ao chegar bem no meio da Rotunda, ele parou, encerrou o telefonema e ajoelhou 
como quem vai amarrar o cadaro do sapato. No entanto, em vez de fazer isso, o careca tirou alguma coisa da tipia e a ps no cho. Depois se levantou e seguiu mancando 
depressa em direo  sada leste.  
     Anderson ficou olhando para o estranho objeto que o homem havia deixado para trs. Que negcio  esse? O objeto tinha uns 20 centmetros de altura e estava 
posicionado na vertical. Anderson se aproximou do monitor e apertou os olhos. No pode ser o que parece!  
     Enquanto o careca se afastava apressado, desaparecendo pelo prtico leste, um menininho ali perto disse:  
     - Mame, aquele homem deixou cair alguma coisa.  
     O garoto foi ver o que era, mas de repente estacou. Aps um longo instante de imobilidade, apontou para o objeto e soltou um grito ensurdecedor.  
     Na mesma hora, o chefe de polcia girou o corpo e saiu correndo em direo  porta, berrando ordens pelo caminho.  - Mandem um rdio para todos os postos! Encontrem 
o careca da tipia e prendam-no! AGORA!  
     Correndo para fora do centro de segurana, ele subiu de trs em trs os degraus da escadaria gasta. O vdeo de segurana havia mostrado o careca da tipia deixando 
a Rotunda pelo prtico leste. O caminho mais curto para sair do prdio, portanto, o faria passar pelo corredor leste-oeste, que ficava logo  frente.  
     Eu posso intercept-lo.  
     Depois de chegar ao topo da escada e fazer a curva, Anderson vasculhou o corredor silencioso  sua frente. Na outra ponta, um casal de idosos caminhava devagar, 
de mos dadas. Perto deles, um turista louro de blazer azul lia um guia e estudava os mosaicos do teto em frente  Cmara dos Representantes.  
     - Com licena! - bradou Anderson correndo em sua direo. - O senhor viu um homem careca com uma tipia no brao? 
     O homem ergueu os olhos do livro com uma expresso confusa.  
     - Um careca com uma tipia! - repetiu Anderson com mais firmeza. - O senhor o viu?  
     O turista hesitou e, nervoso, olhou para a extremidade leste do corredor.  
     - H... vi, sim - respondeu. - Acho que ele acabou de passar correndo por mim... na direo daquela escada ali. - Ele apontou para o final do corredor.  
     Anderson sacou o rdio e berrou no aparelho.  
     - Ateno, todos os postos! O suspeito est se dirigindo para a sada sudeste.  Todos para l! - Ele guardou o rdio e arrancou a arma do coldre, pondo-te a 
correr rumo  sada.  
     
     Trinta segundos depois, o louro musculoso de blazer azul saiu tranquilamente pela ala leste do Capitlio para o ar mido da noite. Sorriu, saboreando o frescor 
do lado de fora. 
     Transformao. 
     Tinha sido to fcil.  
     Apenas um minuto antes, ele sara rapidamente da Rotunda mancando e usando um casaco militar. Depois de se esconder em um vo mal iluminado, havia tirado o 
casaco militar, revelando o blazer azul que usava por baixo. Antes de se desfazer do casaco, sacara uma peruca loura do bolso, colocando-a com cuidado sobre a cabea. 
Ento endireitou o corpo, tirou do blazer um guia de Washington e saiu calmamente do vo com um passo elegante.  
     Transformao.  esse o meu dom.  
     Enquanto as pernas mortais de Mal'akh carregavam-no em direo  limusine que o aguardava, ele arqueou as costas, esticando todo o seu 1,90m e jogando os ombros 
para trs. Respirou fundo, deixando o ar encher seus pulmes. Podia sentir as asas da fnix tatuada em seu peito se abrindo.  
     Se ao menos eles conhecessem o meu poder, pensou, olhando para a cidade  sua frente. Hoje  noite minha transformao ir se completar.  
     Mal'akh tivera uma conduta impecvel dentro do Capitlio, demonstrando obedincia a todas as regras de etiqueta ancestrais. O antigo convite foi entregue. Se 
Langdon ainda no tivesse compreendido qual era seu papel ali naquela noite, logo iria entender. 

     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 13
     
     A Rotunda do Capitlio - assim como a Baslica de So Pedro - sempre tinha o dom de surpreender Robert Langdon. Ele sabia que aquele espao era grande o suficiente 
para comportar com folga a Esttua da Liberdade, mas de alguma forma a Rotunda sempre lhe parecia maior e mais sagrada do que ele esperava, como se espritos pairassem 
no ar. Naquela noite, porm, havia apenas caos.  
     Agentes de segurana do Capitlio estavam isolando a Rotunda ao mesmo tempo que tentavam guiar os turistas perplexos para longe da mo. O menininho continuava 
chorando. Uma luz forte se acendeu - um turista tirando uma foto da mo -, e vrios seguranas agarraram imediatamente o homem, tomando-lhe a cmera e escoltando-o 
at a sada. Na confuso, Langdon se viu andando para a frente como em um transe, abrindo caminho pelo aglomerado de gente para chegar cada vez mais perto da mo. 
     A mo direita cortada de Peter Solomon estava na vertical, com a superfcie plana do pulso seccionado fincada no prego de uma pequena base de madeira. Trs 
dos dedos estavam fechados, enquanto o polegar e o indicador se encontravam esticados, apontando para cima em direo  cpula altssima.
     - Todos para trs! - exclamou um dos agentes.  
     Langdon estava perto o suficiente agora para ver o sangue seco que havia escorrido do pulso e coagulado sobre a base de madeira. Ferimentos post-mortem no 
sangram... o que significa que Peter est vivo. Langdon no sabia se deveria ficar aliviado ou nauseado. A mo de Peter foi cortada com ele ainda vivo? Blis subiu 
at sua garganta. Ele pensou em todas as vezes que seu querido amigo tinha estendido aquela mo para apertar a sua ou para lhe dar um caloroso abrao. 
     Durante vrios segundos, Langdon sentiu a mente ficar vazia, como uma TV mal sintonizada que transmite apenas esttica. A primeira imagem ntida que se formou 
foi totalmente inesperada.  
     Uma coroa... e uma estrela.  
     Langdon se agachou, examinando as pontas do polegar e do indicador de Peter. Tatuagens? Era inacreditvel, mas o monstro que havia feito aquilo parecia ter 
tatuado pequenos smbolos nas pontas dos dedos de Peter.  
     No polegar, uma coroa. No indicador, uma estrela.  
     No pode ser. Os dois smbolos foram registrados instantaneamente pela  mente de Langdon, ampliando aquela cena horrenda para transform-la em algo quase sobrenatural. 
Aqueles smbolos j haviam aparecido juntos muitas vezes na histria, e sempre no mesmo lugar - nas pontas dos dedos da mo de algum. Aquele era um dos cones mais 
cobiados e secretos do mundo antigo.  
     A Mo dos Mistrios.  
     O cone raramente era visto hoje em dia, mas, ao longo da histria, havia simbolizado um poderoso chamado  ao. Langdon se esforava para compreender o grotesco 
artefato  sua frente. Algum usou a mo de Peter para fabricar a Mo dos Mistrios? Era inimaginvel. Tradicionalmente, o cone era esculpido em pedra ou madeira, 
ou ento desenhado. Langdon nunca tinha ouvido falar de uma verso de carne e osso. A idia era repulsiva.  
     - Senhor? - disse um segurana atrs de Langdon. - Afaste-se, por gentileza. 
     Langdon mal ouviu o que ele disse. H outras tatuagens. Embora no pudesse ver as pontas dos trs dedos fechados, Langdon sabia que tambm ostentariam marcas 
singulares. Era essa a tradio. Cinco smbolos ao todo. Ao longo dos milnios, os smbolos na ponta dos dedos da Mo dos Mistrios nunca haviam mudado... e tampouco 
o objetivo simblico da mo.  
     A mo representa... um convite.  
     Langdon teve um sbito calafrio ao recordar as palavras do homem que o levara at ali. Professor, o senhor vai receber o convite da sua vida. Nos tempos antigos, 
a Mo dos Mistrios representava, na verdade, o convite mais cobiado da Terra. Receber aquele cone era uma convocao sagrada para se unir a um grupo de elite 
- aqueles que eram considerados os guardies do conhecimento secreto de todos os tempos. O convite no s era uma grande honra, como tambm significava que um mestre 
o considerava digno de receber aquele conhecimento oculto. A mo que o mestre estende ao iniciado.  
     - Senhor - insistiu o segurana, pousando uma das mos com firmeza no  ombro de Langdon -, preciso que se afaste agora mesmo.  
     - Eu sei o que isto aqui significa - disse Langdon. - Posso ajudar.  
     - Agora! - repetiu o segurana.  
     - Meu amigo est em apuros. Ns precisamos...  
     Langdon sentiu braos fortes erguerem seu corpo e levarem-no para longe da mo. Simplesmente deixou aquilo acontecer... sentia-se abalado demais para protestar. 
Um convite formal acabara de ser entregue. Algum estava convocando Langdon para destrancar um portal mstico que iria revelar um mundo de antigos mistrios e conhecimento 
oculto.  
     Mas era tudo uma insanidade. 
     Delrios de um louco.   
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 14
     
     A limusine de Mal'akh foi se afastando do Capitlio, avanando na direo leste pela Independence Avenue. Um jovem casal na calada apertou os olhos para tentar 
discernir alguma coisa atravs dos vidros traseiros escurecidos, torcendo para ver alguma celebridade.  
     Eu estou na frente, pensou Mal'akh, sorrindo consigo mesmo.
     Mal'akh adorava a sensao de poder que tinha ao dirigir sozinho aquela limusine descomunal. Nenhum de seus outros cinco carros poderia lhe proporcionar aquilo 
de que precisava naquela noite - a garantia de privacidade. Total privacidade. Naquela cidade, limusines gozavam de uma espcie de imunidade tcita. Embaixadas sobre 
rodas. Os policiais que trabalhavam perto da Capitol Hill, a colina sobre a qual se ergue o Capitlio, nunca sabiam ao certo qual figuro poderiam acabar mandando 
encostar por engano, ento a maioria preferia simplesmente no se arriscar a parar limusines.  
     Quando Mal'akh atravessou o rio Anacostia e entrou no estado de Maryland, pde sentir que estava chegando mais perto de Katherine, impulsionado pela fora de 
gravidade do destino. Estou sendo chamado para cumprir uma segundo tarefa esta noite ... uma tarefa que eu no havia imaginado. Na noite anterior, quando Peter Solomon 
havia lhe revelado o ltimo de seus segredos, Mal'akh ficara sabendo da existncia de um laboratrio secreto no qual Katherine Solomon tinha operado milagres - avanos 
fenomenais que, Mal'akh percebia, iriam mudar o mundo caso um dia viessem  tona.
     O trabalho dela revelar a verdadeira natureza de todas as coisas.  
     Durante sculos, as "mentes mais brilhantes" da Terra haviam ignorado as cincias antigas, zombando delas como se fossem supersties ignorantes, armando-se 
em vez disso de um ceticismo arrogante e de novas e espantosas tecnologias - ferramentas que s faziam afast-las ainda mais da verdade. Os avanos de cada gerao 
so desmentidos pela tecnologia da gerao seguinte. Assim havia sido por muitos sculos. Quanto mais o homem aprendia, mais se dava conta de sua ignorncia.  
     Por muitos milnios, a humanidade vinha tateando no escuro... mas agora, como estava escrito na profecia, havia mudanas no ar. Depois de avanar s cegas pela 
histria, a humanidade chegara a uma encruzilhada. Esse momento tinha sido previsto havia muito tempo, profetizado pelos textos antigos, calendrios primevos e at 
mesmo pelas estrelas. A data era especfica, sua chegada,  iminente. Ela seria precedida por uma brilhante exploso de conhecimento... um claro de luz para iluminar 
a escurido e dar  humanidade uma ltima chance de se desviar do abismo e seguir o caminho da sabedoria.  
     Eu cheguei para ofuscar a luz, pensou Mal'akh. Esse  o meu papel.  O destino o havia ligado a Peter e Katherine Solomon. As descobertas feitas por Katherine 
no CAMS ameaavam abrir as comportas de uma nova forma de pensar, dando incio a um novo Renascimento. Caso essas revelaes viessem a pblico, iriam se transformar 
em um catalisador que inspiraria a humanidade a redescobrir o conhecimento que havia perdido, dando-lhe um poder muito alm da imaginao.  
     O destino de Katherine  acender essa tocha. 
     O meu  apag-la.  
     
     
     
     
     
     CAPTULO 15
     
     Em meio  escurido cerrada, Katherine Solomon tateou  procura da porta externa de seu laboratrio. Depois de ach-la, abriu a porta revestida de chumbo e 
entrou depressa no pequeno hall. A travessia levara apenas 90 segundos, mas seu corao batia feito louco. Depois de trs anos, eu j deveria ter me acostumado com 
isso. Katherine sempre se sentia aliviada ao escapar do breu do Galpo 5 e entrar naquele espao limpo e bem iluminado.  
     O Cubo era uma grande caixa sem janelas. Cada centmetro das paredes e do teto l dentro era coberto por uma tela rgida de fibra de chumbo revestida de titnio, 
o que dava a impresso de uma imensa jaula construda dentro de uma cmara de cimento. Divisrias de plexiglas fosco separavam o espao em diferentes compartimentos 
- um laboratrio, uma sala de controle, uma sala de mquinas, um banheiro e uma pequena biblioteca para pesquisas.  
     Katherine caminhou depressa at o laboratrio principal. O espao de trabalho claro e estril reluzia com vrios equipamentos quantitativos avanados: dois 
encefalgrafos interligados, um pente de freqncia em femtossegundos, um isolador magneto-tico e GEAs de rudo eletrnico com indeterminao quntica, mais simplesmente 
conhecidos como Geradores de Eventos Aleatrios.  Apesar do uso de tecnologias de ponta pela cincia notica, as descobertas em si eram muito mais msticas do que 
as mquinas frias e high-tech que as produziam. Magia e mito se transformavam rapidamente em realidade com a chegada de novas e espantosas informaes, todas elas 
confirmando a ideologia bsica da cincia notica - o potencial ainda no explorado da mente humana.  
     A tese geral era simples: Ns no chegamos nem perto de usar todo o potencial de nossas mentes e nossos espritos.  Experincias conduzidas em instalaes como 
o Instituto de Cincias Noticas (ICN) da Califrnia e o Laboratrio de Pesquisas de Anomalias da Engenharia (LPAE) de Princeton haviam provado categoricamente que 
o pensamento humano, quando adequadamente direcionado, tem a capacidade de afetar e modificar a massa fsica. Essas experincias no eram truques de salo do tipo 
"entortar colheres", mas sim investigaes altamente controladas que produziam todas o mesmo resultado extraordinrio: nossos pensamentos de fato interagem com o 
mundo fsico, quer saibamos disso ou no, dando origem a mudanas que abrangem at o domnio subatmico.  
     A mente domina a matria.  
     Em 2001, nas horas que se seguiram aos terrveis acontecimentos do 11 de Setembro, o campo da cincia notica deu um salto quntico. Quatro cientistas descobriram 
que,  medida que o mundo amedrontado se unia e se concentrava em uma consternao coletiva em torno dessa tragdia especfica, as leituras de 37 Geradores de Eventos 
Aleatrios diferentes espalhados pelo mundo de repente se tornaram significativamente menos aleatrias. De alguma forma, a unicidade dessa experincia compartilhada, 
a unio de milhes de mentes, havia afetado a funo de aleatoriedade dessas mquinas, organizando suas leituras e criando ordem a partir do caos.  
     Essa descoberta chocante parecia estar relacionada  antiga crena espiritual em uma "conscincia csmica" - uma vasta unio de intenes humanas que, na verdade, 
teria a capacidade de interagir com a matria fsica. Recentemente, estudos sobre meditao e prece coletivas produziram resultados similares em Geradores de Eventos 
Aleatrios, contribuindo para a afirmao de que a conscincia humana, como a descrevia a autora especializada em notica Lynne McTaggart,  uma substncia externa 
aos limites do corpo... uma energia altamente ordenada capaz de modificar o mundo fsico. Katherine ficara fascinada pelo livro de McTaggart, A Experincia da Inteno, 
e por seu estudo global feito pela internet - www.theintentionexperiment.com - que tinha por objetivo descobrir como a inteno humana  capaz de afetar o mundo. 
Alguns outros textos progressistas tambm haviam despertado o interesse de Katherine.  
     A partir dessa base, a pesquisa de Katherine Solomon dera um salto adiante, provando que o "pensamento direcionado" pode afetar literalmente qualquer coisa 
- a velocidade de crescimento das plantas, a direo em que os peixes nadam dentro de um aqurio, a forma como as clulas se dividem em uma placa de Petri, a sincronizao 
de sistemas auto matizados separadamente e as reaes qumicas do corpo de uma pessoa. At mesmo a estrutura cristalina de um slido em formao se torna mutvel 
graas  mente; Katherine havia criado cristais de gelo lindamente simtricos enviando pensamentos amorosos na direo de um copo d'gua enquanto este congelava. 
Incrivelmente, o inverso tambm  verdadeiro: quando ela enviava pensamentos negativos e perniciosos na direo da gua, os cristais de gelo congelavam em formas 
caticas, fraturadas.  
     O pensamento humano pode literalmente transformar o mundo fsico. 
      medida que os experimentos de Katherine iam ficando mais ousados, os resultados se tornavam mais espantosos. Seu trabalho naquele laboratrio havia provado 
sem qualquer sombra de dvida que a expresso "a mente domina a matria" no  apenas um mantra de auto-ajuda da Nova Era. A mente  capaz de alterar o estado da 
matria em si e, mais importante, possui o poder de incentivar o mundo fsico a se mover em uma direo especfica.  
     Ns somos os mestres de nosso prprio universo.  
     No nvel subatmico, Katherine tinha mostrado que as prprias partculas existiam e deixavam de existir com base apenas em sua inteno de observ-las. Em certo 
sentido, o seu desejo de ver uma partcula... materializava essa partcula. Heisenberg j havia sugerido essa realidade dcadas antes, e agora ela se tornava um 
princpio fundamental da cincia notica. Nas palavras de Lynne McTaggart: ''A conscincia viva , de certa forma, a influncia que transforma a possibilidade de 
algo em algo real. O ingrediente mais essencial para a criao de nosso universo  a conscincia que o observa."  
     No entanto, o aspecto mais surpreendente do trabalho de Katherine tinha sido a descoberta de que a capacidade da mente de afetar o mundo fsico pode ser aumentada 
por meio da prtica. A inteno  uma habilidade adquirida. Como na meditao, controlar o verdadeiro poder do "pensamento" exige treinamento. Mais importante ainda... 
algumas pessoas nascem com mais aptido para fazer isso do que outras. E, ao longo da histria, alguns poucos indivduos se tornaram verdadeiros mestres.  
     Esse  o elo perdido entre a cincia moderna e o misticismo antigo.  
     Katherine havia aprendido isso com Peter, e agora, voltando a pensar nele, sua preocupao comeou a aumentar. Ela foi at a biblioteca do laboratrio e espiou 
l para dentro. Vazia.  
     A biblioteca era uma pequena sala de leitura - duas poltronas Morris, uma mesa de madeira, duas luminrias de piso e uma parede inteira de prateleiras de mogno 
contendo cerca de 500 livros. Katherine e Peter tinham reunido ali seus textos preferidos, englobando assuntos que iam desde fsica de partculas at misticismo 
antigo. Sua coleo havia se transformado em uma mistura ecltica de novo e antigo... vanguarda e histria. A maioria dos livros de Katherine possua ttulos como 
Conscincia Quntica, A Nova Fsica e Princpios da Neurocincia. Os de seu irmo eram mais antigos e mais esotricos, tais como o Caibalion, o Zohar, A Dana dos 
Mestres Wu Li e uma traduo das tabuletas sumrias publicada pelo Museu Britnico.  
     ''A chave para nosso futuro cientfico", dizia sempre seu irmo, "est escondida em nosso passado." Peter, que passara a vida inteira estudando histria, cincia 
e misticismo, havia sido o primeiro a incentivar Katherine a aprimorar sua formao universitria cientfica debruando-se sobre a filosofia hermtica primitiva. 
A irm tinha apenas 19 anos quando Peter despertou seu interesse pelo elo entre a cincia moderna e o misticismo antigo.  
     - Ento me diga, Kate - perguntara-lhe o irmo quando ela estava de frias em casa durante seu segundo ano em Yale -, o que vocs esto lendo no curso de Fsica 
Terica?  
     Na vasta biblioteca da famlia, Katherine recitara sua desafiadora lista de leitura. - Impressionante - retrucou seu irmo. - Einstein, Bohr e Hawking so  
gnios modernos. Mas voc est lendo algo mais antigo?  
     Katherine coou a cabea.  
     - Voc quer dizer... tipo Newton? 
     Ele sorriu.  
     - Mais antigo ainda. - Aos 27 anos, Peter j havia construdo uma reputao no mundo acadmico, e ele e Katherine tinham adquirido o hbito de se divertirem 
com aquelas disputas intelectuais de brincadeira.  
     Mais antigo do que Newton? A cabea de Katherine ento se encheu de nomes distantes como Ptolomeu, Pitgoras e Hermes Trismegisto. Ningum mais l essas coisas. 
     Seu irmo correu um dedo pela comprida prateleira de lombadas de couro rachadas e velhos volumes empoeirados.  
     - O conhecimento cientfico dos antigos era impressionante... S agora  que a fsica moderna est comeando a compreender tudo o que eles diziam.  - Peter 
- falou Katherine -, voc j me disse que os egpcios entenderam o funcionamento de alavancas e polias muito antes de Newton e que o trabalho dos primeiros alquimistas 
era comparvel  qumica moderna, mas e da? A fsica de hoje em dia lida com conceitos inconcebveis para os antigos.  
     - Como por exemplo...?    
     - Bom ... como a teoria do entrelaamento, por exemplo! - A pesquisa subatmica tinha provado categoricamente que toda matria estava interligada ... entrelaada 
em uma nica trama unificada ... uma espcie de unidade universal. - Voc est me dizendo que os antigos ficavam sentados conversando sobre a teoria do entrelaamento? 
     - Sem dvida! - disse Peter, afastando dos olhos a comprida franja escura. O entrelaamento estava no cerne das crenas primitivas. Seus nomes so to antigos 
quanto a histria... Dharmakaya, tao, brman. Na verdade, a mais antiga busca espiritual do homem era para perceber seu prprio entrelaamento,   sentir sua interconexo 
com todas as coisas. O homem sempre quis se tornar  "um" com o Universo... alcanar o estado de unio. - Seu irmo arqueou as sobrancelhas. - At hoje, judeus e 
cristos ainda buscam a redeno... embora a maioria de ns tenha se esquecido de que, na verdade, o que estamos buscando  a unio. 
     Katherine deu um suspiro, pois tinha se esquecido de como era difcil discutir com um homem to versado em histria.  
     - Tudo bem, mas voc est generalizando. Eu estou falando de fsica especfica.  
     - Ento seja especfica. - Os olhos dele agora a desafiavam.  
     - Tudo bem, que tal algo to simples quanto a polaridade... o equilbrio entre  positivo e negativo do universo subatmico.  bvio que os antigos no enten... 
     - Espere a! - Seu irmo puxou da estante um grande volume empoeirado, que deixou cair com um baque sobre a mesa da biblioteca. - A polaridade moderna nada 
mais  do que o "mundo dual" descrito por Krishna aqui no Bhagavad Gita mais de dois mil anos atrs. Uma dezena de outros livros desta biblioteca, incluindo o Caibalion, 
falam sobre sistemas binrios e foras opostas na natureza.  
     Katherine estava ctica.  
     - T, mas se falarmos das modernas descobertas subatmicas... do princpio da incerteza de Heisenberg, por exemplo...  
     - Nesse caso, devemos procurar aqui - disse Peter, avanando pela estante comprida e pegando outro livro. - As escrituras vdicas sagradas dos hindus conhecidas 
como Upanishads. - Ele deixou o volume cair pesadamente sobre o primeiro. - Heisenberg e Schrodinger estudaram este texto e lhe deram o crdito por t-los ajudado 
a formular algumas de suas teorias.
     A explicao prosseguiu por vrios minutos, e a pilha de livros empoeirados sobre a escrivaninha foi ficando cada vez mais alta. Por fim, Katherine jogou as 
mos para o alto, frustrada.  
     - T bom! Voc provou seu argumento, mas eu quero estudar fsica terica de ponta. O futuro da cincia! Duvido muito que Krishna ou Vyasa tivessem muita coisa 
a dizer sobre a teoria das supercordas e sobre modelos cosmolgicos multidimensionais.  
     - Tem razo. No tinham mesmo. - Seu irmo fez uma pausa, um sorriso cruzando seus lbios. - Se voc estiver falando em teoria das supercordas... - Ele tornou 
a se aproximar da estante. - Ento est se referindo a este livro aqui. - Ele sacou da prateleira um volume pesadssimo com encadernao em couro e deixou-o cair 
sobre a mesa com um estrondo. - Traduo do sculo XIII do aramaico medieval original.  
     - Teoria das supercordas no sculo XIII?! - Katherine no estava acreditando. - Faa-me o favor!  
     A teoria das supercordas era um modelo cosmolgico novinho em folha.  Baseado nas mais recentes observaes cientficas, ela sugeria que o universo multidimensional 
era constitudo no por trs... mas sim por dez dimenses, todas elas interagindo feito cordas vibratrias, parecidas com as cordas ressonantes de um violino.  
     Katherine aguardou enquanto o irmo abria o livro e examinava o sumrio impresso em letras floreadas, avanando em seguida at um trecho logo no incio. 
     - Leia isto aqui. - Ele apontou para uma pgina desbotada de texto e diagramas. 
     Obediente, Katherine analisou a pgina. A traduo era antiquada e difcil de ler, mas, para seu total espanto, o texto e os desenhos delineavam com clareza 
exatamente o mesmo universo descrito pela moderna teoria das supercordas - um universo de cordas ressonantes em 10 dimenses. Ento, ao avanar na leitura, ela de 
repente arquejou de espanto e recuou.  
     - Meu Deus, eles descrevem at como seis das dimenses esto entrelaadas e agem como uma s?! - E, dando um passo assustado para trs: - Mas que livro  este? 
     Seu irmo escancarou um sorriso.  
     - Um livro que espero que voc leia um dia. - Ele tornou a virar as pginas at a folha de rosto, onde um elaborado frontispcio impresso continha quatro palavras. 
     O Zohar - Verso Integral.  
     Embora Katherine nunca tivesse lido o Zohar, sabia que era o texto fundamental do misticismo judaico primitivo, outrora considerado to poderoso a ponto de 
ser reservado apenas para os rabinos mais eruditos.  
     Ela olhou de esguelha para o livro.  
     - Est me dizendo que os msticos primitivos sabiam que seu universo tinha 10 dimenses?  
     Claro. - Ele gesticulou para a ilustrao da pgina, 10 crculos entrelaados chamados Sephiroth. -  bvio que a nomenclatura  esotrica, mas a fsica  muito 
avanada.
     Katherine no soube como reagir.  
     - Mas ... ento por que mais pessoas no estudam isto aqui? Seu irmo sorriu.  
     - Elas vo estudar.  
     - No estou entendendo.  
     - Katherine, ns nascemos em uma poca maravilhosa. Uma mudana est  por vir. Os seres humanos esto no limiar de uma nova era em que vo comear a prestar 
novamente ateno na natureza e nos antigos costumes... nas idias contidas em livros como o Zohar e outros textos antigos do mundo todo. Toda verdade poderosa tem 
sua prpria fora da gravidade e, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabam atradas por ela. Vai chegar o dia em que a cincia moderna comear a estudar a srio 
o conhecimento dos antigos... e esse ser o dia em que a humanidade encontrar respostas para as grandes questes que ainda no compreende.  
     Naquela noite, Katherine comeou a ler com grande interesse os textos antigos do irmo e logo comeou a entender que ele tinha razo. Os antigos possuam um 
profundo conhecimento cientfico. A cincia atual no estava propriamente fazendo "descobertas", mas sim "redescobertas". Era como se a humanidade um dia tivesse 
compreendido a verdadeira natureza do Universo, mas a houvesse deixado escapar ... e cair no esquecimento.  
     A fsica moderna pode nos ajudar a lembrar! Essa busca havia se tornado a misso de Katherine na vida - usar a cincia avanada para redescobrir a sabedoria 
perdida dos antigos. O que a mantinha motivada era mais do que o entusiasmo acadmico. Por baixo de tudo isso havia sua convico de que o mundo precisava daquela 
compreenso ... agora mais do que nunca.  
     No fundo do laboratrio, Katherine viu o jaleco branco do irmo pendurado em um gancho ao lado do seu. Por reflexo, sacou o celular para ver se havia algum 
recado. Nada. Uma voz tornou a ecoar em sua lembrana. Aquilo que seu irmo acredita que est escondido na capital... pode ser encontrado. As vezes uma lenda que 
dura muitos sculos ... tem um motivo para durar.  
     - No - disse Katherine em voz alta. - No  possvel que seja real. 
     s vezes uma lenda no passava disso - uma lenda.   
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 16
     
     O chefe de polcia Trent Anderson voltou  Rotunda do Capitlio pisando firme, furioso com o fracasso de sua equipe. Um de seus homens havia acabado de encontrar, 
em um vo prximo ao prtico leste, uma tipia e um casaco militar.
     Aquele desgraado saiu daqui na maior!  
     Anderson j havia destacado equipes para examinar os vdeos externos, mas, quando encontrassem alguma coisa, aquele cara j teria sumido h muito tempo.  
     Ento, ao entrar na Rotunda para avaliar o estrago, Anderson viu que a situao havia sido controlada da melhor forma possvel. Todos os quatro acessos da Rotunda 
estavam bloqueados usando o mais discreto mtodo de controle de multides  disposio do servio de segurana: um cordo de veludo, um agente para pedir desculpas 
e uma placa dizendo SALA TEMPORARIAMENTE FECHADA PARA LIMPEZA. Cerca de 10 testemunhas estavam sendo agrupadas na ala leste do recinto, onde os guardas recolhiam 
celulares e cmeras fotogrficas. A ltima coisa de que Anderson precisava era que uma daquelas pessoas mandasse uma foto de celular para a CNN.  
     Uma das testemunhas detidas, um homem alto de cabelos escuros usando um palet de tweed, tentava se afastar do grupo para falar com o chefe. O homem estava 
agora envolvido em uma acalorada discusso com os seguranas.  
     - J vou at a falar com ele - disse Anderson aos seguranas. - Por enquanto, por favor, mantenham todo mundo no saguo principal at resolvermos esta situao. 
     Anderson voltou seu olhar para a mo em riste no meio do recinto. Pelo amor de Deus. Em seus 15 anos de trabalho na segurana do Capitlio, j vira algumas 
coisas estranhas. Mas nunca nada como aquilo.  
      melhor o pessoal da percia chegar logo e tirar esta coisa do meu prdio. 
     Anderson chegou mais perto e viu que o pulso ensangentado tinha sido preso em uma base de madeira com um prego para fazer a mo ficar em p. Madeira e carne, 
pensou. Invisvel para os detectores de metal. A nica grande pea metlica era um anel de ouro que Anderson sups ter passado pelo detector manual ou ter sido casualmente 
retirado do dedo morto pelo suspeito, como se fosse seu.  
     Anderson se agachou para examinar a mo. Ela parecia ter pertencido a um homem de uns 60 anos. O anel tinha uma espcie de braso ornamentado com  uma ave de 
duas cabeas e o nmero 33. Anderson no o reconheceu. O que realmente chamou sua ateno foram as pequeninas tatuagens nas pontas do polegar e do indicador.  
     Que coisa de maluco.  
     - Chefe? - Um dos agentes se aproximou depressa, estendendo um telefone.  - Ligao pessoal para o senhor. A central de segurana acabou de transferir.  
     Anderson olhou para o homem como se ele tivesse enlouquecido. 
     - Estou ocupado - rosnou.  
     O rosto do segurana estava plido. Ele tapou o fone e sussurrou. -  a CIA.  
     Anderson no acreditou no que estava escutando. A CIA j est sabendo disso? 
     -  o Escritrio de Segurana deles.  
     Anderson retesou os msculos. Puta merda. Olhou de relance, pouco  vontade, para o telefone na mo do subordinado.  
     No vasto oceano das agncias de inteligncia de Washington, o Escritrio de Segurana da CIA era uma espcie de Tringulo das Bermudas - uma regio misteriosa 
e traioeira da qual todos mantinham distncia sempre que possvel. Com uma misso aparentemente autodestrutiva, o ES havia sido criado pela CIA com uma estranha 
finalidade: espionar a prpria agncia. Como uma poderosa corregedoria interna, monitorava todos os seus funcionrios para detectar comportamentos ilcitos: desvio 
de fundos, venda de segredos, roubo de tecnologias confidenciais e uso de tticas ilegais de tortura, entre outros.  
     Eles espionam os espies dos Estados Unidos.  
     Com carta branca para investigar qualquer questo ligada  segurana nacional, o ES tinha um poder de longo alcance. Anderson no conseguia imaginar por que 
eles se interessariam por aquele incidente no Capitlio, nem como tinham ficado sabendo to rpido dele. Segundo os boatos, porm, o escritrio tinha olhos por toda 
parte. At onde Anderson sabia, era possvel que eles recebessem uma transmisso direta das cmeras de segurana do Capitlio. Aquele incidente no se encaixava 
de forma alguma nas diretrizes do ES, mas seria muita coincidncia ele receber um telefonema da CIA naquele momento sobre qualquer outro assunto que no fosse a 
mo cortada.  
     - Chefe? - O segurana lhe estendia o telefone como se fosse uma batata quente. - O senhor precisa atender agora... ... - Ele fez uma pausa e articulou silenciosamente 
duas slabas. - SA-TO.  
     Anderson apertou os olhos e encarou o homem com intensidade. Voc s pode estar de brincadeira. Sentiu as palmas das mos comearem a suar. Sato est cuidando 
disso pessoalmente?   
     Inoue Sato, a autoridade suprema do Escritrio de Segurana, que ocupava  cargo de direo do rgo, era uma lenda na comunidade de inteligncia. Depois de 
ter nascido entre as grades de um campo de concentrao japons em Manzanar, na Califrnia, aps o ataque a Pearl Harbor, Sato, como todo sobrevivente, jamais esquecera 
os horrores da guerra, tampouco os perigos de uma inteligncia militar deficiente. Agora que ocupava um dos cargos mais secretos e poderosos do servio de inteligncia 
norte-americano, se revelara de um patriotismo incondicional. Era um inimigo aterrorizante para qualquer oponente. Suas aparies eram raras, e o temor que provocavam, 
universal. Sato singrava as guas profundas da CIA como um leviat que s subia  superfcie para devorar sua presa.  
     Anderson s havia encontrado Inoue Sato pessoalmente uma vez, e a lembrana de encarar aqueles frios olhos negros bastou para que ficasse grato por s terem 
que se falar ao telefone.  
     Ele pegou o aparelho e levou-o  boca.  
     - Al - atendeu com a voz mais simptica possvel. - Aqui  o chefe Anderson. Como posso...  
     - Preciso falar agora mesmo com um homem que est a no seu prdio. - A voz da autoridade mxima do ES era inconfundvel: parecia cascalho arranhando um quadro-negro. 
Uma operao para retirar um cncer na garganta tinha deixado Sato com um tom de voz profundamente perturbador, alm de uma cicatriz repulsiva no pescoo. - Quero 
que voc o encontre para mim imediatamente.  
     S isso? Quer que eu chame algum? Anderson se sentiu subitamente esperanoso, pensando que talvez aquela ligao fosse pura coincidncia.  
     - Quem  a pessoa que est procurando?  
     - O nome dele  Robert Langdon. Acho que est a dentro do seu prdio  neste momento.  
     Langdon? O nome parecia vagamente conhecido, mas Anderson no lembrava exatamente de onde. Ele comeou a se perguntar se a CIA sabia sobre a mo. 
     - Eu estou na Rotunda agora - disse ele -, e h alguns turistas aqui... Espere um instante. - Ele abaixou o telefone e gritou na direo do grupo: - Pessoal, 
tem algum aqui chamado Langdon?  
     Aps um breve silncio, uma voz grave respondeu do meio dos turistas. 
     - Sim. Eu sou Robert Langdon.  
     Sato sabe de tudo. Anderson esticou o pescoo para tentar ver quem tinha se identificado.  
     O mesmo homem que tentara falar com de havia alguns minutos se afastou dos outros. Ele parecia abalado... mas, de certa forma, lhe era familiar.   
     Anderson ergueu o telefone at a boca. 
     - Sim, o Sr. Langdon est aqui.  
     - Passe o telefone para ele - ordenou Sato com sua voz spera.
     O chefe de polcia soltou o ar preso nos pulmes. Antes ele do que eu. 
     - Um instante. - Ele acenou para Langdon se aproximar. 
     Enquanto Langdon chegava mais perto, Anderson percebeu de repente por que o nome soava conhecido. Eu acabei de ler um artigo sobre esse cara. O que ele est 
fazendo aqui?
     Embora Robert Langdon tivesse 1,83m e porte atltico, Anderson no viu nem sinal da atitude fria e dura que esperava de um homem que havia sobrevivido a uma 
exploso no Vaticano e a uma caada humana em Paris. Esse cara escapou da polcia francesa... de sapato social? Ele parecia mais algum que se esperaria encontrar 
lendo Dostoievski ao lado da lareira da biblioteca de alguma das universidades de elite do pas.  
     - Sr. Langdon? - disse Anderson, adiantando-se para receb-lo. - Sou o chefe  de polcia do Capitlio. Eu cuido da segurana aqui. Telefone para o senhor. 
     - Para mim? - Os olhos azuis do professor pareciam aflitos e hesitantes. 
     Anderson estendeu o telefone.  
     -  do Escritrio de Segurana da CIA.  
     - Nunca ouvi falar.  
     Anderson deu um sorriso sombrio. 
     - Bom, eles ouviram falar no senhor. 
     Langdon levou o fone ao ouvido.  
     - Sim?  
     - Robert Langdon? - A voz spera de Sato irrompeu do pequeno fone, alta  o suficiente para Anderson conseguir escutar. 
     - Sim? - respondeu Langdon.  
     O chefe de polcia se aproximou um passo para ouvir o que Sato dizia.  
     - Aqui  Inoue Sato, Sr. Langdon, do Escritrio de Segurana da CIA. Estou administrando uma crise neste exato momento e acredito que o senhor tenha informaes 
que podem me ajudar.  
     Uma expresso esperanosa atravessou o semblante de Langdon.  
     - Isso tem relao com Peter Solomon? Vocs sabem onde ele est? 
     Peter Solomon? Anderson no estava entendendo absolutamente nada.  
     - Professor - retrucou Sato -, quem est fazendo as perguntas agora sou eu.  
     - Peter Solomon est correndo srio perigo - exclamou Langdon. - Algum  louco acaba de...  
     - Com licena - disse Sato, interrompendo-o.   
     Anderson se encolheu. Ele est brincando com fogo. Interromper o interrogatrio de um alto funcionrio da CIA era um erro que apenas um civil podia cometer. 
Pensei que esse Langdon fosse um cara esperto.  
     - Oua com ateno - disse Inoue Sato. - Neste exato momento, enquanto estamos tendo esta conversa, este pas est diante de uma crise. Fiquei sabendo que o 
senhor tem informaes que podem me ajudar a evit-la. Agora vou perguntar de novo. Que informaes o senhor possui?
     Langdon parecia perdido.  
     - Eu no tenho a menor idia de que histria  essa. Minha nica preocupao  encontrar Peter e...  
     - A menor idia? - indagou Sato em tom desafiador.
     Anderson viu Langdon se eriar. O professor ento adotou um tom mais agressivo.  
     - No, senhor. No fao a mnima idia.  
     Anderson se encolheu novamente. Errado. Errado. Errado. Robert Langdon havia acabado de cometer um erro muito grave ao lidar com Sato.  
     Infelizmente, Anderson percebeu que era tarde demais. Para seu espanto, Inoue Sato havia acabado de aparecer do outro lado da Rotunda, aproximando-se depressa 
por trs de Langdon. Sato est aqui no prdio! O chefe de polcia prendeu a respirao e se preparou para o impacto. Langdon no faz li menor idia do que isso significa. 
     O vulto de Sato foi chegando mais perto, com o telefone colado ao ouvido, os olhos negros grudados como dois feixes de raio laser nas costas de Langdon.  
     
     Langdon apertou com fora o telefone do chefe de polcia, sentindo-se cada vez mais frustrado  medida que Sato o pressionava.  
     - Sinto muito, senhor - disse ele, lacnico -, mas eu no sou capaz de ler os seus pensamentos. O que o senhor quer de mim?  
     - O que eu quero do senhor? - A voz rascante chiou no telefone de Langdon, spera e cavernosa, como a de um moribundo com a garganta inflamada.  
     Enquanto o homem falava, Langdon sentiu algum lhe cutucar o ombro.  Deu meia-volta e seus olhos foram atrados para baixo... parando bem no rosto de uma japonesa 
baixinha. A mulher tinha uma expresso feroz, a tez marcada, cabelos ralos, dentes manchados de nicotina e uma perturbadora cicatriz branca que cortava seu pescoo 
na horizontal. Sua mo encarquilhada segurava um celular junto  orelha e, quando seus lbios se moveram, Langdon escutou aquela mesma voz rascante sair do seu prprio 
celular.      
     - O que eu quero do senhor, professor? - Ela fechou o telefone com calma e o  fuzilou com os olhos. - Para comear, poderia parar de me chamar de "senhor". 
     Langdon a encarou, morrendo de vergonha.  
     - Minha senhora, eu ... me desculpe. A nossa ligao estava ruim e...  
     - A nossa ligao estava perfeita, professor - disse ela. - E eu tenho uma tolerncia extremamente baixa para desculpas esfarrapadas.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 17
     
     A diretora Inoue Sato era um espcime temvel - uma tempestade violenta em forma de mulher com apenas 1,47m de altura. Era esqueltica, tinha os traos irregulares 
e uma doena de pele conhecida como vitiligo, que dava  sua tez o aspecto manchado de um bloco spero de granito coberto por placas de lquen. Seu terninho azul 
amarrotado pendia do corpo macilento como um saco frouxo, e a camisa de colarinho aberto nada fazia para esconder a cicatriz do pescoo. Seus colegas de trabalho 
j haviam reparado que a nica concesso de Sato  vaidade fsica parecia ser depilar com uma pina seu copioso buo.  
     Fazia mais de uma dcada que Inoue Sato supervisionava o Escritrio de Segurana da CIA. Seu QI era muito acima da mdia e seus instintos tinham uma preciso 
assustadora, combinao que lhe conferia uma segurana que a tornava aterrorizante para qualquer pessoa incapaz de realizar o impossvel. Nem mesmo o diagnstico 
de um cncer de garganta agressivo em estgio terminal a havia derrubado. A batalha lhe custara um ms de trabalho, metade da laringe e um tero do peso, mas ela 
voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Inoue Sato parecia indestrutvel.  
     Robert Langdon desconfiava que provavelmente no era o primeiro a confundir Sato com um homem ao telefone, mas a diretora ainda o fuzilava com seus olhos negros 
abrasadores.  
     - Mais uma vez queira me desculpar, senhora - disse Langdon. - Ainda estou tentando me situar aqui ... A pessoa que diz estar com Peter Solomon me enganou para 
me fazer vir a Washington hoje  noite. - Ele tirou o fax do palet. - Foi isto aqui que ele me enviou mais cedo. Eu anotei o nmero do jatinho que ele mandou para 
me buscar, ento quem sabe a senhora no poderia ligar para a Agncia Nacional de Aviao e rastrear o... 
     A diminuta mo de Sato deu um bote para agarrar o pedao de papel. Ela o enfiou no bolso sem sequer abri-lo.  
     - Professor, quem est no comando desta investigao sou eu e, at o senhor comear a me dizer o que quero saber, sugiro que no fale a menos que algum lhe 
dirija a palavra.  
     Sato ento se virou para o chefe de polcia.  
     - Chefe Anderson - falou ela, chegando perto demais e erguendo para ele os olhinhos negros -, pode fazer a gentileza de me dizer que diabos est acontecendo 
aqui? O segurana no porto leste me disse que vocs encontraram uma mo humana no cho.  verdade?  
     Anderson deu um passo para o lado e revelou o objeto no meio do piso. 
     - Sim, senhora, faz poucos minutos.  
     Ela olhou de relance para a mo como se no passasse de uma pea de roupa  esquecida.  
     - E mesmo assim o senhor no me disse nada quando eu liguei?  
     - Eu ... eu pensei que a senhora soubesse.  
     - No minta para mim.  
     Anderson murchou diante do olhar dela, mas sua voz permaneceu firme. 
     - Senhora, a situao aqui est sob controle.  
     - Duvido muito que isso seja verdade - disse Sato com a voz igualmente firme.  
     - Uma equipe de criminalstica est a caminho. Quem fez isso pode ter deixado impresses digitais.  
     Sato fez cara de ctica.  
     - Acho que uma pessoa esperta o suficiente para passar pelo seu controle de segurana com a mo cortada de algum provavelmente  esperta o suficiente para 
no deixar impresses digitais.  
     - Pode ser, mas tenho a responsabilidade de investigar.  
     - Na verdade, voc est dispensado dessa responsabilidade a partir de agora.  Eu estou assumindo o caso.  
     Anderson se retesou.  
     - Isto aqui no  exatamente da competncia do ES, ?  
     - Sem dvida que sim. Esta  uma questo de segurana nacional.  
     A mo de Peter?, perguntou-se Langdon, que assistia  conversa atnito.  Segurana nacional. Ele sentia que seu objetivo de encontrar Peter o mais rpido possvel 
no era compartilhado por Sato. A diretora do ES parecia estar com uma idia totalmente diferente na cabea.  
     Anderson tambm parecia intrigado.  
     - Segurana nacional? Com todo o respeito, senhora...       
     - At onde eu sei - interrompeu ela -, o meu cargo  superior ao seu. Sugiro que faa exatamente o que eu disser, sem questionar nada.  
     O chefe de polcia aquiesceu e engoliu em seco.  
     - Mas no deveramos pelo menos tirar as digitais dos dedos para confirmar que a mo pertence a Peter Solomon?  
     - Eu confirmo - disse Langdon, sentindo uma certeza nauseante. - Reconheo o anel... e a mo dele. - Ele fez uma pausa. - Mas as tatuagens so novas. Algum 
fez isso com ele recentemente.  
     - Como disse? - Pela primeira vez desde sua chegada, a diretora pareceu perturbada. - A mo est tatuada?  
     Langdon assentiu.  - O polegar tem uma coroa. E o indicador, uma estrela.  
     Sato sacou seus culos e caminhou at a mo, rodeando-a feito um tubaro. 
     - Alm disso - disse Langdon -, embora no d para ver os outros trs dedos,  tenho certeza de que eles tambm vo estar com as pontas tatuadas.  
     Sato pareceu intrigada com a observao e gesticulou para Anderson se aproximar.  
     - Chefe, pode dar uma olhada nos outros dedos para ns, por favor? 
     Anderson se agachou ao lado da mo, tomando cuidado para no tocar nela.  Aproximou a bochecha do cho e examinou a parte de baixo dos dedos fechados. 
     - Ele tem razo, diretora. Todos os dedos esto tatuados, mas no estou conseguindo ver muito bem o que os outros...  
     - Um sol, uma lamparina e uma chave - disse Langdon em tom neutro. 
     Sato ficou de frente para Langdon, avaliando-o com os olhos midos.  
     - E como  que o senhor pode saber isso?  
     Langdon retribuiu seu olhar.  
     - A imagem da mo humana marcada dessa forma nas pontas dos dedos   um cone muito antigo.  conhecida como "a Mo dos Mistrios".  
     Anderson se levantou abruptamente. 
     - Esta coisa tem nome?  
     Langdon aquiesceu.  
     -  um dos cones mais secretos do mundo antigo. 
     Sato entortou a cabea.  
     - Ento posso perguntar que raios isso est fazendo no meio do Capitlio  dos Estados Unidos?  
     Langdon desejou poder acordar daquele pesadelo.  
     - Tradicionalmente, minha senhora, a mo era usada como um convite.  
     - Um convite... para qu? - quis saber ela.   
     Ele baixou os olhos para os smbolos tatuados na mo cortada do amigo.  
     - Durante sculos, a Mo dos Mistrios representou uma convocao mstica. Basicamente, ela  um convite para receber conhecimentos sagrados, um saber protegido 
a que apenas uma pequena elite tinha acesso.  
     Sato cruzou os braos finos e ergueu para ele os olhos negros feito carvo. 
     - Bem, professor, para algum que alega no ter a menor idia do que est fazendo aqui... o senhor est se saindo muito bem at agora.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 18
     
     Katherine Solomon vestiu o jaleco branco e comeou sua habitual rotina de chegada - sua "ronda", como dizia o irmo.
     Como uma me nervosa conferindo o sono de um beb, Katherine espichou a cabea para dentro da sala de mquinas. O gerador de hidrognio estava funcionando bem, 
com os tanques de reserva aninhados em segurana nos suportes. 
     Katherine prosseguiu pelo corredor at a sala de armazenamento de dados.  Como sempre, as duas unidades hologrficas redundantes de backup emitiam um zumbido 
reconfortante dentro de seu compartimento com temperatura controlada. Toda a minha pesquisa, pensou ela, olhando atravs do vidro de segurana de 7,5 centmetros 
de espessura. Os dispositivos de armazenamento hologrfico de dados, ao contrrio de seus antepassados do tamanho de geladeiras, pareciam mais os elegantes componentes 
de um aparelho de som, cada qual empoleirado em um pedestal em forma de coluna.  
     Os dois drives hologrficos do laboratrio eram sincronizados e idnticos funcionavam como backups redundantes para salvar cpias iguais de seu trabalho. A 
maioria dos protocolos de armazenamento de dados recomendava um segundo sistema de backup que fosse externo ao local, para o caso de haver um terremoto, um incndio 
ou um roubo, mas Katherine e o irmo haviam concordado que a confidencialidade era de suma importncia; se aqueles dados sassem dali para um servidor externo, eles 
no poderiam mais ter certeza de que continuariam secretos. 
     Convencida de que tudo estava correndo bem ali, ela voltou pelo corredor.  Ao fazer a curva, porm, viu algo inesperado do outro lado do laboratrio. Mas o 
que  isso? Um brilho difuso emanava de todo o equipamento. Ela se apressou para examin-lo, surpresa ao ver luz saindo de trs da divisria de plexiglas da sala 
de controle.  Ele est aqui. Katherine atravessou voando o laboratrio, chegou  porta da  sala de controle e a abriu.  
     - Peter! - disse, entrando s pressas.  
     A moa gorducha diante do terminal da sala de controle se sobressaltou. 
     - Ai, meu Deus! Katherine! Que susto voc me deu!  
     Trish Dunne - a nica outra pessoa na face da Terra com permisso para entrar ali - era a analista de metassistemas de Katherine e raramente trabalhava nos 
fins de semana. A ruiva de 26 anos era um gnio em elaborao de modelos de dados e havia assinado um contrato de confidencialidade digno da KGB. Naquela noite, 
estava aparentemente analisando dados no telo de plasma que cobria a parede da sala de controle - um imenso monitor que parecia ter sado do centro de controle 
de misses da NASA.  
     - Desculpe - disse Trish. - Eu no sabia que voc j tinha chegado. Estava  tentando terminar antes de voc e seu irmo se reunirem.  
     - Voc falou com ele? Ele est atrasado e no atende o celular. Trish fez que no com a cabea.  
     - Aposto que ele ainda est tentando descobrir como usar o iPhone novo que voc deu para ele.  
     Katherine gostava do bom humor de Trish e a presena da ruiva ali acabara de lhe dar uma idia.  
     - Na verdade, que bom que voc est aqui hoje. Talvez possa me ajudar com  uma coisinha, se no se importar.  
     - Seja o que for, tenho certeza de que  melhor do que futebol. 
     Katherine respirou fundo, acalmando a prpria mente.  
     - No sei muito bem como explicar isso, mas hoje mais cedo ouvi uma histria estranha... 
     
     Trish Dunne no sabia que histria Katherine Solomon tinha escutado, mas algo a deixara claramente nervosa. Os olhos cinzentos geralmente calmos de sua chefe 
pareciam ansiosos, e ela j havia ajeitado os cabelos atrs das orelhas trs vezes desde que entrara na sala - um sinal de nervosismo, como Trish costumava dizer. 
Cientista brilhante. Pssima jogadora de pquer.  
     - Para mim - disse Katherine -, essa histria parece inventada... tipo uma lenda antiga. Mas ... - Ela fez uma pausa, arrumando outra vez uma mecha atrs da 
orelha.   
     - Mas...? 
     Katherine deu um suspiro. 
     - Mas hoje uma fonte segura me disse que a lenda  verdadeira.  
     - Certo... - Aonde ela quer chegar com isso?  
     - Vou conversar com meu irmo a respeito, mas antes disso talvez voc possa  me ajudar a lanar alguma luz sobre a questo. Adoraria saber se essa lenda foi 
corroborada em algum momento da histria. 
     - De toda a histria?
     Katherine assentiu. 
     - Em qualquer lugar do mundo, em qualquer idioma, em qualquer momento da histria.  
     Um pedido estranho, pensou Trish, mas com certeza factvel. Dez anos antes, a tarefa teria sido impossveL Atualmente, porm, com a internet, a rede mundial 
de computadores e a crescente digitalizao de grandes bibliotecas e museus do mundo, o objetivo de Katherine podia ser alcanado usando uma ferramenta de busca 
relativamente simples equipada com um exrcito de mdulos de traduo e algumas palavras-chave bem escolhidas.  
     - Sem problemas - disse Trish. Muitos dos livros de referncia da biblioteca do laboratrio continham trechos em lnguas antigas, de modo que ela vrias vezes 
precisava elaborar mdulos de traduo especficos com base em Reconhecimento tico de Caracteres, ou OCR, para gerar textos em ingls a partir de lnguas obscuras. 
Ela devia ser a nica especialista em metas sistemas do mundo a ter elaborado mdulos desse tipo em frsio antigo, maek e acdio. 
     Os mdulos iriam ajudar, mas o segredo para construir um agente de busca - ou web spider - eficaz era escolher as palavras-chave certas. Especficas, mas no 
excessivamente restritivas.  
     Katherine parecia estar um passo  frente de Trish, pois j estava anotando algumas palavras em um pedao de papel. Depois de anotar vrias, parou, pensou alguns 
instantes e incluiu outras.  
     - Pronto - disse por fim, entregando o papel a Trish.  
     Trish percorreu rapidamente a lista de strings a serem buscados, e seus olhos se arregalaram ao ver as seqncias de caracteres. Que tipo de lenda maluca Katherine 
est investigando?  
     - Voc quer procurar todas essas expresses-chave? - Uma das palavras Trish nem reconheceu. Meu Deus, que lngua  essa? - Acha que vamos encontrar tudo isso 
em um lugar s? Ipsis litteris?  
     - Eu gostaria de tentar.  
     Trish teria dito impossvel, mas a palavra que comeava com i era proibida ali dentro. Katherine considerava esse tipo de mentalidade perigosa numa disciplina 
que muitas vezes transformava falsos pressupostos em verdades confirmadas. Trish Dunne duvidava seriamente que aquela busca fosse entrar nessa categoria.  
     - Quanto tempo at termos os resultados? - perguntou Katherine.  
     - Alguns minutos para programar o spider e disparar a pesquisa. Depois  disso, talvez uns 15 para ele concluir a busca.  
     - Rpido assim? - Katherine parecia animada.  
     Trish aquiesceu. As ferramentas de busca convencionais muitas vezes levavam um dia inteiro para se arrastarem por todo o universo on-line, encontrar  novos 
documentos, digerir seu contedo e inclu-los na base de dados da pesquisa. Mas Trish no iria programar algo simples assim.  
     - Vou escrever um programa chamado delegador - explicou Trish. - No  l muito catlico, mas  rpido. Essencialmente,  um software que coloca as ferramentas 
de busca de outras pessoas para fazer o nosso trabalho. A maioria das bases de dados tem uma funo de busca embutida... bibliotecas, museus, universidades, governos. 
Ento eu vou programar um spider que encontra as ferramentas de busca deles, insere as palavras-chave que voc me deu e pede que eles faam a pesquisa. Assim, ns 
aproveitamos a capacidade de milhares de ferramentas e fazemos com que elas trabalhem simultaneamente.  
     Katherine parecia impressionada. 
     - Processamento paralelo.  
     Uma espcie de metassistema.  
     - Eu chamo voc se encontrar alguma coisa.  
     - Obrigada, Trish. - Katherine afagou-lhe as costas e se encaminhou para a  porta. - Vou estar na biblioteca.  
     Trish comeou a escrever o programa. Codificar um spider de busca era uma tarefa menor, bem abaixo de seu nvel de competncia, mas ela no ligava para isso. 
Faria qualquer coisa por Katherine Solomon. s vezes, Trish ainda no conseguia acreditar na sorte que a levara at ali.  
     Voc foi mais longe do que imaginava, garota.  
     Pouco mais de um ano antes, Trish havia deixado seu emprego como analista de metas sistemas em uma das grandes empresas impessoais da indstria de alta tecnologia. 
Nas horas vagas, trabalhava como programadora freelance e criou um blog sobre a indstria - "Futuras Aplicaes em Anlise Computacional de Metassistemas" -, embora 
tivesse dvidas de que algum o lesse. Ento, certa noite, seu telefone tocou. 
     - Trish Dunne? - indagou uma voz educada de mulher.   
     - Sim, sou eu. Quem est falando?  
     - Meu nome  Katherine Solomon.  
     Trish quase desmaiou ali mesmo. Katherine Solomon?  
     - Eu acabei de ler o seu livro, Cincia Notica: Portal Moderno para o Conhecimento Antigo. At escrevi sobre ele no meu blog!  
     - , eu sei - devolveu a mulher em tom corts. -  por isso que eu estou ligando.  
      claro que  por isso, percebeu Trish, sentindo-se uma boba. Mesmo os cientistas mais brilhantes pesquisam o prprio nome no Google .  
     - Achei seu blog intrigante - disse-lhe Katherine. - Eu no sabia que os modelos de metassistemas tinham avanado tanto.  
     - Pode crer que sim - conseguiu responder Trish, fascinada por estar falando com Katherine. - Os modelos de dados so uma tecnologia em franca expanso que 
pode ser aplicada a diversas reas.  
     As duas mulheres passaram vrios minutos conversando sobre o trabalho de Trish com metassistemas, falando sobre sua experincia de analisar, criar modelos e 
prever o fluxo de imensos campos de dados.  
     -  claro que o seu livro  avanado demais para mim - disse Trish -, mas eu entendi o suficiente para ver uma interseo com meu trabalho sobre metassistemas. 
     - Voc diz no seu blog que os modelos de metas sistemas podem transformar o estudo da notica?  
     - Com certeza. Eu acredito que os metassistemas poderiam transformar a notica em uma cincia de verdade.  
     - Cincia de verdade? - O tom de Katherine ficou um pouco mais duro. - Ao  contrrio de...?  
     Ai, merda, que fora!  
     - H... o que eu quis dizer foi que a notica  mais... esotrica.
     Katherine deu uma risada.  
     - Relaxe, estou brincando. Ouo isso o tempo todo.  
     No  de espantar, pensou Trish. At mesmo o Instituto de Cincias Noticas da Califrnia descrevia a disciplina em uma linguagem misteriosa e difcil de entender, 
definindo-a como o estudo do "acesso direto e imediato por parte da humanidade ao conhecimento alm daquele disponvel aos nossos sentidos normais e ao poder da 
razo".  
     A palavra notico, como Trish havia descoberto, vinha do grego antigo nous - que podia ser traduzido aproximadamente como "conhecimento interno" ou "conscincia 
intuitiva".    
     - Tenho interesse no seu trabalho com metassistemas - disse Katherine - e em como ele pode se relacionar com um projeto no qual estou trabalhando. Voc por 
acaso estaria disposta a me encontrar? Eu adoraria lhe fazer algumas perguntas.
     Katherine Solomon quer me jazer umas perguntas? Era como se Maria Sharapova tivesse lhe telefonado pedindo dicas sobre tnis.  
     No dia seguinte, um Volvo branco parou em frente  sua casa e uma mulher atraente e esguia usando uma cala jeans saltou do carro. Trish na mesma hora se sentiu 
com meio metro de altura. Que maravilha, resmungou consigo mesma. Inteligente, rica e magra - e eu ainda devo acreditar que Deus  bom? Mas o jeito  despretensioso 
de Katherine logo a deixou  vontade.  
     As duas se acomodaram na imensa varanda dos fundos de Trish com vista para a propriedade de tamanho impressionante.  
     - Sua casa  incrvel- comentou Katherine.  
     - Obrigada. Tive sorte na faculdade e vendi a licena de um software que  tinha desenvolvido.  
     - Relacionado com metassistemas?  
     - Um precursor dos metassistemas. Depois do 11 de Setembro, o governo  comeou a interceptar e analisar imensos campos de dados: e-mails de civis, ligaes 
de celular, faxes, mensagens de texto, sites na internet, tudo "em busca de palavras-chave ligadas a comunicaes entre terroristas. Ento eu desenvolvi um software 
que lhes permitia processar seu campo de dados de uma segunda forma, extraindo dele um outro produto de inteligncia. - Ela sorriu. - Basicamente, o meu software 
lhes permite medir a temperatura dos Estados Unidos.  
     - Como assim? 
     Trish riu.  - , eu sei que parece loucura. O que estou querendo dizer  que ele quantifica o estado emocional do pas. Proporciona uma espcie de barmetro 
da conscincia csmica, se preferir. - Trish explicou como, usando um campo de dados constitudo pelas comunicaes do pas, era possvel avaliar o humor da nao 
com base na "densidade de ocorrncia" de determinadas palavras-chave e indicadores emocionais no campo de dados. pocas mais felizes tinham uma linguagem mais feliz, 
e pocas de estresse tinham uma linguagem mais estressada. Em caso de atentado terrorista, por exemplo, o governo poderia usar os campos de dados para estimar a 
mudana na psique dos Estados Unidos e informar melhor  presidente sobre o impacto emocional do acontecimento.  
     - Fascinante - comentou Katherine acariciando o queixo. - Ento voc est basicamente examinando uma populao de indivduos... como se eles fossem um organismo 
nico.   
     - Exato. Um metassistema. Uma entidade nica definida pela soma de suas partes. O corpo humano, por exemplo,  constitudo por milhes de clulas individuais, 
cada qual com atribuies e finalidades diferentes, mas funciona como uma entidade nica.  
     Katherine aquiesceu, animada.  
     - Como um bando de pssaros ou um cardume que se move como se fosse uma coisa s. Ns chamamos isso de convergncia ou de entrelaamento.  Trish sentiu que 
sua convidada famosa estava comeando a perceber o potencial da programao de metassistemas e sua aplicabilidade no campo da cincia no tica.  
     - O meu software - explicou Trish - foi criado para ajudar as agncias governamentais a avaliar melhor e reagir de maneira apropriada a crises em grande escala: 
pandemias, tragdias nacionais, terrorismo, esse tipo de coisa. - Ela fez uma pausa. -  claro que nada impede que ele possa ser usado para outras coisas... talvez 
para capturar o estado de esprito do pas em um dado momento e prever o desfecho de uma eleio presidencial ou a direo em que o mercado de aes vai oscilar 
quando o prego abrir.  
     - Parece uma ferramenta poderosa. 
     Trish fez um gesto indicando sua casa. 
     - O governo, pelo menos, achou.  
     Ento, os olhos cinzentos de Katherine se fixaram em Trish.  
     - Voc se importa que eu pergunte sobre o dilema tico gerado pelo seu trabalho?  
     - Como assim?  
     - Quer dizer, voc criou um software que pode facilmente ser usado para  fins escusos. Quem quer que o detenha possui acesso a informaes poderosas que no 
esto disponveis para todo mundo. Voc no ficou preocupada ao cri-lo?  
     Trish sequer pestanejou.  
     - De jeito nenhum. O meu software no  diferente de, digamos, um simulador de vo. Alguns vo us-lo como treino para misses areas de primeiros socorros 
em pases subdesenvolvidos. Outros para aprender a jogar avies de passageiros contra arranha-cus. O conhecimento  uma ferramenta e, como todas as ferramentas, 
seu impacto est nas mos do usurio.  
     Katherine se recostou na cadeira, parecendo impressionada. 
     - Ento deixe-me lhe fazer uma pergunta hipottica.  
     De repente, Trish percebeu que a conversa havia se transformado em uma entrevista de emprego. 
     Katherine estendeu o brao e recolheu um minsculo gro de areia do piso da varanda, erguendo-o para Trish ver.  
     - O que me parece - disse ela -  que, basicamente, seu trabalho sobre metassistemas permite calcular o peso de toda a areia de uma praia, pesando um gro de 
cada vez.  
     - Basicamente,  isso mesmo.  
     - Como voc sabe, este grozinho de areia tem uma massa. Muito pequena,  mas mesmo assim uma massa.          
     Trish aquiesceu.         
     - E justamente pelo fato de este gro de areia ter uma massa, ele exerce uma fora de gravidade. Ela tambm  pequena demais para ser sentida, mas existe. 
     - Certo.  
     - Ento - disse Katherine -, se ns pegarmos trilhes de gros de areia como  este e deixarmos que atraiam uns aos outros para formar, digamos, a lua, a fora 
de gravidade combinada deles ser suficiente para mover oceanos inteiros e fazer subir e descer as mars por todo o nosso planeta.  
     Trish no sabia aonde Katherine pretendia chegar, mas estava gostando do que ouvia.  
     - Ento vamos elaborar uma hiptese - falou Katherine, descartando o gro de areia. - E se eu dissesse a voc que um pensamento, qualquer idia minscula que 
se forme na sua mente, possui uma massa? E se eu lhe dissesse que um pensamento  uma coisa de verdade, uma entidade mensurvel, com uma massa mensurvel? Minscula, 
 claro, mas ainda assim uma massa. Quais seriam as implicaes disso?  
     - Hipoteticamente falando? Bem, as implicaes bvias seriam: se um pensamento tem massa, ento ele exerce uma fora de gravidade e pode atrair coisas para 
si.  
     Katherine sorriu.  
     - Voc  boa. Agora avance mais um passo. O que acontece se muitas pessoas comeam a se concentrar no mesmo pensamento? Todas as ocorrncias desse mesmo pensamento 
passam a se consolidar em uma s, e a massa acumulada dele comea a aumentar. Portanto, sua gravidade aumenta.  
     - Certo.  - O que significa que... se um nmero suficiente de pessoas comear a pensar a mesma coisa, ento a fora gravitacional dessa idia se torna tangvel 
e exerce uma fora de verdade. - Katherine deu uma piscadela. - E ela pode ter um efeito mensurvel no nosso mundo fsico.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
       
     CAPTULO 19
     
     A diretora Inoue Sato estava em p, de braos cruzados, olhando com ceticismo para Langdon enquanto processava o que ele havia acabado de lhe dizer.  
     - Ele disse que quer que o senhor destranque um antigo portal? O que  que eu fao com essa informao, professor? 
     Langdon deu de ombros, desanimado. Estava se sentindo mal novamente e tentou no baixar os olhos para a mo cortada do amigo.  
     - Foi exatamente isso que ele me falou. Um antigo portal... escondido em algum lugar na cidade, acho que neste prdio. Eu disse a ele que no sabia de portal 
nenhum.  
     - Ento por que  que ele acha que o senhor pode encontr-lo?  
     - Evidentemente ele  louco. - Ele disse que Peter iria apontar o caminho.  Langdon baixou o olhar para o dedo esticado de Peter, sentindo-se novamente enojado 
pelo sdico jogo de palavras de seu captor. Peter apontar o caminho. Langdon j havia permitido que seus olhos seguissem a direo do dedo, que indicava a cpula. 
Um portal? L em cima? Loucura.  
     - Esse homem que me ligou - disse Langdon a Sato -  a nica pessoa que sabia que eu estaria no Capitlio hoje  noite, ento, quem quer que tenha informado 
 senhora que eu estava aqui  o principal suspeito. Eu recomendo...  
     - No  da sua conta onde eu obtive minhas informaes - interrompeu Sato, com a voz cada vez mais incisiva. - Minha prioridade mxima neste momento  cooperar 
com esse homem, e eu tenho informaes que sugerem que o senhor  o nico capaz de dar o que ele quer.  
     - E a minha prioridade mxima  encontrar meu amigo - retrucou Langdon, frustrado.  
     Sato respirou fundo, evidentemente se esforando para no perder a pacincia. 
     - Se quisermos encontrar o Sr. Solomon, s temos um curso de ao possvel, professor: comear a cooperar com a nica pessoa que parece saber onde ele est. 
- Sato verificou o relgio de pulso. - Nosso tempo  limitado. Posso lhe garantir que  essencial atendermos rapidamente s exigncias desse homem.  
     - Como? - perguntou Langdon, incrdulo. - Localizando e destrancando um antigo portal? No existe portal nenhum, diretora Sato. Esse cara  maluco.  
     Sato chegou mais perto, parando a menos de meio metro de Langdon.  
     - Permita-me observar... que o seu maluco j manipulou com habilidade dois indivduos relativamente inteligentes hoje de manh. - Ela encarou Langdon e, em 
seguida, olhou de relance para Anderson. - No meu trabalho, ns aprendemos que a fronteira entre insanidade e genialidade  tnue. Seria sensato de nossa parte ter 
um pouco de respeito por esse homem.  
     - Ele cortou a mo de uma pessoa!  
     - Justamente. Isso est longe de ser o comportamento de um indivduo indeciso ou hesitante. Mais importante ainda, professor, esse homem obviamente acredita 
que o senhor pode ajud-lo. Ele o trouxe at Washington e deve ter feito isso por um motivo.  
     - Ele falou que o nico motivo pelo qual pensa que eu posso destrancar esse  "portal"  que Peter lhe disse que eu poderia fazer isso - rebateu Langdon.  
     - E por que Peter Solomon diria isso se no fosse verdade?  
     - Tenho certeza de que Peter no falou nada disso. E, se falou, ele o fez sob  presso. Estava confuso... ou amedrontado.  
     - Sim. Isso se chama interrogatrio sob tortura e  bastante eficaz. Mais razo ainda para o Sr. Solomon dizer a verdade. - Sato falava como se conhecesse a 
tcnica por experincia prpria. - Ele explicou por que Peter acha que s o senhor pode destrancar o portal?  
     Langdon fez que no com a cabea.  
     - Professor, se a sua reputao estiver correta, ento o senhor e Peter Solomon compartilham um interesse por este tipo de coisa: segredos, fatos histricos 
esotricos, misticismo e assim por diante. Em todas as suas conversas com Peter, ele nunca mencionou sequer uma vez nada sobre algum portal secreto aqui em Washington? 
     Langdon mal podia acreditar que uma alta funcionria da CIA estava lhe fazendo uma pergunta dessas.  
     - Tenho certeza que no. Peter e eu conversamos sobre coisas bem misteriosas, mas pode acreditar: se ele algum dia me dissesse que existe um antigo portal escondido 
em qualquer lugar, eu o mandaria procurar um mdico para ver se estava tudo bem com a sua cabea. Ainda mais um portal que conduz aos Antigos Mistrios.  
     Ela ergueu os olhos.  
     - Como assim? O homem lhe disse especificamente aonde este portal pode levar?  
     - Disse, mas no precisava. - Langdon indicou a mo com um gesto. - A Mo dos Mistrios  um convite formal para se atravessar um portal mstico e obter conhecimentos 
secretos ancestrais, um poderoso saber conhecido como Antigos Mistrios... ou o saber perdido de todas as pocas.   
     - Ento o senhor j ouviu falar no segredo que ele acredita estar escondido  aqui.  
     - Muitos historiadores j ouviram.  
     - Ento como o senhor pode dizer que o portal no existe?  
     - Com todo o respeito, minha senhora, todos ns j ouvimos falar na Fonte  da Juventude e em Shangri-la, mas isso no significa que existam.  
     O chiado alto do rdio de Anderson os interrompeu. 
     - Chefe? - disse a voz no rdio.  
     Anderson arrancou o aparelho do cinto .  
     - Anderson falando.  
     - Senhor, j conclumos a busca do local. Ningum aqui dentro corresponde   descrio. Mais alguma ordem, senhor?
     Anderson lanou um olhar rpido para Sato, claramente esperando uma reprimenda, mas a diretora no parecia interessada. Ele se afastou um pouco dos dois, falando 
baixinho no rdio.  
     Sato estava totalmente concentrada em Langdon.  
     - Est querendo dizer que o segredo que ele acredita estar escondido em Washington...  uma fantasia?  
     Langdon assentiu.  
     - Um mito muito antigo. Na verdade, o segredo dos Antigos Mistrios  anterior ao cristianismo. Tem milhares de anos.  
     - E mesmo assim continua vivo?  
     - Assim como vrias crenas igualmente improvveis. - Langdon muitas  vezes lembrava a seus alunos que a maioria das religies modernas inclua histrias que 
no resistiam ao escrutnio cientfico: desde Moiss abrindo o mar Vermelho at Joseph Smith usando culos mgicos para traduzir o Livro de Mrmon a partir de uma 
srie de placas de ouro que encontrou enterradas no norte do estado de Nova York. A aceitao generalizada de uma idia no  prova de sua validade.  
     - Entendo. Ento o que so exatamente esses... Antigos Mistrios? 
     Langdon suspirou. A senhora tem algumas semanas?  
     - Resumidamente, os Antigos Mistrios se referem a um conjunto de conhecimentos secretos reunidos muito tempo atrs. Um dos aspectos intrigantes desse conhecimento 
 que ele supostamente permite quele que o detm entrar em contato com poderosas habilidades adormecidas dentro da mente humana. Os adeptos esclarecidos que possuam 
esse conhecimento juraram mant-lo escondido das massas, porque ele era considerado poderoso e perigoso demais para os no iniciados.    
     - Perigoso de que forma?  
     - As informaes foram ocultadas pelo mesmo motivo que mantemos fsforos fora do alcance das crianas. Nas mos corretas, o fogo pode proporcionar luz... mas, 
nas mos erradas, ele pode ser altamente destrutivo.  
     Sato tirou os culos e estudou Langdon.  
     - Diga-me, professor, o senhor acredita que essas informaes poderosas possam realmente existir?  
     Langdon no sabia ao certo como responder. Os Antigos Mistrios sempre tinham sido o maior paradoxo de sua carreira acadmica. Praticamente todas as tradies 
msticas da Terra giravam em torno da idia de que havia um  conhecimento misterioso capaz de dotar os seres humanos de poderes sobrenaturais, quase como os de um 
deus: o tar e o I Ching davam ao homem a capacidade de ver o futuro; a alquimia, por sua vez, concedia a imortalidade graas  lendria pedra filosofal; a wicca 
permitia aos praticantes avanados conjurar poderosos feitios. A lista no tinha fim.
     Como acadmico, Langdon no podia negar o registro histrico dessas tradies - tesouros incalculveis de documentos, artefatos e obras de arte que, de fato, 
sugeriam claramente que os antigos possuam um poderoso saber que s compartilhavam por meio de alegorias, mitos e smbolos, garantindo assim que apenas os devidamente 
iniciados pudessem ter acesso aos seus poderes. Mesmo assim, sendo realista e ctico, Langdon ainda no estava convencido.  
     - Digamos apenas que eu sou um ctico - disse ele a Sato. - Nunca vi nada no mundo real que sugerisse que os Antigos Mistrios so algo mais do que uma lenda, 
um arqutipo mitolgico recorrente. Parece-me que, se fosse possvel para os humanos adquirir poderes milagrosos, haveria provas disso. Mas at agora a histria 
no nos deu nenhum homem com poderes sobre-humanos.  
     Sato arqueou as sobrancelhas.  
     - Isso no  totalmente verdade.  
     Langdon hesitou ao perceber que, para muitas pessoas religiosas, havia de fato um precedente para deuses humanos, dos quais Jesus era o mais evidente. 
     -  verdade - disse ele - que muitas pessoas instrudas acreditam nesse conhecimento capaz de conferir poder, mas ainda no estou convencido.  
     - Peter Solomon  uma dessas pessoas? - perguntou a diretora, olhando de relance para a mo no piso da Rotunda.  
     Langdon no conseguiu se forar a olhar novamente para a mo.  
     - Peter vem de uma famlia que sempre teve paixo por todo tipo de coisa antiga e mstica.  
     - Ento a resposta  sim? - indagou Sato.   
     - Posso garantir  senhora que, ainda que Peter acredite que os Antigos Mistrios sejam verdadeiros, ele no cr que seja possvel acess-los atravessando algum 
tipo de portal escondido em Washington. Ele entende o conceito de simbolismo metafrico, algo que evidentemente no se pode dizer de seu seqestrador.  
     Sato aquiesceu.  
     - Ento o senhor acredita que esse portal  uma metfora?  
     -  claro - disse Langdon. - Pelo menos em teoria.  uma metfora bem  comum: um portal mstico que se deve atravessar de modo a alcanar a iluminao. Portais 
e portas so construtos simblicos recorrentes, que representam ritos de passagem transformadores. Procurar um portal literal seria como tentar localizar os verdadeiros 
Portes do Paraso.  
     Sato pareceu refletir sobre a questo por alguns instantes.  
     - Mas me parece que o homem que seqestrou o Sr. Solomon acredita que  senhor  capaz de destrancar um portal de verdade.  
     Langdon soltou o ar com fora.  
     - Ele cometeu o mesmo erro de muito zelotes: confundir metforas com realidade. - De modo semelhante, os alquimistas primitivos se esforaram em vo para converter 
chumbo em ouro sem nunca perceber que essa transformao nada mais era do que uma metfora para a explorao do verdadeiro potencial humano: pegar uma mente obtusa, 
ignorante, e transmud-la em uma mente brilhante e iluminada.  
     Sato gesticulou em direo  mo.  
     - Se esse homem quer que o senhor localize algum tipo de portal para ele, por que simplesmente no lhe diz como encontr-lo? Por que toda essa encenao? Por 
que lhe dar a mo tatuada de algum?  
     Langdon havia feito a mesma pergunta a si mesmo, e a resposta era perturbadora.  
     - Bem, parece que o homem com quem estamos lidando, alm de mentalmente instvel,  muito instrudo. A mo  uma prova de que ele  versado nos Mistrios, assim 
como em seus cdigos de confidencialidade. Sem mencionar seus conhecimentos relativos  histria desta sala.  
     - No estou entendendo.  
     - Tudo o que ele fez hoje  noite se encaixa perfeitamente nos protocolos  antigos. Tradicionalmente, a Mo dos Mistrios  um convite sagrado, devendo, portanto, 
ser feito em um local igualmente sagrado.  
     Os olhos de Sato se estreitaram.  
     - Estamos na Rotunda do Capitlio dos Estados Unidos, professor, no em um altar sagrado dedicado a antigos segredos msticos.   
     - Na verdade, minha senhora - disse Langdon -, conheo um grande nmero de historiadores que iriam discordar.  
     
     Nesse mesmo instante, do outro lado da cidade, Trish Dunne estava sentada dentro do Cubo diante do brilho do telo de plasma. Terminou de preparar seu spider 
de busca e digitou as cinco expresses-chave que Katherine havia lhe passado.  
     Isso no vai dar em nada.  
     -  Sentindo-se pouco otimista, ela acionou o spider, dando incio a uma pescaria por toda a rede. A uma velocidade estonteante, as expresses passaram a ser 
comparadas a textos espalhados pelo mundo todo... em busca de uma correspondncia perfeita.  
     Era inevitvel que Trish se perguntasse qual era o sentido daquilo, mas ela j havia aprendido a aceitar que trabalhar para os Solomon significava nunca conhecer 
todos os fatos.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 20
     
     Robert Langdon lanou um olhar ansioso para seu relgio de pulso: 19h58. O rosto sorridente de Mickey Mouse no conseguiu alegr-lo. Preciso encontrar Peter. 
Estamos perdendo tempo.  
     Sato havia se afastado por alguns instantes para atender um telefonema, mas logo voltou para junto de Langdon.  
     - Professor, estou atrapalhando algum compromisso seu?  
     - No, senhora - respondeu Langdon, tornando a cobrir o relgio com a manga do palet. - S estou muito preocupado com Peter.  
     - Entendo, mas eu lhe garanto que o melhor que o senhor pode fazer por ele  me ajudar a entender a maneira de pensar do homem que o seqestrou.  
     Langdon no tinha tanta certeza disso, mas percebeu que no iria a lugar nenhum antes de a diretora do ES conseguir a informao que desejava.  
     - Agora h pouco - disse Sato - o senhor sugeriu que a Rotunda  de certa forma sagrada segundo o conceito desses Antigos Mistrios.  
     - Isso mesmo, senhora.    
     - Explique para mim.  Langdon sabia que teria de escolher com parcimnia as palavras. Havia passado semestres inteiros lecionando sobre o simbolismo mstico 
de Washington e, s naquele prdio, a lista de referncias msticas era quase interminvel.  
     Os Estados Unidos tm um passado oculto.  
     Sempre que Langdon dava alguma palestra sobre a simbologia dos Estados Unidos, seus alunos ficavam surpresos por descobrir que as verdadeiras intenes dos 
pais fundadores da nao no tinham absolutamente nada a ver com aquilo que tantos polticos agora afirmavam.  
     O destino que se pretendia dar aos Estados Unidos se perdeu na histria.  O primeiro nome dado pelos pais fundadores  capital por eles edificada tinha sido 
"Roma". Eles haviam batizado seu rio de Tibre e construdo uma capital clssica de pantees e templos, todos adornados com imagens de grandes deuses e deusas - Apolo, 
Minerva, Vnus, Hlios, Vulcano, Jpiter. No centro, como em muitas das grandes cidades clssicas, erigiram uma duradoura homenagem aos antigos - o obelisco egpcio. 
Esse obelisco, mais alto at do que os do Cairo ou de Alexandria, erguia-se 170 metros em direo ao cu, maior que um prdio de 30 andares, proclamando gratido 
e honra ao fundador semidivino ao qual aquela capital devia seu mais novo nome.  
     Washington.  
     Agora, sculos mais tarde, apesar da separao entre Igreja e Estado no pas, aquela Rotunda patrocinada pelo governo estava repleta de simbolismos religiosos 
antigos. Havia mais de uma dezena de deuses diferentes na Rotunda - mais do que no Panteo original de Roma. O Panteo romano,  claro, fora convertido ao cristianismo 
em 609... mas este panteo nunca havia sido convertido; vestgios de sua verdadeira histria ainda permaneciam claramente visveis.  
     - Como a senhora deve saber - disse Langdon -, esta Rotunda foi projetada como um tributo a um dos santurios msticos mais venerados de Roma. O Templo de Vesta. 
     - Das virgens vestais? - Sato parecia duvidar que as virginais guardis da chama de Roma tivessem algo a ver com o prdio do Capitlio norte-americano. 
      - O Templo de Vesta em Roma - disse Langdon - era circular e tinha um enorme buraco no cho, dentro do qual o fogo sagrado da iluminao era mantido por uma 
irmandade de virgens cuja tarefa era garantir que a chama jamais se apagasse.  
     Sato deu de ombros.  - Esta Rotunda  um crculo, mas no estou vendo nenhum buraco no cho.  
     - No, agora no existe mais, porm durante anos o centro desta sala possuiu uma grande abertura justamente no lugar onde est a mo de Peter. - Langdon gesticulou 
em direo ao cho. - Ainda  possvel ver no piso as marcas deixadas pela grade que impedia as pessoas de carem l dentro.  
     - O qu? - indagou Sato, examinando o cho. - Eu nunca ouvi falar nisso.  
     - Parece que ele tem razo. - Anderson apontou para o crculo de protuberncias de ferro que marcava o local das antigas barras da grade. - Eu j tinha visto 
esses negcios antes, mas no fazia a menor idia do que eram ou para que serviam.
     Voc no  o nico, pensou Langdon, imaginando os milhares de pessoas, incluindo famosos legisladores, que passavam pelo centro da Rotunda todos os dias sem 
saber que antigamente teriam cado dentro da Cripta do Capitlio -  nvel logo abaixo da Rotunda.  
     - O buraco no cho - disse-lhes Langdon - acabou sendo coberto, mas, durante um bom tempo, os visitantes da Rotunda puderam ver atravs dele o fogo que ardia 
l embaixo.  
     Sato se virou.  
     - Fogo? No Capitlio?  
     - Na verdade, era mais uma tocha grande, uma chama eterna que ardia na  cripta logo abaixo de onde estamos. A idia era que o fogo fosse visvel pelo buraco, 
transformando esta sala em um moderno Templo de Vesta. O prdio tinha at a sua prpria virgem vestal: um funcionrio pblico federal chamado guardio da cripta, 
que conseguiu manter a chama acesa por 50 anos, at a poltica, a religio e os danos causados pela fumaa apagarem a idia.  
     Tanto Anderson quanto Sato pareciam surpresos.
     Atualmente, o nico indcio de que ali j houvera uma chama acesa era a estrela de quatro pontas que representa a rosa dos ventos gravada no piso da cripta 
um andar abaixo de onde eles estavam - smbolo da chama eterna dos Estados Unidos que um dia havia irradiado sua luz para os quatro cantos do Novo Mundo.  
     - Ento, professor - disse Sato -, sua tese  a de que o homem que deixou a mo de Peter aqui sabia de tudo isso?  
     - Est claro que sim. E sabia muito, muito mais. Esta sala est cheia de smbolos que refletem a crena nos Antigos Mistrios.  
     - Um saber secreto - disse Sato, com um tom de voz que fazia mais do que sugerir sarcasmo. - Um conhecimento que permite aos homens adquirir poderes comparveis 
aos de um deus?  
     - Sim, senhora.  
     - Isso no se encaixa muito bem nos fundamentos cristos deste pas.    
     - Aparentemente no, mas  verdade. Essa transformao do homem em deus se chama apoteose. Quer a senhora saiba disso ou no, esse tema  o elemento central 
do simbolismo desta Rotunda.  
     - Apoteose? - Anderson se virou para ele com uma expresso espantada de reconhecimento.  
     - Sim. - Anderson trabalha aqui. Ele sabe. - A palavra apoteose significa literalmente "transformao divina": o homem que se torna deus. Vem do grego antigo: 
apo, que aqui significa "tornar-se", e theos, "deus".  
     Anderson parecia pasmo.  - Apoteose quer dizer "virar deus"? Eu no fazia a menor idia.  
     - Do que vocs esto falando? - indagou Sato.  
     - Minha senhora - disse Langdon -, o maior quadro deste prdio se chama  A Apoteose de Washington. E ele mostra claramente George Washington sendo transformado 
em deus. 
     Sato fez cara de ctica.  
     - Eu nunca vi nada desse tipo.  
     - Na verdade, tenho certeza de que viu, sim. - Langdon ergueu o indicador  e apontou para cima. - Est bem acima da sua cabea.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  21
     
     A Apoteose de Washington - um afresco de 433 metros quadrados que adorna a cpula da Rotunda do Capitlio - foi concluda em 1865 por Constantino Brumidi.  
     Conhecido como "Michelangelo do Capitlio", Brumidi deixou sua marca na Rotunda do mesmo modo que Michelangelo deixou a sua na Capela Sistina: pintando um afresco 
na tela mais sublime do recinto - o teto. Assim como Michelangelo, Brumidi fizera alguns de seus melhores trabalhos dentro do Vaticano. No entanto, ao emigrar para 
os Estados Unidos em 1852, ele havia trocado o maior altar de Deus por um novo altar, o Capitlio dos Estados Unidos, que agora reluzia com exemplos de sua arte 
- do trompe l'oeil dos Corredores de Brumidi aos frisos do teto da Sala do Vice-presidente. Mas era a gigantesca imagem que pairava sobre a Rotunda do Capitlio 
que a maioria dos historiadores considerava sua obra-prima.    
     Robert Langdon ergueu os olhos para o enorme afresco que cobria o teto.  Em geral ele apreciava as reaes espantadas de seus alunos s bizarras imagens da 
pintura, mas, naquele momento, sentia-se apenas preso em um pesadelo que ainda precisava entender.  
     A diretora Sato estava parada ao seu lado com as mos nos quadris, as sobrancelhas franzidas para o teto distante. Langdon sentiu que ela estava tendo a mesma 
reao que muitos tinham na primeira vez em que paravam para observar a pintura no corao de seu pas.  
     Perplexidade total. 
     A senhora no  a nica, pensou Langdon. Para a maioria das pessoas, quanto mais se olhava para A Apoteose de Washington, mais estranha a pintura ficava.  
     - Aquele ali no painel central  George Washington - disse Langdon, apontando para o meio da cpula quase 60 metros acima. - Como a senhora pode ver, ele est 
usando vestes brancas e, com o auxlio de 13 donzelas, ergue-se acima dos mortais sobre uma nuvem. Esse  o instante da sua apoteose... da sua transformao em deus. 
     Sato e Anderson no disseram nada.  
     - Ao redor dele - prosseguiu Langdon -, vocs podem ver uma estranha e anacrnica srie de personagens: deuses antigos oferecendo aos nossos pais fundadores 
um conhecimento avanado. Podemos ver Minerva concedendo inspirao tecnolgica aos grandes inventores de nosso pas: Ben Franklin, Robert Fulton, Samuel Morse. 
- Langdon os apontou um a um. - E ali temos Vulcano nos ajudando a construir um motor a vapor. Ao seu lado temos Ceres, deusa dos gros e raiz etimolgica de nossa 
palavra cereal; ela est sentada sobre a colheitadeira McCormick, a inovao agrcola que permitiu a este pas se tornar lder mundial em produo de alimentos. 
Do lado oposto est Netuno, demonstrando como instalar o cabo transatlntico. O afresco retrata de forma bastante clara os nossos pais fundadores recebendo um grande 
saber dos deuses. - Ele abaixou a cabea e olhou para Sato. - Conhecimento  poder, e o conhecimento certo permite ao homem realizar tarefas milagrosas, quase divinas. 
     Sato tornou a baixar os olhos para Langdon e esfregou o pescoo.  
     - Instalar um cabo telefnico  algo muito diferente de ser um deus.  
     - Para os homens modernos, pode at ser - retrucou Langdon. - Mas, se  George Washington soubesse que ns viramos uma raa com o poder de nos comunicar atravs 
dos oceanos, voar  velocidade da luz e pisar na Lua, ele iria supor que ns nos transformamos em deuses, capazes de tarefas milagrosas. - Ele fez uma pausa. - Nas 
palavras do futurista Arthur C. Clarke: "Qualquer tecnologia suficientemente avanada  indistinguve1 da magia."   
     Sato franziu os lbios, aparentemente entretida com os prprios pensamentos. Baixou os olhos para a mo e, em seguida, os ergueu de volta para a cpula, na 
direo apontada pelo indicador esticado.  
     - Professor, o senhor foi informado de que Peter iria apontar o caminho, correto?  
     - Sim, senhora, mas...  
     - Chefe - disse Sato, virando as costas para Langdon -, pode nos fazer ver a  pintura mais de perto?  
     Anderson aquiesceu.  
     - Sim, h uma passarela que contorna a parte interna da cpula.  
     Langdon olhou bem l para cima, para a minscula grade logo abaixo do afresco, e sentiu o corpo se retesar.  
     - No h necessidade de ir at l em cima. - Ele j subira uma vez naquela passarela raramente visitada, a convite de um senador e sua esposa, e quase desmaiara 
por causa da altura estonteante e da precariedade da estrutura.  
     - No h necessidade? - repetiu Sato. - Professor, ns temos um homem que acredita que esta sala contm um portal capaz de transform-lo em um deus; temos um 
afresco no teto que simboliza exatamente essa transformao; e temos a mo de algum apontando direto para essa pintura. Parece que tudo est nos incentivando a 
subir.  
     - Na verdade - interveio Anderson, olhando para cima -, poucas pessoas sabem disso, mas existe um painel hexagonal na cpula que se abre como um portal e pelo 
qual  possvel olhar e...  
     - Esperem um instante - disse Langdon -, vocs esto entendendo mal. O portal que esse homem est procurando  um portal figurado... que no existe. Quando 
ele disse "Peter apontar o caminho", estava falando em termos metafricos. O gesto da mo que aponta, com o indicador e o polegar esticados para cima,  um smbolo 
conhecido dos Antigos Mistrios, e aparece na arte antiga do mundo todo. Esse mesmo gesto aparece em trs das obras-primas codificadas mais famosas de Leonardo da 
Vinci: A ltima Ceia, A Adorao dos Magos e So Joo Batista.  um smbolo da conexo mstica do homem com Deus. - Assim em cima como embaixo. A bizarra escolha 
de palavras do louco comeava a parecer mais relevante.  
     - Nunca vi esse gesto antes - disse Sato.  
      s assistir  ESPN, pensou Langdon, que sempre achava graa ao ver atletas profissionais apontando para o cu para agradecer a Deus depois de um touchdown 
ou de um home run. Perguntava-se quantos deles sabiam que estavam dando continuidade a uma tradio mstica pr-crist de reconhecer o poder superior que, por um 
breve instante, os havia transformado em um deus capaz de realizar feitos milagrosos.
     - No sei se adianta alguma coisa - disse Langdon -, mas a mo de Peter no   a primeira desse tipo a aparecer na Rotunda. Sato olhou para o professor como 
se ele estivesse louco. 
     - Como  que ?  
     Langdon gesticulou na direo do BlackBerry dela. 
     - Procure no Google "George Washington Zeus".  
     A diretora fez cara de desconfiada, mas comeou a digitar as palavras. Anderson se aproximou dela devagar, olhando por cima de seu ombro com interesse.  
     Langdon disse:  
     - Antigamente, esta Rotunda era dominada por uma gigantesca escultura de  George Washington nu da cintura para cima... retratado como um deus. Ele estava sentado 
exatamente na mesma posio que Zeus no Panteo, com o peito  mostra, segurando uma espada na mo esquerda enquanto a direita se erguia com o polegar e o indicador 
esticados.  
     Sato, pelo jeito, havia encontrado uma imagem da escultura na internet, porque Anderson encarava o BlackBerry com uma expresso chocada. 
     - Esperem a, esse  George Washington?  
     -  - respondeu Langdon. - Retratado como Zeus.  
     - Olhem para a mo direita dele - disse Anderson, ainda espiando por cima do ombro de Sato. - Est exatamente na mesma posio que a do Sr. Solomon.  
     Como eu disse, pensou Langdon, a mo de Peter no  a primeira a aparecer nesta sala. Quando a esttua de Horacio Greenough representando George Washington 
nu foi exibida pela primeira vez na Rotunda, muitos brincaram dizendo que Washington devia estar levantando a mo numa tentativa desesperada de encontrar alguma 
coisa para vestir. Porm,  medida que os ideais religiosos norte-americanos mudavam, essa crtica jocosa se transformou em polmica, e a esttua foi removida e 
banida para um barraco no jardim leste. Atualmente, estava no Museu Nacional de Histria Norte-Americana do Instituto Smithsonian. Quem a via ali no tinha o menor 
motivo para desconfiar que se tratava de um dos ltimos vestgios de uma poca em que o pai da nao havia protegido o Capitlio como um deus... assim como Zeus 
protegia o Panteo.  
     Sato comeou a digitar um nmero no BlackBerry, aparentemente julgando aquele momento oportuno para entrar em contato com sua equipe.  
     - O que vocs descobriram? - Ela escutou pacientemente. - Entendi... - Olhou para Langdon, depois para a mo de Peter.-- Tem certeza? Ficou em silncio por 
mais um instante. - Tudo bem, obrigada. - Sato desligou e tornou a se virar para Langdon. - Minha equipe de apoio fez algumas pesquisas e confirmou a existncia 
da sua suposta Mo dos Mistrios, corroborando tudo o que o senhor disse: cinco marcas nas pontas dos dedos, a estrela, o sol, a chave, a coroa e a lamparina, bem 
como o fato de essa mo representar um antigo convite para receber um saber secreto.  
     - Fico feliz - comentou Langdon.  
     - No fique - retrucou ela com rispidez. - Parece que agora estamos em um  beco sem sada at o senhor compartilhar comigo o que quer que ainda no tenha me 
contado.  
     - Como assim?  
     Sato deu um passo em sua direo.  - Ns voltamos  estaca zero, professor. O senhor no me disse nada que a minha prpria equipe no pudesse ter me informado. 
Ento vou lhe perguntar mais uma vez. Por que o senhor foi trazido at aqui hoje? O que o torna to especial? O que  que s o senhor sabe?  
     - Ns j falamos sobre isso - devolveu Langdon. - Nem imagino por que esse cara acha que eu sei alguma coisa!
     Langdon se sentia inclinado a perguntar como diabos Sato sabia que ele estava no Capitlio naquela noite, mas eles tambm j tinham falado sobre isso. Sato 
no vai dizer nada. 
     - Se eu soubesse qual  o prximo passo - falou ele -, diria  senhora. Mas no sei. Tradicionalmente, a Mo dos Mistrios  oferecida por um professor a um 
aluno. Ento, pouco depois, a mo  seguida por uma srie de instrues... explicaes de como chegar a um templo, o nome do mestre encarregado do ensinamento... 
alguma coisa! Mas tudo o que esse cara nos deixou foram cinco tatuagens! No chega a... - Langdon se interrompeu no meio da frase.  
     Sato o encarou. 
     - O que foi?  
     Os olhos de Langdon se voltaram rapidamente para a mo. Cinco tatuagens.  Ele percebeu naquele instante que o que estava dizendo talvez no fosse inteiramente 
verdade.  
     - Professor? - insistiu Sato.  
     Langdon se aproximou lentamente do objeto medonho. Peter apontar o caminho.  
     - Mais cedo, passou pela minha cabea que talvez esse cara tivesse deixado algum objeto preso entre os dedos de Peter... um mapa, uma carta ou instrues por 
escrito.   
     - Mas no deixou - disse Anderson. - Como o senhor pode ver, os trs dedos no esto muito apertados.  
     - Tem razo - disse Langdon. - Mas acaba de me ocorrer que... - Ele ento se agachou, tentando olhar por debaixo dos dedos para ver a parte escondida da palma 
da mo de Peter. - Talvez no esteja escrito em papel.  
     - Acha que est tatuado? - indagou Anderson.  
     Langdon aquiesceu.  
     - O senhor est vendo alguma coisa na palma? - perguntou Sato.  
     Langdon se agachou mais ainda, tentando espiar por debaixo dos dedos fechados sem muita firmeza.  
     - Deste ngulo no d. No consigo...  
     - Ah, pelo amor de Deus - disse Sato, movendo-se na sua direo. - Abra  essa maldita coisa e pronto!  
     Anderson se colocou na sua frente.  
     - Senhora, ns precisamos realmente esperar pela percia antes de...  
     - Eu quero respostas - disse Sato, empurrando-o para passar. Ela se agachou,  afastando Langdon.  
     Ele se levantou e ficou olhando, incrdulo, enquanto a diretora tirava uma caneta do bolso, inserindo-a cuidadosamente sob os trs dedos dobrados. Ento, ela 
os puxou um a um para cima at a mo ficar totalmente aberta, com a palma visvel.  
     Sato ergueu os olhos para Langdon, e um leve sorriso se espalhou por seu rosto. 
     - Acertou de novo, professor.  
     
     
     
     
     CAPTULO  22
     
     Enquanto andava de um lado para o outro da biblioteca, Katherine Solomon arregaou a manga do jaleco e conferiu o relgio. No era uma mulher acostumada a esperar, 
mas, naquele momento, tinha a sensao de que todo o seu mundo estava em suspenso. Estava  espera dos resultados do spider de busca de Trish, de notcias do irmo 
e, para completar, do telefonema do homem responsvel por toda aquela situao angustiante.  
     Quem dera ele no tivesse me dito nada, pensou ela. Normalmente, Katherine era muito cuidadosa ao conhecer pessoas novas e, embora tivesse encontrado aquele 
homem pela primeira vez naquela tarde, ele havia conquistado sua confiana em poucos minutos. Integralmente.    
     Katherine recebera sua ligao mais cedo, quando estava em casa saboreando seu habitual prazer das tardes de domingo: atualizar a leitura dos peridicos cientficos 
da semana.  
     - Sra. Solomon? - indagara uma voz estranhamente delicada. - Meu nome  Dr. Christopher Abaddon. Gostaria ele falar com a senhora um instante a respeito do 
seu irmo.  
     - Desculpe, mas quem est falando? - perguntara ela. E como foi que voc arranjou meu nmero de celular pessoal? - Dr. Christopher Abaddon? - repetiu Katherine, 
sem reconhecer o nome.  
     O homem pigarreou, como se a situao tivesse se tornado constrangedora. 
     - Desculpe, Sra. Solomon. Eu achei que o seu irmo tivesse lhe falado sobre mim. Sou o mdico dele. Seu celular estava listado como o contato de emergncia 
dele.  
     O corao de Katherine deu um salto. Contato de emergncia? 
     - Aconteceu alguma coisa?  
     - No... acho que no - respondeu o homem. - Peter faltou a uma consulta  hoje de manh, e no estou conseguindo falar com nenhum dos telefones que ele me deu. 
Como seu irmo nunca falta s consultas sem ligar antes, fiquei um pouco preocupado. Hesitei antes de ligar para a senhora, mas...  
     - No, o que  isso, no tem problema nenhum, obrigada pela preocupao.  - Katherine ainda estava tentando ligar o nome do mdico  pessoa. - Desde  ontem 
de manh que no falo com meu irmo, mas ele provavelmente se esqueceu de ligar o celular. - Katherine recentemente lhe dera um iPhone novo de presente, e ele ainda 
no havia se dado o trabalho de aprender a us-1o.  
     - O senhor disse que  mdico do meu irmo? - perguntou ela. Ser que Peter est com alguma doena e est escondendo isso de mim?  
     Houve uma pausa carregada na linha.  
     - Eu sinto muitssimo, mas obviamente acabei de cometer um erro profissional bastante grave ao lhe telefonar. Seu irmo me disse que a senhora sabia das visitas 
que ele fazia ao meu consultrio, mas agora estou vendo que no.  
     Meu irmo mentiu para o prprio mdico? Katherine estava ficando cada vez mais preocupada.  
     - Ele est doente?  
     - Sinto muito, Sra. Solomon, o sigilo mdico-paciente me impede de conversar sobre a sade do seu irmo, e eu j revelei demais dizendo que ele  meu paciente. 
Vou desligar agora, mas, se a senhora tiver notcias dele, por favor, pea que me ligue para eu saber se est tudo bem.  
     - Espere! - disse Katherine. - Por favor, me diga o que Peter tem.   
     O Dr. Abaddon respirou fundo, parecendo contrariado com o prprio erro. - Sra. Solomon, estou vendo que a senhora est abalada e no posso culp-la. Tenho certeza 
de que seu irmo est bem. Ele esteve no meu consultrio  ontem mesmo.  
     - Ontem? E tem outra consulta hoje? Parece urgente. 
     O homem deu um suspiro.  
     - Sugiro darmos um pouco mais de tempo a ele antes de...  
     - Vou passar no seu consultrio agora mesmo - disse Katherine, rumando  para a porta. - Onde o senhor atende? Silncio.  
     - Dr. Christopher Abaddon? - indagou Katherine. - Eu mesma posso procurar seu endereo ou o senhor pode simplesmente me dar. De toda forma, vou passar a.  
     O mdico fez uma pausa.  
     - Se nos encontrarmos, Sra. Solomon, por favor, no comente nada com seu irmo at eu ter a oportunidade de lhe explicar meu equvoco.  
     -Tudo bem.  
     - Obrigado. Meu consultrio fica em Kalorama Heights. - Ele lhe deu um  endereo.  
     Vinte minutos depois, Katherine Solomon percorria as imponentes ruas de Kalorama Heights. Tinha ligado para todos os telefones do irmo sem obter resposta. 
Ainda no estava excessivamente preocupada com o seu paradeiro, mas, mesmo assim, a notcia de que ele vinha consultando um mdico era inquietante.  
     Quando Katherine finalmente localizou o endereo, ergueu os olhos para a casa, confusa. Isto aqui  um consultrio?  
     A opulenta manso  sua frente tinha uma cerca de segurana de ferro forjado, cmeras eletrnicas e um luxuriante jardim. Quando ela diminuiu a velocidade para 
confirmar o endereo, uma das cmeras girou na sua direo e o porto se abriu. Hesitante, Katherine subiu a rampa de acesso para veculos e estacionou ao lado de 
uma garagem para seis carros e de uma limusine.  
     Que tipo de mdico esse cara ?  
     Quando ela desceu do carro, a porta da frente da manso se abriu e uma figura elegante apareceu no patamar. Era um homem bonito, excepcionalmente alto, e mais 
jovem do que ela havia imaginado. Mesmo assim, transmitia a sofisticao e o refinamento de algum mais velho. Estava vestido de forma impecvel com um terno escuro 
e uma gravata, seus grossos cabelos louros penteados  perfeio.   
     - Sra. Solomon, Dr. Christopher Abaddon - disse ele com uma voz que era um sussurro rouco. Quando Katherine apertou a mo dele, sentiu que sua pele tinha uma 
textura lisa e bem cuidada.  
     - Katherine Solomon - apresentou-se ela, tentando no ficar olhando demais para aquela pele excepcionalmente lisa e bronzeada. Ele est usando maquiagem?  Katherine 
sentiu uma inquietao crescente ao entrar no hall mobiliado com requinte. Ouvia-se msica clssica tocando baixinho ao fundo, e no ar pairava um cheiro de incenso. 
     - Isso aqui  lindo - disse ela -, mas eu esperava algo mais parecido com um... consultrio.  
     - Tenho a sorte de trabalhar em casa. - O homem a conduziu at uma sala de estar onde crepitava uma lareira acesa. - Por favor, sinta-se em casa. Estou fazendo 
um ch. Vou traz-lo, a poderemos conversar. - Ele saiu andando em direo  cozinha e desapareceu.  
     Katherine Solomon no se sentou. A intuio feminina era um instinto poderoso no qual ela havia aprendido a confiar, e alguma coisa naquele lugar a deixava 
toda arrepiada. Ela no enxergava nada remotamente parecido com qualquer consultrio mdico que j tivesse visto na vida. As paredes daquela sala de estar de estilo 
antiquado estavam cobertas de obras de arte antigas, sobretudo quadros com estranhos temas msticos. Ela parou diante de uma grande tela representando as Trs Graas, 
cujos corpos nus estavam retratados de forma espetacular, em cores vvidas.  
     -  o leo original de Michael Parkes. - O Dr. Abaddon apareceu de repente ao seu lado, segurando uma bandeja de ch fumegante. - Pensei que talvez pudssemos 
nos sentar junto  lareira. - Ele a conduziu at l e lhe ofereceu uma cadeira. - No h motivo para a senhora ficar nervosa.  
     - No estou nervosa - respondeu Katherine depressa demais.
     Ele lhe deu um sorriso reconfortante.  
     - Na verdade, saber quando as pessoas esto nervosas  o meu trabalho.  
     - Como disse?  
     - Eu sou psiquiatra, Sra. Solomon. Essa  a minha profisso. J faz quase um  ano que estou cuidando do seu irmo. Sou o terapeuta dele.  
     Tudo o que Katherine conseguiu fazer foi encar-1o. Meu irmo est fazendo terapia?  
     - Os pacientes muitas vezes preferem guardar segredo sobre o tratamento - disse o homem. - Foi um equvoco de minha parte ligar para a senhora, embora possa 
dizer, em minha defesa, que seu irmo me induziu ao erro.  
     - Eu... eu no fazia idia.    
     - Sinto muito se a deixei nervosa - disse ele, parecendo constrangido. - Reparei que a senhora ficou analisando meu rosto quando nos apresentamos, e sim, eu 
uso maquiagem. - Ele tocou a prpria bochecha com um ar acanhado. - Tenho uma doena de pele que prefiro esconder. Em geral quem me maquia  minha mulher, mas quando 
ela no est tenho que me contentar com minha prpria mo pesada.  
     Katherine assentiu com a cabea, constrangida demais para falar.  
     - E estes lindos cabelos... - Ele tocou sua juba loura. - Isto  uma peruca.  Minha doena de pele tambm afetou os folculos do couro cabeludo e todos os meus 
cabelos caram. - Ele deu de ombros. - Temo que meu nico pecado seja a vaidade.  
     - E aparentemente o meu  a grosseria - disse Katherine.  
     - De forma alguma. - O sorriso do Dr. Abaddon desarmaria qualquer um. - Vamos comear de novo? Que tal com um pouco de ch?  
     Eles se sentaram em frente  lareira e Abaddon serviu.  
     - O seu irmo me fez adquirir o hbito de servir ch durante nossas sesses.  Ele disse que os Solomon gostam da bebida.  
     - Tradio de famlia - disse Katherine. - Puro, por favor.  
     Os dois passaram alguns minutos tomando o ch e jogando conversa fora, mas Katherine estava ansiosa para obter informaes sobre o irmo.  
     - Por que meu irmo veio procurar o senhor? - perguntou ela. E por que ele no me disse nada? Era bem verdade que Peter havia sofrido mais tragdias na vida 
do que merecia: perder o pai ainda jovem e, depois, em um intervalo de cinco anos, enterrar seu nico filho e em seguida a me. Mesmo assim, ele sempre havia encontrado 
uma forma de seguir em frente. 
     O Dr. Abaddon tomou um gole do ch.  
     - Seu irmo me procurou porque confia em mim. Temos uma ligao que vai alm daquela que existe normalmente entre paciente e mdico. - Ele gesticulou na direo 
de um documento emoldurado perto da lareira. Parecia um diploma, at Katherine distinguir a fnix de duas cabeas.  
     - O senhor  maom? - E do grau mais elevado, ainda por cima. 
     - Peter e eu somos de certa forma irmos.  
     - O senhor deve ter feito alguma coisa importante para ser convidado ao  grau 33.  
     - Na verdade, no - respondeu ele. - Venho de uma famlia tradicional e fao  muitas doaes a instituies de caridade manicas.  Katherine ento percebeu 
por que o irmo confiava naquele jovem mdico. Um maom de famlia rica interessado em filantropia e mitologia antiga? O Dr. Abaddon tinha mais coisas em comum com 
seu irmo do que ela havia imaginado inicialmente. 
      - Quando perguntei por que meu irmo veio procurar o senhor - disse ela -, no estava querendo saber por que ele o escolheu. O que eu quis dizer foi: por que 
ele est buscando os servios de um psiquiatra?  
     O Dr. Abaddon sorriu.  
     - Sim, eu sei. Eu estava tentando me esquivar educadamente da pergunta.  Na verdade, nem deveramos estar conversando sobre isso. - Ele fez uma pausa. - Embora 
deva admitir que estou intrigado pelo fato de seu irmo esconder da senhora as nossas conversas, considerando a ligao estreita delas com a sua pesquisa.  
     - Minha pesquisa? - disse Katherine, pega inteiramente de surpresa. Meu irmo fala sobre a minha pesquisa?  
     - Recentemente, ele me procurou em busca de uma opinio profissional sobre o impacto psicolgico das descobertas que a senhora est fazendo no seu laboratrio. 
     Katherine quase engasgou com o ch.  
     -  mesmo? Estou... surpresa - ela conseguiu dizer. Onde Peter est com a cabea? Ele contou sobre o meu trabalho a este analista?! Segundo seu protocolo de 
segurana, eles no deveriam conversar com ningum sobre o trabalho de Katherine. Alm disso, o sigilo fora idia de seu irmo.  
     - Com certeza, a senhora sabe que seu irmo se preocupa muito com o que vai acontecer quando a sua pesquisa vier a pblico. Ele v potencial para uma significativa 
mudana filosfica no mundo... e veio aqui conversar sobre as possveis ramificaes... de um ponto de vista psicolgico.  
     - Entendo - disse Katherine, com a xcara de ch agora tremendo um pouco.  
     - As questes sobre as quais ns conversamos so complexas: o que ser da  condio humana quando os grandes mistrios da vida finalmente forem revelados? Quando 
de repente ficar provado de maneira categrica que as crenas que ns aceitamos por f... so fatos? Ou ento quando elas forem desmentidas como mitos?  possvel 
argumentar que determinadas questes talvez devessem ficar sem resposta.
     Katherine no conseguia acreditar no que estava escutando, mas mesmo assim controlou as emoes.  
     - Dr. Abaddon, espero que o senhor no se importe, mas prefiro no conversar sobre detalhes do meu trabalho. No tenho inteno alguma de levar nada a pblico 
no momento. Por enquanto, as minhas descobertas vo permanecer trancadas na segurana do meu laboratrio. 
     - Interessante. - Abaddon se recostou na cadeira e passou alguns instantes imerso em pensamentos. - De toda forma, pedi que seu irmo voltasse hoje porque ontem 
ele teve uma espcie de ruptura. Quando isso acontece, eu gosto que os clientes...  
     - Ruptura? - O corao de Katherine batia disparado. - Est querendo dizer um colapso nervoso? - No conseguia imaginar o irmo tendo um colapso por motivo 
algum.
     Abaddon estendeu a mo, gentil.  
     - Por favor, estou vendo que a deixei perturbada. Sinto muito. Considerando as circunstncias estranhas, posso compreender que a senhora se sinta no direito 
de obter respostas.  
     - Quer eu tenha ou no esse direito - disse Katherine -, meu irmo  o nico  parente que me resta. Ningum o conhece melhor do que eu, ento, se o senhor me 
disser o que diabos aconteceu aqui, talvez eu possa ajudar. Ns dois queremos a mesma coisa: o melhor para Peter.  
     O Dr. Abaddon passou longos instantes em silncio. Em seguida, comeou a menear lentamente a cabea, como se Katherine pudesse ter razo. Por fim, tornou a 
falar.  
     - Que fique bem claro, Sra. Solomon: se eu decidir compartilhar essa informao com a senhora, estarei fazendo isso apenas porque acho que suas opinies podem 
me ser teis para ajudar seu irmo.  
     - Claro.  
     Abaddon se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.  
     - Sra. Solomon, desde que comecei a atender seu irmo senti nele um profundo conflito com sentimentos de culpa. Nunca o pressionei em relao a isso, porque 
no foi por esse motivo que ele me procurou. Mas ontem, por vrias razes, eu finalmente lhe fiz perguntas sobre o assunto. - Abaddon a encarou. - Ele se abriu de 
forma bastante emocional e inesperada, me disse coisas que eu no esperava ouvir... incluindo tudo o que aconteceu na noite em que a sua me morreu.  
     Vspera de Natal - quase exatamente 10 anos atrs. Ela morreu nos meus braos. 
     - Ele me disse que sua me foi assassinada durante uma tentativa de assalto  sua casa, no foi? Um homem invadiu a residncia de vocs procurando alguma coisa 
que achava que seu irmo estivesse escondendo?  
     - Isso.  
     Os olhos de Abaddon a avaliavam.  
     - Seu irmo disse que matou o homem com um tiro? 
     - Sim.   
     Abaddon acariciou o queixo.  
     - A senhora se lembra do que o intruso estava procurando quando invadiu a casa?  
     Katherine havia passado 10 anos tentando em vo bloquear aquela lembrana.  
     - Sim, a exigncia dele foi bem especfica. Infelizmente, nenhum de ns sabia  do que ele estava falando. O que ele queria nunca fez sentido para ns.  
     - Bem, fez sentido para seu irmo.  
     - O qu? - Katherine se empertigou na cadeira.  
     - Pelo menos segundo a histria que ele me contou ontem, Peter sabia exatamente o que o intruso estava procurando. Mas, mesmo assim, ele no quis entregar o 
objeto, ento fingiu que no estava entendendo.  
     - Isso  um absurdo. No havia como Peter saber o que aquele homem queria. As exigncias dele no faziam sentido! 
     - Interessante. - O Dr. Abaddon fez uma pausa e tomou algumas notas. - Mas, como eu disse, Peter me falou que sabia, sim. Seu irmo acredita que, se houvesse 
cooperado com o intruso, talvez sua me ainda estivesse viva. Essa deciso  a origem de toda a sua culpa.  
     Katherine sacudiu a cabea.  Mas que loucura...  
     Abaddon afundou na cadeira, com ar de preocupao.  
     - Sra. Solomon, o que a senhora acabou de me dizer foi til. Como eu temia, seu irmo parece ter sofrido uma pequena ruptura em relao  realidade. Devo admitir 
que j desconfiava disso. Foi por esse motivo que pedi a ele que voltasse hoje. Esses episdios delirantes no so incomuns no que diz respeito a lembranas traumticas. 
     Katherine tornou a sacudir a cabea.  
     - Peter no  homem de ter delrios, Dr. Abaddon. 
     - Concordo, mas...  
     - Mas o qu?  
     - Mas o que ele me disse sobre o ataque foi s o comeo... uma nfima frao da longa e improvvel histria que me contou. 
     Katherine se inclinou para a frente na cadeira. 
     - O que foi que Peter contou ao senhor?  
     Abaddon deu um sorriso triste.  
     - Sra. Solomon, deixe-me fazer uma pergunta. Seu irmo alguma vez conversou com a senhora sobre o que ele acredita estar escondido aqui em Washington... ou 
sobre o papel que ele acredita ter na proteo de um grande tesouro relacionado a um conhecimento antigo perdido?  
     O queixo de Katherine caiu.   
     - Do que o senhor est falando?  
     O Dr. Abaddon soltou um longo suspiro.  
     - O que eu vou lhe contar vai ser um pouco chocante, Katherine. - Ele fez uma pausa e a encarou nos olhos. - Mas, se voc puder me dizer qualquer coisa que 
souber a respeito, ser de uma utilidade incalculvel. - Ele estendeu a mo para a xcara dela. - Mais ch?  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  23
     
     Outra tatuagem.  
     Ansioso, Langdon se agachou ao lado da palma aberta de Peter e examinou os sete smbolos diminutos escondidos sob os dedos fechados e sem vida.  
     
     
     
     - Parecem nmeros - disse Langdon, surpreso. - Mas no consigo reconhec-los.  
     - O primeiro  um algarismo romano - disse Anderson.  
     - Na verdade, acho que no - corrigiu Langdon. - O algarismo romano I-I-I-X  no existe. O certo seria V-I-I.  
     - E o resto? - perguntou Sato.  
     - No tenho certeza. Parece 885 em algarismos arbicos.  
     - Arbicos? - perguntou Anderson. - Parecem nmeros normais.  
     - Os nossos algarismos normais so arbicos. - Langdon se acostumara de  tal forma a esclarecer essa questo para seus alunos que havia preparado uma palestra 
sobre os progressos cientficos feitos pelas culturas do Oriente Mdio, entre eles o sistema numrico moderno, cujas vantagens em relao aos algarismos romanos 
incluam a "notao posicional" e a inveno do nmero 0.  claro que Langdon sempre conclua a palestra lembrando que a cultura rabe tambm havia legado ao mundo 
a palavra al-kuhl: a bebida preferida dos calouros de Harvard, conhecida como lcool.  
     Langdon analisou a tatuagem, sentindo-se intrigado.  
     - No estou sequer seguro quanto ao 885, A caligrafia retilnea parece incomum. Talvez no sejam nmeros. 
     - Ento o que so? - perguntou Sato.  
     - No tenho certeza. A tatuagem toda parece quase... rnica.
     - Ou seja? - indagou Sato.  
     - Os alfabetos rnicos so formados apenas por linhas retas. As letras se chamam runas e eram muitas vezes usadas em gravaes em pedra, porque as curvas so 
mais difceis de se esculpir.  
     - Se isto aqui so runas - disse Sato -, o que significam? 
     Langdon balanou a cabea negativamente. Seu conhecimento se limitava ao mais rudimentar dos alfabetos rnicos - o futhark -, um sistema teutnico do sculo 
III, e aquilo ali no era futhark.  
     - Para ser sincero, no tenho sequer certeza de que sejam runas. Seria preciso consultar um especialista. Existem dezenas de formas diferentes: o hlsinge, 
manx, o stungnar "pontilhado"...  
     - Peter Solomon  maom, no ? 
     Langdon olhou para ela sem entender.  
     - , mas o que isso tem a ver com o que est acontecendo aqui? - Ele levantou, agigantando-se diante da mulher baixinha.  
     - O senhor  quem vai me dizer. Acabou de falar que os alfabetos rnicos so usados para gravar pedra e, pelo que sei, os primeiros francomaons eram artfices 
que trabalhavam com pedras. S estou mencionando isso porque, quando pedi  minha equipe para procurar uma conexo entre a Mo dos Mistrios e Peter Solomon, a busca 
deles s produziu um nico vnculo. - Ela fez uma pausa, como para enfatizar a importncia de sua descoberta. - Os maons.  
     Langdon soltou o ar com fora, lutando contra o impulso de lhe dizer a mesma coisa que vivia repetindo a seus alunos: "Google" no  sinnimo de "pesquisa". 
Nessa poca de buscas em massa de palavras-chave na internet, parecia que tudo estava a ligado a tudo. O mundo estava se transformando em uma grande e embaralhada 
rede de informaes cuja densidade aumentava a cada dia.  
     Langdon manteve um tom de voz paciente.  
     - No estou surpreso com o fato de os maons terem aparecido na pesquisa da sua equipe. Eles so um vnculo bvio entre Peter Solomon e vrios assuntos esotricos. 
     - Sim - disse Sato -, o que me faz questionar por que o senhor ainda no mencionou a Maonaria. Afinal de contas, professor, o senhor vem falando sobre um conhecimento 
secreto protegido por uns poucos iluminados. Soa bem manico, no?  
     - Sim... e soa tambm como vrios outros grupos esotricos, como a Ordem Rosa-cruz, a Cabala e os Alumbrados.    
     - Mas Peter Solomon  maom... e um maom muito poderoso, ainda por cima. Me parece natural pensar nos maons quando falamos sobre segredos. S Deus sabe quanto 
eles amam os deles.  
     Langdon podia ouvir a desconfiana na voz dela.  
     - Se a senhora quer saber alguma coisa sobre os maons,  muito melhor  perguntar a eles.  
     - Na verdade - disse Sato -, prefiro perguntar a algum em quem eu confie. 
     Langdon considerou aquele comentrio ao mesmo tempo ignorante e ofensivo. 
     - Para seu governo, minha senhora, toda a filosofia manica se baseia nos  conceitos de honestidade e integridade. Os maons esto entre os homens mais dignos 
de confiana que a senhora jamais poderia sonhar em conhecer.  
     - J tive provas do contrrio.  
     A cada segundo que passava, Langdon gostava menos da diretora Sato. Havia passado anos escrevendo sobre a rica tradio manica de iconografia e smbolos metafricos, 
e sabia que a Maonaria tinha sido uma das organizaes mais injustamente demonizadas e mal compreendidas do mundo. Regularmente acusados de todo tipo de coisa, 
de culto ao demnio at conspirao para formar um governo nico mundial, os maons tinham tambm uma poltica de nunca reagir s crticas, o que os tornava um alvo 
fcil.  
     - No importa - disse Sato em tom mordaz -, estamos novamente em um impasse, Sr. Langdon. Parece-me que ou o senhor est deixando passar alguma coisa... ou 
est me escondendo algo. O homem com quem estamos lidando disse que Peter Solomon o escolheu. - Ela encarou Langdon com um olhar frio. - Acho que est na hora de 
transferirmos esta conversa para a sede da CIA. Quem sabe l tenhamos mais sorte.  
     Langdon mal registrou a ameaa de Sato. Ela havia acabado de dizer algo que ficara cravado em sua mente. Peter Solomon o escolheu. Esse comentrio, aliado  
meno aos maons, causara um efeito estranho em Langdon. Ele baixou os olhos para o anel no dedo de Peter. Aquele era um dos objetos mais estimados do seu amigo 
- uma herana da famlia Solomon que trazia o smbolo da fnix de duas cabeas, o maior cone mstico do saber manico. O ouro cintilou sob a luz, despertando uma 
antiga lembrana.  
     Langdon teve um sobressalto ao se lembrar do sussurro sinistro do captor de Peter. O senhor realmente ainda no entendeu, no ? O motivo por que foi escolhido? 
     Ento, em um instante de terror, seus pensamentos entraram em foco e a nvoa se dissipou.  
     Na mesma hora, o objetivo de sua presena ali ficou cristalino.   
        
     A 16 quilmetros dali, enquanto dirigia rumo ao sul pela Suitland Parkway, Mal'akh sentiu uma vibrao inconfundvel no banco ao seu lado. Era o iPhone de Peter 
Solomon, que naquele dia havia se revelado uma poderosa ferramenta. O identificador visual de chamadas passara a exibir a imagem de uma atraente mulher de meia-idade 
com longos cabelos pretos.  
     
     CHAMADA - KATHERINE SOLOMON
     
     Mal'akh sorriu, ignorando a ligao. O destino me leva para mais perto.  
     Ele havia atrado Katherine Solomon at sua casa por um nico motivo - descobrir se ela possua alguma informao que pudesse auxili-lo, talvez um segredo 
de famlia que o ajudasse a localizar o que buscava. Mas era bvio que Peter no revelara nada sobre o que vinha guardando para si durante todos aqueles anos.  
     Mesmo assim, Mal'akh tinha descoberto outra coisa graas a Katherine. Algo que rendeu a ela algumas horas a mais de vida hoje. Katherine lhe confirmara que 
toda a sua pesquisa se encontrava em um s lugar, trancada na segurana de seu laboratrio.  
     Preciso destruir tudo.  
     A pesquisa de Katherine estava prestes a abrir uma nova porta de compreenso e, quando isso acontecesse, mesmo que fosse somente uma frestinha, outras viriam. 
Seria apenas uma questo de tempo para que tudo mudasse. No posso deixar isso acontecer. O mundo precisa ficar como est...  deriva em meio  escurido da ignorncia. 
     O iPhone emitiu um bipe, indicando que Katherine tinha deixado uma mensagem de voz. Mal'akh escutou o recado.
     "Peter, sou eu de novo". A voz de Katherine soava preocupada. "Onde voc est? No consigo tirar minha conversa com o Dr. Abaddon da cabea... e estou aflita. 
Est tudo bem? Por favor, me ligue. Estou no laboratrio."  
     O recado terminou.  
     Mal'akh sorriu. Katherine deveria se preocupar menos com o irmo e mais consigo mesma. Ele saiu da Suitland Parkway e pegou a Silver Hill Road. Pouco mais de 
um quilmetro depois, no escuro, pde ver a silhueta tnue do CAMS aninhado entre as rvores,  sua direita. O complexo todo era protegido por uma cerca alta de 
fita farpada.  
     Um prdio seguro? Mal'akh deu uma risadinha. Sei de algum que vai abrir a porta para mim.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 24
     
     A revelao se abateu sobre Langdon feito uma onda.  
     Eu sei por que estou aqui.  
     Parado no centro da Rotunda, ele sentiu um poderoso impulso de se virar e sair correndo... da mo de Peter, do reluzente anel de ouro, dos olhos desconfiados 
de Sato e Anderson. Em vez disso, ficou exatamente onde estava, apertando com mais fora a bolsa de viagem pendurada no ombro. Preciso sair daqui.  
     Seu maxilar se contraa  medida que sua memria repassava a cena daquela fria manh em Cambridge, muitos anos atrs. Eram seis da manh e Langdon estava entrando 
em sua sala de aula como sempre fazia depois das religiosas braadas na piscina de Harvard. Os conhecidos cheiros de p de giz e calefao a vapor o acolheram quando 
atravessou a soleira. Ele deu dois passos em direo  sua mesa, mas estacou.
     Algum o esperava ali - um cavalheiro elegante, de rosto aquilino e majestosos olhos cinzentos.  
     - Peter? - Langdon o encarou, chocado.  
     O sorriso de Peter Solomon cintilou na penumbra da sala.  
     - Bom dia, Robert. Surpreso com a minha visita? - Sua voz era suave mas potente.  
     Langdon se aproximou depressa e apertou calorosamente a mo do amigo. 
     - O que um sangue azul de Yale pode estar fazendo no campus de Harvard antes do raiar do dia?  
     - Misso secreta por trs das linhas inimigas - disse Solomon, rindo. Ele gesticulou em direo ao abdmen de Langdon. - As braadas esto dando frutos. Voc 
est em boa forma.  
     - S estou tentando fazer voc se sentir velho - disse Langdon, provocando-o.  - Que bom ver voc, Peter. O que houve?  
     - Uma curta viagem de negcios - respondeu o outro homem, correndo os  olhos pela sala de aula deserta. - Desculpe aparecer assim de repente, Robert, mas s 
tenho uns poucos minutos. Precisava pedir uma coisa a voc... pessoalmente. Um favor.  
     Essa  nova. Langdon se perguntou o que um simples professor universitrio poderia fazer pelo homem que tinha tudo.  
     - O que voc quiser - disse ele, grato pela oportunidade de ajudar algum que tanto lhe dera, sobretudo quando a vida privilegiada de Peter fora marcada por 
tantas tragdias. 
     Solomon baixou a voz.  
     - Eu estava pensando se voc consideraria a possibilidade de cuidar de uma coisa para mim.  
     Langdon revirou os olhos.  
     - Espero que no seja de Hrcules. - Certa vez, durante uma de suas viagens, Peter pedira que o amigo tomasse conta de seu mastim de 70 quilos, chamado Hrcules. 
Enquanto estava na casa de Langdon, o cachorro aparentemente sentiu saudades de seu brinquedo de couro preferido e saiu  procura de um substituto para afiar os 
dentes, encontrando algo  altura no escritrio do professor: uma Bblia do sculo XVII, escrita  mo em velino autntico e ornada com iluminuras. 
     - Ainda estou atrs de outra para lhe dar, sabia? - disse Solomon, sorrindo acanhado.  
     - Deixa pra l. Fico satisfeito que Hrcules tenha tido um gostinho de religio.  
     Solomon deu uma risadinha, mas parecia disperso.  
     - Robert, eu vim procurar voc porque gostaria que cuidasse de uma coisa bastante valiosa para mim. Eu a herdei faz algum tempo, mas no me sinto mais  vontade 
deixando-a em casa ou no escritrio.  
     Langdon se sentiu desconfortvel na mesma hora. Qualquer coisa "bastante valiosa" no mundo de Peter Solomon com certeza significava uma verdadeira fortuna. 
     - Que tal um cofre no banco? - A sua famlia no  acionista de metade dos bancos dos Estados Unidos?  
     - Isso envolveria papelada e funcionrios de banco; prefiro que seja um amigo de confiana. E sei que voc sabe guardar segredos. - Solomon ps a mo no bolso 
e retirou um pequeno embrulho, entregando-o a Langdon.  
     Diante daquele prembulo dramtico, Langdon esperava algo mais impressionante. O embrulho era uma pequena caixa em forma de cubo, com cerca de 5 centmetros 
de altura, envolta em um papel pardo desbotado e amarrada com barbante. A julgar pelo peso e pelo tamanho, o contedo parecia ser pedra ou metal. S isso? Langdon 
revirou a caixa nas mos, percebendo ento que o barbante havia sido cuidadosamente preso na lateral com um lacre de cera em alto-relevo, como um dito antigo. O 
lacre portava uma fnix de duas cabeas com o nmero 33 gravado no peito - o smbolo tradicional do mais alto grau da Francomaonaria.  
     - Francamente, Peter - disse Langdon, com um sorriso enviesado surgindo no rosto. - Voc  o Venervel Mestre de uma loja manica, no o Papa. Vai comear 
a selar embrulhos com o seu anel agora?  
     Solomon baixou os olhos para o prprio anel de ouro e deu uma risadinha. 
     - Eu no lacrei esse pacote, Robert. Quem fez isso foi meu bisav. Quase um  sculo atrs.  
     A cabea de Langdon se levantou de repente. 
     - O qu?  
     Solomon ergueu o anular.  
     - Este anel manico era dele. Depois disso foi do meu av, depois do meu  pai... e, por fim, meu.  
     Langdon suspendeu o pacote.  
     - O seu bisav embrulhou isto aqui um sculo atrs e ningum nunca abriu?  
     - Isso mesmo.  
     - Mas ... por que no?  
     Solomon sorriu.  
     - Porque no chegou a hora. 
     Langdon o encarou sem entender. 
     - Hora de qu?  
     - Robert, eu sei que isso vai parecer estranho, mas quanto menos voc souber, melhor. Apenas guarde esse embrulho em algum lugar seguro e, por favor, no conte 
a ningum que eu o entreguei a voc.  
     Langdon vasculhou os olhos de seu mentor em busca de uma centelha de humor. Solomon tinha uma tendncia a dramatizar as coisas, e Langdon ficou imaginando se 
o amigo no o estava manipulando um pouco.  
     - Peter, tem certeza de que isso no  apenas um plano engenhoso para eu achar que algum antigo segredo manico me foi confiado, ficar curioso e decidir entrar 
para a irmandade?  
     - Os maons no recrutam ningum, Robert, voc sabe disso. Alm do mais, voc j me disse que prefere continuar de fora. 
     Era verdade. Langdon tinha muito respeito pela filosofia e pelo simbolismo manicos, mas, mesmo assim, decidira nunca se iniciar. Os votos de confidencialidade 
da ordem o impediriam de falar sobre a Francomaonaria com seus alunos. O mesmo motivo pelo qual Scrates havia se recusado a participar formalmente dos Mistrios 
de Elusis.  
     Contudo, enquanto olhava para a misteriosa caixinha com seu lacre manico, no pde deixar de fazer a pergunta bvia:  
     - Por que no deixar isto aqui aos cuidados de um dos seus irmos manicos? 
     - Digamos apenas que meu instinto me diz que ele estar mais seguro fora da irmandade. E, por favor, no se deixe enganar pelo tamanho desse embrulho. Se o 
que meu pai me contou for verdade, ele contm algo de considervel poder. - Ele fez uma pausa. - Uma espcie de talism.  
     Ele disse talism? Por definio, um talism era um objeto com poderes mgicos. Tradicionalmente, eram usados para dar sorte, afastar os maus espritos ou auxiliar 
em antigos rituais.  
     - Peter, voc sabe que os talisms saram de moda na Idade Mdia, no sabe? 
     Peter pousou a mo no ombro de Langdon com toda a pacincia.  - Sei que parece estranho, Robert. Eu o conheo h muito tempo, e o seu ceticismo  uma das suas 
grandes foras como acadmico. Mas tambm  sua maior fraqueza. Eu o conheo o suficiente para saber que voc no  um homem a quem posso pedir para acreditar... 
apenas para confiar. Ento agora estou pedindo que confie em mim quando digo que esse talism  poderoso. Tenho informaes de que ele pode dar ao seu dono a capacidade 
de criar ordem a partir do caos.  
     Langdon s conseguiu encar-lo fixamente. A idia de "criar ordem a partir do caos" era um dos grandes axiomas manicos. Ordo ab chao. Ainda assim, era um 
absurdo afirmar que um talism pudesse atribuir qualquer tipo de poder, muito menos o de criar ordem a partir do caos.  
     - Esse talism - continuou Solomon - seria um perigo nas mos erradas, e infelizmente tenho motivos para crer que pessoas poderosas querem roub-lo de mim. 
- At onde se lembrava, Langdon jamais tinha visto tamanha seriedade nos olhos de Peter. - Gostaria que voc o mantivesse seguro para mim por algum tempo. Pode fazer 
isso?  
      noite, j em casa, Langdon ficou sentado sozinho  mesa da cozinha diante do embrulho, tentando imaginar o que poderia haver l dentro. No final das contas, 
ps tudo aquilo na conta da excentricidade de Peter, trancou o pacote  no cofre de sua biblioteca e acabou se esquecendo dele por completo.  
     Quer dizer... at a manh daquele dia.  
     O telefonema do homem com o sotaque sulista.  
     - Ah, professor, quase me esqueci! - dissera o assistente depois de lhe transmitir os detalhes sobre sua viagem at Washington. - O Sr. Solomon pediu mais uma 
coisa.  
     - Sim? - retrucou Langdon, j pensando na palestra que acabara de concordar em fazer.  
     - Ele deixou um recado para o senhor. - O homem comeou a ler com dificuldade, como se estivesse tentando decifrar a caligrafia de Peter. - "Por favor, pea 
a Robert... que traga ... o pequeno embrulho lacrado que lhe entreguei muitos anos atrs." - O homem fez uma pausa. - Isso faz algum sentido para  senhor?  
     Langdon ficou surpreso ao recordar a caixinha que passara aquele tempo  todo guardada dentro de seu cofre.  
     - Na verdade, faz, sim. Eu sei a que Peter est se referindo.  
     - E pode trazer?  
     - Claro. Diga a ele que vou levar.  
     - Maravilha. - O assistente pareceu aliviado. - Boa palestra hoje  noite. E  boa viagem.  
     Antes de sair de casa, Langdon havia retirado o embrulho do fundo de seu cofre, colocando-o dentro da bolsa de viagem.
     Agora, estava parado dentro do Capitlio dos Estados Unidos, certo apenas de uma coisa. Peter Solomon ficaria horrorizado se soubesse quo gravemente Langdon 
o havia decepcionado. 
     
     
     
     
     CAPTULO  25
     
     Meu Deus, Katherine tinha razo. Como sempre.  
     Pasma, Trish Dunne encarava os resultados do spider de busca que se materializavam no telo de plasma  sua frente. Tinha duvidado de que a busca fosse produzir 
qualquer resultado, mas, na verdade, ela j somava mais de uma dezena de ocorrncias. E outras continuavam a chegar.  
     Uma delas em especial parecia bastante promissora. 
     Trish se virou e gritou na direo da biblioteca:  
     - Katherine? Acho que voc vai querer ver isto aqui!  
     H alguns anos que Trish no usava um spider de busca como aquele, e os resultados daquela noite a deixaram espantada. Poucos anos atrs, esta busca no teria 
dado em nada. Agora, no entanto, parecia que a quantidade de material digital disponvel para pesquisa no mundo havia explodido a ponto de ser possvel encontrar 
literalmente qualquer coisa. E o que era mais incrvel: uma das palavras-chave era um termo do qual Trish nunca tinha ouvido falar... e a busca havia encontrado 
at mesmo isso.  
     Katherine atravessou correndo a porta da sala de controle. 
     - O que voc encontrou?    
     - Uma poro de candidatos. - Trish gesticulou na direo do telo de plasma. Cada um desses arquivos contm todas as suas expresses-chave ipsis litteris. 
     Katherine ajeitou os cabelos atrs da orelha e examinou a lista.  
     - Antes de voc se animar demais - acrescentou Trish -, posso lhe garantir que a maioria desses documentos no  o que voc est procurando. Eles so o que 
ns chamamos de buracos negros. Olhe s o tamanho dos arquivos. So absolutamente enormes. Parecem pastas compactadas de milhes de e-mails, gigantescas colees 
de enciclopdias em verso integral, fruns globais ativos h muitos anos e assim por diante. Por causa do tamanho e do contedo diversificado, esses arquivos contm 
tantas palavras-chave potenciais que atraem qualquer ferramenta de busca que chegue perto deles.  
     Katherine apontou para uma das ocorrncias perto do incio da lista.  
     - E este aqui?  
     Trish sorriu. Sua chefe estava um passo  frente, e havia encontrado o nico arquivo pequeno da lista.  
     - Olhos de guia. Pois , esse  o nosso nico candidato de verdade at agora.  Esse arquivo  to pequeno que no pode ter mais que uma pgina ou algo assim. 
     - Abra-o, por favor - pediu Katherine.  
     Trish nunca imaginaria que um arquivo de uma pgina pudesse conter todos os estranhos strings de pesquisa que Katherine tinha lhe passado. No entanto, quando 
clicou para abrir o arquivo, as expresses-chave estavam... cristalinas e fceis de encontrar no texto.  
     Katherine chegou mais perto, seus olhos cravados no telo de plasma.  
     - Mas esse arquivo foi... editado? 
     Trish aquiesceu.  
     - Bem-vinda ao mundo dos textos digitalizados.  
     A edio automtica havia se tornado prtica corriqueira na produo de textos digitalizados. Era um processo no qual um servidor permitia ao usurio pesquisar 
o texto inteiro, mas depois s revelava uma pequena parcela deste, uma espcie de teaser, apenas o texto imediatamente adjacente s expresses- chave requisitadas. 
Ao omitir a maior parte do texto, o servidor evitava a violao da lei de direitos autorais, alm de transmitir ao usurio uma mensagem intrigante: Eu tenho a informao 
que voc est procurando, mas, se quiser, vai ter que pagar por ela.  
     - Como voc pode ver - disse Trish, usando a barra de rolagem para permitir correr a pgina extremamente resumida -, o documento contm todas as suas expresses-chave. 
     Katherine ficou encarando o arquivo editado em silncio.   Trish lhe deu um minuto e ento subiu novamente at o topo da pgina.  Todas as expresses-chave 
de Katherine estavam sublinhadas e em maisculas, acompanhadas por uma pequena amostra de texto - as duas palavras que antecediam e as duas que sucediam a expresso 
requisitada.
     
     
     
     Trish nem imaginava a que podia se referir aquele arquivo. E que raios quer  dizer "symbolon"? 
     Katherine se aproximou ainda mais do monitor, ansiosa. 
     - De onde veio esse arquivo? Quem o escreveu?  
     Trish j estava buscando as respostas.  - S um segundo. Estou tentando rastrear a origem.   
      - Preciso saber quem escreveu isso - repetiu Katherine, rspida. - Preciso ver  resto.  
     - Estou tentando - disse Trish, surpresa com o tom da chefe.
     Estranhamente, o local onde o arquivo estava armazenado no exibia um endereo convencional da web, mas sim um endereo numrico de IP, ou Protocolo de Internet. 
     - No consigo exibir o IP - disse Trish. - O nome do domnio no est aparecendo. Espere a. - Ela fez surgir sua janela de terminal. - Vou rodar um traceroute. 
     Trish digitou a seqncia de comandos para dar um ping e rastrear a rota entre o computador da sua sala de controle e qualquer que fosse a mquina que estivesse 
armazenando aquele arquivo.  
     - Rastreando - disse ela, executando o comando.  
     As ferramentas de rastreamento de rota eram extremamente velozes, e uma longa lista de servidores surgiu quase no mesmo instante no telo de plasma. Trish foi 
descendo a lista... percorrendo o caminho de roteadores e switches que conectavam sua mquina a...  
     Mas que inferno! A ferramenta havia parado antes de chegar ao servidor do arquivo. Por algum motivo, o seu ping tinha batido em um servidor que o engolira em 
vez de mand-la de volta.  
     - Parece que o meu traceroute ficou bloqueado - disse Trish. Mas ser possvel?  
     - Execute de novo.  
     Trish acionou outro traceroute e obteve o mesmo resultado.  
     - Nada. Beco sem sada.  como se esse arquivo estivesse em um servidor impossvel de rastrear. - Ela olhou para os ltimos dados obtidos antes de a seqncia 
se interromper. - Mas uma coisa eu posso dizer: ele est situado em algum lugar na capital.  
     - Est brincando.  
     - No  nenhuma surpresa - disse Trish. - Esses spiders de busca se propagam geograficamente em espiral, o que significa que os primeiros resultados sempre 
so prximos. Alm disso, um dos seus strings de pesquisa foi "Washington, D.C.". 
     - E que tal uma busca no Whois? - sugeriu Katherine, referindo-se ao site de pesquisas de domnio por meio do endereo de IP. - No diria a quem pertence o 
domnio?
     Meio coisa de leigo, mas no  m idia. Trish acessou o Whois e fez uma busca do IP, esperando que os nmeros cifrados correspondessem a algum domnio existente. 
Sua frustrao agora se misturava a uma curiosidade cada vez maior. Quem est com esse arquivo? Os resultados do Whois apareceram logo, sem encontrar nada, e Trish 
ergueu as mos num gesto de derrota.    
     -  como se esse endereo de IP no existisse. No consigo encontrar nenhuma informao sobre ele.  
     -  bvio que o IP existe. Ns acabamos de pesquisar um arquivo armazenado nele!  
      verdade. No entanto, quem quer que possusse aquele arquivo aparentemente preferia no revelar sua identidade.  
     - No sei muito bem o que dizer. Rastreamento de sistemas na verdade no  minha especialidade e, a menos que voc queira ligar para algum com talentos de 
hacker, eu no sei o que fazer.  
     - Voc conhece algum?  
     Trish se virou para encarar a chefe.  
     - Katherine, eu estava brincando. No  exatamente uma boa idia.  
     - Mas as pessoas fazem isso? - Ela verificou o relgio.  
     - H, sim... o tempo todo. Tecnicamente falando,  bem fcil.
     - Quem voc conhece?  
     - Que seja hacker? - Trish deu uma risada nervosa. - Tipo metade dos caras  do meu antigo emprego.  
     - Algum em quem voc confie?  
     Ela est falando srio? Trish podia ver que sim, e muito.  
     - Bom, sim - respondeu ela depressa. - Conheo um cara para quem poderamos ligar. Ele era nosso especialista em segurana de sistemas... um nerd de carteirinha. 
Queria sair comigo, o que era meio constrangedor, mas  um cara legal e eu confio nele. Alm disso, ele trabalha como freelance.  
     - Ele sabe ser discreto?  
     - Ele  hacker.  claro que sabe ser discreto.  o trabalho dele. Mas tenho certeza de que iria querer pelo menos mil pratas s para olhar...  
     - Ligue para ele. Oferea o dobro se os resultados sarem rpido.  
     Trish no sabia o que a deixava mais desconfortvel: ajudar Katherine Solomon a contratar um hacker... ou ligar para um cara que provavelmente ainda achava 
inacreditvel que uma analista de metassistemas ruiva, baixinha e gorducha pudesse resistir a suas investidas romnticas.  
     - Tem certeza disso?  
     - Pode usar o telefone da biblioteca - disse Katherine. - O nmero  protegido. E no diga meu nome, claro.  
     - Est bem. - Trish se encaminhou para a porta, mas parou ao ouvir o toque do iPhone de Katherine. Com sorte, a mensagem de texto que havia acabado de chegar 
continha alguma informao capaz de livr-la daquela tarefa desagradvel. Ela esperou Katherine retirar o iPhone do bolso do jaleco e olhar para a tela.   
        
     Katherine sentiu uma onda de alvio ao ver o nome escrito em seu iPhone.  
     Finalmente.  
     
     PETER SOLOMON
     
     -  um torpedo do meu irmo - disse ela, relanceando os olhos para Trish. 
     O rosto de Trish se encheu de esperana. 
     - Ento talvez devssemos perguntar a ele sobre essa histria toda... antes de ligar para um hacker?  
     Katherine olhou para o documento editado no telo de plasma e ouviu a voz do Dr. Abaddon. Aquilo que seu irmo acredita que est escondido na capital... pode 
ser encontrado. Ela no sabia mais no que acreditar, e aquele documento continha informaes sobre as idias estapafrdias que aparentemente haviam se tornado uma 
obsesso para Peter. 
     Katherine fez que no com a cabea.  
     - Eu quero saber quem escreveu isso e onde o arquivo est armazenado.  Pode ligar.  
     Meio desanimada, Trish encaminhou-se para a porta.  
     Quer aquele arquivo pudesse ou no desvendar o que estava por trs da histria que Peter havia contado ao Dr. Abaddon, pelo menos um mistrio fora solucionado 
naquele dia, pensou Katherine. Seu irmo finalmente havia aprendido a usar a funo de mensagens de texto do iPhone que ela lhe dera de presente.  
     - E avise a imprensa - disse Katherine enquanto Trish saa. - O grande Peter Solomon acaba de mandar seu primeiro torpedo.  
     
     No estacionamento de um pequeno centro comercial em frente ao CAMS, Mal'akh estava em p ao lado de sua limusine, esticando as pernas e esperando o telefonema 
que, no tinha dvidas, receberia em breve. Havia parado de chover e uma lua de inverno comeara a surgir entre as nuvens. A mesma lua que o iluminara atravs da 
clarabia da Casa do Templo durante sua iniciao trs meses antes.  
     O mundo parece diferente hoje  noite.  
     Enquanto ele esperava, sua barriga tornou a roncar. O jejum de dois dias, embora desconfortvel, era essencial para sua preparao. Esse era o costume antigo. 
Logo todos os desconfortos fsicos j no teriam a menor importncia.   
     No ar frio da noite, Mal'akh deu uma risadinha ao ver que o destino o fizera parar, de forma bastante irnica, bem em frente a uma pequena igreja. Ali, entre 
uma clnica dentria e um mercadinho, aninhava-se um minsculo santurio.  
     CASA DA GLRIA DE DEUS.  
     Mal'akh olhou para o letreiro com a doutrina da Igreja: NS ACREDITAMOS QUE JESUS CRISTO FOI CONCEBIDO PELO ESPRITO SANTO, QUE NASCEU DA VIRGEM MARIA E QUE 
 AO MESMO TEMPO HOMEM E DEUS.
     Mal'akh sorriu. Sim, Jesus  de fato as duas coisas - homem e Deus -, mas ter nascido de uma virgem no  pr-requisito para a divindade. No  assim que acontece. 
     O toque de um celular varou o silncio da noite, fazendo sua pulsao se acelerar. Era o telefone de Mal'akh - um aparelho barato e descartvel que ele havia 
comprado na vspera. O identificador de chamadas mostrava que era a ligao que ele estava esperando.  
     Uma chamada local, ponderou Mal'akh, olhando para o outro lado da Silver Hill Road, em direo  silhueta indistinta, iluminada pelo luar, de um telhado em 
zigue-zague que se erguia acima das copas das rvores. Mal'akh abriu o telefone.
     - Dr. Abaddon falando - disse ele, forando a voz a ficar mais grave.  
     -  Katherine - respondeu a voz de mulher. - Finalmente tive notcias do  meu irmo.  
     - Ah, que alvio. Como ele est?  
     - Est a caminho do meu laboratrio agora mesmo - disse Katherine. - Na  verdade, ele sugeriu que voc se juntasse a ns.  
     - Como? - Mal'akh fingiu hesitar. - No seu laboratrio?  
     - Ele deve confiar muito em voc. Nunca convida ningum a vir aqui.  
     - Talvez ele ache que uma visita possa facilitar as nossas conversas, mas fico  me sentindo um intruso.  
     - Se meu irmo est dizendo que voc  bem-vindo, ento voc  bem-vindo.  Alm do mais, ele falou que tem muitas coisas para nos contar, e eu adoraria entender 
direito o que est acontecendo.  
     - Ento est bem. Onde exatamente fica o seu laboratrio? 
     No Centro de Apoio dos Museus Smithsonian. Voc sabe onde ?  
     - No - disse Mal'akh, olhando para o complexo do outro lado da rua. - Mas estou no carro agora e tenho um GPS. Qual  o endereo?  
     - Silver Hill Road, 4.210.  
     - Certo, espere um instante. Vou digit-lo aqui. - Mal'akh aguardou 10 segundos e ento tornou a falar. 
     - Ah, que bom, parece que fica mais perto do que eu pensava. Segundo o GPS, estou a uns 10 minutos da.  
     - timo, Vou ligar para a guarita e avisar que est chegando.   - Obrigado.  
     - At daqui a pouco.  
     Mal'akh guardou o telefone descartvel no bolso e olhou na direo do CAMS. Ser que foi grosseria eu me convidar? Sorrindo, sacou o iPhone de Peter Solomon 
e admirou a mensagem de texto que tinha mandado para Katherine minutos antes.  
     
     Recebi suas mensagens. Est tudo bem. Dia cheio. Esqueci consulta com Dr. Abaddon. Desculpe no ter falado nele antes. Longa histria. Estou indo para o laboratrio. 
Pea ao Dr. Abaddon que nos encontre l, se puder. Confio totalmente  nele e tenho muito a dizer a vocs dois. - Peter  
     
     Conforme o esperado, o iPhone de Peter apitou em seguida com a resposta de Katherine.  
     
     peter, parabns por aprender a mandar torpedos! aliviada por voc estar bem. falei com o Dr. A. e ele est vindo. at j! - k 
     
     Segurando com firmeza o iPhone de Solomon, Mal'akh se agachou ao lado da limusine e posicionou o aparelho entre o pneu dianteiro e o asfalto. Aquele telefone 
tinha sido muito til... mas j estava na hora de evitar que pudessem rastre-lo. Ele se sentou no banco do motorista, ligou o carro e avanou at ouvir o estalo 
ntido do iPhone se partindo.  
     Depois Mal'akh desligou novamente o carro e olhou para a silhueta distante do CAMS. Dez minutos. O imenso depsito de Peter Solomon abrigava mais de 30 milhes 
de tesouros, mas Mal'akh tinha ido at ali aquela noite para destruir apenas os dois mais valiosos.  
     A pesquisa de Katherine Solomon. 
     E a prpria Katherine Solomon.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  26
     
     Professor Langdon? disse Sato. - O senhor parece ter visto um fantasma. Est tudo bem?    
     Langdon puxou a bolsa de viagem mais para cima do ombro e colocou a mo sobre ela, como se de alguma forma isso pudesse ocultar o pacote em forma de cubo que 
ele estava carregando. Podia sentir que seu rosto tinha ficado plido.  
     - Eu s estou... preocupado com Peter.  
     Sato inclinou a cabea, olhando enviesado para ele.  
     Langdon teve um sbito receio de que o envolvimento de Sato naquela noite pudesse ter alguma relao com o pequeno embrulho que Solomon lhe havia confiado. 
Peter tinha avisado a Langdon: Pessoas poderosas vo tentar roubar isso. Seria perigoso nas mos erradas. Langdon no podia imaginar por que a CIA iria querer uma 
caixinha contendo um talism... ou aquilo que ele poderia se tornar. Ordo ab chao?
     Sato chegou mais perto, examinando-o com os olhos negros. 
     - Sinto que o senhor teve uma revelao, estou certa?
     Langdon percebeu que estava suando.  
     - No, no exatamente.  
     - Em que est pensando?  
     - Eu s... - Langdon hesitou, sem ter a menor idia do que dizer. No pretendia revelar a existncia do pacote, mas, se Sato o levasse para a CIA, sua bolsa 
provavelmente seria revistada na entrada.  
     - Na verdade - mentiu ele -, tive outra idia em relao ao nmero na mo de Peter.  
     A expresso de Sato nada revelou.  
     - Sim? - Ela olhou de esguelha para Anderson, que estava voltando depois de receber a equipe de criminalstica que finalmente chegara.  
     Langdon engoliu em seco e se agachou ao lado da mo, perguntando-se o que poderia inventar para lhes dizer. Voc  professor, Robert - improvise! Deu uma ltima 
olhada nos sete smbolos diminutos, torcendo para ter algum tipo de inspirao. 
     
     
     
     Nada. Branco total.  
      medida que a memria fotogrfica de Langdon ia percorrendo sua enciclopdia mental de smbolos, ele s conseguiu encontrar uma coisa para dizer. Era algo 
que havia lhe ocorrido inicialmente, mas que parecia improvvel. No momento, porm, ele precisava ganhar tempo para pensar.   
     - Bem - comeou ele -, para um simbologista, a primeira pista de que ele est no caminho errado ao decifrar smbolos e cdigos  quando comea a interpret-los 
usando linguagens simblicas mltiplas. Por exemplo, quando eu lhes disse que este texto estava escrito em romano e arbico, fiz uma anlise ruim, pois usei mais 
de um sistema simblico. O mesmo vale para algarismos romanos e runas.  
     Sato cruzou os braos e arqueou as sobrancelhas como quem diz: "Continue." 
     - Em geral, as comunicaes so feitas em uma linguagem, no em vrias, ento a primeira tarefa de um simbologista diante de qualquer texto  encontrar um nico 
sistema simblico coerente que se aplique a ele como um todo. 
     - E o senhor est vendo um sistema nico agora?  
     - Bem, sim... e no. - A experincia de Langdon com a simetria rotacional  dos ambigramas lhe ensinara que os smbolos s vezes tinham significados diferentes 
dependendo do ngulo em que eram vistos. No caso em questo, ele percebeu que havia de fato um modo de ver todos os sete smbolos como uma mesma lngua. - Se manipularmos 
um pouco a mo, a linguagem se tornar coerente. - De forma sinistra, a manipulao que Langdon estava prestes a realizar parecia j ter sido sugerida pelo seqestrador 
de Peter, quando ele mencionou o antigo adgio hermtico. Assim em cima como embaixo.  
     Langdon sentiu um calafrio ao estender o brao para segurar a base de madeira em que a mo de Peter estava presa. Delicadamente, virou a base de cabea para 
baixo, de forma que os dedos estendidos de Peter passaram a apontar para o cho. Os smbolos impressos na palma se transformaram no mesmo instante. 
     
     
     
     - Deste ngulo - disse Langdon -, o X-I-I-I se torna um algarismo romano vlido: 13. Alm disso, o restante dos caracteres pode ser interpretado usando o alfabeto 
romano: SBB. - Langdon imaginou que sua anlise fosse provocar muxoxos desinteressados, mas a expresso de Anderson mudou imediatamente.  
     - SBB? - perguntou o chefe.  
     Sato se virou para Anderson.  
     - Se no me engano, isso parece um sistema de numerao bem conhecido  aqui no Capitlio.  
     Anderson estava plido. 
     - .  
     Sato abriu um sorriso amargo e meneou a cabea para Anderson.    
     - Chefe, venha comigo, por favor. Gostaria de uma palavrinha em particular. 
     Enquanto a diretora Sato conduzia o chefe Anderson para um lugar em que no pudessem ser ouvidos, Langdon ficou parado sozinho, sem conseguir acreditar naquilo. 
Que diabos est acontecendo aqui? E o que  SBB XIII?  
     
     O chefe Anderson se perguntava se haveria alguma forma de aquela noite ficar mais estranha. A mo est dizendo SBB13? Ele estava pasmo que alguma pessoa de 
fora sequer tivesse ouvido falar em SBB.. quanto mais em SBB13. Pelo jeito, o indicador de Peter Solomon no os estava conduzindo para cima, como pareceu no comeo, 
mas apontando justamente na direo oposta. 
     A diretora Sato conduziu Anderson at uma rea sem movimento, perto da esttua de bronze de Thomas Jefferson. 
     - Chefe - disse ela -, imagino que o senhor saiba exatamente onde fica a  SBB13.  
     - Claro.  
     - Sabe o que tem l dentro?  
     - No, assim de cabea, no. Acho que no  usada h dcadas.  
     - Bem, o senhor vai abri-la para mim.  
     Anderson no gostava que lhe dissessem o que fazer em seu prprio prdio. 
     - Diretora, no  to simples assim. Primeiro vou ter que verificar a lista dos  usurios... Como a senhora sabe, a maior parte dos nveis inferiores  ocupada 
por salas particulares ou depsitos, e o protocolo de segurana em relao ao uso privado...  
     - O senhor vai destrancar a SBB13 para mim - disse Sato -, ou ento eu vou ligar para o ES e chamar uma equipe com uma marreta para derrubar a porta.  
     Depois de encarar a diretora longamente, Anderson sacou o rdio e levou-o em direo  boca.  
     - Aqui  Anderson. Preciso que destranquem o SBB para mim. Mande algum  me encontrar l em cinco minutos.  
     A voz que respondeu soou confusa.  
     - Chefe, confirmando, o senhor disse SBB?  
     - Correto. SBB. Mande algum agora mesmo. E vou precisar de uma lanterna. - Ele guardou o rdio. O corao de Anderson disparou quando Sato chegou bem perto 
dele, abaixando ainda mais a voz.  
     - Chefe, o tempo  curto - sussurrou ela -, e eu quero que o senhor nos faa descer at a SBB13 o mais rpido possvel.  
     - Sim, senhora.   
     - Tambm preciso de outra coisa do senhor.  
     Alm de arrombamento seguido de invaso? Anderson no estava em condies de protestar, mas no lhe passara despercebido que Sato havia chegado ali poucos minutos 
depois de a mo de Peter aparecer na Rotunda e que ela agora estava usando a situao para exigir acesso a reas privadas do Capitlio. Naquela noite, a diretora 
estava to  frente deles que parecia estar traando o caminho.  
     Sato gesticulou para o outro lado da sala, na direo do professor.
     - Est vendo aquela bolsa de viagem no ombro de Langdon?
     Anderson olhou para l.  
     - O que tem?  
     - Suponho que ela tenha passado pelo equipamento de raios X quando entrou no prdio.  
     - Claro. Todas as bolsas so verificadas.  
     - Eu quero ver esse raio X. Preciso saber o que h l dentro.
     Anderson olhou para a bolsa que Langdon carregara a noite inteira para l e para c.  
     - Mas... no seria mais fcil simplesmente pedir a ele? 
     - Qual foi a parte do meu pedido que no ficou clara?  
     Anderson tornou a sacar o rdio e transmitiu o pedido da diretora. Sato lhe deu o endereo de e-mail do seu BlackBerry e solicitou que a cpia digital do raio 
X fosse enviada o mais rpido possvel. Com relutncia, Anderson concordou.
     quela altura, a equipe de criminalstica estava levando a mo cortada para a polcia do Capitlio, mas Sato ordenou que ela fosse entregue diretamente  sua 
equipe em Langley. Anderson estava cansado demais para protestar. Tinha acabado de ser atropelado por um rolo compressor japons.  
     - E eu quero aquele anel - exclamou Sato na direo dos peritos.  
     O chefe da percia parecia prestes a question-la, mas mudou de idia. Retirou o anel de ouro da mo de Peter, colocou-o dentro de um saco plstico transparente 
e entregou-o a Sato. A diretora o guardou no bolso do blazer e em seguida se virou para Langdon.  
     - Estamos de sada, professor. Traga suas coisas. 
     - Para onde ns vamos? - retrucou Langdon. 
     - Apenas siga o Sr. Anderson.  
     Isso mesmo, pensou Anderson, e bem de perto. O SBB era uma rea do Capitlio que poucos j haviam visitado. Para chegar l, eles teriam de atravessar um vasto 
labirinto de pequenas cmaras e corredores estreitos enterrados sob a cripta. O filho caula de Abraham Lincoln, Tad, certa vez quase morreu ao se perder 1 embaixo. 
E Anderson estava comeando a desconfiar que, se as coisas corressem como Sato queria, Robert Langdon talvez tivesse um destino semelhante. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  27
     
     O especialista em segurana de sistemas Mark Zoubianis sempre se orgulhava da prpria capacidade de desempenhar mltiplas tarefas. Naquele momento, estava sentado 
em seu futon com um controle de TV, um telefone sem fio, um laptop, um palm e uma tigela grande de salgadinhos. Com um olho grudado no jogo dos Redskins - que acabara 
de colocar no mudo - e outro no laptop, Zoubianis falava em seu microfone Bluetooth com uma mulher de quem no tinha notcias havia um ano.  
     S Trish Dunne mesmo para ligar na noite de um play-off. 
     Confirmando mais uma vez sua falta de traquejo social, a ex-colega havia achado que o jogo dos Redskins era o momento perfeito para passar uma cantada em Zoubianis 
e lhe pedir um favor. Depois de jogar um pouco de conversa fora sobre os velhos tempos e sobre como sentia saudades das suas timas piadas, Trish disse finalmente 
o que queria: estava tentando descobrir um endereo de IP oculto, provavelmente de um servidor seguro na rea de Washington. O servidor continha um pequeno documento 
de texto que ela desejava acessar. Se isso no fosse possvel, queria informaes sobre quem era o dono do arquivo. 
     Cara certo, hora errada, ele lhe respondera. Trish ento o cobriu de elogios, sendo que a maioria era verdade mesmo, e quando Zoubianis se deu conta j estava 
digitando em seu laptop um endereo de IP de aspecto estranho.  
     Zoubianis deu uma olhada no nmero e na mesma hora ficou apreensivo. 
     - Trish, esse IP tem um formato esquisito. Est escrito em um protocolo que ainda nem est disponvel para o pblico. Provavelmente inteligncia do governo 
ou militar.  
     - Militar? - Trish riu. - Acredite, eu acabei de acessar um arquivo editado  desse servidor, e ele no era militar.
     Zoubianis acessou sua janela de terminal e tentou um traceroute. 
     - Voc disse que o seu rastreador morreu?  
     - Sim. Duas vezes. No mesmo ponto.    
     - O meu tambm. - Ele acessou um programa de diagnstico e o inicializou.  - E o que esse IP tem de to interessante?  
     - Eu executei um delegador que acessou uma ferramenta de busca nesse IP e encontrou um arquivo editado. Preciso ver o resto desse arquivo. Eu no me importaria 
de pagar por ele, mas no consigo descobrir quem  o proprietrio do IP nem como acess-lo. 
     Zoubianis franziu o cenho para o monitor.  
     - Tem certeza disso? Estou fazendo um diagnstico e o cdigo desse firewall parece... coisa muito sria.  
     -  por isso que voc vai ganhar uma bolada.  
     Zoubianis pensou um pouco. Era uma fortuna por um trabalho fcil.  
     - S uma pergunta, Trish. Por que voc est to interessada nisso?  
     Trish demorou um pouco para responder.  
     - Estou fazendo um favor para uma amiga. 
     - Deve ser uma amiga especial.  
     - , sim.  
     Zoubianis deu uma risadinha e segurou a lngua. Eu sabia.
     - Olhe aqui - disse Trish, soando impaciente. - Voc  bom o suficiente para  identificar esse IP oculto? Sim ou no?  
     - Sim, eu sou bom o suficiente. E sim, eu sei que estou na palma da sua mo. 
     - Quanto tempo vai levar?  
     - No muito - disse ele, digitando enquanto falava. - Devo precisar de uns 10 minutos mais ou menos para entrar em uma das mquinas dessa rede. Quando estiver 
l dentro e souber o que estou vendo, ligo de volta.  
     - Obrigada. E a, tudo bem com voc?  
     S agora ela pergunta?  
     - Trish, pelo amor de Deus, voc me liga em noite de play-off e agora quer jogar conversa fora? Quer que eu entre nesse IP ou no?  
     - Obrigada, Mark, fico muito agradecida. Aguardo sua ligao.
     - Quinze minutos. - Zoubianis desligou, pegou a tigela de salgadinhos e ligou o som da TV.  
     Mulheres.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 28
     
     Para onde esto me levando?  
     Enquanto apertava o passo para acompanhar Anderson e Sato rumo s profundezas do Capitlio, Langdon podia sentir o ritmo das batidas de seu corao aumentar 
a cada degrau que descia. Primeiro, passaram pelo prtico da Rotunda, depois desceram uma escadaria de mrmore e, em seguida, andaram na direo contrria  que 
tinham vindo, atravessando um portal largo para entrar na clebre sala que ficava logo abaixo do cho da Rotunda.  
     A Cripta do Capitlio.  
     O ar ali era mais pesado e Langdon j estava se sentindo claustrofbico. O teto baixo da cripta e a luz suave que vinha dele acentuavam a circunferncia robusta 
das 40 colunas dricas necessrias para sustentar o vasto piso de pedra diretamente acima de suas cabeas. Relaxe, Robert.  
     - Por aqui - disse Anderson, andando depressa ao dobrar para a esquerda no amplo espao circular.  
     Felizmente, aquela cripta ali no abrigava nenhum corpo. Em vez disso, continha diversas esttuas, uma maquete do Capitlio e uma rea rebaixada onde ficava 
guardado o estrado de madeira sobre o qual eram dispostos os caixes nos funerais de Estado. O grupo passou depressa por ali, sem um olhar que fosse para a estrela 
de quatro pontas no centro do piso onde outrora ardera a chama eterna.  
     Anderson parecia afobado e Sato estava novamente com o rosto enterrado no BlackBerry. Langdon tinha ouvido dizer que o sinal dos celulares era ampliado e transmitido 
para todos os cantos do prdio do Capitlio, de modo a possibilitar as centenas de ligaes governamentais que trafegavam por ali diariamente.  
     Depois de atravessar a cripta na diagonal, o grupo adentrou um saguo fracamente iluminado e comeou a serpentear por uma intrincada srie de corredores e becos 
sem sada. O emaranhado de passagens tinha portas numeradas, cada qual exibindo um nmero de identificao. Enquanto seguiam seu caminho sinuoso, Langdon foi lendo 
o que estava escrito nas portas.  
     S154... S153... S152...  
     No fazia a menor idia do que havia atrs delas, mas pelo menos uma coisa agora parecia clara: o significado da tatuagem na palma da mo de Peter Solomon. 
SBB13 parecia se referir a uma porta numerada em algum lugar nas entranhas do Capit1io.   
     - O que so todas estas portas? - perguntou Langdon, apertando sua bolsa de viagem com fora junto s costelas. Ele queria entender que relao poderia ter 
o pequeno embrulho de Solomon com uma porta na qual estava escrito SBB13.  
     - Salas e depsitos - respondeu Anderson. - Escritrios e depsitos particulares - acrescentou ele, relanceando os olhos para trs, na direo de Sato.  
     Sato sequer ergueu os olhos do BlackBerry.  
     - Parecem minsculos - comentou Langdon.  
     - So armrios metidos a besta, a maioria, mas mesmo assim  um dos metros  quadrados mais cobiados de Washington. Isto aqui  o corao do Capitlio original, 
e a antiga cmara do Senado fica dois andares acima de onde estamos.  
     - E a SBB13? - indagou Langdon. -  o escritrio de quem?  
     - De ningum. O SBB  uma rea de depsito particular, e devo dizer que  estou intrigado para saber como...  
     - Chefe Anderson - interrompeu Sato, sem tirar os olhos do BlackBerry. - Leve-nos at l e pronto.  
     Anderson contraiu o maxilar e os guiou em silncio pelo que agora parecia um hbrido de galpo de armazenagem e labirinto pico. Em quase todas as paredes, 
placas de sinalizao apontavam para um lado e para o outro, aparentemente tentando indicar grupos especficos de salas em meio quela rede de corredores.          
     S142 a S152...                 
     ST1 a ST70...         
     H1 a H166 & HT1 a HT67...  
     Langdon duvidava que fosse capaz de encontrar sozinho a sada daquele lugar. Isto aqui  um labirinto. At onde conseguia entender, os nmeros das salas eram 
precedidos de S ou H, dependendo se estavam do lado do prdio correspondente ao Senado ou  House of Representatives, ou seja, a Cmara dos Representantes. As reas 
designadas como ST e HT ficavam aparentemente em um nvel que Anderson chamava de Terrace, um subsolo situado sob os terraos que cercavam o Capitlio.  
     Nem sinal de placa indicando SBB.  
     Por fim, chegaram diante de uma pesada porta de ao com um compartimento para inserir um carto de acesso. 
     
     Nvel SB
     Langdon sentiu que estavam chegando perto.   
     Anderson fez meno de pegar o carto de acesso, mas hesitou, parecendo desconfortvel com as ordens de Sato.  
     - Chefe - instou a diretora. - No temos a noite toda.  
     Com relutncia, ele inseriu o carto, destrancando a porta de ao. Depois a empurrou e todos entraram num saguo. A porta pesada se fechou atrs deles com um 
dique.  
     Langdon no tinha certeza do que esperava encontrar ali, mas certamente no era o que via  sua frente. Estava diante de uma escadaria que descia ainda mais. 
     - Vamos descer de novo? - perguntou, estacando. - Existe um nvel abaixo da cripta?  
     - Sim - respondeu Anderson. - SB significa "Senate Basement".  o Subsolo do Senado.  
     Langdon gemeu. Que timo.  
     
     CAPTULO  29
     
     Os faris que subiam a rampa de acesso arborizada do CAMS eram os primeiros que o segurana tinha visto na ltima hora. Diligente, ele abaixou o volume da TV 
porttil e guardou o lanche debaixo do balco. Pssima hora. Os Redskins estavam completando sua primeira seqncia de ataque, e ele no queria perder aquilo.  
      medida que o carro se aproximava, o segurana verificou o nome no bloco de anotaes  sua frente.  
     Dr. Christopher Abaddon.  
     Katherine Solomon tinha acabado de ligar para avisar  segurana sobre a chegada iminente daquele convidado. O vigia nem imaginava quem poderia ser aquele mdico, 
mas aparentemente ele era muito bom no que fazia: estava chegando numa elegante limusine preta. O carro parou ao lado da guarita e a janela de vidraa escurecida 
do motorista desceu sem fazer rudo.  
     - Boa noite - disse o chofer, erguendo o quepe. Era um homem corpulento, de cabea raspada. Estava escutando o jogo no rdio do carro. - Estou trazendo o Dr. 
Christopher Abaddon para encontrar a Sra. Katherine Solomon.  
     O segurana aquiesceu. 
     - Identidade, por favor.    
     O chofer pareceu surpreso.  
     - Desculpe, a Sra. Solomon no avisou?  
     O segurana tornou a aquiescer, olhando de relance para a TV.  
     - Mesmo assim preciso escanear e registrar a identidade dos visitantes. Sinto muito,  o regulamento. Preciso ver o documento do doutor.  
     - Sem problemas. - O chofer virou para trs e falou em voz baixa atravs da divisria que garantia a privacidade dos passageiros. Enquanto ele fazia isso, o 
segurana deu outra espiada no jogo. Os Redskins estavam entrando em formao e ele esperava liberar aquela limusine antes da jogada seguinte.  
     O chofer tornou a se virar para a frente e estendeu o documento que aparentemente acabara de receber pela divisria.  
     O segurana pegou a carteira de motorista e a escaneou rapidamente, incluindo-a no seu sistema. Ela fora emitida em Washington e pertencia a um tal de Christopher 
Abaddon, domiciliado em Kalorama Heights. A foto mostrava um senhor louro e atraente usando um blazer, uma gravata e um leno dobrado no bolso da frente. Que tipo 
de figura vai tirar carteira de motorista com um leno dobrado no bolso do palet?  
     O segurana ouviu um grito de comemorao e virou para a TV bem a tempo de ver um jogador dos Redskins fazendo uma dancinha com o dedo apontado para o cu. 
     - Perdi - resmungou, tornando a se virar para a janela. - Tudo certo - disse, devolvendo a carteira para o chofer. - Pode passar.  
     Enquanto a limusine entrava, o segurana voltou a prestar ateno na TV, torcendo para passarem um replay.  
     
     Ao conduzir a limusine pela sinuosa rampa de acesso, Mal'akh no conseguiu conter um sorriso. Tinha sido muito fcil entrar no museu secreto de Peter Solomon. 
E mais prazeroso ainda: aquela era a segunda vez em 24 horas que Mal'akh invadia espaos exclusivos de Solomon. Na noite anterior, havia feito uma visita semelhante 
 residncia dele.  
     Embora Solomon tivesse uma propriedade rural magnfica em Potomac, passava a maior parte do tempo na cidade, na cobertura do seu luxuoso edifcio, o Dorchester 
Arms. O prdio, assim como boa parte dos que serviam de residncia para os super-ricos, era uma verdadeira fortaleza. Muros altos. Guaritas. Listas de convidados. 
Estacionamento subterrneo protegido.  
     Mal'akh tinha encostado aquela mesma limusine junto  guarita do prdio, erguido o quepe de motorista da cabea raspada e afirmado:    
     - Estou trazendo o Dr. Christopher Abaddon. Ele  convidado do Sr. Peter Solomon. - Mal'akh pronunciara as palavras como se estivesse anunciando a chegada do 
duque de York. 
     O segurana verificou um registro e, em seguida, a identidade de Abaddon. 
     - Sim, estou vendo que o Sr. Solomon est esperando o Sr. Abaddon. - Ele apertou um boto e o porto se abriu. - O Sr. Solomon mora na cobertura. Pea para 
o seu convidado usar o ltimo elevador  direita. Ele sobe at o ltimo andar. 
     - Obrigado. - Mal'akh inclinou de leve o quepe e passou pela guarita.  
     Enquanto se dirigia aos fundos da garagem, olhou ao redor em busca de cmeras de segurana. No viu nenhuma. Aparentemente, quem morava ali no era do tipo 
que arrombava carros nem que gostava de ser vigiado.  
     Mal'akh estacionou em um canto escuro perto dos elevadores, abaixou a divisria entre o compartimento do motorista e o dos passageiros e passou pela abertura 
at a parte de trs da limusine. Ali, livrou-se do quepe de chofer e colocou a peruca loura. Endireitando o palet e a gravata, olhou-se no espelho para se certificar 
de que no havia borrado a maquiagem. Mal'akh no estava disposto a correr nenhum risco. No naquela noite.  
     Esperei demais por isso.  
     Segundos depois, estava entrando no elevador particular. A subida at o ltimo andar foi silenciosa e suave. Quando a porta se abriu, ele se viu em um hall 
de entrada elegante e privativo. Seu anfitrio j estava  sua espera.  
     - Dr. Abaddon, seja bem-vindo.  
     Mal'akh encarou os famosos olhos cinzentos do homem e sentiu o corao bater mais acelerado.  
     - Sr. Solomon, obrigado por me receber.  
     - Por favor, pode me chamar de Peter. - Os dois homens se cumprimentaram com um aperto de mos. Quando suas palmas se tocaram, Mal'akh viu o anel de ouro manico 
na mo do homem mais velho... a mesma que certa vez havia apontado uma arma para ele. Uma voz sussurrou de seu passado distante. Se voc apertar esse gatilho, vou 
assombr-lo para sempre.  
     - Entre, por favor - disse Solomon, conduzindo Mal'akh at uma elegante sala de estar cujas amplas janelas proporcionavam uma vista estupenda do horizonte coberto 
de edifcios de Washington.  
     -  de ch este cheiro que estou sentindo? - perguntou Mal'akh ao entrar. 
     Solomon pareceu impressionado.  
     - Meus pais sempre recebiam convidados com ch. Eu mantive essa tradio.  - Ele conduziu Mal'akh at a parte da sala em que um servio de ch aguardava  em 
frente  lareira, - Creme e acar?   
        
     - Puro, obrigado.  
     Solomon pareceu novamente impressionado.  
     - Um purista. - Ele serviu a ambos uma xcara de ch-preto. - Voc disse que precisava conversar comigo sobre um assunto de natureza delicada e que s podia 
ser discutido em particular.  
     - Obrigado. Fico grato pelo seu tempo.  
     - Voc e eu agora somos irmos manicos. Temos um vnculo. Diga-me  como posso ajud-lo.  
     - Em primeiro lugar, eu gostaria de lhe agradecer pela honra do grau 33 alguns meses atrs. Isso significa muito para mim.
     - Fico satisfeito, mas, por favor, saiba que essas decises no so s minhas. Elas so tomadas por votao no Supremo Conselho.  
     - Claro. - Mal'akh desconfiava que Peter Solomon provavelmente votara contra ele, mas, entre os maons, como em qualquer coisa na vida, dinheiro era poder. 
Depois de alcanar o grau 32 em sua prpria loja, Mal'akh esperara apenas um ms para fazer uma doao de muitos milhes de dlares para caridade em nome da Grande 
Loja Manica. Esse ato espontneo de altrusmo, conforme Mal'akh previra, havia bastado para lhe valer um rpido convite para integrar a elite do grau 33. Ainda 
assim, at agora nenhum segredo me foi revelado.  
     Apesar dos boatos de longa data - "Tudo  revelado no grau 33" -, ningum lhe contara nada que fosse relevante para sua busca. Mas nunca havia esperado que 
fosse diferente. O crculo interno da Francomaonaria continha crculos ainda menores... aos quais Mal'akh ainda iria levar muitos anos para ter acesso, se  que 
um dia teria. Mas no dava importncia a isso. Sua iniciao cumprira seu objetivo. Algo nico e singular acontecera dentro daquela Sala do Templo, algo que dera 
a Mal'akh poder sobre todos eles. Eu no obedeo mais s suas regras.  
     - Sabia - disse Mal'akh, tomando um gole do ch - que ns dois nos conhecemos muitos anos atrs?  
     Solomon fez cara de surpresa. 
     -  mesmo? No me recordo.  
     - Faz bastante tempo... - E Christopher Abaddon no  meu nome verdadeiro. 
     - Sinto muito. Devo estar ficando velho. Pode me lembrar de onde eu o conheo?  
     Mal'akh sorriu uma ltima vez para o homem que mais detestava na face da Terra.  
     -  uma pena voc no se lembrar.  
     Com um nico movimento gracioso, Mal'akh tirou do bolso um pequeno instrumento e o estendeu para a frente, pressionando-o com fora contra o peito do outro. 
Houve um claro azul e pode-se ouvir o ntido chiado da descarga de uma arma de choque, seguido por um arquejo de dor quando um milho de volts de eletricidade percorreram 
o corpo de Peter Solomon. Seus olhos se esbugalharam e ele afundou inerte na cadeira. Mal'akh ento se levantou, avultando-se sobre o outro homem, salivando feito 
um leo prestes a devorar a presa ferida.  
     Solomon arquejava, lutando para respirar.  
     Mal'akh viu medo nos olhos de sua vtima e se perguntou quantas pessoas j tinham visto o grande Peter Solomon se encolher de pavor. Saboreou aquela cena durante 
um longo minuto. Enquanto esperava o homem recuperar o flego, tomou um gole do ch.  
     Em meio a espasmos, Solomon tentava falar. 
     - P... por qu? - ele conseguiu dizer por fim.  
     - Por que voc acha? - perguntou Mal'akh.  
     Solomon parecia genuinamente perplexo. 
     - Voc quer... dinheiro?  
     Dinheiro? Mal'akh riu e tomou outro gole de ch.  
     - Eu doei milhes de dlares aos maons; no preciso de riquezas. - Vim  atrs de conhecimento, e ele me oferece riquezas. 
     - Ento ... o que voc quer?  
     - Voc detm um segredo. Hoje  noite vai compartilh-lo comigo.  
     Solomon se esforou para erguer o queixo de modo a encarar Mal'akh nos olhos.  
     - No estou... entendendo.  
     - Chega de mentiras! - gritou Mal'akh, avanando at ficar a poucos centmetros do homem paralisado. - Eu sei o que est escondido aqui em Washington.  
     Uma expresso desafiadora animava os olhos cinzentos de Solomon. 
     - No fao idia do que voc est falando!  
     Mal'akh deu outro gole no ch e pousou a xcara sobre um porta-copos.  
     - Voc me disse essas mesmas palavras h 10 anos, na noite em que sua me  morreu.  
     Os olhos de Solomon se arregalaram. 
     - Voc... ?  
     - Ela no precisava ter morrido. Se voc tivesse me dado o que eu pedi...  
     O rosto do homem mais velho se contorceu, transformando-se em uma mscara de horror na qual se misturavam reconhecimento... e incredulidade. 
     - Eu avisei - disse Mal'akh - que se voc puxasse o gatilho eu iria assombr-lo para sempre.  
     - Mas voc est...    
     Mal'akh avanou, tornando a pressionar com fora a arma de choque contra o peito de Solomon. Houve outro claro azul, e Solomon ficou totalmente inerte.  
     Mal'akh guardou a pistola no bolso, terminando de beber seu ch com calma. Quando acabou, enxugou a boca com um guardanapo de linho bordado com um monograma 
e olhou para sua vtima.  
     - Vamos?  
     O corpo de Solomon estava imvel, mas seus olhos continuavam arregalados e alertas.  
     Mal'akh se agachou perto dele e sussurrou no seu ouvido. 
     - Vou levar voc a um lugar onde s a verdade permanece. 
     Sem mais nenhuma palavra, Mal'akh embolou o guardanapo com o monograma e o enfiou dentro da boca de Solomon. Ento, ergueu o corpo flcido do homem sobre os 
ombros largos e encaminhou-se para o elevador privativo. Na sada, recolheu da mesa do hall o iPhone e as chaves de Solomon.  
     Hoje  noite voc vai me contar todos os seus segredos, pensou Mal'akh. Inclusive por que me abandonou tantos anos atrs como se eu tivesse morrido.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  30
     
     Nvel SB.  
     Subsolo do Senado.  
     A claustrofobia de Robert Langdon se apoderava dele com mais fora a cada degrau descido s pressas.  medida que eles penetravam mais fundo nos alicerces originais 
do prdio, o ar se tornava mais pesado e a ventilao parecia inexistente. As paredes ali embaixo eram feitas de uma mistura irregular de pedra e tijolos amarelos. 
     Enquanto andavam, a diretora Sato digitava em seu BlackBerry. Langdon percebia uma certa desconfiana no comportamento contido da mulher, mas essa sensao 
estava rapidamente se tornando recproca. Sato ainda no havia contado como soubera que ele estava ali naquela noite. Questo de segurana nacional? Ele achava difcil 
estabelecer qualquer relao entre misticismo antigo e a segurana do pas. Mas, pensando bem, estava com dificuldade de entender qualquer coisa relativa quela 
situao.    
     Peter Solomon me confiou um talism... um louco delirante me enganou para que eu o trouxesse at o Capitlio e quer que eu o use para destrancar um portal mstico... 
que talvez esteja dentro de uma sala chamada SBB13.  
     No era exatamente uma situao clara.  
     Enquanto prosseguiam, Langdon tentava afastar a horrvel imagem da mo tatuada de Peter transformada na Mo dos Mistrios. Aquela cena dantesca era acompanhada 
pela voz de seu amigo: Os Antigos Mistrios, Robert, deram origem a muitos mitos... mas isso no significa que eles prprios sejam uma fico.  
     Apesar de uma carreira inteira dedicada ao estudo dos smbolos e da histria do misticismo, Langdon sempre havia se debatido intelectualmente com a idia dos 
Antigos Mistrios e sua poderosa promessa de apoteose. 
     Reconhecidamente, os registros histricos continham indcios irrefutveis de que um saber secreto aparentemente originado nas Escolas de Mistrios do Antigo 
Egito tinha sido transmitido ao longo dos tempos. Esse conhecimento se tornou clandestino, ressurgindo na Europa renascentista quando, segundo a maioria dos relatos, 
foi confiado a um grupo de elite de cientistas que trabalhava no mais importante think tank cientfico da Europa - a Real Sociedade de Londres -, enigmaticamente 
apelidado de Colgio Invisvel.  
     O "colgio" oculto se tornou rapidamente um "grupo de notveis" que inclua as mentes mais esclarecidas do mundo - as de Isaac Newton, Francis Bacon, Robert 
Boyle e at mesmo Benjamin Franklin. Em nossa era, sua lista de "membros" modernos no se mostrou menos impressionante - Einstein, Hawking, Bohr e Celsius. Todas 
essas grandes mentes efetuaram saltos qunticos no que diz respeito ao conhecimento humano, avanos que, segundo alguns, eram resultado de seu contato com um saber 
antigo conservado no Colgio Invisvel. Langdon duvidava que isso fosse verdade, embora com certeza uma quantidade singular de "trabalho mstico" tivesse ocorrido 
entre aquelas paredes.  
     A descoberta dos papis secretos de Isaac Newton em 1936 deixara o mundo pasmo ao revelar sua intensa paixo pelo estudo da alquimia antiga e do saber mstico. 
Os escritos particulares de Newton incluam uma carta manuscrita endereada a Robert Boyle, na qual ele exortava o colega a guardar "total silncio" sobre o conhecimento 
mstico que lhes havia sido revelado. "Ele no pode ser divulgado", escreveu Newton, "sem imensos danos para o mundo."  
     O significado desse estranho aviso era alvo de debates at hoje.  
     - Professor - falou Sato de repente, erguendo os olhos do BlackBerry -, apesar de o senhor insistir que nem imagina por que est aqui hoje, talvez possa esclarecer 
o significado do anel de Peter Solomon. 
     - Eu posso tentar - disse Langdon, abandonando seus devaneios.   
     Ela pegou o saco plstico da percia e o entregou a Langdon. 
     - Me fale sobre os smbolos desse anel.  
     Enquanto avanavam pelo corredor deserto, Langdon examinou o conhecido anel. A face exibia a imagem de uma fnix de duas cabeas, com o nmero 33 gravado no 
peito, segurando um estandarte que dizia ORDO AB CHAO.  
     - A fnix de duas cabeas com o nmero 33  o emblema do mais alto grau manico. - Tecnicamente, esse grau prestigioso s existia no Rito Escocs. No entanto, 
os ritos e graus da Maonaria formavam uma hierarquia complexa que Langdon no estava disposto a esmiuar para Sato naquela noite. - Em essncia, o grau 33  uma 
honraria de elite reservada a um pequeno grupo de maons altamente qualificados. Todos os outros graus podem ser alcanados por meio da concluso bem-sucedida do 
anterior, mas a ascenso ao grau 33  restrita. Ela s ocorre mediante um convite.  
     - Ento o senhor sabia que Peter Solomon era membro desse crculo interno de elite?  
     -  claro. Fazer parte desse grupo no chega a ser um segredo.
     - E ele  o oficial de maior patente desse crculo?  
     - Atualmente, sim. Peter lidera o Supremo Conselho do Grau 33, a instituio que governa o Rito Escocs nos Estados Unidos.  
     Langdon sempre adorou visitar a sede do Supremo Conselho, chamada Casa do Templo, uma obra-prima da arquitetura clssica cuja ornamentao simblica era comparvel 
 da Capela Rosslyn, na Esccia.  
     - Professor, o senhor reparou no que est gravado na lateral do anel? Ela traz as palavras: "Tudo  revelado no grau 33".  
     Langdon assentiu.  
     -  um tema comum na tradio manica.  
     - O que significa, imagino eu, que se um maom  aceito no grau mais alto, o grau 33, ento alguma coisa especial lhe  revelada?  
     - Sim,  essa a crena, mas provavelmente no a realidade. Sempre houve especulaes conspiratrias segundo as quais uns poucos escolhidos dentro do mais alto 
escalo da Maonaria seriam apresentados a algum grande segredo mstico. Desconfio que a verdade seja muito menos espetacular.  
     Peter Solomon costumava fazer aluses jocosas  existncia de um precioso segredo manico, mas Langdon sempre achou que aquilo fosse apenas uma tentativa espirituosa 
de convenc-lo a entrar para a irmandade. Infelizmente, os acontecimentos daquela noite no tinham sido nem um pouco divertidos, e no havia humor algum no tom srio 
com que Peter insistira que Langdon protegesse o embrulho lacrado que estava dentro de sua bolsa.    
     Desconsolado, Langdon lanou um olhar para o saco plstico que continha o anel de ouro de Peter.  
     - Diretora - comeou ele -, a senhora se importa que eu fique com isso?  
     Ela olhou na sua direo.  
     - Por qu?  
     - Este anel  muito valioso para Peter, e eu gostaria de devolv-lo para ele hoje  noite.  
     Ela fez cara de ctica.  
     - Tomara que o senhor tenha essa oportunidade. 
     - Obrigado. - Langdon guardou o anel no bolso.  
     - Mais uma pergunta - disse Sato enquanto eles se embrenhavam cada vez mais no labirinto a passos rpidos. - Minha equipe disse que, ao cruzar os conceitos 
de "grau 33" e "portal" com "Maonaria", encontrou literalmente centenas de referncias a uma "pirmide".  isso mesmo?  
     - Isso tambm no  surpresa - disse Langdon. - Os construtores de pirmides do Egito so os precursores dos pedreiros modernos, e a pirmide, assim como os 
temas egpcios,  muito comum no simbolismo manico.  
     - E ela simboliza o qu?  
     - A pirmide representa essencialmente a iluminao.  um smbolo arquitetnico emblemtico da capacidade dos homens antigos de se libertarem do plano terrestre 
e ascenderem rumo ao cu, ao sol dourado e, por fim,  fonte suprema da iluminao.  
     Ela aguardou alguns instantes.  
     - S isso?  
     S isso?! Langdon tinha acabado de descrever um dos smbolos mais elegantes da histria. A estrutura por meio da qual o homem ascendia ao reino dos deuses. 
     - Segundo a minha equipe - disse ela -, parece que hoje  noite existe uma conexo muito mais relevante. Eles esto me dizendo que existe uma lenda popular 
sobre uma pirmide especfica aqui em Washington... uma pirmide relacionada aos maons e aos Antigos Mistrios.  verdade?  
     Langdon percebeu ento a que ela estava se referindo e tentou dissuadi-la da idia antes que perdessem mais tempo. 
      - Eu conheo essa lenda, diretora, mas ela  pura fantasia. A Pirmide Manica  um dos mitos mais duradouros de Washington, e provavelmente sua origem  
a pirmide que aparece no Grande Selo dos Estados Unidos.  
     - Por que o senhor no mencionou isso antes?  
     Langdon deu de ombros.   
      - Porque no existe nenhum fato que fundamente isso. Como eu disse, trata-se de um mito. Um dos muitos associados aos maons.  
     - E, no entanto, esse mito em especial tem relao direta com os Antigos Mistrios?  
     - Claro, como vrios outros. Os Antigos Mistrios so a base de inmeras lendas que sobreviveram ao longo da histria... relatos sobre um poderoso saber protegido 
por guardies secretos como os Cavaleiros Templrios, a Ordem Rosa-cruz, os Illuminati, os Alumbrados... a lista no tem fim. Todas essas lendas tm  por base os 
Antigos Mistrios... e a Pirmide Manica  apenas um exemplo. 
     - Entendo - disse Sato. - E o que diz essa lenda exatamente?
     Langdon refletiu um pouco enquanto andava, depois respondeu:  
     - Bem, eu no sou especialista em teoria da conspirao, mas tenho formao em mitologia e a maioria dos relatos diz mais ou menos o seguinte: os Antigos Mistrios... 
o saber perdido de todas as pocas... so considerados h muito tempo o tesouro mais sagrado da humanidade e, como todos os grandes tesouros, eles foram cuidadosamente 
protegidos. Os sbios iluminados que compreendiam o verdadeiro poder desse conhecimento aprenderam a temer seu assombroso potencial. Eles sabiam que, se ele casse 
nas mos de no iniciados, os resultados poderiam ser desastrosos. Como j disse, ferramentas poderosas podem ser usadas para o bem ou para o mal. Assim, de modo 
a proteger os Antigos Mistrios, e conseqentemente a humanidade, os primeiros adeptos formaram fraternidades secretas. Dentro dessas irmandades, eles s compartilhavam 
seu saber com aqueles devidamente iniciados, transmitindo o conhecimento de sbio para sbio. Muitos acreditam que podemos olhar para trs e enxergar os vestgios 
histricos daqueles que dominavam os Mistrios... nas histrias de feiticeiros, mgicos e curandeiros.  
     - E a Pirmide Manica? - perguntou Sato. - Onde ela se encaixa?  
     - Bem - disse Langdon, apertando o passo para acompanhar o ritmo dos outros -,  nesse ponto que histria e mito comeam a se fundir. Segundo alguns relatos, 
na Europa do sculo XVI quase todas essas fraternidades secretas j haviam desaparecido, a maioria exterminada pela mar crescente de perseguio religiosa. Dizem 
que os francomaons se tornaram os ltimos guardies sobreviventes dos Antigos Mistrios. Compreensivelmente, eles temiam que, se a sua irmandade um dia se extinguisse 
como as que a precederam, os Antigos Mistrios se perderiam para sempre.  
     - E a pirmide? - tornou a pressionar Sato.  
     Langdon estava chegando l.
     - A lenda da Pirmide Manica  bem simples. Segundo ela, no intuito de cumprir sua tarefa de proteger esse grande saber para as geraes futuras, os maons 
decidiram escond-lo dentro de uma fortaleza. - Langdon tentou organizar suas lembranas sobre aquela histria. - Mais uma vez, ressalto que isso tudo  um mito, 
mas os maons supostamente transportaram seu conhecimento secreto do Velho Mundo para o Novo Mundo, aqui para os Estados Unidos, uma terra que esperavam continuar 
livre da tirania religiosa. E aqui construram uma fortaleza impenetrvel, uma pirmide oculta, criada para proteger os Antigos Mistrios at o momento em que toda 
a humanidade estivesse pronta para lidar com o assombroso poder que esse conhecimento era capaz de conferir. Segundo o mito, os maons coroaram sua grande pirmide 
com uma brilhante pedra de ouro macio, smbolo do precioso tesouro guardado l dentro: o saber antigo capaz de dar  humanidade o poder de realizar todo o seu potencial. 
De alcanar a apoteose.  
     - Uma histria e tanto - comentou Sato.  
     - . Os maons so vtimas de todo tipo de lenda maluca.  
     - Evidentemente o senhor no acredita na existncia dessa pirmide.  
     -  claro que no - respondeu Langdon. - No existe nenhuma prova sugerindo que nossos pais fundadores maons tenham construdo qualquer tipo de pirmide nos 
Estados Unidos, muito menos na capital.  bem difcil esconder uma pirmide, sobretudo uma com tamanho suficiente para conter o saber perdido de todas as pocas. 
     A lenda, pelo que Langdon se lembrava, nunca explicava exatamente o que a Pirmide Manica continha - textos antigos, escritos ocultos, revelaes cientficas 
ou algo muito mais misterioso -, mas o que ela dizia era que a preciosa informao guardada l dentro estava engenhosamente codificada... e s podia ser compreendida 
pelos espritos mais esclarecidos.  
     - De toda forma - disse Langdon -, essa histria entra numa categoria que ns, simbologistas, chamamos de "hbrido arquetpico": uma mistura de outras lendas 
clssicas que toma emprestados tantos elementos da mitologia popular que no pode ser outra coisa alm de um construto fictcio... e no um fato histrico.  
     Quando Landgon ensinava a seus alunos sobre os hbridos arquetpicos, gostava de usar o exemplo dos contos de fadas, que eram recontados gerao aps gerao 
e exagerados com o passar do tempo, tomando tanta coisa emprestada uns dos outros que se transformavam em contos morais homogeneizados, contendo os mesmos elementos 
icnicos: donzelas virginais, belos prncipes, fortalezas impenetrveis e magos poderosos. Graas aos contos de fadas, essa batalha primitiva do "bem contra o mal" 
 implantada em nossa mente quando ainda somos crianas: Merlin contra a Fada Morgana, So Jorge contra o drago, Davi contra Golias, Branca de Neve contra a bruxa 
e at mesmo Luke Skywalker contra Darth Vader.  
     Sato coou a cabea enquanto eles faziam uma curva e desciam um curto lance de escada atrs de Anderson.  
     - Me diga uma coisa. Se no me engano, as pirmides antigamente eram consideradas portais msticos por meio dos quais os faras mortos podiam ascender at os 
deuses, no ? 
     -.  
     Sato parou onde estava e segurou o brao de Langdon, fuzilando-o com uma expresso entre a surpresa e a incredulidade.  
     - O senhor quer que eu acredite que nunca lhe passou pela cabea que o portal escondido que o seqestrador de Peter Solomon lhe disse para achar fosse a Pirmide 
Manica dessa lenda?  
     - Pouco importa. A Pirmide Manica  um conto de fadas.  pura fantasia. 
     Sato ento chegou mais perto de Langdon e ele pde sentir seu hlito de cigarro. 
     - Entendo sua posio quanto a isso, professor, mas, no que diz respeito   minha investigao,  difcil ignorar esse paralelo. Um portal que conduz a um saber 
secreto... Isso est me parecendo muito com o que o captor de Peter Solomon diz que s o senhor pode destrancar.  
     - Bom, eu no posso acreditar que...  
     - O que o senhor acredita no interessa. Qualquer que seja a sua crena, o senhor precisa admitir que esse homem talvez acredite que a Pirmide Manica  real. 
     - Esse homem  louco! Ele pode muito bem acreditar que a SBB13  a entrada para uma pirmide subterrnea gigante que contm todo o saber perdido dos antigos! 
     - Sato permaneceu totalmente imvel, com os olhos em brasa.
     - A crise que estou enfrentando hoje no  um conto de fadas, professor. Ela  bem real, eu lhe garanto.  
     Um silncio frio pairou entre eles.  
     - Senhora? - disse Anderson por fim, gesticulando na direo de outra porta de segurana a trs metros de onde estavam. - Estamos quase chegando, se os senhores 
quiserem prosseguir. 
     Sato finalmente parou de encarar Langdon e acenou para Anderson seguir em frente.  
     Eles avanaram, adentrando uma passagem estreita. Langdon olhou para a esquerda, depois para a direita. Vocs s podem estar brincando.  
     Ele estava diante do corredor mais comprido que j vira em toda a sua vida.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 31
     
     Trish Dunne sentiu a habitual onda de adrenalina ao deixar para trs as luzes fortes do Cubo e entrar na escurido impenetrvel do vazio. A segurana da entrada 
principal do CAMS havia acabado de ligar dizendo que o convidado de Katherine, Dr. Christopher Abaddon, tinha chegado e precisava de algum para acompanh-lo at 
o Galpo 5. Trish se oferecera, sobretudo por curiosidade. Katherine havia falado muito pouco sobre o visitante, de modo que ela estava intrigada. Aparentemente, 
tratava-se de uma pessoa em quem Peter Solomon tinha muita confiana; os Solomon nunca tinham levado ningum para conhecer o Cubo. Era a primeira vez.  
     Espero que ele no tenha problemas com a travessia, pensou Trish enquanto avanava pela escurido gelada. A ltima coisa de que precisava era que o convidado 
VIP de Katherine entrasse em pnico ao perceber o que tinha de fazer para chegar ao laboratrio. A primeira vez  sempre a pior.  
     A primeira vez de Trish tinha sido mais ou menos um ano antes. Ela havia aceitado a oferta de emprego de Katherine, assinado um contrato de confidencialidade 
e depois a acompanhado at o CAMS para visitar o laboratrio. As duas mulheres tinham percorrido toda a extenso da "Rua" at chegar a uma porta onde se lia GALPO 
5. Embora Katherine tivesse tentado prepar-la descrevendo como o laboratrio era isolado, Trish no estava pronta para o que viu quando a porta se abriu com um 
sibilo.  
     O vazio.  
     Katherine atravessou a soleira, caminhou alguns metros para dentro daquele denso negrume e, em seguida, acenou para Trish segui-la.  
     - Confie em mim. Voc no vai se perder.  
     Trish se imaginou vagando por um recinto escuro feito breu do tamanho de um estdio e comeou a suar frio s de pensar. - Temos um sistema de direcionamento 
para manter voc no caminho certo. - Katherine apontou para o cho. -  baixa tecnologia - brincou.  
     Trish apertou os olhos e voltou-os para o piso grosseiro de cimento. Levou alguns instantes at conseguir enxergar na escurido: uma faixa de carpete longa 
e estreita havia sido instalada em linha reta. Ela se estendia qual uma estrada e desaparecia no breu.  
     - Use os ps para ver - disse Katherine, virando-se e se afastando. - Basta vir logo atrs de mim.     
     Enquanto Katherine desaparecia na escurido, Trish engoliu o medo e a acompanhou. Que loucura! Depois de dar apenas uns poucos passos pelo carpete, a porta 
do Galpo 5 se fechou atrs dela, apagando o ltimo vestgio de luz. Com a pulsao disparada, Trish passou a se concentrar apenas na sensao do carpete sob seus 
ps. Havia avanado somente alguns passos pelo caminho macio quando sentiu a lateral do p direito tocar o cimento duro. Espantada, corrigiu instintivamente o curso 
para a esquerda, tornando a pisar no carpete com os dois ps.  
     A voz de Katherine se materializou mais adiante, e suas palavras quase foram engolidas pela acstica sem vida daquele abismo.  
     - O corpo humano  espantoso - disse ela. - Se voc o priva de uma informao sensorial, os outros sentidos assumem o comando quase no mesmo instante. Neste 
momento, os nervos dos seus ps esto literalmente "se ajustando" para ficarem mais sensveis.  
     Que bom, pensou Trish, tornando a corrigir seu curso.  
     As duas caminharam em silncio durante um tempo que pareceu longo demais.  
     - Quanto falta? - perguntou Trish por fim.  
     - Estamos mais ou menos na metade. - A voz de Katherine agora soava mais distante.  
     Trish apertou o passo, fazendo o possvel para se controlar, mas a extenso daquele negrume parecia prestes a engolf-la. No consigo ver um milmetro  frente 
do nariz!  
     - Katherine? Como voc sabe quando  para parar de andar?
     - Voc vai saber daqui a pouquinho - respondeu Katherine.
     Isso fazia um ano, e agora Trish estava novamente no meio do vazio, andando na direo oposta, a caminho da recepo, para acolher o convidado da chefe. Uma 
sbita mudana na textura do piso sob seus ps a alertou de que ela estava a poucos metros da sada. A faixa de transio, como dizia Peter Solomon, referindo-se 
 rea intermediria que delimita um campo de beisebol; ele era f do esporte. Trish parou abruptamente, sacou o carto de acesso e tateou no escuro at encontrar 
o lugar para inseri-lo.  
     A porta se abriu com um silvo.  
     Trish apertou os olhos para proteg-los da acolhedora luz do corredor do CAMS.  
     Consegui... de novo.  
     Enquanto percorria os corredores desertos, Trish se pegou pensando no estranho arquivo editado que elas haviam encontrado em um servidor seguro. Antigo portal? 
Localizao subterrnea secreta? Imaginou como Mark Zoubianis estaria se saindo na tentativa de descobrir onde estava armazenado o misterioso arquivo.  
     
     Dentro da sala de controle, Katherine estava parada diante do brilho suave do telo de plasma, com os olhos erguidos para o enigmtico arquivo que haviam descoberto. 
Tinha isolado suas expresses-chave e estava cada vez mais certa de que aquele texto se referia  lenda improvvel que o irmo aparentemente contara ao Dr. Abaddon. 
     
     ... uma localizao SUBTERRNEA secreta onde...
     ... lugar em WASHINGTON, D.C., as coordenadas...
     ... revelou um ANTIGO PORTAL que conduzia...
     ...que a PIRMIDE reserva perigosas...
     ...decifrar esse SYMBOLON GRAVADO para revelar...
     
     Preciso ver o resto desse arquivo, pensou Katherine.  
     Passou mais alguns segundos encarando as palavras, ento desligou o interruptor do telo de plasma. Katherine sempre desligava aquele monitor, que consumia 
muita energia, de modo a no desperdiar as reservas de hidrognio lquido do gerador.  
     Ela observou as palavras se apagando devagar, minguando at se transformarem em um minsculo pontinho branco, que tremeluziu no meio da parede antes de finalmente 
se extinguir.  
     Em seguida, virou e caminhou em direo  sua sala. O Dr. Abaddon iria chegar a qualquer momento, e ela queria que ele se sentisse bem-vindo.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  32
     
     - Estamos quase l - disse Anderson, guiando Langdon e Sato pelo corredor aparentemente sem fim que cortava toda a extenso da ala leste do Capitlio. - Na 
poca de Lincoln, este corredor tinha piso de terra batida e era cheio de ratos.    
     Langdon se sentiu grato pelo piso ter sido ladrilhado; no era um grande f de ratos. O grupo seguiu em frente com o tamborilar de seus passos criando um eco 
sinistro e irregular no corredor comprido. Portas margeavam a longa passagem, algumas fechadas, porm muitas entreabertas. Vrias das salas naquele andar pareciam 
abandonadas. Langdon percebeu que os nmeros agora decresciam e, depois de algum tempo, pareciam estar se esgotando.  
     SB4... SB3... SB2... SB1...  
     Eles seguiram em frente, passando por uma porta sem nada escrito, mas  Anderson estacou quando os nmeros comearam novamente a subir.  
     HB1... HB2...  
     - Desculpem - disse ele. - Passei direto. Quase nunca deso at aqui.  
     O grupo voltou alguns metros at uma velha porta de metal, que Langdon no percebeu estar cravada no ponto central do corredor - o meridiano que separava o 
Subsolo do Senado (SB) do Subsolo da Cmara (HB). A porta estava de fato marcada, mas, de to apagadas, as letras eram quase imperceptveis. 
     
     SBB
     
     Pronto, chegamos - disse Anderson. - As chaves estaro aqui a qualquer momento.  
     Sato fechou a cara e conferiu o relgio.  
     Langdon examinou a inscrio que dizia SBB e perguntou a Anderson:  
     - Por que este espao est associado com o lado do Senado, mesmo estando  no meio?  
     Anderson pareceu intrigado.  
     - Como assim?  
     - Aqui est escrito SBB, e SBB comea com S, no com H.
     Anderson sacudiu a cabea.  
     - O S de SBB no  por causa do Senado. ...  
     - Chefe? - chamou um segurana ao longe. O homem veio correndo at onde eles estavam, estendendo uma chave. - Sinto muito, senhor, acabei perdendo alguns minutos. 
No conseguimos encontrar a chave principal do SBB. Esta aqui  uma reserva.  
     - A chave original sumiu? - perguntou Anderson, surpreso.  
     - Deve ter se perdido - respondeu o segurana, ofegante. - H sculos que  ningum pede para descer aqui.     
     Anderson pegou a chave.  
     - No existe outra chave da SBB13?  
     - Sinto muito, at agora no conseguimos encontrar as chaves de nenhuma  das salas do SBB. MacDonald est cuidando disso agora mesmo. - O segurana sacou o 
rdio e falou para o aparelho. - Bob? Estou aqui com o chefe. Alguma novidade sobre a chave da SBB13?  
     O rdio do segurana chiou e uma voz respondeu:  
     - Na verdade, sim.  estranho. No h nenhuma entrada a respeito do SBB desde que o sistema foi digitalizado, mas os registros fsicos indicam que todas as 
salas de depsito dessa rea foram esvaziadas e abandonadas h mais de 20 anos. Agora esto listadas como espaos ociosos. - Ele fez uma pausa. - Todas menos a SBB13. 
     Anderson agarrou o rdio.  
     - Aqui  o chefe. Como assim, todas menos a SBB13?  
     - Bem, senhor - respondeu a voz -, estou com uma anotao aqui que descreve a SBB13 como "particular". Faz muito tempo, mas est escrito e assinado com a rubrica 
do prprio Arquiteto.  
     O termo Arquiteto, Langdon sabia, no era uma referncia ao homem que havia projetado o Capitlio, mas sim quele que o administrava. Como o sndico de um prdio, 
o homem nomeado Arquiteto do Capitlio cuidava de tudo: manuteno, restaurao, segurana, contratao de funcionrios e atribuio das salas.  
     - O mais estranho - disse a voz no rdio -  que a anotao do Arquiteto indica que esse "espao particular" foi reservado para o uso de Peter Solomon.  
     Langdon, Sato e Anderson trocaram olhares de espanto.  
     - Imagino ento, senhor - prosseguiu a voz -, que o Sr. Solomon esteja com a chave original do SBB e tambm com todas as chaves da SBB13.  
     Langdon no conseguia acreditar nos prprios ouvidos. Peter tem uma sala particular no subsolo do Capitlio? Sempre soubera que Peter Solomon tinha segredos, 
mas aquilo era surpreendente at mesmo para ele.  
     - Certo - disse Anderson, obviamente sem achar a menor graa. - Estamos querendo acessar a SBB13 especificamente, ento continue procurando uma segunda chave. 
     - Pois no, senhor. Tambm estamos providenciando a imagem digital que  senhor solicitou...  
     - Obrigado - interrompeu Anderson, apertando o boto para cortar a voz do interlocutor. -  s isso. Mande o arquivo para o BlackBerry da diretora Sato assim 
que estiver pronto.   
     - Entendido, senhor. - O rdio silenciou.  
     Anderson devolveu o rdio para o segurana  sua frente. O homem sacou a xerox de uma planta e a entregou ao chefe.  
     - O SBB est indicado aqui, senhor, e ns marcamos com um X a sala SBB13, de modo que no deve ser difcil encontr-la. A rea  bem pequena.  
     Anderson agradeceu e voltou sua ateno para a planta enquanto o rapaz ia embora apressado. Langdon continuou olhando  sua volta, surpreso ao constatar a espantosa 
quantidade de cubculos que formavam o bizarro labirinto debaixo do Capitlio.  
     Depois de estudar a planta por alguns instantes, Anderson aquiesceu e a guardou no bolso. Virando-se para a porta onde estava escrito SBB, chegou a erguer a 
chave, mas novamente hesitou, parecendo pouco  vontade com o fato de abri-la. Langdon tinha ressalvas semelhantes; no fazia idia do que havia atrs daquela porta, 
porm estava bastante certo de que, fosse qual fosse o objeto que Solomon havia escondido ali, ele queria mant-lo privado. Muito privado.  
     Sato pigarreou e Anderson entendeu o recado. O chefe respirou fundo, inseriu a chave na fechadura e tentou gir-la. Ela no se moveu. Durante uma frao de 
segundo, Langdon teve esperanas de que aquela fosse a chave errada. No entanto, na segunda tentativa, a fechadura girou e Anderson empurrou a porta para abri-la. 
     Quando a pesada porta se abriu com um rangido, uma rajada de ar mido entrou no corredor.  
     Langdon deu uma espiada l para dentro, mas no conseguiu ver nada na escurido.  
     - Professor - disse Anderson, olhando para trs na direo de Langdon enquanto tateava s cegas  procura de um interruptor. - Respondendo  sua  pergunta, 
o S de SBB no significa Senado. Significa sub.  
     - Sub? - indagou Langdon, sem entender.  
     Anderson assentiu e acendeu o interruptor ao lado da porta. Uma nica lmpada iluminava uma escadaria assustadoramente ngreme que descia rumo ao mais completo 
breu .  
     - SBB quer dizer subbasement.  o segundo subsolo do Capitlio.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  33
     
     O especialista em segurana de sistemas Mark Zoubianis afundava cada vez mais em seu futon e olhava de cara feia para as informaes no monitor de seu laptop. 
     Que raio de endereo  esse?  
     Suas melhores ferramentas de hacker no estavam surtindo efeito nenhum na tentativa de acessar o arquivo ou identificar o misterioso endereo de IP de Trish. 
Dez minutos j haviam se passado e o programa de Zoubianis continuava a lutar em vo contra os firewalls da rede. As esperanas de sucesso pareciam escassas. No 
 de espantar que estejam me pagando mais do que o normal. Ele estava prestes a mudar de ferramenta e usar uma abordagem diferente quando seu telefone tocou.  
     Trish, pelo amor de Deus, eu disse que ia ligar para voc. Ele cortou o som do jogo de futebol e atendeu .  
     - Oi.  
     - Mark Zoubianis? - perguntou um homem. - De Kingston Drive, 357, em  Washington?  
     Zoubianis pde ouvir conversas abafadas ao fundo. Um operador de telemarketing ligando durante o jogo? Eles ficaram malucos?  
     - Deixe-me adivinhar: ganhei uma semana de frias em uma ilha do Caribe? 
     - No - respondeu a voz sem nenhum pingo de humor. - Aqui  o departamento de segurana de sistemas da CIA. Gostaramos de saber por que o senhor est tentando 
invadir uma das nossas bases de dados confidenciais.
     
     Trs andares acima do segundo subsolo do Capitlio, na ampla rea do centro de visitantes, o agente de segurana Nuez trancou a porta de acesso principal como 
fazia toda noite naquela mesma hora. No caminho de volta pelo vasto piso de mrmore, pensou no homem tatuado vestido com o casaco militar.
     Eu o deixei entrar. Nuez se perguntava se ainda teria emprego no dia seguinte. 
     Enquanto andava at a escada rolante, uma sbita batida na porta o fez se virar. Ele estreitou os olhos na direo da entrada principal e viu um senhor negro 
do lado de fora, batendo no vidro com a palma da mo aberta e gesticulando para que ele o deixasse entrar.  
     Nuez sacudiu a cabea e apontou para o relgio.  
     O homem tornou a bater no vidro e deu um passo para debaixo da luz.  Estava vestido de forma impecvel com um terno azul e tinha os cabelos grisalhos rentes 
 cabea. A pulsao de Nuez se acelerou. Puta merda. Mesmo de longe, ele reconheceu o homem. Voltou s pressas para a porta principal, destrancando-a em seguida. 
     - Sinto muito, senhor. Entre, por favor.  
     Warren Bellamy - Arquiteto do Capitlio - cruzou a soleira e agradeceu a Nuez com um gesto educado da cabea. Bellamy era gil e esbelto, com uma postura ereta 
e um olhar penetrante que exalavam segurana. Ali estava um homem que tinha total controle do ambiente ao seu redor: fazia 25 anos que ele trabalhava como supervisor 
do Capitlio.  
     - Posso ajud-lo, senhor? - perguntou Nuez.  
     - Pode, sim, obrigado. - Bellamy pronunciava as palavras com uma preciso  cristalina. Como havia estudado em uma das universidades de elite do nordeste dos 
Estados Unidos, sua dico era to distinta que soava quase britnica.  - Acabei de saber que houve um incidente aqui hoje  noite. - Ele parecia muito preocupado. 
     - Sim, senhor, ns tivemos...  
     - Onde est o chefe Anderson?  
     - L embaixo, com a diretora Sato, do Escritrio de Segurana da CIA.  
     Os olhos de Bellamy se arregalaram. - A CIA est aqui?  
     - Est, sim, senhor. A diretora Sato chegou quase imediatamente depois do  incidente.  
     - Por qu? - quis saber Bellamy.  
     Nuez deu de ombros. Como se eu fosse perguntar. 
     Bellamy se encaminhou direto para as escadas rolantes.  
     - Onde eles esto?  
     - Acabaram de descer para os andares inferiores. - Nuez ps-se a segui-lo apressado.  
     Bellamy olhou para trs com uma expresso preocupada. 
     - Para os andares inferiores? Por qu?  
     - No sei bem... s escutei isso no rdio.  
     O Arquiteto passara a andar mais depressa. 
     - Leve-me agora mesmo at onde eles esto.  
     - Sim, senhor.  
     Enquanto os dois cruzavam a passos rpidos o amplo saguo, Nuez viu de relance um grande anel de ouro no dedo de Bellamy.    
     O segurana sacou o rdio.  
     - Vou avisar ao chefe que o senhor est descendo.  
     - No. - Os olhos de Bellamy faiscaram de maneira ameaadora. - Prefiro  no ser anunciado.  
     Nuez tinha cometido alguns erros graves naquela noite, mas deixar de avisar ao chefe Anderson que o Arquiteto estava no prdio seria o seu ltimo.  
     - Senhor? - indagou ele, pouco  vontade. - Eu acho que o chefe Anderson iria preferir...  
     - Voc tem conscincia de que eu sou o patro do Sr. Anderson? - atalhou Bellamy.  
     Nuez aquiesceu.  
     - Ento eu acho que ele iria preferir que voc obedecesse s minhas ordens.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  34
     
     Trish Dunne entrou na recepo do CAMS e ergueu os olhos, surpresa. O convidado que a esperava ali no se parecia em nada com os doutores que freqentavam aquele 
complexo - ratos de biblioteca vestindo roupas de flanela com ps-graduao em antropologia, oceanografia, geologia e outras disciplinas cientficas. Muito pelo 
contrrio: com seu terno impecavelmente cortado, o Dr. Abaddon parecia quase aristocrtico. Era alto, tinha o peito largo, o rosto bronzeado e cabelos louros penteados 
com esmero, dando a Trish a impresso de que ele estava mais acostumado ao luxo do que aos laboratrios.  
     - Dr. Abaddon, suponho? - disse ela estendendo a mo.  
     O homem pareceu hesitar, mas segurou a mo gorducha de Trish dentro de sua palma larga.  
     - Desculpe. A senhora ... ?  
     - Trish Dunne - respondeu ela. - Sou assistente de Katherine. Ela me pediu  para acompanh-lo at o laboratrio.  
     - Ah, entendo. - O homem ento sorriu. - Muito prazer em conhec-la, Trish.  Sinto muito se pareci confuso. Pensei que Katherine estivesse sozinha aqui hoje. 
- Ele gesticulou na direo do corredor. - Mas sou todo seu. Voc primeiro. 
     Apesar de ele ter se recuperado depressa, Trish notara o lampejo de decepo em seus olhos. Ela comeou a suspeitar que a discrio de sua chefe em relao 
ao Dr. Abaddon tinha um motivo. O incio de um romance, quem sabe? Katherine nunca conversava sobre sua vida pessoal, mas aquele visitante era atraente e bem-apessoado 
e, embora mais jovem do que ela, vinha claramente do mesmo mundo de riqueza e privilgio. Ainda assim, fossem quais fossem as esperanas do Dr. Abaddon em relao 
 visita daquela noite, a presena de Trish no parecia fazer parte de seus planos.  
     No posto de segurana do saguo, um agente solitrio retirou depressa os fones de ouvido, e Trish pde ouvir o clamor do jogo dos Redskins. O vigia fez o doutor 
passar pela costumeira rotina de detectores de metal e crachs de segurana temporrios.  
     - Quem est ganhando? - perguntou com simpatia o Dr. Abaddon, enquanto tirava dos bolsos um celular, algumas chaves e um isqueiro.  
     - Os Skins, por trs pontos - respondeu o segurana, parecendo ansioso para voltar ao jogo. - Partida incrvel.  
     - O Sr. Solomon vai chegar daqui a pouco - disse Trish ao vigia. - Poderia pedir a ele que nos encontre no laboratrio assim que chegar?  
     - Pois no. - Quando eles passaram, o segurana deu uma piscadela agradecida. - Obrigado por me avisar. Vou disfarar melhor.  
     O comentrio de Trish no tinha sido apenas para avisar o segurana, mas tambm para lembrar ao Dr. Abaddon que ela no era a nica intrusa em sua noite particular 
ali com Katherine.  
     - De onde o senhor conhece Katherine? - perguntou Trish, erguendo os  olhos para o misterioso convidado.  
     O Dr. Abaddon deu uma risadinha.  
     - Ah,  uma longa histria. Estamos trabalhando juntos em uma coisa. 
     Entendi, pensou Trish. No  da minha conta.  
     Este lugar  realmente incrvel - comentou Abaddon, olhando em volta enquanto avanavam pelo enorme corredor. - Na verdade  a primeira vez que venho aqui. 
     O seu tom ia ficando mais agradvel a cada passo, e Trish percebeu que ele estava se empenhando em assimilar tudo o que o cercava.  luz forte do corredor, 
notou tambm que o bronzeado do rosto dele parecia artificial. Que estranho. De qualquer forma, enquanto percorriam os corredores desertos, Trish foi lhe fazendo 
um resumo do objetivo e da funo do CAMS, enumerando os vrios galpes e aquilo que continham.  
     O visitante pareceu impressionado.  
     - Parece que este lugar  um ba do tesouro cheio de artefatos inestimveis. Eu teria imaginado seguranas por toda parte.   
     - No h necessidade - disse Trish, gesticulando na direo das lentes grande-angulares que se enfileiravam ao longo do teto muito alto. - A segurana aqui 
 toda automatizada. Cada centmetro deste corredor  filmado 24 horas por dia, 7 dias por semana, e ele  a espinha dorsal do complexo.  impossvel entrar em qualquer 
sala deste corredor sem um carto de acesso e uma senha.  
     - Que modo eficiente de usar as cmeras.  
     - Felizmente nunca tivemos nenhum roubo. Mas, pensando bem, este no   o tipo de museu que algum iria roubar... No h muita demanda no mercado negro por 
flores extintas, caiaques inutes ou carcaas de lulas gigantes.  
     O Dr. Abaddon deu uma risadinha. 
     - Acho que tem razo.  
     - A maior ameaa  nossa segurana so os roedores e os insetos. - Trish  explicou como o CAMS evitava pragas de insetos congelando todo o lixo produzido ali 
e tambm graas a um recurso arquitetnico chamado "zona morta": um compartimento inspito entre paredes duplas que cercava o complexo todo feito um escudo.  
     - Incrvel - comentou Abaddon. - Mas onde fica o laboratrio de Katherine e Peter?  
     - No Galpo 5 - respondeu ela. - Bem no final deste corredor. 
     Abaddon parou de repente, girando o corpo para a direita em direo a uma  pequena janela.  
     - Nossa! Olhe s para isso! 
     Trish riu.  
     - , aqui  o Galpo Trs.  conhecido como Galpo Molhado.
     - Molhado? - repetiu Abaddon, com o rosto colado no vidro. 
     - A dentro tem mais de 11 mil litros de etanol lquido. O senhor se lembra  da carcaa de lula gigante de que falei?  
     - Aquilo ali  a lula?! - O Dr. Abaddon virou para Trish com os olhos arregalados. -  imensa!  
     - Uma Architeuthis fmea - disse Trish. - Tem mais de 12 metros. 
     Aparentemente fascinado pela viso da lula, o Dr. Abaddon parecia incapaz de desgrudar os olhos do vidro. Por alguns instantes, aquele homem-feito fez Trish 
pensar em um menininho diante da vitrine de uma loja de animais, desejando poder entrar para ver um filhote de cachorro. Cinco segundos depois, ele continuava olhando 
pela janela, enlevado.  
     - Est bem, est bem - disse Trish por fim, rindo enquanto inseria seu carto de acesso e digitava a senha. - Venha. Vou lhe mostrar a lula.   
     
     Ao entrar no mundo fracamente iluminado do Galpo 3, Mal'akh vasculhou as paredes em busca de cmeras de segurana. A assistente baixinha e gorducha de Katherine 
comeou a discorrer sobre os espcimes guardados ali. Mal'akh parou de prestar ateno no que ela dizia. No tinha o menor interesse em lulas gigantes. Queria apenas 
usar aquele espao escuro e isolado para solucionar um problema imprevisto.  
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  35
     
     A escada de madeira que descia para o segundo subsolo do Capitlio tinha os degraus mais ngremes e mais curtos que Langdon j havia pisado. Sua respirao 
agora estava acelerada e ele sentia os pulmes se contrarem. O ar ali embaixo era frio e mido e Langdon no pde evitar a lembrana momentnea de uma escadaria 
similar pela qual havia passado alguns anos antes, na Necrpole do Vaticano. A cidade dos mortos.  
      sua frente, Anderson indicava o caminho com a lanterna. Sato vinha logo atrs de Langdon, com as mos pequeninas empurrando de vez em quando suas costas. 
Estou indo o mais depressa que posso. Langdon respirou fundo, tentando ignorar as paredes apertadas que se erguiam de ambos os lados. Naquela escada mal havia espao 
para seus ombros, e sua bolsa roava na parede.  
     - Talvez fosse melhor o senhor deixar a bolsa l em cima - sugeriu Sato atrs dele.  
     - Est tudo bem - retrucou Langdon, sem a menor inteno de perder a bolsa de vista. Pensou no pequeno embrulho de Peter, mas no conseguiu imaginar como este 
poderia estar relacionado a qualquer coisa no segundo subsolo do Capitlio. 
     - S mais alguns degraus - disse Anderson. - Estamos quase chegando.  
     O grupo havia mergulhado na escurido, fora do alcance da solitria lmpada da escada. Quando Langdon desceu o ltimo degrau de madeira, pde sentir que o cho 
sob seus ps era de terra batida. Viagem ao centro da Terra. Sato terminou de descer a escada logo atrs dele.  
     Anderson ento ergueu o facho da lanterna para examinar ao redor. O  segundo subsolo no era bem um subsolo, e sim um corredor muito estreito perpendicular 
 escada. Anderson apontou a luz para a esquerda e para a direita, e Langdon pde ver que o corredor tinha apenas uns 15 metros de extenso e era margeado nos dois 
lados por pequenas portas de madeira. As portas ficavam to prximas umas das outras que os cubculos atrs delas no podiam ter mais de 3 metros de largura.  
     Um misto de salas de depsito com Catacumbas de Domitila, pensou Langdon enquanto Anderson consultava a planta. Havia um X indicando a localizao da SBB13 
na pequena rea correspondente ao segundo subsolo. Langdon no pde deixar de perceber que o desenho era idntico ao de um mausolu de 14 tumbas - sete cmaras morturias 
de frente para outras sete, com uma delas removida para dar lugar  escada que haviam acabado de descer. Treze, ao todo.    
     
     
     
     Ele desconfiava que os tericos da conspirao do "13" nos Estados Unidos fossem ficar malucos se soubessem que havia exatamente 13 depsitos enterrados sob 
o Capitlio. Alguns achavam suspeito que o Grande Selo dos Estados Unidos tivesse 13 estrelas, 13 flechas, 13 nveis na pirmide, 13 listras no escudo, 13 folhas 
de oliveira, 13 olivas, 13 letras em "annuit coeptis", 13 letras em "e pluribus unum", e assim por diante.  
     - Parece mesmo abandonado - comentou Anderson, apontando a lanterna para a sala logo  sua frente. A pesada porta de madeira estava escancarada. O facho de 
luz iluminou um estreito cubculo de pedra - cerca de 3 metros de largura por 10 de comprimento - parecendo um beco sem sada. O cubculo no continha nada alm 
de um par de caixas de madeira quebradas e um pouco de papel de embrulho amassado.  
     Anderson iluminou uma placa de cobre afixada  porta. A placa estava verde de to oxidada, mas a antiga inscrio ainda era legvel:  
     
     SBB IV
     
     - SBB4 - disse Anderson.  
     - Qual  a SBB13? - perguntou Sato, o ar frio do subsolo fazendo tnues  espirais de vapor sarem de sua boca. 
     Anderson virou o facho para o lado sul do corredor. 
     - Por ali.  
     Langdon espreitou o corredor estreito e teve um calafrio, sentindo que transpirava apesar da baixa temperatura ali.  
      medida que avanavam por entre a falange de portais, todos os cubculos pareciam iguais, com suas portas entreabertas, aparentemente abandonados havia tempos. 
Quando chegaram ao final do corredor, Anderson se virou para a direita, erguendo o facho da lanterna para iluminar o interior da sala SBB13. A luz, no entanto, foi 
detida por uma pesada porta de madeira.  
     Ao contrrio das outras, a porta da SBB13 estava fechada.  
     A porta era idntica s outras - dobradias grossas, maaneta de ferro e uma placa de cobre com o nmero incrustado de verde. Os sete caracteres na placa eram 
os mesmos gravados na palma de Peter l em cima.  
     
     SBB XIII
     
     Por favor, me diga que esta porta est trancada, pensou Langdon. 
     Sato falou sem titubear.  
     - Tente abrir.  
     O chefe de polcia pareceu hesitar, mas estendeu a mo, segurando a pesada maaneta de ferro e pressionando-a para baixo. A maaneta no se moveu. Ele ento 
a iluminou com a lanterna, revelando um espelho de fechadura macio de aspecto antiquado.  
     - Experimente a chave mestra - disse Sato.  
     Anderson sacou a chave da porta de entrada do andar de cima, mas esta nem sequer entrou na fechadura.  
     - Estou enganada - disse Sato em tom de sarcasmo - ou a segurana deveria ter acesso a todos os cantos de um prdio em caso de emergncia?  
     Anderson soltou o ar com fora e olhou para Sato.  
     - Senhora, os meus homens esto procurando uma segunda chave, mas...  
     - Atire na fechadura - disse ela, meneando a cabea em direo ao espelho  abaixo da maaneta.  
     A pulsao de Langdon disparou.   
     Anderson pigarreou, visivelmente desconfortvel.  
     - Diretora, estou aguardando notcias de uma segunda chave. No sei bem se me sinto  vontade entrando  fora em...  
     - Talvez o senhor se sinta mais  vontade sendo preso por obstruir uma investigao da CIA.  
     A expresso de Anderson era de pura incredulidade. Depois de uma longa pausa, ele entregou a lanterna para Sato com relutncia e abriu o fecho do seu coldre. 
     - Espere! - disse Langdon, incapaz de assistir quilo impassvel. - Pense um pouco. Peter preferiu perder a mo direita a revelar o que pode estar escondido 
atrs desta porta. A senhora tem certeza de que devemos fazer isso? Destrancar esta porta equivale basicamente a cumprir as exigncias de um terrorista.  
     - O senhor quer tornar a ver Peter Solomon? - perguntou Sato.  
     - Claro que sim, mas...  
     - Ento sugiro que faa exatamente o que o seqestrador dele est pedindo.  
     - Destrancar um antigo portal? A senhora acha que isto aqui  o portal?  
     Sato mirou a lanterna bem na cara de Langdon.  
     - Professor, eu no fao a menor idia do que  esta sala. Seja ela uma unidade de armazenamento ou a entrada secreta de uma antiga pirmide, eu pretendo abri-la. 
Estou sendo clara?
     Langdon apertou os olhos por causa da luz forte e finalmente aquiesceu. 
     Sato baixou a lanterna e a apontou de volta para o espelho arcaico da fechadura. 
     - Chefe? Pode atirar.  
     Ainda parecendo avesso quele plano, Anderson sacou a arma muito, muito devagar, baixando os olhos para ela com um ar de incerteza.  
     - Ah, pelo amor de Deus! - Sato lanou as mos midas para a frente e lhe tomou a arma. Em seguida, enfiou a lanterna na mo agora vazia de Anderson.  - Segure 
a porcaria da lanterna. - Ela empunhou a pistola com a segurana de algum treinado no manejo de armas e no perdeu tempo em desarmar a trava de segurana, armar 
o gatilho e mirar na fechadura.  
     - Espere! - gritou Langdon, mas era tarde demais.  
     A pistola rugiu trs vezes.  
     Os tmpanos de Langdon pareciam ter explodido. Essa mulher est louca! Os tiros dentro daquele espao diminuto haviam sido ensurdecedores.  
     Anderson tambm parecia abalado, e sua mo oscilava um pouco quando ele apontou a lanterna para a porta crivada de balas.  
     O mecanismo da fechadura estava agora em frangalhos, a madeira  sua volta totalmente pulverizada. A tranca havia cedido e a porta jazia entreaberta.   
     Sato estendeu a pistola e pressionou a ponta do cano contra a madeira, dando um empurro. A porta se abriu por completo para a escurido do interior.  
     Langdon olhou l para dentro, mas no conseguiu enxergar nada no escuro.  Que raio de cheiro  esse? Um odor estranho, ftido emanava das trevas. 
     Anderson atravessou a soleira e apontou a lanterna para baixo, percorrendo com cuidado toda a extenso do cho rido de terra batida. Aquela sala era igual 
s outras: um espao comprido e estreito. As paredes eram feitas de pedra bruta,  que dava ao lugar a atmosfera de uma masmorra antiga. Mas esse cheiro... 
     - No tem nada aqui - disse Anderson, movendo o facho mais para o fundo pelo cho do cubculo. Quando a luz finalmente atravessou todo o recinto, ele a ergueu 
para iluminar a parede de trs.  
     - Meu Deus...! - gritou Anderson.  
     Todos viram e deram um pulo para trs. 
     Langdon ficou olhando, incrdulo, para o canto mais afastado do cubculo. 
     Para seu horror, algo o encarava de volta.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  36
     
     - Deus do cu, mas o que...? - No limiar da SBB13, Anderson quase  deixou a lanterna cair e deu um passo para trs.
     Langdon tambm recuou, assim como Sato, que parecia espantada pela primeira vez naquela noite.  
     Sato mirou a pistola para a parede do fundo e fez sinal para Anderson tornar a iluminar aquele pedao. O chefe de polcia ergueu a lanterna. Ao alcanar a parede 
distante, o facho j estava tnue, mas foi suficiente para iluminar o formato de um rosto plido e espectral que os fitava atravs de rbitas vazias.  
     Uma caveira humana.  
     A caveira estava em cima de uma mesinha de madeira bamba encostada na parede do fundo do cubculo. Dois ossos de uma perna humana estavam dispostos ao lado 
do crnio, junto com uma coleo de outros objetos meticulosamente arrumados sobre a mesa como se esta fosse um altar: uma ampulheta, um frasco de cristal, uma vela, 
dois pratinhos contendo um p claro e uma folha de papel. Contra a parede ao lado da mesa desenhava-se a forma assustadora de uma foice comprida, cuja lmina curva 
era to conhecida quanto a do ceifeiro da morte. 
     Sato entrou na sala.  
     - Ora, vejam s... parece que Peter Solomon guarda mais segredos do que eu imaginava.  
     Anderson assentiu, avanando devagar atrs dela. 
     - Isso  o que eu chamo de esqueleto no armrio. - Ele ergueu a lanterna e examinou o resto do cubculo vazio. - E este cheiro? - acrescentou, franzindo o nariz. 
- O que ?  
     - Enxofre - respondeu Langdon logo atrs deles. - Deve haver dois pratinhos em cima da mesa. O da direita deve conter sal. E o outro, enxofre. 
     Sem acreditar, Sato se virou para ele. 
     - E como  que o senhor sabe disso?  
     - Porque existem salas exatamente iguais a esta no mundo todo, minha senhora.  
     Um andar acima do segundo subsolo, o agente de segurana do Capitlio Nuez acompanhava o Arquiteto Warren Bellamy pelo comprido corredor que percorria toda 
a extenso do subsolo leste. Nuez poderia jurar que havia acabado de ouvir trs tiros l embaixo, abafados e subterrneos. No  possvel.  
     - Algum abriu a porta do segundo subsolo - disse Bellamy, apertando os olhos e espiando mais adiante no corredor at uma porta entreaberta.  
     Mas que noite mais estranha, pensou Nuez. Ningum nunca desce l.  
     - Vou ficar feliz em saber o que est acontecendo - disse ele, estendendo a mo para pegar o rdio.  
     - Volte ao seu trabalho - disse Bellamy. - No preciso de ajuda a partir daqui. 
     Nuez se remexeu, nervoso.  
     - Tem certeza?  
     Warren Bellamy parou e ps a mo firme sobre o ombro de Nuez.  
     - Filho, eu trabalho aqui h 25 anos. Acho que conheo o caminho.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 37
     
     Mal'akh j vira alguns lugares sinistros na vida, mas poucos se comparavam ao mundo extraterrestre do Galpo 3. Galpo Molhado. A sala imensa dava a impresso 
de que um cientista louco havia invadido um supermercado e preenchido cada corredor e gndola com jarros de todos os formatos e tamanhos contendo espcimes. Iluminado 
como um laboratrio de fotografia, o espao estava banhado por uma nvoa vermelha de "luz de segurana" que vinha de baixo das prateleiras e subia para clarear os 
recipientes cheios de lcool etlico. O cheiro hospitalar de conservantes qumicos era nauseante.  
     - Este galpo abriga mais de 20 mil espcies - disse a moa gordinha. -  Peixes, roedores, mamferos, rpteis.  
     - Todos mortos, espero - disse Mal'akh, fingindo nervosismo.
     A moa riu.  
     - Sim, sim. Todos mortinhos da silva. Confesso que passei seis meses trabalhando aqui sem ter coragem de entrar neste galpo.  
     Mal'akh podia entender por qu. Para onde quer que olhasse, se deparava com seres mortos envasados: salamandras, guas-vivas, ratos, besouros, pssaros e outras 
coisas que ele era incapaz de identificar. Como se essa coleo j no fosse suficientemente perturbadora, as tnues luzes de segurana que protegiam os espcimes 
fotossensveis da exposio prolongada  claridade davam ao visitante a sensao de estar parado dentro de um gigantesco aqurio, no qual criaturas sem vida haviam 
de alguma forma se reunido para espi-lo das sombras.  
     - Aquilo ali  um celacanto,- disse a moa, apontando para um grande recipiente de plexiglas contendo o peixe mais feio que Mal'akh j tinha visto na vida. 
- Antigamente se pensava que eles tivessem sido extintos junto com os dinossauros, mas esse da foi capturado na frica alguns anos atrs e doado para o Smithsonian. 
     Que sorte a sua, pensou Mal'akh, mal escutando o que ela dizia. Estava ocupado correndo os olhos pelas paredes em busca de cmeras de segurana. Viu apenas 
uma - apontada para a porta de entrada -, o que no era nenhuma surpresa, j que aquela era provavelmente a nica forma de se entrar ali.
     - E aqui est o que o senhor queria ver... - disse a moa, conduzindo-o at o tanque gigante que ele tinha avistado pela janela. - Nosso maior espcime. - Ela 
gesticulou indicando a criatura abominvel, como o apresentador de um programa de auditrio exibindo um automvel novo. - A Architeuthis.  
     O tanque da lula parecia vrias cabines telefnicas deitadas de lado e acopladas umas s outras. Dentro daquele longo e transparente caixo de plexiglas boiava 
um vulto repulsivamente plido e amorfo. Mal'akh baixou os olhos para a cabea bulbosa, parecendo um saco frouxo, e para os olhos do tamanho de bolas de basquete. 
     - Perto dela, seu celacanto  quase bonito.  
     - Espere at v-la iluminada.  
     Trish retirou a enorme tampa do tanque. Vapores de etanol emanaram do seu interior quando ela ps a mo l dentro e acendeu um interruptor logo acima da superfcie 
do lquido. A Architeuthis ento se iluminou em toda a sua glria - uma cabea colossal presa a uma escorregadia massa de tentculos apodrecidos e ventosas afiadas 
feito navalhas.  
     Ela comeou a contar como a lula gigante era capaz de derrotar um cachalote em um combate.  
     Mal'akh escutava apenas um bl-bl-bl sem sentido.  
     Havia chegado a hora.  
     
     Trish Dunne sempre ficava um pouco nervosa no Galpo 3, mas o calafrio que acabara de percorrer seu corpo era diferente.  
     Visceral. Primitivo.  
     Ela tentou ignorar a sensao que aumentava depressa, tomando conta dela.  Embora Trish no conseguisse identificar a origem de sua ansiedade, seu instinto 
lhe dizia claramente que era hora de sair dali.  
     - Enfim, essa  a lula - disse ela, pondo a mo dentro do tanque e desligando a iluminao especial. - Acho que  melhor voltarmos para onde Katherine...  
     Uma imensa mo apertou com fora sua boca, puxando-lhe a cabea para  trs. No mesmo instante, um brao potente envolveu seu tronco, prendendo-a contra um peito 
duro feito pedra. Durante uma frao de segundo, o choque deixou Trish anestesiada.  
     Ento veio o terror.  
     O homem tateou seu peito, agarrando seu carto de acesso e puxando com fora. O cordo queimou sua nuca antes de se partir. O carto caiu aos ps dos dois. 
Ela lutou, tentando se desvencilhar, mas no era preo para o tamanho e a fora daquele homem. Tentou gritar, mas a mo dele continuava a tapar-lhe a hora. Ele se 
abaixou, colando os lbios no seu ouvido e sussurrando:  
     - Quando eu tirar a mo da sua boca, voc no vai gritar, entendido?    
     Ela balanou a cabea vigorosamente, com os pulmes ardendo. No consigo respirar!   
     O homem retirou a mo de sua boca e Trish arquejou, inspirando fundo. 
     - Me solte! - pediu ela, ofegante. - Que diabo est fazendo?  
     - Me diga a sua senha - falou o homem.  
     Trish estava completamente atnita. Katherine! Socorro! Que homem  esse? 
     - A segurana est vendo voc! - disse ela, sabendo muito bem que os dois  estavam fora do alcance das cmeras. E ainda por cima no tem ningum olhando.  
     - A sua senha - repetiu o homem. - A que corresponde ao seu carto de acesso.  
     Um medo glido revirou suas entranhas e Trish girou o corpo com violncia, soltando um dos braos e se virando para enfiar as unhas nos olhos do homem. Seus 
dedos arranharam sua bochecha. Quatro talhos se abriram na carne dele. Trish ento percebeu que aquelas listras escuras no eram sangue. O homem estava usando maquiagem 
e, ao arranh-la, ela havia revelado as tatuagens escuras escondidas por baixo.  
     Quem  esse monstro?!  
     Com uma fora aparentemente sobre-humana, ele girou o corpo dela e a ergueu do cho, empurrando-a pela borda do tanque aberto e deixando seu rosto logo acima 
do etanol. Os vapores queimaram suas narinas.  
     - Qual  a sua senha? - repetiu ele.  
     Os olhos de Trish ardiam e ela pde ver a carne plida da lula submersa abaixo de seu rosto.  
     - Me fale - disse ele, aproximando mais seu rosto da superfcie. - Qual ? 
     A garganta dela agora ardia.  
     - 0-8-0-4! - disparou ela, mal conseguindo respirar. - Me solte! 0-8-0-4!  
     - Se estiver mentindo... - disse ele, empurrando-a mais para baixo at seus  cabelos tocarem o etanol.  - Eu no estou mentindo! - disse ela, tossindo. 
     - Dia 4 de agosto!  o meu aniversrio!  
     - Obrigado, Trish.  As mos vigorosas apertaram ainda mais a cabea dela e uma fora esmagadora a empurrou para baixo, mergulhando seu rosto no tanque. Uma 
dor excruciante queimou seus olhos. O homem empurrou com mais fora, afundando toda a cabea dela no etanol. Trish sentiu o rosto ser pressionado contra a cabea 
polpuda da lula.  
     Reunindo todas as suas foras, ela arqueou violentamente o corpo, vergando-se para trs numa tentativa desesperada de tirar a cabea do tanque. Mas as mos 
poderosas no saram do lugar.  
     Preciso respirar!  
     Ela continuou submersa, lutando para no abrir os olhos nem a boca. Seus pulmes queimavam enquanto ela resistia  poderosa nsia de respirar. No! No faa 
isso! Mas o reflexo de inalao de Trish finalmente a dominou.  
     Sua boca se abriu por inteiro e seus pulmes se expandiram violentamente, tentando sugar o oxignio de que seu corpo precisava. Em um jato ardente, uma onda 
de etanol penetrou sua boca. Quando o produto qumico desceu por sua garganta at chegar aos pulmes, Trish sentiu uma dor que jamais imaginara ser possvel. Misericordiosamente, 
a dor s durou alguns segundos antes de seu mundo cair na escurido.
     
     Mal'akh permaneceu em p ao lado do tanque, recuperando o flego e avaliando os estragos.  
     A moa sem vida pendia da borda, com o rosto ainda mergulhado no etanol!. Ao v-1a ali, Mal'akh teve um lampejo da nica outra mulher que havia matado.  
     Isabel Solomon.  
     Muito tempo atrs. Em outra vida.  
     Mal'akh ento olhou para o cadver flcido  sua frente. Segurou os quadris largos da moa e deu um impulso para cima com as pernas, erguendo-a e empurrando-a 
at ela deslizar pela borda do tanque. A cabea de Trish Dunne escorregou para dentro do etanol. O resto de seu corpo foi atrs, submergindo. Aos poucos, as ondulaes 
da superfcie cessaram, deixando a mulher a flutuar, lnguida, por cima da imensa criatura marinha.  medida que suas roupas ficavam mais pesadas, ela comeou a 
afundar, boiando rumo  escurido. Pouco a pouco, o corpo de Trish Dunne se assentou sobre o grande animal.  
     Mal'akh limpou as mos e tornou a pr a tampa de plexiglas, lacrando o  tanque.  
     O Galpo Molhado tem um novo espcime.  
     Ele recolheu o carto de acesso de Trish do cho e o guardou no bolso: 0804.
     Quando Mal'akh viu Trish pela primeira vez na recepo, enxergou nela um  risco. Depois se deu conta de que o carto de acesso e a senha da moa eram a sua 
garantia. Se a sala de armazenamento de dados de Katherine fosse to segura quanto Peter dera a entender, ento Mal'akh previa alguma dificuldade para convenc-la 
a destranc-la para ele. Agora tenho as minhas prprias chaves. Agradava-lhe saber que no precisaria mais perder tempo tentando obrigar Katherine a fazer o que 
ele queria.  
     Ao endireitar o corpo, Mal'akh viu o prprio reflexo na janela e percebeu que sua maquiagem estava bastante estragada. Aquilo no tinha mais importncia. Quando 
Katherine juntasse todas as peas do quebra-cabea, seria tarde demais.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  38
     
     - Esta sala  manica? - quis saber Sato, virando as costas para a caveira e encarando Langdon no escuro.  
     O professor fez que sim.  
     - Chama-se Cmara de Reflexes. Essas salas so lugares frios e austeros onde um maom pode refletir sobre a prpria mortalidade. Ao meditar sobre o carter 
inevitvel da morte, um maom adquire uma valiosa compreenso sobre a natureza efmera da vida.  
     Sato correu os olhos por aquele espao sinistro, aparentemente nem um pouco convencida.  
     - Isto aqui  um tipo de sala de meditao?  
     - Basicamente, sim. Essas cmaras sempre contm os mesmos smbolos:  uma caveira e ossos cruzados, uma foice, uma ampulheta, enxofre, sal, um papel em branco, 
uma vela, etc. Os smbolos da morte inspiram os maons a refletir sobre a melhor forma, de conduzir suas vidas na Terra.  
     - Parece um altar da morte - disse Anderson. 
      mais ou menos essa a idia.  
     - A maioria dos meus alunos de simbologia tem a mesma reao no incio.  - Langdon muitas vezes lhes indicava o livro de Beresniak, Smbolos da Francomaonaria, 
que tinha belas ilustraes de Cmaras de Reflexes.  
     - E os seus alunos no acham perturbador o fato de os maons meditarem em meio a caveiras e foices? - perguntou Sato.  
     - No mais perturbador do que cristos rezando aos ps de um homem pregado na cruz, ou do que hindus entoando cnticos diante de um elefante de quatro braos 
chamado Ganesha. A m compreenso dos smbolos de uma cultura  uma fonte comum de preconceito. 
     Sato Se virou para o outro lado, pelo jeito sem pacincia para sermes. Ela andou na direo da mesa de artefatos. Anderson tentou iluminar seu caminho, mas 
o facho de luz estava comeando a fraquejar. Ele bateu no fundo da lanterna, conseguindo fazer com que brilhasse com mais intensidade.
     Enquanto os trs avanavam pelo espao estreito, o aroma pungente do enxofre encheu as narinas de Langdon. O segundo subsolo era mido, e a umidade do ar ativava 
o enxofre no pratinho. Sato chegou diante da mesa e olhou para a caveira e para os outros objetos. Anderson se juntou a ela, fazendo o possvel para iluminar os 
artefatos com o facho cada vez mais fraco da lanterna.  
     Depois de examinar tudo o que havia ali, ela levou as mos aos quadris e deu um suspiro.  
     - Que tralha toda  essa?  
     Langdon sabia que os objetos naquela sala haviam sido cuidadosamente escolhidos e arrumados.  
     - So smbolos de transformao - explicou ele, sentindo-se confinado ao se juntar aos outros diante da mesa, nos fundos do cubculo. - A caveira, ou caput 
mortuum, representa a ltima transformao do homem, pela decomposio.  um lembrete de que todos ns um dia perdemos nossa carne mortal. O enxofre e o sal so 
catalisadores alqumicos que facilitam a transformao. A ampulheta representa o poder transformador do tempo. - Ele gesticulou na direo da vela apagada. - E esta 
vela representa o fogo primordial criador e o despertar do homem do sono da ignorncia... a transformao pela iluminao.  
     E... isto aqui? - perguntou Sato, apontando para o canto.
     Anderson girou o facho cada vez mais dbil da lanterna para a gigantesca foice apoiada na parede do fundo.  
     - No  um smbolo de morte, como muitos pensam - disse Langdon. - A foice, na verdade, simboliza o alimento transformador da natureza: a colheita de suas ddivas. 
     Sato e Anderson se calaram, aparentemente tentando processar a cena bizarra  sua frente.  
     Tudo o que Langdon queria era sair daquele lugar.  
     - Sei que esta sala pode parecer estranha - disse o professor -, mas no h nada de mais aqui. Na verdade, isto tudo  bem normal. Vrias lojas manicas tm 
cmaras iguaizinhas a esta.  
     - Mas isto aqui no  uma loja manica! - declarou Anderson. -  o Capitlio dos Estados Unidos, e eu gostaria de saber o que esta sala est fazendo no meu 
prdio.  
     - s vezes, os maons montam essas cmaras em seus escritrios ou em casa, como espaos de meditao. No  raro.   
     Langdon conhecia um cirurgio cardaco em Boston que havia montado uma Cmara de Reflexes manica num espao reservado de seu consultrio, para poder refletir 
sobre a mortalidade antes de operar.  
     Sato parecia intrigada.  
     - Est dizendo que Peter Solomon vem aqui refletir sobre a morte?  
     - No sei mesmo - respondeu Langdon com sinceridade. - Talvez ele tenha  criado esta sala como um santurio para os irmos maons que trabalham no prdio, para 
que eles tivessem um retiro espiritual do caos do mundo material... um lugar onde um poderoso legislador pudesse refletir antes de tomar decises que iro afetar 
seus conterrneos.  
     - Um sentimento nobre - comentou Sato com sarcasmo -, mas algo me diz que o povo americano talvez no goste que seus lderes fiquem rezando dentro de salinhas 
com foices e caveiras.  
     Bem, eles no deveriam achar isso, pensou Langdon, imaginando como o mundo poderia ser diferente caso mais lderes parassem para refletir sobre a inevitabilidade 
da morte antes de partirem para a guerra.  
     Sato franziu os lbios e examinou cuidadosamente os quatro cantos da cmara iluminada pela luz fraca da lanterna.  
     - Deve haver alguma coisa aqui alm de ossos humanos e pratinhos de substncias qumicas, professor. Algum trouxe o senhor l da sua casa em Cambridge para 
coloc-lo exatamente nesta sala.  
     Langdon apertou a bolsa contra a lateral do corpo, ainda sem conseguir imaginar como o embrulho podia estar relacionado quela cmara.  
     - Sinto muito, mas no estou vendo nada fora do normal. - Langdon estava torcendo para que, depois dessa, eles finalmente comeassem a procurar Peter.  
     A lanterna de Anderson tornou a falhar e Sato se virou para ele de supeto, sua raiva transparecendo.  
     - Pelo amor de Deus, assim est difcil! - Ela mergulhou a mo no bolso e sacou um isqueiro. Acionando-o com o polegar, estendeu a chama para a frente e acendeu 
a nica vela da mesa. O pavio crepitou e em seguida pegou fogo, espalhando uma luminescncia fantasmagrica pelo espao confinado. Sombras compridas riscaram as 
paredes de pedra.  medida que a chama ficava mais forte, uma imagem inesperada se materializava diante deles.  
     - Olhem! - disse Anderson, apontando.  
      luz da vela, eles agora podiam ver uma inscrio desbotada: sete letras maisculas rabiscadas na parede do fundo.
     
     VITRIOL
     
     - Estranha escolha de palavras - disse Sato enquanto a luz da vela formava uma assustadora silhueta em forma de caveira por cima das letras. Ela se perguntava 
por que algum escreveria "vitriol", vitrolo em ingls, quando a palavra mais comum era "cido sulfrico".  
     - Na verdade, isso  um acrnimo - disse Langdon. - Est escrito na parede do fundo da maioria das salas iguais a esta.  a abreviao do mantra manico de 
meditao: Visita interiora terrae, rectificando invenies occultum lapidem. 
     Sato o encarou, parecendo quase impressionada.  
     Ou seja?  
     - Visite o interior da terra e purificando-se encontrar a pedra oculta. 
     O olhar de Sato se aguou.  
     - A pedra oculta tem alguma relao com uma pirmide escondida?  
     Langdon deu de ombros, sem querer incentivar aquela comparao.  
     - Quem gosta de fantasiar sobre pirmides escondidas em Washington responderia que occultum lapidem se refere  pirmide, sim. Outros diriam que se trata de 
uma aluso  pedra filosofal: uma substncia que os alquimistas acreditavam ser capaz de proporcionar a vida eterna ou transformar chumbo em ouro. Outros ainda alegariam 
que a expresso se relaciona ao Santo dos Santos, uma cmara de pedra escondida no centro do Grande Templo em Jerusalm. H quem diga tambm que  uma referncia 
crist aos ensinamentos secretos de So Pedro, a Rocha. Cada tradio esotrica interpreta "a pedra" do seu prprio jeito, mas invariavelmente a occultum lapidem 
 uma fonte de poder e iluminao.  
     Anderson pigarreou.  
     - Ser possvel que Solomon mentiu para esse cara? Talvez ele tenha dito que havia alguma coisa aqui embaixo... quando, na verdade, no h nada.  
     Langdon estava pensando mais ou menos a mesma coisa.  
     Sem aviso, a chama da vela tremeluziu como se houvesse sido agitada por uma corrente de ar. Enfraqueceu por alguns instantes, recuperando-se em seguida e tornando 
a brilhar com fora.  
     - Que estranho - disse Anderson. - Espero que ningum tenha fechado a porta l em cima. - Ele deixou a sala rumo  escurido do corredor. - Ol?  
     Langdon mal reparou quando ele saiu. Seu olhar havia sido subitamente atrado para a parede do fundo do cubculo. O que acabou de acontecer?  
     - O senhor viu isso? - perguntou Sato, tambm olhando alarmada a parede.  
     Langdon assentiu, sentindo sua pulsao acelerar. O que eu acabei de ver? 
     Segundos antes, a parede do fundo parecia ter cintilado, como se atravessada por uma ondulao de energia.  
     Anderson voltou para a sala.   
     - No h ningum l fora. - Quando ele entrou, a parede tornou a cintilar.  - Puta merda! - exclamou, dando um pulo para trs.  
     Os trs passaram um bom tempo mudos, encarando a parede. Langdon sentiu outro calafrio percorrer seu corpo ao entender o que estavam vendo. Estendeu a mo, 
hesitante, at as pontas dos dedos tocarem a superfcie dos fundos da sala. 
     - No  uma parede - falou.  
     Anderson e Sato chegaram mais perto, olhando com ateno. 
     -  uma lona - disse Langdon.  
     - Mas ela se agitou - disse Sato rapidamente.  
     Sim, de um jeito muito estranho. Langdon examinou a superfcie mais de perto. O polimento da lona havia refletido a luz da vela de uma forma surpreendente porque 
acabara de se agitar para fora da sala... movendo-se para trs, atravs da parede do fundo.  
     Com muita delicadeza, Langdon esticou os dedos, empurrando a lona.  Espantado, retirou a mo depressa. Tem uma abertura aqui! 
     - Afaste isso - ordenou Sato.  
     quela altura, o corao de Langdon batia descompassado. Ele ergueu a mo e segurou a ponta da lona, puxando o tecido devagar para um dos lados. Sem conseguir 
acreditar, encarou fixamente o que estava escondido atrs dela. Meu Deus. 
     Assombrados, Sato e Anderson nem se mexiam ao olhar para a abertura na parede do fundo.  
     Por fim, Sato falou:  
     - Parece que acabamos de encontrar nossa pirmide.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  39
     
     Robert Langdon no conseguia tirar os olhos da abertura na parede do fundo da sala. Atrs da lona, fora aberto um buraco na forma de um quadrado perfeito. Essa 
abertura, com cerca de 70 centmetros de altura, parecia ter sido feita removendo uma srie de tijolos. Por alguns instantes, no escuro, Langdon pensou que o buraco 
fosse uma janela para outra sala.  
     Agora via que no.  
     A abertura se estendia apenas alguns centmetros para dentro da parede. Como um oratrio grosseiro, aquele compartimento fez Langdon pensar no  nicho de um 
museu destinado a exibir alguma estatueta. De modo apropriado, havia um pequeno objeto exposto ali.  
     Com quase 25 centmetros de altura, era um pedao de granito macio esculpido. A superfcie era elegante e lisa, com quatro laterais polidas que reluziam  
luz da vela.  
     Langdon no podia imaginar o que aquilo estava fazendo ali. Uma pirmide de pedra?  
     - Pela sua cara de surpresa - comentou Sato com ar vitorioso -imagino que esse objeto no seja tpico de uma Cmara de Reflexes.  
     Langdon fez que no com a cabea.  
     - Ento talvez o senhor queira reavaliar o que disse sobre a lenda de uma Pirmide Manica escondida em Washington. - Seu tom agora beirava a arrogncia.  
     - Senhora - retrucou Langdon sem demora -, esta pequena pirmide no  a Pirmide Manica.  
     - Ento  s coincidncia termos encontrado uma pirmide escondida no corao do Capitlio dentro de uma sala pertencente a um lder maom?  
     Langdon esfregou os olhos e tentou clarear os pensamentos.  
     - Minha senhora, esta pirmide no se parece em nada com o mito. A Pirmide Manica  descrita como algo imenso, com um cume de ouro macio.  
     Alm disso, Langdon sabia que aquela pequena pirmide - cujo topo era achatado - no era sequer uma pirmide de verdade. Sem a ponta, aquilo era um smbolo 
totalmente diferente. Conhecido como Pirmide Inacabada, era um lembrete de que a ascenso do homem ao seu potencial mximo era uma obra em progresso. Embora poucos 
se dessem conta, aquele era o smbolo mais divulgado do mundo. Mais de 20 bilhes em circulao. Estampada em cada nota de um dlar, a Pirmide Inacabada esperava 
com pacincia pela pedra reluzente  que a completaria - e que pairava acima dela como uma recordao do destino ainda no cumprido dos Estados Unidos e do trabalho 
a ser feito, tanto pelo pas quanto por seus cidados.  
     - Tire-a da - disse Sato para Anderson, indicando a pirmide. - Quero ver mais de perto. - Ela comeou a abrir espao em cima da mesa, empurrando a caveira 
e os ossos cruzados para o lado sem um pingo de respeito.  
     Langdon estava comeando a se sentir parte de um bando de reles ladres de tumbas profanando um santurio particular.
     Anderson contornou Langdon, estendendo os braos para dentro do nicho e segurando a pirmide com as duas mos enormes. Ento, quase sem conseguir ergu-la naquele 
ngulo esquisito, deslizou a pirmide na sua direo e arriou-a sobre a mesa de madeira, produzindo um baque seco. Em seguida, recuou alguns passos para dar espao 
a Sato.  
     A diretora aproximou a vela da pirmide e estudou sua superfcie polida.  Vagarosamente, alisou-a com seus pequenos dedos, examinando cada centmetro do topo 
achatado e depois as laterais. Envolveu-a com as mos para tatear a parte traseira e ento franziu as sobrancelhas, aparentemente decepcionada.  
     - Professor, o senhor disse que a Pirmide Manica tinha sido construda para proteger informaes secretas.  
     - Sim, essa  a lenda.  
     - Ento, hipoteticamente falando, se o seqestrador de Peter acreditasse que esta aqui  a Pirmide Manica, acreditaria que ela contm informaes poderosas. 
     Langdon concordou, irritado.  
     - Sim, mas mesmo que ele encontrasse essas informaes,  provvel que no fosse capaz de l-las. Segundo a lenda, o contedo da pirmide est em cdigo, o 
que o torna indecifrvel... a no ser para os merecedores.  
     - O que foi que o senhor disse?  
     Apesar da impacincia crescente, Langdon respondeu em tom neutro.  
     - Os tesouros mitolgicos so sempre protegidos por testes de merecimento.  Na lenda da Espada na Pedra, como a senhora deve se lembrar, a pedra se recusa a 
entregar Excalibur a no ser para Arthur, que estava espiritualmente preparado para manejar o espantoso poder que ela possua. A Pirmide Manica tem por base a 
mesma idia. No caso dela, o tesouro so as informaes que estariam escritas em linguagem cifrada, uma lngua mstica de palavras perdidas, legvel apenas por quem 
for merecedor.  
     Um dbil sorriso atravessou os lbios de Sato.  
     - Isso talvez explique por que o senhor foi convocado a vir at aqui hoje.  
     - Como  que ?  
     Com calma, Sato virou a pirmide sem tir-la do lugar, girando-a 180 graus.  O quarto lado da pirmide foi ento iluminado pela vela.  
     Robert Langdon encarou aquilo, surpreso.  
     - Est parecendo - disse Sato - que algum considera o senhor merecedor.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 40
     
     Por que Trish est demorando tanto?  
     Katherine Solomon tornou a conferir o relgio. Havia se esquecido de avisar ao Dr. Abaddon sobre o bizarro trajeto at o seu laboratrio, mas no podia imaginar 
que a escurido os tivesse atrasado de tal forma. Eles j deveriam ter chegado. 
     Katherine foi at a sada e abriu a porta revestida de chumbo, olhando para  o vazio. Passou alguns instantes escutando, mas no ouviu nada. 
     - Trish? - chamou, e sua voz foi engolida pela escurido.
     Silncio.  
     Intrigada, ela fechou a porta, sacou o celular e ligou para a recepo.  Aqui  Katherine. Trish est por a?  
     - No, senhora - respondeu o vigia da entrada. - Faz uns 10 minutos que ela e o seu convidado foram para a.  
     -  mesmo? Acho que eles ainda nem entraram no Galpo 5.
     - Espere um instante. Vou verificar. - Katherine pde ouvir os dedos do vigia digitando no teclado do computador. - Tem razo. Segundo os registros do carto 
de acesso da Sra. Dunne, ela ainda no abriu a porta do Galpo 5. Sua ltima ocorrncia de acesso tem uns oito minutos... e foi no Galpo 3. Imagino que ela esteja 
aproveitando para fazer um pequeno tour com o convidado.  
     Katherine franziu a testa. Parece que sim. Aquilo era um pouco estranho, mas pelo menos ela sabia que Trish no iria passar muito tempo no Galpo 3. Aquele 
lugar tem um cheiro horrvel.  
     - Obrigada. Meu irmo j chegou?  
     - No, senhora. Ainda no.  
     - Obrigada.  
     Ao desligar, Katherine sentiu uma pontada repentina de inquietao. A sensao de nervosismo a fez parar para pensar, mas s por um instante. Era exatamente 
a mesma ansiedade que ela sentira mais cedo, ao entrar na casa do Dr. Abaddon. Constrangedoramente, daquela vez sua intuio feminina a havia decepcionado. E muito. 
     No  nada, disse Katherine a si mesma.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
      
     CAPTULO  41
     
     Robert Langdon estudou a pirmide de pedra. No  possvel.
     - Uma lngua antiga cifrada? - indagou Sato sem erguer os olhos. - Me diga,  isto aqui corresponde  descrio?         
     Na lateral recm-exposta da pirmide, uma srie de 16 caracteres estava gravada com preciso na pedra lisa. 
     
     
     
     Anderson estava parado ao lado de Langdon, sua boca escancarada como que refletindo o espanto do outro homem. O chefe da segurana parecia ter se  deparado 
com algum tipo de teclado aliengena.  
     - Professor? - indagou Sato. - Imagino que o senhor consiga ler isso, certo?  
     Langdon se virou para ela.  
     - O que faz a senhora pensar assim?  
     - O fato de o senhor ter sido trazido at aqui, professor. O senhor foi escolhido. Essa inscrio parece algum tipo de cdigo e, levando em conta a sua.  reputao, 
parece-me bvio que foi trazido at aqui para decifr-lo.  
     Langdon teve de admitir que, depois de suas experincias em Roma e Paris, havia recebido vrios pedidos de ajuda para quebrar alguns dos grandes cdigos no 
decifrados da histria - o Disco de Festos, o Cdigo Dorabella, o misterioso Manuscrito de Voynich.  
     Sato correu o dedo por cima da inscrio.  
     - Pode me dizer o significado destes cones?  
     No so cones, pensou Langdon. So smbolos. Ele havia reconhecido aquele  cdigo na mesma hora: uma linguagem cifrada do sculo XVII. Langdon sabia  muito 
bem como quebr-lo.  
     - Minha senhora - disse ele, hesitando -, esta pirmide  propriedade particular de Peter. 
     - Particular ou no, se este cdigo for de fato a razo pela qual o senhor foi trazido at Washington, o senhor no ter escolha. Ter que me dizer o que est 
escrito. 
     O BlackBerry de Sato emitiu um bipe alto e ela arrancou o aparelho do bolso, estudando durante vrios segundos a mensagem que acabara de chegar. Langdon estava 
impressionado que a rede sem fio do Capitlio pudesse ser captada ali embaixo.  
     Sato grunhiu e arqueou as sobrancelhas, lanando um olhar estranho para Langdon.  
     - Chefe Anderson? - disse ela, virando-se para ele. - Uma palavrinha em particular, pode ser? - A diretora fez sinal para Anderson acompanh-la e os dois desapareceram 
no corredor totalmente escuro, deixando Langdon sozinho  luz tremeluzente da vela na Cmara de Reflexes de Peter.  
     
     O chefe Anderson se perguntava quando aquela noite iria terminar. A mo cortada de um homem na minha Rotunda? Um santurio da morte no meu subsolo? Inscries 
bizarras em uma pirmide de pedra? De alguma forma, o jogo dos Redskins j no parecia ter a menor importncia.  
     Enquanto seguia Sato rumo  escurido do corredor, Anderson acendeu a lanterna. O facho estava fraco, mas era melhor do que nada. A diretora o conduziu alguns 
metros pelo corredor, onde Langdon no pudesse v-los.  
     - D uma olhada nisto aqui - sussurrou ela, passando o BlackBerry para Anderson.  
     O chefe da segurana pegou o aparelho e apertou os olhos para enxergar a tela iluminada. Ela exibia uma imagem em preto e branco - o raio X da bolsa de Langdon 
que Anderson havia solicitado para Sato. Como em todas as imagens de raios X, os objetos de maior densidade apareciam num branco mais brilhante. Dentro da bolsa 
de Langdon, apenas um item se destacava dos outros. Obviamente muito denso, ele reluzia feito uma jia ofuscante em meio a uma barafunda nebulosa de objetos. Sua 
forma era inconfundvel.  
     Ele passou a noite inteira carregando esse negcio? Anderson olhou para Sato  com surpresa.  
     - Por que Langdon no mencionou isso?  
     - tima pergunta - sussurrou ela.  
     - O formato... no pode ser coincidncia.   
     - No - concordou Sato, cujo tom agora era de raiva. - Eu diria que no. 
     Um leve farfalhar no corredor chamou a ateno de Anderson. Espantado, ele apontou a lanterna em direo  passagem escura. O facho mortio revelou apenas um 
corredor deserto margeado de portas abertas.  
     - Ol? - chamou Anderson. - Tem algum a?  
     Silncio.  
     Sato lanou-lhe um olhar estranho, aparentemente sem ter ouvido nada. 
     Anderson escutou por mais alguns instantes, depois deixou aquilo para l.  Preciso cair fora deste lugar.  
     
     Sozinho na sala iluminada pela vela, Langdon correu os dedos pelos cantos acentuados das inscries na pirmide. Estava curioso para saber o que dizia a mensagem, 
mas no queria invadir mais ainda a privacidade de Peter Solomon. E por que, afinal de contas, esse maluco se interessaria por esta pequena pirmide?  
     - Professor, ns temos um problema - declarou a voz de Sato bem alto atrs dele. - Acabei de receber uma informao nova e j estou farta das suas mentiras. 
     Langdon se virou e viu a diretora do Escritrio de Segurana marchando sala adentro com o BlackBerry na mo e os olhos faiscando. Espantado, olhou para Anderson 
em busca de ajuda, mas o chefe estava montando guarda junto  porta com uma expresso de poucos amigos. Sato parou diante do professor e enfiou o BlackBerry no seu 
rosto.  
     Atarantado, Langdon olhou para a tela, que exibia uma imagem em preto e branco parecida com um fantasmagrico negativo de filme. A imagem mostrava um emaranhado 
de objetos, sendo que um deles brilhava intensamente. Embora estivesse torto e descentralizado, o item mais reluzente era claramente uma pequena pirmide pontuda. 
     Uma pirmide em miniatura? Langdon olhou para Sato. 
     - O que  isso?  
     A pergunta s pareceu aumentar ainda mais a ira da diretora.
     - Est fingindo que no sabe?  
     Langdon perdeu a pacincia.  
     - No estou fingindo nada! Eu nunca vi isso antes na minha vida!  
     - Mentira! - disparou Sato, cuja voz soou incisiva no ar mido. - O senhor  passou a noite inteira carregando isso dentro da bolsa!  
     - Eu... - Langdon interrompeu a frase no meio. Seus olhos abaixaram lentamente at a bolsa em seu ombro. Ele ento tornou a ergu-los para o BlackBerry. Meu 
Deus... o embrulho. Langdon examinou a imagem com mais ateno. Foi a que viu. Um cubo apagado envolvia a pirmide. Pasmo, percebeu que estava diante de um raio 
X da sua bolsa... e tambm do misterioso pacote em forma de cubo de Peter. O cubo, na verdade, era uma caixa contendo uma pequena pirmide.  
     Langdon abriu a boca para falar, mas no conseguiu dizer nada. Sentiu o ar lhe escapar dos pulmes enquanto uma nova revelao se abatia sobre ele.  
     Simples. Pura. Devastadora.  
     Meu Deus. Ele tornou a olhar para a pirmide de pedra incompleta sobre a mesa. Seu topo era achatado - uma pequena superfcie quadrada -, um espao vazio que 
aguardava simbolicamente o arremate... a pea que a faria deixar de ser uma Pirmide Inacabada, transformando-a numa Pirmide Verdadeira.  
     Langdon ento percebeu que a pirmide minscula que carregava no era uma pirmide.  um cume. Nesse instante, soube por que ele era o nico capaz de desvendar 
os mistrios daquela pirmide de pedra.  
     A ltima pea est em meu poder. 
     E ela  de fato... um talism.  
     Quando Peter lhe contara que o embrulho continha um talism, Langdon achou graa. Agora via que o amigo tinha razo. Aquele pequenino cume era mesmo um talism, 
mas no do tipo mgico... de um tipo bem mais antigo. Muito antes de adquirir conotaes de magia, a palavra talism tinha outro significado: "completar". Do grego 
tlesma, que significa "completude", um talism  qualquer coisa ou idia que completa outra e a torna inteira. O elemento final. Simbolicamente falando, um cume 
seria o derradeiro talism, aquele que transformaria a Pirmide Inacabada em um smbolo de perfeio total.  
     Langdon sentiu que uma sinistra combinao de fatores o forava a aceitar uma verdade muito estranha: a no ser pelo tamanho, a pirmide de pedra na Cmara 
de Reflexes de Peter parecia se transformar aos poucos em algo que recordava vagamente a Pirmide Manica da lenda.  
     Pelo brilho que o cume exibia no raio X, Langdon desconfiou que fosse de metal... um metal muito denso. No tinha como saber se era ou no de ouro macio e 
no estava disposto a permitir que sua prpria mente comeasse a lhe pregar peas. Essa pirmide  pequena demais. O cdigo  fcil demais de decifrar. E... ela 
 um mito, pelo amor de Deus!  
     Sato o observava com ateno.  
     - Para um homem inteligente, professor, o senhor fez algumas escolhas bem estpidas hoje  noite. Mentir para uma diretora de inteligncia, por exemplo, e obstruir 
intencionalmente uma investigao da CIA.  
     - Eu posso explicar, se a senhora deixar.   
     - O senhor vai explicar na sede da CIA. A partir de agora, considere-se preso. 
     O corpo de Langdon se retesou.  
     - A senhora no pode estar falando srio.  
     - Mais srio, impossvel. Eu deixei claro que muita coisa estava em jogo esta  noite, mas o senhor decidiu no cooperar. Sugiro que no se furte a dar explicaes 
sobre a inscrio nesta pirmide, porque quando chegarmos  CIA... - ela ergueu o BlackBerry e tirou uma foto em close dos smbolos na pirmide de pedra - ...meus 
analistas j vo estar bem adiantados.  
     Langdon abriu a boca para protestar, mas Sato j estava se virando para Anderson, que continuava junto  porta.  
     - Chefe - disse ela -, ponha a pirmide de pedra na bolsa do professor Langdon e leve-a com o senhor. Eu cuido de prend-lo. Me d sua arma, por favor.  Anderson 
tinha o semblante duro feito pedra quando entrou na sala, destravando o coldre do ombro no caminho. Entregou a arma a Sato, que imediatamente a apontou para o professor.
     Langdon assistia a tudo aquilo como em um sonho. Isto no pode estar acontecendo.  
     O chefe ento se aproximou dele e retirou a bolsa de seu ombro, levando-a at a mesa e apoiando-a na cadeira. Puxou o zper para abri-la e, em seguida, apanhou 
a pesada pirmide de pedra de cima da mesa e guardou-a l dentro, junto com as anotaes de Langdon e o pequeno embrulho.  
     De repente, o barulho de algo se movendo ecoou no corredor. O vulto de um homem se materializou na soleira da porta, precipitando-se para dentro da sala e se 
aproximando depressa por trs de Anderson. O chefe nem percebeu o que estava acontecendo. Em um segundo, o desconhecido j havia golpeado suas costas. Anderson foi 
jogado para a frente e sua cabea se chocou contra a borda do nicho de pedra. Ele se estatelou sobre a mesa, mandando ossos e artefatos pelos ares. A ampulheta se 
estilhaou no cho. A vela caiu, ainda acesa.
     Sato se virou em meio  confuso, erguendo a pistola, mas o intruso agarrou um fmur e o usou como arma, atingindo o ombro da diretora. Sato soltou um grito 
de dor e caiu para trs, largando a pistola. O recm-chegado chutou a arma para longe e ento se voltou para Langdon. Era um homem alto e esguio, um negro elegante 
que Langdon nunca tinha visto.  
     - Pegue a pirmide! - ordenou ele. - Venha comigo!   
     
     
     
     
     
     CAPTULO 42
     
     O senhor negro que conduzia Langdon pelo labirinto subterrneo do Capitlio era obviamente uma pessoa poderosa. Alm de conhecer bem o caminho por todos aqueles 
corredores secundrios e cmaras internas, o elegante desconhecido tinha um molho de chaves que parecia destrancar todas as portas que impediam sua passagem.
     Langdon o seguiu, galgando s pressas uma escada desconhecida. Enquanto subiam, sentia a correia de couro de sua bolsa cortar-lhe o ombro. A pirmide de pedra 
era to pesada que Langdon temia que a ala acabasse se partindo.  
     Os ltimos minutos transcorridos desafiavam qualquer lgica, e Langdon se surpreendeu avanando unicamente por instinto. Alm de impedir que ele fosse preso 
por Sato, o desconhecido tinha agido de forma arriscada para proteger a misteriosa pirmide de Peter Solomon. Seja ela o que for. Embora sua motivao ainda fosse 
um mistrio, Langdon vislumbrara na mo do homem um cintilar de ouro revelador: um anel manico com a fnix de duas cabeas e o nmero 33. Aquele homem e Peter 
Solomon eram mais do que amigos de confiana. Eram irmos maons do mais alto grau. 
     Langdon seguiu o homem at o alto da escada e entrou em outra passagem, atravessando em seguida uma porta sem nada escrito que conduzia a um corredor de servio. 
Passaram por caixas de material e sacos de lixo, dobrando na direo de uma porta de servio que os fez adentrar um mundo totalmente inesperado - uma espcie de 
sala de cinema com poltronas acolchoadas. O homem mais velho os conduziu at o corredor lateral e atravs das portas principais rumo a um saguo espaoso e iluminado. 
Langdon ento percebeu que estavam no centro de visitantes pelo qual ele havia entrado mais cedo naquela noite.  
     Infelizmente, um agente da polcia do Capitlio tambm estava ali.  
     Quando se viram frente a frente, os trs pararam e se entreolharam. Langdon reconheceu o rapaz hispnico de horas atrs, quando havia passado pela mquina de 
raios X.
     - Agente Nuez - disse o senhor negro. - No diga nada, Venha comigo. 
     O segurana pareceu pouco  vontade, mas obedeceu sem questionar. 
     Quem  esse cara?  
     Os trs seguiram apressados em direo  ala sudeste do centro de visitantes, chegando a um pequeno hall e a uma srie de portas pesadas interditadas por cones 
laranja. As portas estavam lacradas com fita adesiva, aparentemente para proteger o local da poeira produzida pelo que quer que estivesse acontecendo do outro lado. 
O homem estendeu a mo e retirou a fita adesiva da porta. Em seguida, correu os dedos pelo molho de chaves enquanto falava com o segurana.  
     - Nosso amigo chefe Anderson est no segundo subsolo. Talvez esteja ferido.   melhor ir ver como ele est.  
     - Sim, senhor. - Nuez parecia perplexo e alarmado.  
     - E o que  mais importante: voc no nos viu. - O homem encontrou uma chave e a retirou do chaveiro, usando-a para abrir o pesado trinco. Ento, descerrou 
a porta de ao e atirou a chave para o segurana. - Tranque esta porta depois que entrarmos. Recoloque a fita da melhor maneira que conseguir. Ponha a chave no bolso 
e no diga nada. Para ningum. Nem mesmo para o chefe.  Entendido, agente Nuez?  
     O segurana olhou para a chave como se houvessem acabado de lhe confiar  uma pedra preciosa.  
     - Entendido, senhor. 
     O homem passou depressa pela porta e Langdon foi atrs. O segurana fechou o trinco atrs deles e Langdon pde ouvi-lo recolocando a fita adesiva. 
     - Professor Langdon - disse o homem enquanto os dois desciam rapidamente um corredor de aspecto moderno obviamente ainda em obras. - Meu  nome  Warren Bellamy. 
Peter Solomon  um grande amigo meu.  
     Langdon lanou um olhar de espanto para o homem imponente. O senhor  Warren Bellamy? Ele nunca tinha encontrado o Arquiteto do Capitlio, mas  com certeza 
conhecia seu nome.  
     - Peter fala do senhor com muito respeito - disse Bellamy. - Sinto muito por  estarmos nos conhecendo nestas circunstncias terrveis. 
     - Peter est correndo grande perigo. A mo dele...  
     - Eu sei. - Bellamy parecia amargurado. - Infelizmente, acho que isso no   nem metade da histria.  
     Eles chegaram ao final da parte iluminada do corredor, que a partir daquele ponto fazia uma curva abrupta para a esquerda. O trecho restante, aonde quer  que 
levasse, estava escuro feito breu.  - Espere - falou Bellamy, desaparecendo dentro de uma casa de mquinas prxima dali, da qual grossas extenses eltricas laranja 
serpeavam, afastando-se deles rumo  escurido do corredor.  
     Langdon aguardou enquanto Bellamy fuava l dentro. O Arquiteto provavelmente havia localizado o interruptor que alimentava as extenses, porque  de repente 
o caminho diante deles se iluminou.  
     Ficar olhando foi o mximo que Langdon conseguiu fazer. 
     Assim como Roma, Washington era uma cidade crivada de passagens secretas e tneis subterrneos. O corredor  sua frente fazia Langdon pensar no Passetto, o 
tnel que ligava o Vaticano ao Castelo Sant'Angelo. Longo. Escuro. Estreito. No entanto, ao contrrio do antigo Passetto, aquele corredor era moderno e ainda no 
estava pronto. Era um canteiro de obras apertado, to comprido que parecia se estreitar at desaparecer ao longe. A nica iluminao era proporcionada por uma srie 
de lmpadas temporrias espaadas, que pouco faziam alm de acentuar a inacreditvel extenso do tnel. 
     Bellamy j estava avanando pelo corredor. 
     - Venha comigo. Cuidado onde pisa.  
     Langdon comeou a seguir Bellamy, perguntando-se aonde aquele tnel poderia levar. 
     
     Naquela mesma hora, Mal'akh saiu do Galpo 3 e desceu s pressas o corredor principal do CAMS em direo ao Galpo 5. Segurava na mo o carto de acesso de 
Trish e sussurrava baixinho:  
     - 0-8-0-4.  
     Outra coisa tambm circulava por sua mente. Ele tinha acabado de receber um recado urgente do Capitlio. Meu contato encontrou dificuldades imprevistas. Ainda 
assim, as notcias eram boas: Robert Langdon agora estava de posse tanto da pirmide quanto do cume. Apesar da maneira inesperada como tudo havia acontecido, as 
peas fundamentais estavam se encaixando. Era quase como se o prprio destino estivesse guiando os acontecimentos daquela noite, garantindo a vitria de Mal'akh. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  43
     
     Langdon se apressou para acompanhar o ritmo dos passos velozes de Warren Bellamy enquanto os dois avanavam em silncio pelo tnel comprido. At ali, o Arquiteto 
do Capitlio parecia muito mais preocupado em aumentar a distncia entre Sato e aquela pirmide de pedra do que em explicar a Langdon o que estava acontecendo. Langdon 
sentia uma apreenso crescente de que havia muito mais por trs daquilo do que ele podia imaginar.   
     A CIA? O Arquiteto do Capitlio? Dois maons de grau 33?
     O toque estridente do celular de Langdon cortou o ar. Ele sacou o telefone  do palet. Hesitante, atendeu. 
     - Al?  
     A voz que falou era um sussurro sinistro e familiar.  
     - Professor, fiquei sabendo que o senhor ganhou uma companhia inesperada. 
     Langdon sentiu um calafrio glido.  
     - Onde est Peter? - exigiu saber, suas palavras ecoando no tnel fechado.  Ao seu lado, Warren Bellamy lanou-lhe um olhar de esguelha, parecendo preocupado 
e gesticulando para Langdon continuar andando.  
     - No se preocupe - disse a voz. - Como eu lhe disse, Peter est em um lugar seguro.  
     - Voc cortou a mo dele, pelo amor de Deus! Ele precisa de um mdico!  
     - Ele precisa  de um padre - retrucou o homem. - Mas o senhor pode salv-lo. Se cumprir minhas ordens, Peter viver. Eu lhe dou a minha palavra.  
     - A palavra de um louco no significa nada para mim.  
     - Louco? Professor, com certeza o senhor  capaz de apreciar o respeito que  demonstrei hoje  noite aos protocolos antigos. A Mo dos Mistrios o guiou at 
um portal: a pirmide que promete revelar um saber antigo. Eu sei que o senhor est com ela.  
     - Voc acha que esta  a Pirmide Manica? - perguntou Langdon. -  s um pedao de pedra.  
     Houve silncio do outro lado da linha.  
     - Professor Langdon, o senhor  inteligente demais para bancar o idiota.  Sabe muito bem o que descobriu hoje  noite. Uma pirmide de pedra, escondida no corao 
de Washington por um poderoso maom.  
     - Voc est perseguindo um mito! No sei o que Peter lhe disse, mas ele estava com medo. A lenda da Pirmide Manica  uma fico. Os maons nunca construram 
pirmide nenhuma para proteger um saber secreto. E, mesmo que tivessem construdo, esta aqui  pequena demais para ser o que voc acha que .  
     O homem deu uma risadinha.  
     - Estou vendo que Peter lhe disse muito pouca coisa. Mesmo assim, professor Langdon, quer acredite ou no no que tem agora em suas mos, o senhor vai fazer 
o que eu digo. Eu sei muito bem que a pirmide que est carregando tem uma inscrio gravada. O senhor vai decifr-la para mim. Depois, e s depois, eu lhe devolverei 
Peter Solomon.  
     - No sei o que voc acha que essa inscrio revela - disse Langdon -, mas no so os Antigos Mistrios.   
     -  claro que no - retrucou o outro. - Os mistrios so vastos demais para estarem escritos na lateral de uma pequena pirmide de pedra.  
     A resposta pegou Langdon desprevenido.  
     - Mas, se essa inscrio no revela os Antigos Mistrios, ento essa no  a Pirmide Manica. A lenda diz claramente que ela foi construda para proteg-los. 
     O homem assumiu um tom condescendente.  
     - Professor Langdon, a Pirmide Manica foi construda para proteger os Antigos Mistrios, mas com uma ressalva que o senhor aparentemente no entendeu. Peter 
nunca lhe contou? O poder da Pirmide Manica no est no fato de que ela revela os mistrios em si... mas sim a localizao secreta onde os Mistrios esto enterrados. 
     Langdon mal acreditou no que estava escutando.  
     - Decifre a inscrio - prosseguiu a voz -, e ela lhe revelar o local onde est escondido o maior tesouro da humanidade. - Ele riu. - Peter no lhe confiou 
o tesouro em si, professor.  
     Langdon estacou abruptamente no meio do tnel.  
     - Espere a. Voc est dizendo que a pirmide ... um mapa?
     Bellamy parou tambm e sua expresso era de choque e alarme. Obviamente, o homem ao telefone havia acabado de tocar em um ponto sensvel. A pirmide  um mapa. 
     - Esse mapa - sussurrou a voz -, ou essa pirmide, ou portal, ou seja l como o senhor prefira cham-lo... foi criado h muito tempo para garantir que o local 
onde os Antigos Mistrios esto escondidos nunca fosse esquecido, nunca se perdesse na histria.  
     - Uma grade de 16 smbolos no se parece muito com um mapa.  
     - As aparncias enganam, professor. Mesmo assim, s o senhor tem o poder de ler essa inscrio.  
     - Voc est errado - disparou Langdon, pensando no cdigo simples. -  Qualquer um seria capaz de decifrar essa inscrio. Ela no  muito sofisticada.  
     - Desconfio que a pirmide contenha mais segredos do que parece. Seja como for, s o senhor tem o cume.  
     Langdon pensou no pequeno cimo que trazia na bolsa. Ordem a partir do caos? No sabia mais em que acreditar, mas a pirmide de pedra que carregava parecia ficar 
mais pesada a cada segundo.  
     
     Mal'akh pressionou o celular contra o ouvido, apreciando o som da respirao nervosa de Langdon do outro lado da linha.  - Agora preciso cuidar de outro assunto, 
professor, e o senhor tambm.  Ligue para mim assim que tiver decifrado o mapa. Iremos juntos at o esconderijo e faremos a troca. A vida de Peter... por todo o 
saber de todas as eras.  
     - Eu no vou fazer nada - declarou Langdon. - Principalmente enquanto no tiver provas de que Peter est vivo.  
     - No me provoque. O senhor  uma engrenagem muito pequena dentro de uma imensa mquina. Se me desobedecer ou tentar me encontrar, Peter vai morrer. Isso eu 
juro.  
     - At onde sei, Peter j est morto.  
     - Ele est bem vivo, professor, mas precisa desesperadamente da sua ajuda.  
     - Diga a verdade, o que voc est procurando? - gritou Langdon ao telefone.  
     Mal'akh fez uma pausa antes de responder.  
     - Muitas pessoas j buscaram os Antigos Mistrios e especularam sobre o seu poder. Hoje  noite, eu vou provar que eles so reais.  
     Langdon ficou calado.  
     - Sugiro que o senhor comece a trabalhar no mapa imediatamente - disse  Mal'akh. - Eu preciso dessa informao hoje. 
     - Hoje? J passa das nove da noite!  
     - Justamente. Tempus fugit.  
     
     
     
     CAPTULO  44
      
     O editor nova-iorquino Jonas Faukman estava apagando as luzes de seu escritrio em Manhattan quando o telefone tocou. Ele no tinha a menor inteno de atender 
quela hora - no at ver o nome de quem estava ligando no identificador de chamadas. Deve ser importante, pensou, estendendo a mo para o aparelho.  
     - Ns ainda publicamos voc? - perguntou Faukman, em tom de brincadeira.  
     - Jonas! - A voz de Robert Langdon soava ansiosa. - Graas a Deus voc est  a. Preciso da sua ajuda.  
     Faukman se animou.  
     - Voc tem algumas pginas para eu editar, Robert?
     Finalmente, pensou Faukman.  
     - No, eu preciso de uma informao. No ano passado, pus voc em contato  com uma cientista chamada Katherine Solomon, irm de Peter Solomon.  
     Faukman franziu as sobrancelhas. Nada de pginas. 
     - Ela estava procurando um editor para um livro sobre cincia notica. Voc se lembra dela?  
     Faukman revirou os olhos. 
     -  claro que eu me lembro. E muito obrigado pela apresentao. Ela no s se recusou a me deixar ver o resultado da pesquisa, como no quis publicar nada antes 
de alguma data mgica no futuro. 
     - Jonas, escute, eu no estou com tempo. Preciso do telefone de Katherine agora. Voc tem? 
     - Preciso lhe dizer... voc est parecendo meio desesperado. Ela  bonita, mas voc no vai impression-la com...  
     - No estou brincando, Jonas, preciso do telefone dela agora.
     - Est bem... espere a.  
     Os dois eram amigos havia tempo suficiente para Faukman saber quando Langdon estava falando srio. Jonas digitou o nome de Katherine Solomon em uma janela de 
busca e comeou a percorrer seu catlogo de endereos no gerenciador de e-mails da empresa. 
     - Estou procurando - disse Faukman. - E, alis, quando voc ligar para ela, talvez seja melhor no telefonar da piscina de Harvard. A tem tanto eco que parece 
que voc est ligando de um hospcio.  
     - Eu no estou na piscina. Estou em um tnel debaixo do Capitlio.  
     Pela voz de Langdon, Faukman sentiu que ele no estava brincando. Qual o problema desse cara?  
     Robert, por que voc no consegue simplesmente ficar em casa e escrever? - O computador dele emitiu um bipe. - Beleza, espere a... pronto, achei. - Ele  correu 
o mouse pela lista de e-mails. - Acho que eu s tenho o celular.  
     - Serve.  
     Faukman lhe deu o nmero.  
     - Obrigado, Jonas - disse Langdon, agradecido. - Fico lhe devendo uma. 
     - O que voc me deve  um manuscrito, Robert. Tem alguma idia de quanto tempo...  
     A linha ficou muda.  
     Faukman olhou para o fone e balanou a cabea. A vida de editor seria to mais fcil sem os autores...   
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 45
     
     Katherine Solomon quase no acreditou quando viu o nome no seu identificador de chamadas. Tinha pensado que fosse Trish ligando para explicar por que ela e 
Christopher Abaddon estavam demorando tanto. Mas no era Trish ao telefone. 
     Longe disso. 
     Katherine sentiu um sorriso acanhado atravessar seus lbios. Ser possvel esta noite ficar ainda mais estranha? Ela abriu o telefone. - No precisa nem me 
dizer - falou ela em tom de brincadeira. - Solteiro amante dos livros procura cientista notica tambm solteira? 
     - Katherine! - A voz grave pertencia a Robert Langdon. - Graas a Deus voc est bem. 
     -  claro que eu estou bem - respondeu ela, intrigada. - Tirando o fato de voc nunca ter me ligado depois da festa na casa de Peter no vero passado. 
     - Aconteceu uma coisa hoje  noite. Por favor, me escute. - A voz normalmente tranqila parecia ofegante. - Eu sinto muito por ter que dizer isso a voc... 
mas Peter est correndo srio perigo. 
     O sorriso de Katherine desapareceu. 
     - Do que voc est falando?  
     - Peter... - Langdon hesitou como se estivesse procurando as palavras. - No  sei como dizer isso, mas ele foi... levado. No sei ao certo por quem, mas... 
     - Levado? - repetiu Katherine. - Robert, voc est me assustando. Como assim?  
     - Ele foi seqestrado. - A voz de Langdon falhou como se ele estivesse dominado pela emoo. - Deve ter acontecido hoje mais cedo, talvez ontem.  
     - Isso no tem graa nenhuma - disse ela, zangada. - O meu irmo est bem.  Acabei de falar com ele 15 minutos atrs!  
     - Voc falou com ele? - Langdon soou atnito.  
     - Falei! Ele me mandou um torpedo dizendo que estava a caminho do laboratrio.  
     - Mandou um torpedo ... - pensou Langdon em voz alta. - Mas voc no chegou a ouvir a voz dele?  
     - No, mas...  
     - Escute. O torpedo que voc recebeu no foi do seu irmo. Algum est com  o telefone de Peter. Seja quem for essa pessoa, ela me enganou para me fazer vir 
a Washington hoje  noite.   
     - Enganou voc? Essa histria no tem p nem cabea!  
     - Eu sei, sinto muito. - Langdon parecia desorientado, o que no era do seu  feitio. - Katherine, acho que voc pode estar correndo perigo.  
     Katherine Solomon tinha certeza de que Langdon jamais brincaria com um assunto daqueles, mas ainda assim ele parecia ter perdido a razo.  
     - Eu estou bem - disse ela. - Estou trancada dentro de um complexo protegido!  
     - Leia para mim a mensagem que voc recebeu do telefone de Peter. Por favor. 
     Atarantada, Katherine acessou a mensagem de texto e a leu em voz alta para Langdon, sentindo um calafrio ao chegar  parte final, que fazia referncia ao Dr. 
Abaddon.  
     - "Pea ao Dr. Abaddon que nos encontre l, se puder. Confio totalmente nele... " 
     - Ai, meu Deus... - A voz de Langdon estava tomada pelo medo. - Voc chamou esse homem para ir at a?  
     - Chamei! Minha assistente acabou de sair para busc-lo. Eles devem chegar a qualquer...  
     - Katherine, saia da! - berrou Langdon. - Agora! 
     
     Do outro lado do CAMS, dentro da sala da segurana, um telefone comeou a tocar, abafando o jogo dos Redskins. Com relutncia, o vigia retirou mais uma vez 
os fones de ouvido.  
     - Recepo - atendeu ele. - Kyle falando.  
     - Kyle, aqui  Katherine Solomon! - A voz dela estava ansiosa, ofegante.  
     - Senhora, seu irmo ainda no...  
     - Onde est Trish? - indagou ela. - D para v-la nos monitores?  
     O vigia girou a cadeira para conferir as telas. 
     - Ela ainda no voltou para o Cubo?  
     - No! - exclamou Katherine, soando alarmada.  
     O vigia percebeu que Katherine Solomon estava sem flego, como se tivesse corrido. O que est acontecendo l dentro?
     Kyle manejou rapidamente o controle dos monitores, passando os olhos por vrios quadros de vdeo digital em velocidade rpida.  
     - Calma a, vou conferir as gravaes... Estou vendo Trish sair da recepo com seu convidado... eles esto descendo a "Rua"... deixa eu avanar... t, eles 
entraram no Galpo Molhado... Trish usou o carto de acesso para destrancar a porta... os dois entraram l dentro... deixa eu avanar mais um pouco ... beleza, eles 
saram do Galpo Molhado h apenas um minuto... e foram para... - Ele inclinou a cabea, desacelerando a gravao. - Espera um instante. Que coisa estranha...  
     - O que foi?  
     - O senhor saiu do Galpo Molhado sozinho.  
     - Trish ficou l dentro?  
     - , parece que sim. Estou vendo seu convidado agora... ele est sozinho no  corredor.  
     - Onde est Trish? - perguntou Katherine, quase histrica.  
     - Eu no estou vendo Trish nas imagens - respondeu Kyle, um qu de ansiedade se insinuando em sua voz. Ele tornou a olhar para o monitor e percebeu que as mangas 
do palet do homem pareciam estar molhadas... at os cotovelos. O que esse cara fez no Galpo Molhado? O vigia ficou olhando enquanto o homem avanava a passos decididos 
pelo corredor principal em direo ao Galpo 5, segurando com fora o que parecia ser... um carto de acesso.  
     Kyle sentiu os cabelos da nuca se eriarem.  
     - Sra. Solomon, estamos com um problema srio.  
     
     Aquela estava sendo uma noite de estrias para Katherine Solomon.  
     Em dois anos, ela nunca havia usado o celular dentro do vazio. Tampouco o havia atravessado correndo  velocidade mxima. Agora, porm, Katherine estava com 
um celular grudado  orelha enquanto disparava s cegas pela extenso interminvel do carpete. Sempre que sentia um dos ps fugindo do caminho acarpetado, corrigia 
o prprio rumo e tornava a voltar ao centro, continuando a correr em meio  densa escurido.  
     - Onde ele est agora? - perguntou ela ao vigia, sem ar.  
     - Estou verificando - respondeu ele. - Vou avanar a gravao... certo, aqui  est ele descendo o corredor em direo ao Galpo 5...  
     Katherine comeou a correr mais depressa, esperando conseguir chegar   sada antes de ficar encurralada ali dentro. 
     - Quanto tempo at ele chegar  entrada do Galpo 5? 
     O vigia fez uma pausa.  
     - A senhora no est entendendo. Eu ainda estou avanando. Essas imagens so gravadas. Isso j aconteceu. - Ele fez outra pausa. - Espere um pouco, deixa eu 
verificar o monitor de registro de eventos. - Ele se calou novamente, e ento disse: - Senhora, o carto de acesso da Sra. Dunne registra uma entrada no Galpo 5 
mais ou menos um minuto atrs.   
     Katherine freou bruscamente, estacando por completo no meio do abismo. - Ele j destrancou a porta do Galpo 5? - sussurrou ela para o celular.  
     O vigia digitava freneticamente.  - Sim, parece que ele entrou h... 90 segundos.  
     O corpo de Katherine ficou rgido. Ela parou de respirar. A escurido  sua volta de repente pareceu adquirir vida prpria.  
     Ele est aqui dentro comigo.  
     No mesmo instante, Katherine percebeu que a nica luz em todo aquele espao vinha do celular que iluminava a lateral de seu rosto.  
     - Mande ajuda - sussurrou ela para o vigia. - E v at o Galpo Molhado para socorrer Trish. - Ela ento fechou o aparelho com cuidado, fazendo a luz se apagar. 
     Uma escurido absoluta a cercou.  
     Ela permaneceu imvel, respirando o mais silenciosamente possvel. Depois de alguns segundos, um forte cheiro de etanol emanou da escurido  sua frente. O 
cheiro ficou mais intenso. Ela pde sentir uma presena poucos metros adiante. Naquele silncio, o som das batidas do corao de Katherine parecia alto o suficiente 
para denunci-la. Sem fazer barulho, ela tirou os sapatos e se deslocou lentamente para a esquerda, pisando fora do carpete. O cimento sob seus ps estava frio. 
Ela deu mais um passo para sair de vez do caminho acarpetado.  
     Um de seus dedos do p estalou. 
     Aquilo soou como um tiro no silncio.  
     A poucos metros dela, um farfalhar de roupas avanou de repente em sua direo do meio do breu. Katherine demorou um segundo a mais do que devia para se esquivar, 
e um brao forte se estendeu para agarr-la, tateando no escuro, a mo tentando segur-la com violncia. Ela girou o corpo enquanto dedos fortes feito um alicate 
prendiam seu jaleco e a puxavam para perto.  
     Katherine jogou os braos para trs, desvencilhando-se do jaleco e se soltando. De repente, sem saber mais para que lado ficava a sada, Katherine Solomon se 
viu correndo em disparada, totalmente s cegas, no meio de um abismo negro sem fim.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 46
     
     Apesar de abrigar o que muitos j chamaram de "a sala mais linda do mundo", a Biblioteca do Congresso  menos conhecida por seu esplendor de tirar o flego 
do que por sua vasta coleo. Com mais de 800 quilmetro de prateleiras - o suficiente para cobrir a distncia de Washington at Boston -, ela conquista com folga 
o ttulo de maior biblioteca do mundo. Mesmo assim continua a se expandir a uma velocidade de mais de 10 mil itens por dia.  
     Primeiro repositrio da coleo pessoal de livros sobre cincia e filosofia de Thomas Jefferson, a biblioteca simbolizava o compromisso dos Estado Unidos com 
a disseminao do conhecimento. Um dos primeiros edifcios de Washington a receber luz eltrica, ela literalmente brilhava como um farol na escurido do Novo Mundo. 
     Como seu nome sugere, a biblioteca foi criada para servir ao Congresso cujos venerveis membros trabalhavam do outro lado da rua, no Capitlio Esse antigo vnculo 
havia sido fortalecido recentemente com a construo de uma conexo fsica - um longo tnel sob a Independence Avenue que ligava os dois prdios. 
     Naquela noite, dentro do tnel mal iluminado, Robert Langdon foi seguindo Warren Be1lamy por um trecho em obras, tentando controlar a preocupao crescente 
com Katherine. Esse maluco est no laboratrio dela? Langdon sequer queria imaginar por qu. Antes de desligar, dissera a Katherine exatamente onde ela deveria encontr-lo 
mais tarde. Quanto falta para este maldito tnel terminar? Sua cabea agora doa, um turbilho revolto de pensamentos interligados: Katherine, Peter, os maons, 
Bellamy, pirmides, uma antiga profecia... e um mapa. 
     Langdon tentou tirar tudo aquilo da cabea e seguiu em frente. Bellamy me prometeu respostas.  
     Quando os dois homens finalmente chegaram ao final do corredor, o Arquiteto guiou Langdon por um par de portas ainda em construo. Sem ter como tranc-las, 
Bellamy improvisou, pegando uma escada de alumnio da obra e apoiando-a precariamente nas portas. Ento equilibrou um balde de metal em cima da escada. Se algum 
entrasse, o balde cairia no cho fazendo estardalhao.  
      esse o nosso sistema de alarme? Langdon espiou o balde encarapitado em cima da escada, torcendo para que Bellamy tivesse um plano mais sofisticado para garantir 
a segurana deles naquela noite. Tudo havia acontecido muito  depressa, e Langdon s agora comeava a pensar nas conseqncias de ter escapado com Bellamy. Eu sou 
um fugitivo da CIA.  
     O Arquiteto fez uma curva e os dois comearam a subir uma escadaria larga, isolada por cones laranja. A bolsa de viagem de Langdon pesava, atrapalhando-o na 
subida.  
     - A pirmide de pedra - disse ele -, ainda no entendo...  
     - Aqui, no - interrompeu Bellamy. - Vamos examin-la na luz. Eu conheo um lugar seguro.  
     Langdon duvidava que existisse algum lugar seguro no planeta para quem tinha acabado de agredir fisicamente a poderosa diretora do Escritrio de Segurana da 
CIA.  
     Depois de chegarem ao alto da escada, os dois entraram em um amplo corredor de mrmore italiano, estuque e douraes. Oito pares de esttuas margeavam o corredor 
- todas retratando a deusa Minerva. Bellamy prosseguiu, guiando Langdon para o leste sob um arco abobadado, em direo a um espao bem maior.  
     Mesmo sob a iluminao fraca usada fora do horrio de funcionamento, o grande saguo da biblioteca reluzia com a grandiosidade clssica de um opulento palcio 
europeu. A pouco mais de 20 metros do cho, clarabias de vitral cintilavam entre vigas enfeitadas com a rara "folha de alumnio" - metal na poca considerado mais 
valioso do que o ouro. Sob as vigas, uma imponente seqncia de colunas em pares percorria a extenso da galeria do segundo andar, acessvel por duas magnficas 
escadas em espiral, cujos pilares sustentavam gigantescas esttuas de bronze de mulheres segurando tochas que representavam o conhecimento.  
     Em uma tentativa bizarra de refletir o tema do saber moderno sem desrespeitar o registro decorativo da arquitetura renascentista, os corrimos das escadas haviam 
sido esculpidos com figuras de meninos parecendo cupidos, porm retratados como cientistas modernos. Um eletricista angelical segurando um telefone? Um querubim 
entomologista com um espcime numa caixa? Langdon se perguntou o que Bernini teria achado daquilo.  
     Vamos conversar aqui - disse Bellamy, passando com Langdon em frente s vitrines  prova de bala que abrigavam os dois livros mais valiosos da biblioteca: a 
Bblia Gigante de Mainz, escrita  mo em 1450, e o exemplar norte-americano da Bblia de Gutenberg, um dos trs nicos em velino no mundo em perfeito estado. Apropriadamente, 
o teto abobadado acima daquele espao exibia os seis painis pintados por John White Alexander intitulados A Evoluo do Livro.   
     Bellamy seguiu direto at um par de elegantes portas duplas no centro da parede do final do corredor leste. Langdon sabia muito bem o que havia ali, mas achou 
a escolha estranha para uma conversa. No bastasse a ironia de se falar em um espao cheio de placas de "Silncio, por favor", aquela sala estava longe de parecer 
um "lugar seguro". Situada no meio da planta cruciforme da biblioteca, ela era o corao do prdio. Refugiar-se ali era como arrombar uma catedral e ir se esconder 
no altar.  
     Mesmo assim, Bellamy destrancou as portas, adentrou a escurido do outro lado e tateou  procura do interruptor. Quando ele acendeu a luz, uma das grandes obras-primas 
arquitetnicas dos Estados Unidos pareceu se materializar do nada.  
     A famosa sala de leitura era um banquete para os sentidos. Um volumoso octgono com quase 50 metros de altura no ponto central, tinha os oito lados revestidos 
de mrmore do Tennessee cor de chocolate, mrmore de Siena creme e mrmore argelino vermelho. Como o ambiente era iluminado de oito ngulos diferentes, nenhuma sombra 
caa em lugar nenhum, dando a impresso de que a sala reluzia.  
     - H quem diga que esta  a sala mais bonita de Washington - disse Bellamy. 
     Talvez do mundo inteiro, pensou Langdon ao cruzar o limiar. Como sempre, seu olhar foi primeiro atrado para cima, at a altssima clarabia central, da qual 
altos-relevos em gesso se irradiavam, formando arabescos sinuosos cpula abaixo at uma galeria superior. Ao redor da sala, 16 esttuas de bronze de personagens 
ilustres espiavam da balaustrada. Abaixo delas, uma impressionante arcada formava uma galeria inferior. No nvel do cho, trs crculos concntricos de escrivaninhas 
de madeira polida se estendiam a partir do imenso balco de emprstimo octogonal. 
     Langdon voltou novamente a ateno para Bellamy, que prendia as portas duplas da sala para mant-las abertas. 
     - Pensei que estivssemos nos escondendo! - disse Langdon, sem entender.  
     - Se algum entrar no prdio - disse Bellamy -, quero ouvir quando chegar.  
     - Mas aqui no seremos achados num instante?  
     - Seja qual for o nosso esconderijo, eles vo nos encontrar. Mas, se algum  nos encurralar aqui dentro, o senhor vai ficar muito grato por eu ter escolhido 
esta sala.  
     Langdon no fazia a menor idia do porqu, mas Bellamy aparentemente no estava disposto a conversar a respeito. Ele j tinha avanado para o centro da sala, 
onde escolheu uma das mesas de leitura, puxou duas cadeiras e acendeu a luminria. Ento, apontou para a bolsa de Langdon.   
     - Muito bem, professor, vamos examinar melhor isso.  
     Sem querer correr o risco de arranhar a superfcie encerada com um pedao spero de granito, Langdon ps a bolsa inteira em cima da mesa e abriu o zper, abaixando 
as laterais para revelar a pirmide l dentro. Warren Bellamy ajustou a luminria e estudou a pirmide atentamente. Correu os dedos por cima da inscrio pouco usual. 
     Imagino que o senhor esteja reconhecendo esta lngua? - perguntou ele. 
     - Claro - respondeu Langdon olhando para os 16 smbolos. 
     
     
     
     Conhecida como Cifra Manica, aquela linguagem codificada tinha sido usada para comunicaes pessoais entre os primeiros irmos maons. O mtodo de criptografia 
tinha sido abandonado fazia muito tempo por um motivo simples - era fcil demais de decifrar. A maioria dos alunos que cursava o seminrio avanado de simbologia 
de Langdon era capaz de quebrar aquele cdigo em cerca de cinco minutos. Com papel e lpis, Langdon podia faz-lo em menos de 60 segundos.
     Porm, naquela situao, a notria facilidade daquele sistema de criptografia secular criava alguns paradoxos. Em primeiro lugar, a alegao de que Langdon 
era a nica pessoa do mundo capaz de decifr-lo era absurda. Em segundo lugar, Sato sugerir que uma cifra manica era uma questo de segurana nacional equivalia 
a dizer que os cdigos de lanamento da bomba nuclear norte-americana eram criptografados com um anel decodificador de brinquedo. Langdon ainda estava se esforando 
para acreditar em tudo aquilo. Esta pirmide  um mapa? Um mapa que indica o caminho para encontrar o saber perdido de todos os tempos? 
     - Robert - disse Bellamy em tom grave. - A diretora Sato lhe disse por que  est to interessada nisto aqui?  
     Langdon fez que no com a cabea.   
     - No exatamente. Ela s ficava repetindo que era uma questo de segurana nacional. Imagino que esteja mentindo.
     - Pode ser - disse Bellamy, esfregando a nuca. Parecia estar debatendo alguma questo internamente. - Mas existe uma possibilidade muito mais perturbadora. 
- Ele se virou para encarar Langdon. -  possvel que a diretora Sato tenha descoberto o verdadeiro potencial desta pirmide. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  47
     
     A escurido que cercava Katherine Solomon parecia total. Depois de sair da segurana do carpete, ela agora avanava s cegas, com as mos estendidas tocando 
apenas espao vazio enquanto cambaleava cada vez mais para dentro daquele vcuo deserto. Sob seus ps cobertos pela meia-cala, a extenso sem fim de cimento frio 
parecia um lago congelado, um ambiente hostil do qual ela agora precisava escapar. 
     Quando deixou de sentir o cheiro de etanol, ela estacou e ficou parada no escuro, aguardando. Completamente imvel, aguou os ouvidos, instando o prprio corao 
a parar de bater to alto. Os passos pesados atrs dela pareciam ter cessado. Ser que eu o despistei? Katherine fechou os olhos e tentou imaginar onde estava. Em 
que direo eu corri? Para que lado est a porta? No adiantava. Ela dera tantas voltas que a sada poderia estar em qualquer lugar.  
     Katherine j ouvira dizer,que o medo tinha uma ao estimulante, aguando nossa capacidade de raciocinar. Naquele instante, porm, o medo havia transformado 
sua mente em um turbilho de pnico e confuso. Mesmo que eu encontre a porta, no tenho como sair daqui. Seu carto de acesso tinha ficado para trs quando ela 
despira o jaleco. Sua nica esperana era que ela havia se tornado uma agulha no palheiro - um pontinho no meio de um espao de 2.800 metros quadrados. Apesar da 
nsia incontrolvel de fugir, Katherine resolveu fazer o que sua mente analtica lhe dizia, tomando a nica atitude lgica naquela situao - no se mexer. Fique 
parada. No faa nenhum rudo. O vigia estava a caminho e, por algum motivo obscuro, seu agressor exalava um forte cheiro de etanol. Se ele chegar muito perto, eu 
vou saber.  
     Enquanto Katherine estava parada em silncio, sua mente repassava tudo o que Langdon tinha dito. Peter foi seqestrado. Ela sentiu gotas de suor frio brotarem 
da sua pele e escorrerem pelo brao em direo ao telefone que continuava agarrando com a mo direita. Aquele era um perigo que ela se esquecera de levar em conta. 
Se o telefone tocasse, iria revelar sua localizao - e ela no podia desligar o aparelho sem abri-lo e fazer a tela se iluminar.  
     Ponha o telefone no cho... e afaste-se dele.  
     Mas era tarde demais. O cheiro de etanol se aproximou dela pela direita. E ento foi ficando mais forte. Katherine se esforou para manter a calma, forando-se 
a superar o impulso de sair correndo. Com cuidado, devagar, deu um passo para a esquerda. No entanto, o leve farfalhar de suas roupas pareceu bastar para seu agressor. 
Ela o ouviu se lanar para a frente, o cheiro de etanol envolvendo-a enquanto a mo poderosa do homem agarrava seu ombro. Katherine se desvencilhou, tomada pelo 
mais puro terror. A probabilidade matemtica foi para o espao, e ela ps-se a correr s cegas. Fez uma curva fechada para a esquerda, mudando de curso, precipitando-se 
em direo ao vazio.  
     A parede se materializou do nada.  
     Katherine trombou nela com fora, o choque expulsando o ar de seus pulmes. A dor se espalhou por seu brao e seu ombro, mas ela conseguiu continuar de p. 
O ngulo oblquo no qual colidira com a parede a havia poupado da fora total do impacto, porm isso pouco lhe servia de consolo. O barulho tinha ecoado por toda 
parte. Ele sabe onde eu estou. Curvada de dor, ela virou a cabea para encarar a escurido do galpo e sentiu que ele a encarava de volta.  
     Mude de lugar. Agora!  
     Ainda lutando para recuperar o flego, ela comeou a avanar rente  parede, tocando de leve com a mo esquerda, ao passar, cada uma das traves de metal protuberantes. 
Fique junto da parede, mas tome cuidado para no ser encurralada. Na mo direita, Katherine ainda segurava o celular, pronta para us-lo como projtil caso fosse 
preciso.  
     Ela no estava de forma alguma preparada para o som que ouviu naquele instante - o ntido farfalhar de roupas bem  sua frente... roando contra a parede. Katherine 
congelou, totalmente imvel, e parou de respirar. Como  possvel ele j ter chegado  parede? Ela sentiu uma fraca lufada de ar permeada com o cheiro de etanol. 
Ele est vindo pela parede na minha direo!  
     Katherine recuou vrios passos. Ento, com um giro silencioso de 180 graus, comeou a se mover depressa na direo oposta. Tinha andando uns seis metros quando 
o impossvel aconteceu. Mais uma vez, bem  sua frente, ao longo da parede, ouviu o farfalhar de roupas. Ento sentiu a mesma lufada de ar e o cheiro do etanol. 
E ficou petrificada. 
     Meu Deus, ele est por toda parte!  
       
     De peito nu, Mal'akh espreitava a escurido. 
     O cheiro de etanol nas suas mangas tinha se revelado uma desvantagem, ento ele o transformara em um trunfo, despindo o palet e a camisa e usando-os para cercar 
sua presa. Depois de jogar o palet contra a parede  direita, tinha ouvido Katherine estacar e mudar de direo. Ento, ao atirar a blusa para a frente  sua esquerda, 
Mal'akh a ouvira parar novamente. Havia conseguido encurralar Katherine contra a parede estabelecendo pontos que ela no se atrevia a cruzar. 
     Ele ento esperou, aguando os ouvidos no silncio. Ela s pode avanar em uma direo - direto para onde eu estou. Apesar disso, Mal'akh no conseguiu escutar 
nada. Ou Katherine estava paralisada de medo, ou havia decidido ficar imvel e esperar alguma ajuda chegar ao Galpo 5. Em ambos os casos, ela sai perdendo. Ningum 
iria entrar ali to cedo; Mal'akh inutilizara o sistema de acesso ao galpo com uma tcnica bastante grosseira, porm muito eficiente. Depois de usar o carto de 
Trish, ele enfiou uma moeda de 10 centavos no fundo da leitora, de modo a impedir o uso de qualquer outro carto sem antes desmontar o mecanismo todo. 
     Voc e eu estamos sozinhos, Katherine... pelo tempo que for.
     Mal'akh foi avanando devagar, tentando escutar qualquer movimento. Katherine Solomon morreria naquela noite nas trevas do museu do irmo. Um fim potico. Mal'akh 
estava ansioso para compartilhar com Peter a notcia da morte de sua irm. O sofrimento do velho seria uma vingana h muito aguardada. 
     De repente, para grande, surpresa de Mal'akh, ele viu no escuro uma luz fraca e distante e percebeu que Katherine havia acabado de cometer um terrvel erro, 
de avaliao. Ela est telefonando para chamar ajuda? A tela de cristal lquido que acabara de ganhar vida pairava na altura da sua cintura, cerca de 20 metros mais 
 frente, como um farol aceso em meio a um vasto oceano negro. Mal'akh tinha se preparado para esperar por Katherine, mas j no precisava fazer isso. 
     Ele avanou, correndo em direo  luz oscilante, sabendo que precisava alcan-la antes de ela conseguir completar a ligao pedindo ajuda. Chegou l em poucos 
segundos e se atirou para a frente, esticando os dois braos ao redor do celular brilhante, preparado para envolver sua vtima. 
     Os dedos de Mal'akh se chocaram com uma parede slida, dobrando-se para trs e quase se quebrando. A cabea colidiu em seguida, arremetendo contra uma viga 
de ao. Ele soltou um grito de dor enquanto desabava junto  parede.  Dizendo um palavro, tornou a se levantar, cambaleante, apoiando a mo no travesso horizontal 
em que Katherine Solomon tivera a esperteza de posicionar o celular aberto. 
     
     Katherine estava correndo de novo, desta vez sem se importar com o barulho que sua mo fazia ao bater ritmadamente nas traves de metal espaadas regularmente 
pelas paredes do Galpo 5. Corra! Se continuasse seguindo a parede e desse a volta inteira no galpo, sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria a porta de sada. 
     Onde est a droga do vigia? 
     O espaamento regular das traves continuava  medida que ela tocava a parede lateral com a mo esquerda, mantendo a direita esticada na frente do corpo para 
se proteger. Quando  que vou chegar  quina? A parede lateral parecia no ter fim, mas de repente a seqncia de traves foi interrompida. Sua mo esquerda no tocou 
em nada por vrios passos compridos, e ento as traves voltaram a aparecer. Katherine freou e deu meia-volta, tateando o painel de metal liso. Por que no h nenhuma 
trave aqui? 
     Agora ela conseguia ouvir seu agressor perseguindo-a ruidosamente, deslizando as mos pela parede enquanto avanava na sua direo. No entanto, foi outro som 
que deixou Katherine ainda mais assustada - as batidas ritmadas de um vigia esmurrando a porta do Galpo 5 com sua lanterna, ao longe.  
     O vigia no est conseguindo entrar? 
     Embora esse pensamento fosse aterrorizante, a localizao do barulho -  direita de onde ela estava, no sentido diagonal - fez com que Katherine se orientasse 
na mesma hora, conseguindo visualizar em que parte do Galpo 5 estava. O lampejo visual trouxe consigo uma compreenso inesperada. Finalmente sabia o que era aquele 
painel liso na parede. 
     Todos os galpes eram equipados com um acesso para espcimes - uma gigantesca parede deslizante que podia ser deslocada de modo a permitir a entrada e sada 
de espcimes de grande porte. Essa porta era descomunal, como as de um hangar de aeronaves, e Katherine jamais imaginara, nem em seus sonhos mais delirantes, que 
um dia fosse precisar abri-la. Naquele instante, porm, ela parecia ser sua nica chance.
     Mas ser que esta porta funciona? 
     Tateando s cegas, Katherine encontrou a grande maaneta metlica da porta. Segurando-a, jogou o peso do corpo para trs, tentando fazer a porta deslizar. Nada. 
Tentou outra vez. Ela no saiu do lugar.   
     Katherine conseguia ouvir seu agressor se aproximando mais depressa, atrado pelo barulho de suas tentativas. O acesso est trancado! Enlouquecida de pnico, 
ela deslizou as mos por toda a porta em busca de alguma ala ou alavanca. De repente, esbarrou com o que parecia uma haste vertical. Seguiu aquilo at o cho, agachando-se, 
e pde sentir que a haste estava inserida em um buraco no cimento. Uma trava de segurana! Ela se levantou, segurou a haste e, usando a pernas para tomar impulso, 
a deslizou para cima, tirando-a do buraco. 
     Ele est quase chegando! 
     Katherine ento procurou a maaneta e, ao encontr-la, puxou com toda sua fora. O imenso painel mal pareceu se mover, mas uma nesga de luar penetrou no Galpo 
5. Katherine puxou outra vez. O facho de luz vindo do lado de fora se alargou. Um pouco mais! Ela deu um ltimo puxo, sentindo que se agressor estava agora a poucos 
metros de distncia.  
     Saltando em direo  luz, Katherine espremeu o corpo esbelto pela abertura. A mo do seu perseguidor se materializou no escuro em sua direo, tentando pux-la 
de volta para dentro. Ao passar de lado pela porta, ela viu um imenso brao nu coberto de tatuagens vindo no seu encalo. Aquele aterrorizante brao escamoso se 
contorcia feito uma cobra tentando agarr-la. 
     Katherine girou o corpo e saiu correndo junto  parede externa comprida e clara do Galpo 5. Enquanto corria, o cho de pedrinhas soltas que contornava todo 
o CAMS cortava seus ps protegidos apenas pela meia-cala, mas ela continuou assim mesmo, encaminhando-se para a entrada principal. A noite estava escura, porm, 
com os olhos totalmente dilatados por causa do denso breu do Galpo 5, ela conseguia enxergar com perfeio - quase como se fosse dia. s suas costas, a grande porta 
de correr se abriu mais um pouco e ela ouviu passos pesados se acelerarem, atrs dela. Eles soavam inacreditavelmente velozes. 
     Eu nunca vou conseguir chegar mais depressa do que ele at a entrada principal. Ela sabia que seu Volvo estava prximo, mas at mesmo isso seria longe demais. 
No vou conseguir. 
     Ento, Katherine percebeu que tinha uma ltima carta na manga. 
     Ao se aproximar da quina do Galpo 5, pde ouvir os passos dele alcanando-a rapidamente no escuro.  agora ou nunca. Em vez de fazer a curva, Katherine dobrou 
abruptamente  esquerda, afastando-se do complexo em direo  grama. Ao mesmo tempo, fechou os olhos com fora, tapando o rosto com as duas mos, e comeou a correr 
totalmente s cegas pelo gramado. 
     A iluminao de segurana ativada por sensores de movimento ganhou vida ao redor do Galpo 5, fazendo a noite virar dia em um instante. Katherine ouviu um grito 
de dor s suas costas quando os holofotes brilhantes queimaram as pupilas hiperdilatadas de seu agressor com uma luminosidade equivalente a mais de 25 milhes de 
watts. Ela pde ouvi-lo tropear nas pedras soltas. 
     Katherine manteve os olhos bem fechados, precipitando-se pelo gramado. Quando sentiu que estava suficientemente longe do prdio e das luzes, abriu os olhos, 
corrigiu seu trajeto e seguiu correndo feito uma louca no escuro. 
     As chaves de seu Volvo estavam exatamente onde ela sempre as deixava, no console central. Ofegante, ela segurou-as com as mos trmulas e encontrou a ignio. 
O motor ganhou vida com um rugido e os faris do carro se acenderam iluminando uma viso aterradora.  
     Uma forma horrenda corria na sua direo.  
     Por alguns segundos, Katherine ficou petrificada. 
     A criatura iluminada por seus faris era um animal careca e de peito nu, com a pele coberta por tatuagens de escamas, smbolos e palavras. Ele berrava enquanto 
corria em direo ao carro, suas mos erguidas diante do rosto como um animal das cavernas que v a luz do sol pela primeira vez. Ela estendeu a mo para a alavanca 
de cmbio, mas, num piscar de olhos, ele estava ali, projetando o cotovelo contra sua janela lateral e cobrindo seu colo com uma chuva de cacos de vidro. 
     Um imenso brao tatuado penetrou por sua janela, tateando e encontrando seu pescoo. Ela engatou a r, mas o agressor havia agarrado sua garganta e a apertava 
com uma fora inimaginvel. Ela virou a cabea para tentar escapar daquela mo e, de repente, se viu encarando o rosto dele. Trs listras escuras, parecendo unhadas, 
haviam removido sua maquiagem e revelado as tatuagens do rosto. Os olhos eram insanos e implacveis.  
     - Eu deveria ter matado voc 10 anos atrs - rosnou ele. - Na noite em que matei sua me. 
      medida que sua mente registrava aquelas palavras, Katherine foi tomada por uma lembrana aterrorizante: aquele olhar de besta-fera... ela j o vira antes. 
 ele. No fosse a presso fortssima em volta de seu pescoo, ela teria soltado um grito. 
     Katherine afundou o p no acelerador e o carro deu um pinote para trs, quase quebrando seu pescoo enquanto o homem era arrastado ao lado do veculo. O Volvo 
comeou a subir um canteiro inclinado, e ela pde sentir o pescoo prestes a ceder ao peso dele. De repente, galhos de rvore comearam a arranhar a lataria, fustigando 
as janelas laterais, e o peso sumiu. 
     O carro irrompeu atravs dos arbustos e emergiu na parte superior do estacionamento, onde Katherine pisou com fora nos freios. Mais abaixo, o homem seminu 
se levantava encarando os faris. Com uma calma aterrorizante, ele ergueu um brao ameaador e apontou diretamente para ela.   
     O sangue de Katherine chispou por suas veias, cheio de medo e raiva, enquanto ela girava o volante e pisava no acelerador. Segundos depois, estava pegando a 
Silver Hill Road a toda a velocidade. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 48
      
     No calor do momento, o agente Nuez no tinha visto outra alternativa seno ajudar o Arquiteto e Robert Langdon a fugir. Agora, porm, de volta  central de 
segurana no subsolo, ele podia ver a tempestade se armando depressa.  
     O chefe Trent Anderson segurava um saco de gelo junto  cabea enquanto outro agente cuidava dos hematomas de Sato. Ambos estavam reunidos com equipe responsvel 
pelas cmeras, repassando as imagens gravadas na tentativa de localizar Langdon e Bellamy.  
     - Verifiquem as imagens de todos os corredores e sadas - ordenou Sato.  - Quero saber para onde eles foram!  
     Enquanto assistia quilo, Nuez comeou a ficar enjoado. Sabia que era apenas uma questo de minutos at encontrarem a gravao certa e descobrirem a verdade. 
Eu os ajudei a fugir. Para piorar as coisas, uma equipe de quatro homens da CIA tinha chegado e se preparava ali perto para sair atrs de Langdon e Bellamy. Aqueles 
homens no se pareciam em nada com a polcia do Capitlio. Eram soldados de verdade: roupas camufladas pretas, culos de viso noturna, armas de aspecto futurista. 
     Nuez achou que ia vomitar. Decidindo-se, gesticulou discretamente para o  chefe Anderson.  
     - Chefe, posso dar uma palavrinha com o senhor?  
     - O que foi? - Anderson seguiu Nuez at o corredor.  
     - Chefe, cometi um erro muito grave - disse o segurana, comeando a suar.  - Eu sinto muito e estou pedindo demisso. - O senhor vai mesmo me mandar embora 
daqui a poucos minutos. 
     - Como  que ?  
     Nuez engoliu em seco.  
     - Mais cedo, eu vi Langdon e o Arquiteto Bellamy sarem do prdio pelo centro de visitantes.   
     - O qu? - berrou Anderson. - Por que voc no disse nada?  
     - O Arquiteto me mandou ficar quieto.  
     - Voc trabalha para mim, porra! - A voz de Anderson ecoou pelo corredor. - Bellamy esmagou minha cabea contra uma parede, cacete! 
     Nuez entregou a Anderson a chave que Bellamy lhe dera. 
     - O que  isso? - quis saber Anderson.  
     - Uma chave do tnel novo debaixo da Independence Avenue. Estava com o  Arquiteto Bellamy. Foi assim que eles fugiram.  
     Anderson ficou olhando para a chave, incapaz de falar. 
     Sato esticou a cabea para dentro do corredor com um olhar atento. 
     - O que est acontecendo aqui? 
     Nuez se sentiu empalidecer. Anderson ainda estava segurando a chave, que Sato obviamente tinha visto. Enquanto a mulherzinha horrenda se aproximava, Nuez 
improvisou da melhor forma que pde, na esperana de proteger seu chefe. 
     - Encontrei uma chave no cho do segundo subsolo. Estava perguntando ao chefe Anderson se ele sabia de onde era.  
     Sato chegou perto e olhou para a chave.  
     - E o chefe sabe?  
     Nuez ergueu os olhos para Anderson, que obviamente estava pesando cada alternativa antes de falar. Por fim, o chefe fez que no com a cabea.  
     - Assim no olhmetro, no. Tenho que verificar o... 
     - No precisa - disse Sato. - Essa chave abre um tnel que sai do centro de visitantes.  
     -  mesmo? - disse Anderson. - Como  que a senhora sabe? 
     - Ns acabamos de encontrar a gravao. O nosso agente Nuez aqui ajudou Langdon e Bellamy a fugir e depois tornou a trancar a porta do tnel atrs deles. Foi 
Bellamy quem entregou essa chave para Nuez.  
     Anderson se virou para Nuez com uma expresso irada.  
     -  verdade?  
     Nuez aquiesceu vigorosamente, seguindo com o joguinho de Anderson.  
     - Sinto muito, senhor. O Arquiteto me disse para no contar a ningum! 
     - Estou pouco me lixando para o que o Arquiteto disse! - gritou Anderson.  - Espero que... 
     - Cale essa boca, Trent - disparou Sato. - Nenhum de vocs dois sabe mentir. Guardem a encenao para o interrogatrio da CIA. - Ela arrancou a chave do tnel 
da mo de Anderson. Seu trabalho aqui acabou.   
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  49
     
     Robert Langdon desligou o celular, cada vez mais preocupado. Por que Katherine no est atendendo? Ela havia prometido telefonar assim que conseguisse sair 
em segurana do laboratrio e estivesse a caminho para encontr-lo, mas at agora nada.  
     Bellamy estava sentado ao lado de Langdon  mesa da sala de leitura.  O Arquiteto tambm acabara de dar um telefonema, no seu caso, para uma pessoa que, dizia 
ele, poderia lhes dar guarida - um lugar seguro para se esconder. Infelizmente, essa pessoa tampouco estava atendendo, de modo que Bellamy deixara um recado urgente 
dizendo-lhe para ligar imediatamente para o celular de Langdon.  
     - Vou continuar tentando - disse ele a Langdon -, mas, por ora, estamos sozinhos. E precisamos conversar sobre um plano para esta pirmide.  
     A pirmide. Para Langdon, o cenrio espetacular da sala de leitura tinha praticamente desaparecido, e seu mundo agora se reduzia apenas ao que estava logo  
sua frente: uma pirmide de pedra, um embrulho lacrado contendo um cume e um negro elegante que havia se materializado da escurido para resgat-lo de um interrogatrio 
da CIA.  
     Langdon imaginava que o Arquiteto do Capitlio tivesse pelo menos alguma sanidade, mas agora parecia que Warren Bellamy no era mais racional do que  o louco 
que dizia que Peter estava no purgatrio. Bellamy insistia que aquela pirmide de pedra era de fato a Pirmide Manica da lenda. Um antigo mapa? Que nos conduz 
a um poderoso saber?  
     - Sr. Bellamy - disse Langdon com educao -, essa idia de que existe algum tipo de saber antigo capaz de conferir grande poder aos homens... eu simplesmente 
no consigo levar isso a srio.  
     O olhar de Bellamy exibiu ao mesmo tempo decepo e intensidade, tornando o ceticismo de Langdon ainda mais constrangedor.  
     - Sim, professor, eu j imaginava que o senhor fosse pensar assim, por isso eu no deveria ficar surpreso. O senhor  uma pessoa de fora olhando para dentro. 
Existem determinadas realidades manicas que ir perceber como mitos, porque no foi devidamente iniciado nem est preparado para compreend-las.  
     Langdon sentiu que estava sendo tratado feito criana. Eu no fiz parte da tripulao de Odisseu, mas tenho certeza de que os ciclopes so um mito.  
     - Sr. Bellamy, mesmo que a lenda seja verdade... esta pirmide aqui no pode ser a Pirmide Manica.  
     - No? - Bellamy correu um dedo pela inscrio manica na pedra. - Parece-me que ela corresponde perfeitamente  descrio. Uma pirmide de pedra com um cume 
de metal brilhante que, segundo o raio X de Sato,  exatamente o que Peter lhe confiou. - Bellamy apanhou o pequeno embrulho em forma de cubo, sopesando-o.  
     - Esta pirmide de pedra tem cerca de 30 centmetros de altura - rebateu Langdon. - Todas as verses da histria que j escutei descrevem a Pirmide Manica 
como enorme.
     Bellamy claramente j tinha pensado nisso.  
     - Como o senhor sabe, a lenda se refere a uma pirmide to alta que Deus em pessoa pode estender a mo para toc-la.  
     - Exato.  
     - Entendo seu dilema, professor. Apesar disso, tanto os Antigos Mistrios  quanto a filosofia manica celebram o potencial divino dentro de cada um de ns. 
Simbolicamente falando, seria possvel afirmar que qualquer coisa ao alcance de um homem esclarecido... est ao alcance de Deus.
     Langdon no se deixou abalar pelo jogo de palavras.  
     - At mesmo a Bblia confirma isso - disse Bellamy. - Se aceitarmos, como diz o Gnesis, que "Deus criou o homem  Sua imagem", ento tambm devemos aceitar 
as implicaes disso: ou seja, que a humanidade no foi criada inferior a Deus. Em Lucas 17:21, podemos ler que "O reino de Deus est entre vs".  
     - Desculpe, mas no conheo nenhum cristo que se considere igual a Deus.  
     - Claro que no - disse Bellamy em tom mais duro. - Porque a maioria dos  cristos quer o melhor dos dois mundos. Eles querem poder declarar orgulhosamente 
que crem na Bblia, mas simplesmente preferem ignorar as partes que consideram difceis ou inconvenientes demais para acreditar.  
     Langdon no respondeu nada.  
     - De toda forma - disse Bellamy -, quanto  descrio secular da Pirmide Manica como alta o suficiente para poder ser tocada por Deus, ela levou a vrias 
interpretaes equivocadas em relao ao seu tamanho. Convenientemente, isso faz acadmicos como o senhor seguirem insistindo que a pirmide  uma lenda, ento ningum 
a procura.  
     Langdon baixou os olhos para a pirmide de pedra.  
     - Desculpe se estou decepcionando o senhor - disse ele. - Mas  que sempre pensei na Pirmide Manica como um mito.  
     - No lhe parece perfeitamente apropriado que um mapa criado por pedreiros esteja gravado em pedra? Ao longo da histria, nossas diretrizes mais importantes 
sempre foram gravadas em pedra, incluindo a tabuleta entregue por Deus a Moiss: 10 Mandamentos para guiar a conduta humana.  
     - Entendo, mas, mesmo assim, todas as referncias so sempre  lenda da Pirmide Manica. Lenda pressupe que seja um mito.  
     - Sim, lenda. - Bellamy deu uma risadinha. - Temo que o senhor esteja com  mesmo problema que Moiss enfrentou. 
     - Como assim?  
     Bellamy parecia estar quase achando graa ao se virar na cadeira e erguer os olhos para a segunda galeria, onde 16 esttuas de bronze os espiavam l de cima. 
     - Est vendo Moiss?  
     Langdon olhou para a famosa esttua de Moiss da biblioteca.
     - Estou.  
     - Ele tem chifres.  
     - Eu sei disso.  
     - Mas sabe por que ele tem chifres?  
     Como a maioria dos professores, Langdon no gostava de levar sermo. O Moiss acima deles tinha chifres pela mesma razo que milhares de imagens crists de 
Moiss tinham chifres - um erro de traduo do livro do xodo. O texto original em hebraico descrevia Moiss como tendo um "karan 'ohr panav", o que quer dizer que 
"sua pele do rosto brilhava com raios de luz". Mas, quando a Igreja catlica fez a traduo oficial da Bblia para o latim, o tradutor se confundiu na descrio 
de Moiss, traduzindo-a como "cornuta esset facies sua", que significa "seu rosto tinha chifres". A partir da, artistas e escultores, temendo represlias caso no 
fossem fiis aos Evangelhos, comearam a retratar Moiss com chifres.  
     - Foi um simples erro - respondeu Langdon. - Uma traduo equivocada de So Jernimo por volta de 400 d.C.  
     Bellamy pareceu impressionado.  
     - Exato. Uma traduo equivocada. E o resultado disso...  que o pobre Moiss agora est desfigurado para sempre.
     "Desfigurado" era bondade dele. Quando criana, Langdon ficara aterrorizado ao ver o diablico "Moiss chifrudo" de Michelangelo - pea central da Baslica 
de So Pedro Acorrentado, em Roma.  
     - Estou mencionando o Moiss chifrudo - disse Bellamy - para ilustrar como uma nica palavra, quando mal compreendida,  capaz de reescrever a histria.   
     O senhor est querendo ensinar o pai-nosso ao vigrio, pensou Langdon, que havia aprendido essa lio na prpria pele em Paris alguns anos antes. SanGreal: 
Santo Graal. SangReal: Sangue Real.  
     - No caso da Pirmide Manica prosseguiu Bellamy -, as pessoas ouviram boatos sobre uma "legenda". E a idia pegou. A histria legendria da Pirmide Manica 
soava como um mito. Mas a palavra legenda no se referia a uma lenda, e sim a outra coisa. Houve um erro de interpretao. De forma muito parecida com a palavra 
talism. - Ele sorriu. - A linguagem pode ser muito boa para esconder a verdade.  
     - O senhor tem razo, mas no estou entendendo aonde quer chegar.  
     - Robert, a Pirmide Manica  um mapa. E, como todo mapa, ela tem uma  legenda: uma chave que ensina como deve ser lida. - Bellamy pegou o embrulho em forma 
de cubo e o levantou. - No est vendo? O cume  a legenda da pirmide. Ele  a chave que ensina a ler o artefato mais poderoso da Terra, um mapa que revela onde 
est escondido o maior tesouro da humanidade: o saber perdido de todas as pocas.  
     Langdon se calou.  
     - Eu sugiro humildemente - disse Bellamy - que sua gigantesca Pirmide Manica no passa disto aqui... uma modesta pedra cujo cume de ouro se ergue alto o 
bastante para ser tocado por Deus. Alto o bastante para um homem esclarecido poder estender a mo e toc-lo.  
     O silncio pairou entre os dois homens por vrios segundos.
     Ento, Langdon sentiu um arroubo inesperado de entusiasmo ao fitar novamente a pirmide, vendo-a com novos olhos. Tornou a olhar para a cifra manica.  
     - Mas este cdigo... parece to... 
     - Simples?  
     Langdon assentiu.  
     - Praticamente qualquer um poderia decifr-lo.  
     Bellamy sorriu e pegou lpis e papel para Langdon.  
     - Ento talvez voc possa nos esclarecer a questo.  
     Langdon no se sentia  vontade lendo aquele cdigo, mas, levando em conta as circunstncias, aquilo lhe parecia uma traio menor  confiana de Peter. Alm 
do mais, independentemente do que dissesse aquela inscrio, ele no podia imaginar que fosse de fato revelar o esconderijo secreto de qualquer coisa... quanto mais 
de um dos maiores tesouros da histria.  
     Langdon pegou o lpis que Bellamy lhe estendia e ficou dando batidinhas com ele no queixo enquanto estudava a cifra. Era to fcil que ele nem precisava de 
lpis e papel. Mesmo assim, queria ter certeza de que no cometeria nenhum erro, por isso levou obedientemente o lpis ao papel e escreveu a chave de leitura mais 
comum para uma cifra manica. Ela era constituda por quatro grades - duas simples, duas pontilhadas - nas quais as letras do alfabeto se encaixavam na ordem correta. 
Cada letra ficava ento posicionada dentro de um "compartimento" ou "baia" de formato nico. O formato do compartimento de cada letra!  se tornava o smbolo dessa 
letra.  
     O esquema era to simples que quase chegava a ser infantil. 
     
     
     
     
     
     
     Langdon conferiu o que havia traado. Seguro de que a chave estava correta, voltou sua ateno para o cdigo inscrito na pirmide. Para decifr-lo, tudo que 
precisava fazer era encontrar o formato correspondente na chave de leitura e escrever a letra que este continha. 
     
     
     
     O primeiro caractere da pirmide se parecia com uma flecha apontando para baixo ou um clice. Langdon encontrou sem demora o segmento em  forma de clice na 
chave de leitura. Ele estava situado no canto inferior esquerdo e continha a letra S.  Langdon escreveu S.  
     O smbolo seguinte da pirmide era um quadrado sem a lateral direita e com  um ponto. Na grade de interpretao, esse formato continha a letra O.  
     Ele escreveu O.  
     O terceiro smbolo era um quadrado simples, que continha a letra E. 
     Langdon escreveu E.  
     S O E...  
     Ele prosseguiu, indo cada vez mais rpido at completar toda a grade. Ento, ao olhar para a traduo concluda, soltou um suspiro intrigado. No  bem o que 
eu chamaria de momento eureca.  
     O rosto de Bellamy exibia um esboo de sorriso.  
     - Como voc sabe, professor, os Antigos Mistrios so reservados apenas para os verdadeiramente iluminados.  
     - Certo - disse Langdon, franzindo o cenho. Aparentemente, no  o meu caso.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  50
     
     Dentro de uma sala subterrnea no corao da sede da CIA em Langley, na Virgnia, a mesma cifra manica de 16 caracteres brilhava intensamente em um monitor 
de alta definio. Nola Kaye, analista snior do ES, estava sentada estudando a imagem que sua chefe, Inoue Sato, tinha lhe enviado por e-mail 10 minutos antes. 
     Ser que isso  algum tipo de brincadeira? Nola sabia que no, claro; a diretora Sato no tinha um pingo de senso de humor e os acontecimentos daquela noite 
estavam longe de ser engraados. O alto nvel de acesso de Nola dentro do todo-poderoso Escritrio de Segurana da CIA havia aberto seus olhos para os mundos escusos 
do poder. Mas o que Nola vira nas ltimas 24 horas mudara para sempre sua maneira de encarar os segredos que os poderosos guardavam.  
     - Sim, diretora - Nola estava dizendo agora, segurando o fone com o ombro enquanto falava com Sato. - A inscrio  de fato a cifra manica. Mas o texto resultante 
no significa nada. Parece uma grade de letras aleatrias. - Ela olhou para o texto que havia decodificado.   
     
     
     
     - Mas deve significar alguma coisa - insistiu Sato.  
     - S se o texto tiver uma segunda camada de codificao que no estou percebendo.  
     - Algum palpite? - perguntou Sato.  
     -  uma matriz com base em uma grade, ento eu poderia tentar o de  praxe... Vigenre, trelias, e por a vai... mas no prometo nada, principalmente se for 
uma chave de uso nico.
     - Faa o que for preciso. E faa depressa. E o raio X?  
     Nola girou a cadeira at ficar de frente para um segundo sistema, que exibia um raio X de segurana da bolsa de algum. Sato havia solicitado informaes sobre 
o que parecia ser uma pequena pirmide dentro de uma caixa em forma de cubo. Normalmente, um objeto de cinco centmetros de altura no seria uma questo de segurana 
nacional, a menos que fosse feito de plutnio enriquecido. Mas no era o caso. Ele era feito, no entanto, de um material quase igualmente espantoso.  
     - A anlise de densidade da imagem foi conclusiva - disse Nola. - Exatos 19,3 gramas por centmetro cbico.  ouro puro. Muito, muito valioso.  
     - Algo mais?  
     - Na verdade, sim. O scan de densidade detectou pequenas irregularidades  na superfcie da pirmide de ouro. Isto , tem um texto gravado no metal. 
     -  mesmo? - Sato pareceu esperanosa. - E o que esse texto diz?  
     - Ainda no d para saber. A inscrio est muito apagada. Estou tentando  melhorar a qualidade com filtros, mas a resoluo do raio X no est grande coisa. 
     - Tudo bem, continue tentando. Ligue para mim quando descobrir alguma coisa.  
     - Sim, senhora.  
     - E... Nola? - O tom de Sato se tornou grave. - Assim como tudo o que voc  descobriu nas ltimas 24 horas, as imagens da pirmide de pedra e do cume de ouro 
tm o mais alto grau de confidencialidade possvel. Voc no deve consultar ningum. Reporte-se diretamente a mim. Quero ter certeza de que isso est claro.  
     - Fique tranqila, senhora.  
     - timo. Mantenha-me informada. - Sato desligou.  
     Nola esfregou os olhos e tornou a fitar os monitores com a vista cansada.  Fazia 36 horas que no dormia e sabia muito bem que continuaria acordada at aquela 
crise terminar.  
     Seja ela qual for.  
     No Centro de Visitantes do Capitlio, quatro agentes da CIA especializados em trabalho de campo estavam parados junto  entrada do tnel, espiando avidamente 
pela passagem mal iluminada como uma matilha de ces ansiosos pela caada.
     Depois de desligar o telefone, Sato se aproximou dos homens vestidos de preto. 
     - Senhores - disse ela, ainda segurando a chave do Arquiteto - os parmetros da sua misso esto claros?  
     - Positivo - respondeu o lder do grupo. - Temos dois alvos. O primeiro  uma pirmide de pedra gravada com cerca de 30 centmetros de altura. O segundo  um 
embrulho menor em formato de cubo, com cerca de cinco centmetros de altura. Ambos foram avistados pela ltima vez dentro da bolsa de Robert Langdon.  
     - Correto - disse Sato. - Esses dois objetos devem ser recuperados depressa  e intactos. Os senhores tm alguma pergunta?  
     - Quais so os parmetros para uso da fora?  
     O ombro de Sato continuava dolorido onde Bellamy a golpeara com um osso. 
     - Como eu disse, recuperar esses objetos  de suma importncia.  
     - Entendido. - Os quatro homens se viraram, penetrando na escurido do tnel.  
     Sato acendeu um cigarro e ficou observando enquanto eles desapareciam.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  51
     
     Katherine Solomon sempre fora uma motorista prudente, mas agora estava correndo com o Volvo a mais de 140 quilmetros por hora em sua louca fuga pela Suitland 
Parkway. Seu p trmulo havia ficado grudado no acelerador por alguns segundos antes de o pnico comear a passar. Ela agora percebia que aquele tremor incontrolvel 
no se devia apenas ao medo.  
     Eu estou congelando. 
     O ar frio da noite de inverno soprava forte por sua janela estilhaada, fustigando-lhe o corpo como um vento rtico. Seus ps, cobertos apenas pela meia-cala, 
estavam dormentes, e ela estendeu a mo para baixo em busca do par de sapatos sobressalente que guardava sob o banco do carona. Ao se abaixar, sentiu uma pontada 
de dor no pescoo machucado pela mo potente de seu agressor.  
     O homem que arrebentara sua janela no tinha qualquer semelhana com o cavalheiro louro que Katherine conhecera como Dr. Christopher Abaddon. Os cabelos grossos 
e a tez lisa e bronzeada haviam desaparecido. A cabea raspada, o peito nu e o rosto com a maquiagem borrada tinham se revelado uma aterrorizante tapearia de tatuagens. 
     Ela tornou a ouvir a voz dele, sussurrando-lhe em meio  ventania uivante do lado de fora de sua janela quebrada. Eu deveria ter matado voc 10 anos atrs... 
na noite em que matei sua me. 
     J sem um pingo de dvida, Katherine sentiu um calafrio. Era ele. Nunca esqueceu a expresso de violncia demonaca daqueles olhos. Tampouco esquecera o barulho 
do nico tiro que o irmo havia disparado e que matara aquele homem, fazendo-o despencar de uma ribanceira at o rio congelado l embaixo, onde mergulhara para nunca 
mais reaparecer. 
     Os investigadores passaram semanas procurando pelo corpo, mas nunca o encontraram e acabaram concluindo que a correnteza o levara para a baa de Chesapeake. 
     Eles estavam enganados, ela agora sabia. Ele continua vivo. 
     E ele voltou. 
      medida que as lembranas retornavam  sua mente, Katherine se sentiu tomada pela angstia. Fazia quase 10 anos. Era dia de Natal. Katherine, Peter e a me 
- a famlia inteira - estavam reunidos em sua grande manso de pedra em Potomac, aninhada em um terreno arborizado de mais de 800 mil metros quadrados, atravessado 
por um rio particular. 
     Como rezava a tradio, sua me estava ocupada na cozinha, saboreando o costume de cozinhar para os filhos nas festas de fim de ano. Mesmo aos 75 anos, Isabel 
Solomon era uma cozinheira exuberante e, naquela noite, os aromas de carne de cervo ao forno, molho de ervas finas e pur de batatas ao alho flutuavam pela casa, 
dando gua na boca. Enquanto a me preparava o banquete, os dois irmos relaxavam no jardim de inverno, conversando sobre o mais recente objeto de fascnio de Katherine: 
um novo campo de estudos chamado cincia notica. Fuso improvvel de fsica de partculas moderna com misticismo antigo, a notica tinha conquistado totalmente 
a imaginao de Katherine.  
     O encontro entre a fsica e a filosofia. 
     Katherine contou a Peter sobre alguns dos experimentos que sonhava em fazer, e pde notar nos olhos cinzentos do irmo que aquilo o intrigava. Estava particularmente 
feliz por poder proporcionar a ele algo positivo em que pensar naquele Natal, uma vez que o feriado tambm se transformara num doloroso lembrete de uma terrvel 
tragdia.  
     O filho de Peter, Zachary.  
     O 21. aniversrio do sobrinho de Katherine fora o ltimo. A famlia tinha vivido um pesadelo, e parecia-lhe que o irmo s agora estava reaprendendo a sorrir. 
     Menino frgil e desengonado, Zachary tinha se desenvolvido tarde, transformando-se em um adolescente rebelde e zangado. Apesar de criado com muito amor em 
um ambiente de privilgios, o rapaz parecia decidido a romper com o "sistema" da famlia Solomon. Foi expulso da escola de ensino mdio, vivia na farra com os ricos 
e famosos e desdenhava as tentativas inesgotveis dos pais de orient-lo de maneira firme, porm carinhosa.  
     Ele partiu o corao de Peter. 
     Pouco antes do 18. aniversrio de Zachary, Katherine havia se reunido com a me e o irmo e ouvira a conversa dos dois sobre se deveriam ou no segurar a herana 
de seu sobrinho at ele ficar mais maduro. Era uma tradio secular do cl Solomon transferir para todos os filhos que completassem 18 anos uma fatia extraordinariamente 
generosa do patrimnio da famlia. Os Solomon acreditavam que uma herana era mais til no incio da vida de algum do que no final. Alm disso, confiar grandes 
pores da fortuna familiar a jovens descendentes cheios de energia tinha sido fundamental para aumentar a riqueza da dinastia.          
     Naquele caso, porm, a me de Katherine argumentou que era um perigo  entregar ao filho de Peter uma soma de dinheiro to grande. Peter discordou.  
     - A herana dos Solomon - disse ele -  uma tradio de famlia que no deve ser quebrada. Esse dinheiro pode muito bem forar Zachary a ser mais responsvel. 
     Infelizmente, seu irmo estava errado. 
     Assim que recebeu o dinheiro, Zachary cortou relaes com a famlia e sumiu de casa sem levar qualquer pertence. Reapareceu meses depois nos tablides: PLAYBOY 
MILIONRIO CURTE A VIDA NA EUROPA. 
     A imprensa sensacionalista se esbaldou documentando a vida luxuosa e desregrada de Zachary. As fotos de festas de arromba em iates e bebedeiras em  boates eram 
um tormento para os Solomon, mas os registros de seu adolescente rebelde passaram de vergonhosos a assustadores quando os jornais informaram que o rapaz tinha sido 
pego com cocana na fronteira da Turquia: MILIONRIO SOLOMON PRESO COM DROGAS.  
     Eles descobriram que a priso para onde Zachary fora mandado se chamava Soganlik - um centro de deteno brutal, de ltima categoria, situado no distrito de 
Kartal, nos arredores de Istambul. Temendo pela segurana do filho, Peter Solomon pegou um avio at a Turquia para tentar resgat-lo. Muito abalado, voltou sem 
ter conseguido sequer uma autorizao para ver Zachary. A nica notcia promissora era que os influentes contatos de Solomon no Departamento de Estado norte-americano 
estavam fazendo todo o possvel para conseguir extraditar o rapaz o mais rpido possvel.  
     Contudo, dois dias depois, Peter recebeu um pavoroso telefonema internacional. Na manh seguinte, as manchetes anunciavam: HERDEIRO DOS SOLOMON ASSASSINADO 
NA PRISO.  
     As fotos tiradas no presdio eram medonhas, e a mdia divulgou todas ela sem d nem piedade, mesmo muito depois da cerimnia fnebre particular organizada pelos 
Solomon. A mulher de Peter jamais o perdoou por no ter conseguido libertar Zachary, e o casamento dos dois acabou seis meses depois. Desde ento, Peter vivia sozinho. 
     Levou muitos anos para que Katherine, Peter e sua me, Isabel, se reunissem para passar um Natal tranqilo. A dor ainda era grande, mas felizmente ia diminuindo 
a cada ano. O agradvel rudo de panelas e frigideiras agora ecoava da cozinha onde Isabel preparava o tradicional banquete. No jardim de inverno Peter e Katherine 
conversavam descontrados enquanto saboreavam um brie derretido. 
     Foi ento que ouviram um som totalmente inesperado. 
     - Ol, famlia Solomon - disse uma voz afetada atrs deles. Espantados, Katherine e o irmo se viraram e deram de cara com uma imensa figura musculosa entrando 
no jardim de inverno. O rosto do homem estava coberto por um gorro de esqui preto, com exceo dos olhos, que luziam com uma ferocidade animalesca. 
     Peter se ps de p no mesmo instante. 
     - Quem  voc? Como entrou aqui?  
     - Eu conheci seu filhinho, Zachary, na priso. Ele me disse onde esta chave  aqui ficava escondida. - O desconhecido ergueu uma velha chave e sorriu como uma 
besta-fera. - Pouco antes de eu espanc-lo at a morte.  
     Peter ficou de queixo cado.   
     O homem sacou uma pistola e apontou-a em cheio para o peito de Peter. 
     - Sentado.  
     Ele se sentou de volta na cadeira. 
     Quando o homem chegou mais perto, Katherine ficou petrificada. Por trs do gorro, seus olhos eram to ferinos quanto os de um animal raivoso.  
     - Ei! - berrou Peter, como se estivesse tentando alertar sua me l na cozinha. - Eu no sei quem voc , mas pegue o que quiser e v embora!  
     O homem continuou mirando o peito de Peter com a arma. 
     - E o que voc acha que eu quero?  
     -  s me dizer quanto - disse Solomon. - No temos dinheiro em casa, mas  eu posso...  
     O monstro riu.  
     - No me ofenda. Eu no vim atrs de dinheiro. Vim aqui buscar a outra coisa que pertence a Zachary por direito. - Ele deu uma estranha risada. - Ele me falou 
sobre a pirmide.
     Pirmide?, pensou Katherine, desnorteada. Que pirmide? 
     Seu irmo assumiu um tom desafiador.  
     - Eu no sei do que voc est falando.  
     - No banque o inocente comigo! Zachary me disse o que voc guarda no  cofre do escritrio. Eu quero o que est l dentro. Agora.  
     - No sei o que Zachary contou a voc, mas ele se confundiu - disse Peter.  - Realmente no sei do que voc est falando!  
     - Ah, no? - O intruso se virou, apontando a arma para o rosto de  Katherine. - E agora?  
     Os olhos de Peter se encheram de terror.  
     - Voc precisa acreditar em mim! Eu no sei o que quer!  
     - Se mentir para mim outra vez - disse ele, ainda apontando a arma para  Katherine -, eu juro que acabo com ela. - Ele sorriu. - E, pelo que Zachary me  disse, 
sua irmzinha  mais preciosa para voc do que todos os seus...  
     - O que est acontecendo aqui? - gritou a me de Katherine, marchando jardim de inverno adentro com a espingarda Browning Citori de Peter em punho e mirando-a 
bem no peito do homem. O intruso girou o corpo na sua direo e a enrgica mulher de 75 anos no perdeu tempo, disparando uma rajada ensurdecedora de chumbinho. 
O intruso cambaleou para trs, atirando a esmo em todas as direes ao varar as portas de vidro, deixando a pistola cair no cho.
     Peter no titubeou, mergulhando imediatamente em direo  arma. Katherine estava cada no cho, e a Sra. Solomon correu at ela, ajoelhando-se ao seu lado. 
     - Meu Deus, voc est ferida?   
     Katherine fez que no com a cabea, muda de choque. Do lado de fora da porta estilhaada, o homem mascarado tinha se levantado aos tropeos e agora corria em 
direo  mata, pressionando a lateral do corpo. Peter Solomon ainda olhou para trs para se certificar de que a me e a irm estavam seguras e, ao ver que ambas 
estavam bem, empunhou a pistola e saiu correndo no encalo do intruso.  
     A me de Katherine segurou sua mo, tremendo.  
     - Graas a Deus voc est bem. - Ento, de repente, ela se afastou da filha.  - Katherine? Voc est sangrando! Isto  sangue! Voc est ferida!  
     Katherine viu o sangue. Muito sangue. Ela estava coberta com ele. Mas no  sentia dor nenhuma.  
     Frentica, sua me vasculhou o corpo de Katherine em busca de um ferimento. 
     - Onde  que est doendo?  
     - No sei, me, eu no estou sentindo nada!  
     Foi ento que Katherine viu a origem do sangue e ficou gelada.  
     - Me, no sou eu... - Ela apontou para a lateral da blusa de cetim da me, de onde o sangue escorria aos borbotes por um pequeno buraco. A me olhou para 
baixo, parecendo mais confusa do que qualquer outra coisa. Ento fez uma careta, encolhendo-se como se a dor houvesse acabado de atingi-la.  
     - Katherine? - Sua voz estava calma, mas de repente carregava todo o peso de seus 75 anos. - Preciso que voc chame uma ambulncia.  
     Katherine correu at o telefone e ligou pedindo ajuda. Ao voltar para o jardim de inverno, encontrou a me deitada, imvel, em meio a uma poa de sangue. Correu 
at ela, agachou-se e aninhou seu corpo em seus braos.  
     Katherine no saberia dizer quanto tempo se passou at escutar o tiro ao longe na mata. Finalmente, Peter entrou correndo no jardim de inverno, ainda com a 
arma na mo. Ao ver a irm em prantos, segurando nos braos a me sem vida, seu rosto se contorceu de agonia. O grito que ecoou pelo jardim era um som que ela jamais 
iria esquecer.  
     
     
     
     
     
     CAPTULO  52
     
     Mal'akh podia sentir os msculos tatuados de suas costas se retesarem enquanto contornava o prdio, correndo pelo caminho de volta em direo  porta deslizante 
do Galpo 5.  
     Preciso entrar no laboratrio dela.  
     A fuga de Katherine tinha sido um imprevisto e era um problema. Ela no s sabia onde Mal'akh morava, como tambm conhecia sua verdadeira identidade... e sabia 
que ele era o mesmo homem que invadira sua casa 10 anos antes.
     Mal'akh tampouco havia se esquecido daquela noite. Estivera prestes a conseguir a pirmide, mas o destino o impedira. Eu ainda no estava preparado. Mas agora 
se sentia confiante. Mais poderoso. Mais influente. Depois de ter suportado dificuldades inimaginveis para preparar seu retorno, naquela noite Mal'akh estava pronto 
para finalmente cumprir seu destino. Tinha certeza de que, antes de a noite terminar, olharia nos olhos de Katherine Solomon no instante de sua morte.  
     Ao chegar  porta de correr, Mal'akh se reconfortou dizendo a si mesmo que Katherine, na verdade, no tinha fugido; havia apenas adiado o inevitvel. Passou 
pela abertura e atravessou com confiana a escurido at seus ps tocarem o carpete. Ento dobrou  direita e tomou a direo do Cubo. As batidas na porta do Galpo 
5 haviam cessado, e Mal'akh desconfiava que, quela altura, o vigia estivesse tentando retirar a moeda de 10 centavos que ele havia enfiado na leitora do carto. 
     Quando Mal'akh chegou  porta de entrada do Cubo, inseriu o carto de acesso de Trish e o painel numrico se acendeu. Digitou a senha da assistente e entrou. 
As luzes estavam todas acesas e, ao adentrar o espao estril, ele apertou os olhos, admirado, diante da reluzente coleo de equipamentos. Mal'akh conhecia o poder 
da tecnologia. Praticava sua prpria forma de cincia no poro de casa e, na noite anterior, parte dessa cincia tinha dado frutos.  
     A Verdade.  
     O singular confinamento de Peter Solomon - preso sozinho no mundo intermedirio - havia revelado tudo o que ele escondia em seu ntimo. Eu posso ver  a alma 
dele. Mal'akh j suspeitava de alguns dos segredos que havia desvendado,  mas no de outros, entre eles a informao relativa ao laboratrio de Katherine e s suas 
chocantes descobertas. A cincia est chegando perto, percebera Mal'akh. E eu no vou permitir que ela ilumine o caminho dos indignos.  
     Katherine tinha comeado seu trabalho ali usando a cincia moderna para responder a antigos questionamentos filosficos. Algum ouve as nossas preces? Existe 
vida aps a morte? Os seres humanos tm alma? De forma inacreditvel, Katherine havia respondido a todas essas perguntas e a outras tambm. Respostas cientficas. 
Conclusivas. Usando mtodos irrefutveis. At mesmo os mais cticos ficariam convencidos pelos resultados de suas experincias. Caso essas informaes fossem publicadas 
e divulgadas, uma mudana fundamental iria se iniciar na conscincia humana. Eles comearo a encontrar o caminho. A ltima misso de Mal'akh naquela noite, antes 
de sua transformao, era garantir que isso no acontecesse.  
     Enquanto andava pelo laboratrio, Mal'akh localizou a sala de armazenamento de dados sobre a qual Peter tinha lhe falado. Espiou atravs do vidro grosso e viu 
as duas unidades hologrficas. Exatamente como ele descreveu. Mal'akh achava difcil imaginar que o contedo daquelas caixinhas pudesse mudar o curso da evoluo 
humana, mas a Verdade sempre fora o mais potente dos catalisadores.  
     Sem desgrudar os olhos das unidades hologrficas de armazenamento, Mal'akh sacou o carto de acesso de Trish e o inseriu no painel de segurana da porta. Para 
sua surpresa, ele no se acendeu. Ao que parecia, Trish Dunne no tinha acesso quela sala. Ento ele pegou o carto que havia encontrado no bolso do jaleco de Katherine. 
Quando o inseriu, o painel se iluminou.  
     Mas Mal'akh tinha um problema. No peguei a senha de Katherine. Ele tentou a de Trish, mas no funcionou. Esfregando o queixo, deu um passo para trs e examinou 
a porta de plexiglas de quase oito centmetros de espessura. Mesmo com um machado, sabia que no conseguiria arromb-la para chegar aos drives que precisava destruir. 
     Mal'akh, no entanto, havia pensado nessa eventualidade.  
     Na sala de mquinas, exatamente como Peter tinha descrito, ele localizou o suporte que continha vrios cilindros de metal parecidos com grandes tanques de mergulho. 
Os cilindros ostentavam as letras LH, o nmero 2 e o smbolo universal de material inflamvel. Um deles estava conectado ao gerador de hidrognio do laboratrio. 
     Mal'akh deixou no lugar o cilindro que estava conectado e ergueu cuidadosamente um dos que serviam de reserva, baixando-o at um carrinho ao lado do suporte. 
Ento o empurrou para fora da sala de mquinas e atravessou o laboratrio, levando-o at a porta de plexiglas da sala de armazenamento de dados. Embora ali com certeza 
j fosse perto o suficiente para o que estava planejando, ele havia notado um ponto fraco na pesada porta de segurana - o pequeno espao entre a borda inferior 
e o batente.  
     Com todo o cuidado, deitou o cilindro de lado na soleira, inserindo o tubo flexvel de borracha por debaixo da porta. Levou alguns instantes para remover os 
lacres de proteo e chegar  vlvula do tanque, destravando-a com muita delicadeza. Atravs do plexiglas, pde ver o lquido cristalino e borbulhante comear a 
vazar pelo tubo para o cho da sala. Mal'akh ficou olhando a poa aumentar, escorrendo pelo piso, fumegando e borbulhando enquanto crescia.  O hidrognio s permanecia 
em estado lquido a baixas temperaturas. Por isso,  medida que se aquecesse, ele comearia a evaporar. Por sorte, o gs resultante era ainda mais inflamvel do 
que o lquido.  
     Basta lembrar a exploso do Hindenburg.  
     Mal'akh voltou depressa para o laboratrio e pegou uma lata contendo leo para o bico de Bunsen - uma substncia viscosa e altamente inflamvel. Levou-a at 
a porta de plexiglas, satisfeito ao ver que o cilindro de hidrognio lquido continuava a vazar e que a poa de lquido fumegante dentro da sala de armazenamento 
j cobria o piso inteiro, rodeando os pedestais que sustentavam as unidades hologrficas. Uma bruma esbranquiada se erguia da poa  medida que o hidrognio lquido 
se transformava em gs... preenchendo o pequeno espao.  
     Mal'akh ergueu a lata de leo e despejou uma boa quantidade dele sobre o cilindro de hidrognio e o tubo, assim como na pequena abertura debaixo da porta. Ento, 
com todo o cuidado, foi saindo do laboratrio de costas, deixando um filete ininterrupto de leo no cho  medida que recuava.  
     
     A atendente responsvel pelo disque-emergncia de Washington tivera uma noite particularmente agitada. Futebol, cerveja e lua cheia, pensou ela quando outra 
ligao pipocou em sua tela, desta vez de um telefone pblico em um posto de gasolina da Suitland Parkway, em Anacostia. Provavelmente um acidente de carro.  
     - Emergncia - atendeu ela. - Em que posso ajudar?  
     - Acabei de ser atacada no Centro de Apoio dos Museus Smithsonian - disse  uma mulher, em pnico. - Por favor, mandem a polcia! Silver Hill Road, 4.210! 
     - Tudo bem, acalme-se - disse a atendente. - A senhora tem que...  
     - Preciso tambm que mandem a polcia para uma manso em Kalorama  Heights onde acho que meu irmo est sendo mantido em cativeiro!  
     A atendente deu um suspiro. Lua cheia.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  53
     
     - Como eu tentei lhe contar - dizia Bellamy para Langdon -, esta pirmide contm mais segredos do que parece.  
     Tudo indica que sim, pensou Langdon.   
     O professor tinha de reconhecer que a pirmide de pedra dentro de sua bolsa aberta parecia-lhe agora muito mais misteriosa. A interpretao que fizera do cdigo 
manico havia produzido uma grade de letras aparentemente sem nenhum sentido.  Caos.  
     
     
     
     
     
     
     
     Langdon passou um bom tempo examinando aquela grade,  procura de algum indcio de significado nas letras - palavras ocultas, anagramas, qualquer  tipo de pista 
-, mas no teve sucesso.  
     - Dizem - comeou a explicar Bellamy - que a Pirmide Manica guarda seus segredos atrs de muitos vus. A cada um que se ergue, outro surge. Voc desvendou 
essas letras, mas elas nada revelam antes que outra camada seja removida.  claro que somente aquele que detm o cume sabe como fazer isso. Desconfio que ele tambm 
tenha uma inscrio que ensina a decifrar a pirmide. 
     Langdon olhou de relance para o embrulho em forma de cubo sobre a mesa. Depois de ouvir o que Bellamy tinha dito, ele entendeu que o cume e a pirmide eram 
um "cdigo segmentado" - um enigma dividido em vrios pedaos. Os criptologistas modernos usavam cdigos segmentados o tempo todo, embora esse esquema de segurana 
tivesse sido inventado na Grcia Antiga. Quando, queriam guardar informaes secretas, os gregos as gravavam em uma tabuleta de argila e depois a quebravam em vrios 
pedaos, escondendo cada um deles em um local diferente. Somente quando todas as peas eram reunidas os segredos podiam ser lidos. Esse tipo de tabuleta de argila 
gravada - chamado de symbolon - era, na verdade, a origem da palavra moderna smbolo.  
     - Robert - disse Bellamy -, esta pirmide e este cume foram mantidos separados durante muitas geraes, o que garantiu a segurana do segredo. - Seu tom se 
tornou pesaroso. - Mas, hoje  noite, as duas peas se aproximaram perigosamente. Tenho certeza de que no preciso dizer isso, mas  nosso dever  garantir que esta 
pirmide no seja completada. 
     Langdon estava achando exagerado aquele drama todo de Bellamy. Ele est descrevendo o cume e a pirmide... ou um detonador e uma bomba nuclear? Ainda no conseguia 
aceitar muito bem as afirmaes do Arquiteto, mas isso parecia pouco importar. 
     - Mesmo que isto aqui seja de fato a Pirmide Manica e mesmo que esta inscrio de alguma forma revele o paradeiro de um saber antigo, como esse conhecimento 
poderia conferir a algum o poder que lhe  atribudo?  
     - Peter sempre me falou que voc era difcil de convencer, um acadmico que prefere provas a especulaes. 
     - Est me dizendo que acredita mesmo nisso? - quis saber Langdon, perdendo a pacincia. - Com todo o respeito... Voc  um homem moderno, educado. Como  que 
pode acreditar numa coisa dessas?  
     Bellamy deu um sorriso complacente. 
     - O ofcio da Francomaonaria me fez ter um profundo respeito por aquilo que transcende a compreenso humana. Eu aprendi a nunca fechar a mente a nenhuma idia 
pelo simples fato de ela parecer milagrosa.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  54
     
     Agitadssimo, o vigia responsvel pelo permetro do CAMS percorreu correndo a trilha de cascalho que margeava o complexo. Acabara de receber um telefonema de 
um segurana l dentro dizendo que o painel de acesso do Galpo 5 tinha sido sabotado e que uma luz de segurana indicava que a porta de correr que dava para a rea 
externa estava aberta.  
     O que ser que est acontecendo? 
     Quando chegou  porta de correr, viu que de fato ela estava aberta cerca de um metro. Estranho, pensou. Esta porta s pode ser destrancada por dentro. Ele tirou 
a lanterna do cinto e iluminou a escurido profunda do galpo. Nada. Sem querer pisar l dentro, avanou s at o limiar e enfiou a lanterna pela abertura, virando-a 
para a esquerda e em seguida para a... 
     Duas mos poderosas agarraram seu pulso e puxaram-no para o breu. O vigia sentiu seu corpo ser girado por uma fora invisvel. Um forte cheiro de etanol invadiu-lhe 
as narinas. A lanterna saiu voando de sua mo e, antes de ele sequer conseguir processar o que estava acontecendo; um punho duro feito pedra colidiu com seu esterno. 
O vigia desabou no cho de cimento... grunhindo de dor enquanto um vulto alto se afastava dele.  
     O homem ficou deitado de lado, arquejando  medida que tentava respirar. Sua lanterna estava ali perto, com o facho se estendendo rente ao piso e iluminando 
o que parecia uma espcie de lata de metal. O rtulo dizia ser leo para bico de Bunsen.  
     Um isqueiro produziu uma fasca, e a chama laranja iluminou uma forma que quase no parecia humana. Meu Deus do cu! O vigia mal teve tempo para processar o 
que estava vendo antes de a criatura de peito nu se ajoelhar e encostar a chama no cho.  
     No mesmo instante, uma faixa de fogo se materializou, saltando para longe de onde eles estavam e correndo para dentro do vazio. Atnito, o vigia olhou para 
trs, mas a criatura j estava saindo pela porta de correr e sumindo na noite.  
     O vigia conseguiu se sentar, fazendo uma careta de dor enquanto seus olhos seguiam o rastro de fogo. Que diabos! A chama parecia pequena demais para representar 
perigo, mas foi ento que ele viu algo totalmente aterrorizante. O fogo j no iluminava apenas a escurido vazia. Tinha avanado at a parede do fundo do galpo, 
onde passara a iluminar uma imensa estrutura de cimento. O vigia nunca tivera permisso para entrar no Galpo 5, mas sabia muito bem o que devia ser aquilo.  
     O Cubo.  
     O laboratrio de Katherine Solomon.  
     A chama chispou em linha reta direto para a porta externa do laboratrio.  O vigia se levantou cambaleando, sabendo muito bem que o rastro de leo provavelmente 
continuava por debaixo da porta do laboratrio... e logo iria iniciar um incndio l dentro. No entanto, quando se virou para sair correndo e buscar ajuda, sentiu 
uma lufada inesperada de ar passar por ele.  Por um breve instante, todo o Galpo 5 ficou banhado em luz.  O vigia no chegou a ver a bola de fogo de hidrognio 
irromper para cima, arrancando o telhado do Galpo 5 e subindo centenas de metros no ar. Tampouco viu choverem do cu os fragmentos de tela de titnio, equipamentos 
eletrnicos e gotculas de silcio derretido das unidades hologrficas de armazenamento do laboratrio. 
     
     Katherine Solomon dirigia seu carro rumo ao norte quando viu o sbito claro no espelho retrovisor. Um forte estrondo ecoou pelo ar da noite, espantando-a. 
     Fogos de artifcio?, pensou. Ser que h algum show no intervalo do jogo dos Redskins?    
     Ela se concentrou na estrada, ainda pensando na ligao para a emergncia que acabara de fazer do telefone pblico de um posto de gasolina deserto.  
     Katherine havia convencido a atendente a mandar a polcia at o CAMS para investigar um intruso tatuado e, rezava ela, tambm para encontrar sua assistente, 
Trish. Alm disso, pedira  atendente que verificasse o endereo do Dr. Abaddon em Kalorama Heights, onde achava que Peter estava sendo mantido refm.  
     Infelizmente, ela no conseguira obter o nmero do celular de Langdon, que no constava do catlogo. Sem outra alternativa, estava seguindo em alta velocidade 
em direo  Biblioteca do Congresso, onde ele lhe dissera que a encontraria.  
     A aterrorizante revelao da verdadeira identidade do Dr. Abaddon havia mudado tudo. Katherine j no sabia em quem acreditar. A nica certeza era que o mesmo 
homem que matara sua me e seu sobrinho tantos anos atrs havia capturado seu irmo e tentado mat-la. Quem  esse louco? O que ele quer? A nica resposta que lhe 
vinha  mente no fazia sentido. Uma pirmide? Igualmente incompreensvel era o motivo pelo qual aquele homem tinha ido ao seu laboratrio naquela noite. Se queria 
machuc-la, por que no fizera isso na privacidade de sua casa, mais cedo? Por que se dera o trabalho de mandar um torpedo e se arriscar a invadir seu laboratrio? 
     Inesperadamente, os fogos de artifcio em seu espelho retrovisor ficaram mais intensos e o claro inicial foi seguido por uma viso inesperada - uma bola de 
fogo flamejante que Katherine pde ver se erguendo acima da linha das rvores. Mas que diabos  isso? A bola de fogo estava acompanhada por uma fumaa preta... e 
no vinha de nenhum lugar prximo ao estdio dos Redskins. Atnita, ela tentou imaginar que fbrica poderia estar situada atrs daquelas rvores... a sudeste da 
rodovia.  
     Ento, como um caminho a toda a velocidade, a verdade a atingiu.  
     
     
     
     CAPTULO  55
     
     Warren Bellamy apertou com urgncia os botes de seu celular, tentando novamente entrar em contato com uma pessoa que acreditava ser capaz de ajud-los.  
     Langdon o observava, mas sua mente estava em Peter, tentando atinar a melhor forma de encontr-lo. Decifre a inscrio, ordenara o seqestrador de Peter, e 
ela lhe revelar o local onde est escondido o maior tesouro da humanidade... Iremos juntos at o esconderijo e faremos a troca.  
     Bellamy desligou. Ningum atendia outra vez. 
     - O que eu no entendo  o seguinte - disse Langdon. - Mesmo que eu aceitasse que esse saber oculto existe e que esta pirmide de alguma forma indica seu paradeiro 
subterrneo... o que  que estou procurando? Um cofre? Um bunker? 
     Bellamy ficou calado por alguns instantes. Ento deu um suspiro relutante e falou com cautela.  
     - Robert, pelo que escutei ao longo dos anos, a pirmide conduz a uma escada em caracol. 
     - Uma escada?  
     - Isso mesmo. Uma escada que desce para dentro da terra... muitas centenas  de metros. 
     Langdon no conseguia acreditar no que estava escutando. Ele se inclinou, ficando mais perto de Bellamy.  
     - Ouvi dizer que o saber antigo est enterrado l embaixo.
     Robert Langdon se levantou e comeou a andar de um lado para outro. Uma escada em caracol que desce vrias centenas de metros para dentro da terra... em Washington, 
capital dos Estados Unidos. 
     - E ningum nunca viu essa escada?  
     - Supostamente a entrada foi coberta por uma imensa pedra.
     Langdon deu um suspiro. A idia de um tmulo coberto por uma imensa pedra vinha diretamente dos relatos bblicos sobre o tmulo de Jesus. Esse hbrido arquetpico 
era o av de todos os outros. 
     - Warren, voc acredita que essa mstica escada secreta que vai para dentro  da terra existe? 
     - Nunca a vi com meus prprios olhos, mas alguns dos maons mais velhos juram que ela existe. Eu estava tentando ligar para um deles agora mesmo.  
     Langdon seguiu andando de um lado para outro, sem saber mais o que dizer. 
     - Robert, voc me deixa numa posio complicada em relao a esta pirmide. - O olhar de Warren Bellamy se endureceu sob o brilho suave da luminria. - Eu no 
conheo nenhum jeito de forar um homem a acreditar no que ele no quer. Mas espero que voc entenda seu dever para com Peter Solomon.  
     Sim, eu tenho o dever de ajud-lo, pensou Langdon. 
     - No preciso que voc acredite no poder que esta pirmide pode revelar.  Nem mesmo na escada  qual ela supostamente conduz. Mas eu preciso que voc acredite 
que est moralmente obrigado a proteger esse segredo... seja ele  qual for. - Bellamy gesticulou na direo do pequeno embrulho em forma de cubo. - Peter lhe confiou 
o cume porque estava seguro de que voc obedeceria a seu desejo e guardaria segredo. E agora  exatamente isso que voc precisa fazer, mesmo que signifique sacrificar 
a vida de Peter. 
     Langdon parou onde estava e girou o corpo. 
     - O qu?  
     Bellamy continuou sentado, com uma expresso angustiada porm decidida. -  isso que ele iria querer. Voc precisa esquecer Peter. Ele se foi. Peter cumpriu 
o dever dele e fez o melhor que pde para proteger a pirmide. Agora  nosso dever garantir que os esforos dele no tenham sido em vo. 
     - No acredito que esteja dizendo isso! - exclamou Langdon, possesso.  - Mesmo que esta pirmide seja tudo o que voc afirma que , Peter  seu irmo  maom. 
Voc jurou proteg-lo acima de todas as coisas, at mesmo do seu pas! 
     - No, Robert. Um maom deve proteger seus irmos acima de todas as coisas... exceto uma: o grande segredo que nossa irmandade est guardando para toda a humanidade. 
Quer eu acredite ou no que esse saber perdido tem o potencial que a histria sugere, jurei mant-lo longe das mos de quem no o merece. E no o entregaria a ningum... 
nem em troca da vida de Peter Solomon. 
     - Eu conheo vrios maons - falou Langdon com raiva -, incluindo os de grau mais avanado, e tenho certeza absoluta de que esses homens no juraram sacrificar 
a vida em nome de uma pirmide de pedra. Tambm tenho certeza absoluta de que nenhum deles acredita em uma escada secreta que desce at um tesouro enterrado no fundo 
da terra.  
     - H crculos dentro de crculos, Robert. Nem todo mundo sabe tudo. 
     Langdon soltou o ar com fora, tentando controlar as emoes. Assim como todo mundo, ele j havia escutado os boatos de crculos de elite no interior da Maonaria. 
O fato de aquilo ser ou no verdade parecia irrelevante diante daquela situao. 
     - Warren, se esta pirmide e este cume de fato revelam o mais importante segredo manico, ento por que Peter me envolveria nisso? Eu sequer perteno  irmandade... 
quanto mais a algum crculo interno! 
     - Eu sei, e desconfio que foi justamente por isso que Peter o escolheu como protetor. Esta pirmide j foi cobiada no passado, inclusive por pessoas que se 
infiltraram em nossa irmandade por motivos torpes. A deciso de Peter de guard-la fora da irmandade foi inteligente.  
     - Voc sabia que o cume estava comigo? - perguntou Langdon. 
     - No. E, se Peter contou a algum, s pode ter sido a um homem. - Bellamy sacou o celular e apertou a tecla de rediscagem. - E eu at agora no consegui falar 
com ele. - A ligao caiu em uma caixa postal e ele desligou. - Bem, Robert, parece que voc e eu estamos sozinhos por enquanto. E temos uma deciso a tomar.  
     Langdon olhou para seu relgio do Mickey Mouse: 21h42.  
     - Voc entende que o seqestrador de Peter espera que eu decifre esta pirmide ainda hoje e lhe diga o que est inscrito nela?  
     Bellamy ficou srio.  
     - Ao longo da histria, grandes homens j fizeram enormes sacrifcios pessoais para proteger os Antigos Mistrios. Voc e eu devemos fazer o mesmo. - Ele ento 
se levantou. - Temos que ir andando. Mais cedo ou mais tarde, Sato vai descobrir onde estamos.  
     - E Katherine? - perguntou Langdon, sem querer sair dali. - No estou conseguindo falar com ela, e ela no ligou de volta. 
     -  bvio que alguma coisa aconteceu.  
     - Mas no podemos simplesmente abandon-la!  
     - Esquea Katherine! - disse Bellamy, sua voz assumindo um tom de comando. - Esquea Peter! Esquea todo mundo! Voc no entende, Robert, que a tarefa que lhe 
foi confiada  maior do que ns todos... voc, Peter, Katherine, eu mesmo? - Ele encarou Langdon. - Ns temos que achar um lugar seguro para esconder esta pirmide 
e este cume longe de...  
     Um forte estrondo metlico ecoou do grande saguo. 
     Bellamy girou o corpo, seus olhos se enchendo de medo. 
     - Foi bem rpido.  
     Langdon se virou na direo da porta. O barulho parecia ter vindo do balde de metal que Bellamy posicionara sobre a escada que bloqueava as portas do tnel. 
Eles esto vindo atrs da gente.  
     Ento, para surpresa geral, o mesmo barulho se repetiu. 
     Outra vez.  
     E mais outra.  
     
     O morador de rua sentado no banco em frente  Biblioteca do Congresso esfregou os olhos e ficou olhando a estranha cena que se desenrolava  sua frente.  
     Um Volvo branco havia acabado de subir o meio-fio, avanar pela calada deserta e parar com os pneus cantando em frente  entrada principal da biblioteca. Ento, 
uma bela mulher de cabelos escuros saltou do carro, olhou ansiosamente em volta e, ao v-lo, gritou:  
     - O senhor tem um telefone?  
     Dona, eu no tenho nem um sapato furado.    
     Aparentemente se dando conta disso, a mulher subiu correndo a escada em direo s portas de entrada da biblioteca. Ao chegar l em cima, agarrou a maaneta 
e tentou abrir desesperada cada uma das trs portas gigantescas. 
     A biblioteca est fechada, dona.  
     Mas a mulher no pareceu ligar. Agarrou uma das pesadas maanetas em forma de anel, puxou-a para trs e a deixou cair com um forte estrondo contra a porta. 
Depois fez isso de novo. E outra vez. E mais outra.  
     Nossa, pensou o homem, ela deve estar mesmo louca por um livro.  
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  56
     
     Quando Katherine Solomon finalmente viu as imensas portas de bronze da biblioteca se abrirem diante dela, foi como se uma represa de sentimentos houvesse estourado. 
Todo o medo e toda a perplexidade que ela havia contido naquela noite romperam as comportas.  
     A figura que apareceu na soleira da porta era Warren Bellamy, amigo e confidente de seu irmo. Mas foi o homem atrs dele, nas sombras, que Katherine ficou 
mais feliz em ver. O sentimento pareceu mtuo. Os olhos de Robert Langdon se encheram de alvio quando ela atravessou correndo o limiar... direto para seus braos. 
     Enquanto Katherine se entregava ao abrao reconfortante de um velho amigo, Bellamy fechou a porta da frente. Ela ouviu o trinco pesado se encaixar com um clique 
e finalmente se sentiu segura. As lgrimas vieram sem avisar, mas ela conseguiu reprimi-las. 
Langdon continuou a abra-la.  
     - Est tudo bem - sussurrou ele. - Voc est bem.  
     Porque voc me salvou, Katherine quis lhe dizer. Ele destruiu meu laboratrio, todo o meu trabalho. Anos de pesquisa... tudo virou fumaa. Ela queria lhe contar 
tudo, mas mal conseguia respirar.  
     - Ns vamos encontrar Peter. - A voz grave de Langdon ressoou contra o peito dela, trazendo-lhe um pouco de consolo. - Eu juro.  
     Eu sei quem fez isso!, queria gritar Katherine. Foi o mesmo homem que matou minha me e meu sobrinho! Antes de ela conseguir se explicar, porm, um som inesperado 
rompeu o silncio da biblioteca.   
     O forte estrondo ecoou de algum lugar abaixo deles, na escadaria de um saguo - como se um grande objeto metlico houvesse acabado de cair sobre um piso de 
ladrilhos. Katherine sentiu os msculos de Langdon se contrarem na mesma hora.  
     Bellamy deu um passo  frente, com uma expresso de desespero no rosto. 
     - Temos que ir embora. Agora.  
     Atarantada, Katherine seguiu o Arquiteto e Langdon enquanto eles cruzavam o grande saguo s pressas, em direo  clebre sala de leitura da biblioteca, que 
estava toda iluminada. Bellamy trancou rapidamente os dois conjuntos de portas atrs deles, primeiro as externas, depois as internas. 
     Katherine continuou a acompanh-los atordoada, enquanto Bellamy os conduzia rumo ao centro da sala. Os trs chegaram a uma mesa de leitura na qual havia uma 
bolsa de couro sob uma luminria. Ao lado da bolsa estava um pequeno embrulho em forma de cubo que Bellamy recolheu e guardou junto com...  
     Katherine estacou. Uma pirmide?  
     Embora nunca tivesse visto aquela pirmide de pedra gravada, a compreenso do que aquilo significava fez seu corpo inteiro se enrijecer. De alguma forma, suas 
entranhas conheciam a verdade. Katherine Solomon acabara de se deparar com o objeto que tanto prejudicara sua vida. A pirmide.  
     Bellamy fechou o zper da bolsa e entregou-a para Langdon. 
     - No perca isso de vista.  
     Uma exploso repentina sacudiu as portas externas da sala. O tilintar de vidro estilhaado veio em seguida.  
     - Por aqui! - Bellamy deu um giro, parecendo assustado enquanto os fazia correr at o balco central de emprstimo: oito bancadas em volta de um imenso armrio 
octogonal. Ele os conduziu para trs das bancadas, apontando em seguida para uma abertura no armrio. - Entrem a dentro!  
     - A dentro? - indagou Langdon. - Eles vo nos encontrar com certeza!  
     - Confiem em mim - disse Bellamy. - No  o que esto pensando.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  57
     
     Mal'akh acelerava sua limusine na direo norte, rumo a Kalorama Heights. A exploso no laboratrio de Katherine fora bem maior do que ele esperava, e Mal'akh 
tivera sorte de escapar ileso. Mas o caos resultante viera a calhar, permitindo que ele deixasse o complexo sem ser interceptado pelo vigia distrado, que estava 
ocupado em gritar ao telefone.  
     Preciso sair da estrada, pensou. Se Katherine ainda no tivesse ligado para a emergncia, a exploso com certeza chamaria a ateno da polcia.  
     E seria difcil no reparar em um homem sem camisa dirigindo uma limusine. 
     Aps anos de preparao, Mal'akh mal podia acreditar que aquela noite havia chegado. A jornada at ali tinha sido longa, difcil. O que comeou anos atrs na 
tristeza... terminar hoje  noite em glria.  
     Na noite em que tudo comeou, ele no se chamava Mal'akh. Na verdade, na noite em que tudo comeou, ele no tinha nome nenhum. Detento 37. Como a maioria dos 
prisioneiros de Soganlik, nos arredores de Istambul, o Detento 37 fora parar ali por causa das drogas.  Estava deitado em seu catre dentro da cela de cimento, no 
escuro, faminto e com sede, perguntando-se quanto tempo ficaria preso. Seu novo companheiro de cela, que ele conhecera apenas 24 horas antes, dormia no catre logo 
acima. O diretor da priso, um alcolatra obeso que detestava o emprego e descontava nos detentos, havia acabado de apagar as luzes.  
     Eram quase 10 da noite quando o Detento 37 escutou uma conversa ecoando do duto de ventilao. A primeira voz era inconfundivelmente ntida - o sotaque penetrante 
e hostil do diretor da priso, que obviamente no gostava de ser acordado por um visitante tardio.  
     - Sim, sim, o senhor veio de longe - dizia ele -, mas no permitimos visitas  durante o primeiro ms. Regulamento estatal. Sem excees.  
     A voz que respondeu era suave e refinada, cheia de agonia. 
     - Meu filho est bem?  
     - Seu filho  um viciado.  
     - Ele est sendo bem tratado? 
     - Bem o bastante - respondeu o diretor. - Isto aqui no  um hotel.  
     Fez-se um silncio atormentado.  
     - O senhor sabe que o Departamento de Estado dos Estados Unidos vai requisitar uma extradio?  
     - Sim, sim, eles sempre fazem isso. Ela ser concedida, embora talvez a papelada leve algumas semanas... ou at um ms... tudo depende.  
     - Depende de qu?  
     - Bem - disse o diretor -, ns aqui estamos com falta de pessoal. - Ele fez  uma pausa. -  claro que s vezes a pessoa interessada, como  o caso do senhor, 
faz doaes aos funcionrios da priso para ajudar a acelerar um pouco as coisas. 
     O visitante no respondeu.   
     - Sr. Solomon - prosseguiu o diretor, abaixando a voz -, para um homem como o senhor, para quem o dinheiro no  nada, sempre existem alternativas. Eu conheo 
pessoas no governo. Se o senhor e eu trabalharmos juntos, podemos conseguir tirar seu filho daqui... amanh, com todas as acusaes retiradas. Ele nem sequer teria 
de responder a um processo nos Estados Unidos.  
     A reao de Peter Solomon foi imediata.  
     - Sem falar nas implicaes jurdicas da sua sugesto, eu me recuso a ensinar ao meu filho que o dinheiro resolve todos os problemas, ou que na vida no  preciso 
assumir a responsabilidade pelos nossos atos, sobretudo em uma questo sria como essa.  
     - O senhor quer deixar seu filho aqui?  
     - Eu gostaria de falar com ele. Agora.  
     - Como eu disse, ns temos regras. No  possvel ver seu filho agora... a menos  que o senhor queira negociar a libertao imediata dele.  
     Um silncio frio pairou no ar por vrios minutos.  
     - O Departamento de Estado entrar em contato com o senhor. Cuide bem de Zachary. Espero que ele esteja dentro de um avio para casa ainda esta semana. Boa 
noite.  
     A porta bateu.  
     O Detento 37 no conseguiu acreditar nos prprios ouvidos. Que espcie de pai deixa o filho neste buraco para lhe ensinar uma lio? Peter Solomon chegara ao 
cmulo de recusar uma proposta de limpar a ficha de Zachary.  
     Mais tarde naquela mesma noite, deitado em seu catre sem conseguir dormir, o Detento 37 percebeu como iria se libertar. Se o dinheiro era a nica coisa que 
separava um prisioneiro da liberdade, ento ele j estava praticamente livre. Peter Solomon talvez no estivesse disposto a pr a mo no bolso, mas qualquer um que 
lesse os tablides sabia que seu filho, Zachary, tambm tinha muito dinheiro. No dia seguinte, o Detento 37 teve uma conversa particular com o diretor e sugeriu 
um plano - um estratagema ousado e engenhoso que lhes daria exatamente o que eles queriam.  
     - Zachary Solomon teria que morrer para isso funcionar - explicou o Detento 37. - Mas ns dois poderamos sumir na mesma hora. O senhor poderia se refugiar 
nas ilhas gregas. Jamais tornaria a ver este lugar.  
     Depois da conversa, os dois homens trocaram um aperto de mos. 
     Logo Zachary Solomon estar morto, pensou o Detento 37, sorrindo ao imaginar como seria fcil.  
     Dois dias depois, o Departamento de Estado entrou em contato com a famlia Solomon para dar a trgica notcia. As fotografias da priso mostravam o corpo brutalmente 
espancado do rapaz no cho da cela, encolhido e sem vida. A cabea tinha sido golpeada com uma barra de ferro, e o resto do corpo estava deformado para alm da imaginao 
humana. Ele parecia ter sido torturado antes de ser morto. O principal suspeito era o prprio diretor da priso, que havia desaparecido, provavelmente levando todo 
o dinheiro do rapaz assassinado. Zachary havia assinado documentos que transferiam sua vasta fortuna para uma conta particular. Todo o dinheiro fora retirado imediatamente 
aps sua morte, sendo impossvel descobrir seu destino.  
     Peter Solomon pegou um jatinho particular para a Turquia e voltou com o caixo do filho, que foi enterrado no cemitrio da famlia. O diretor da priso nunca 
foi encontrado. Nem nunca seria, como o Detento 37 sabia. O corpo rolio do turco descansava agora no fundo do mar de Mrmara, alimentando os siris azuis que migravam 
pelo estreito de Bsforo. A fortuna de Zachary Solomon tinha sido transferida integralmente para uma conta numerada impossvel de rastrear. O Detento 37 era novamente 
um homem livre - livre e dono de uma imensa fortuna.  
     As ilhas gregas pareciam o paraso. Sua luz. Seu mar. Suas mulheres.  
     No havia nada que o dinheiro no pudesse comprar - identidades novas, passaportes novos, esperanas novas. Ele escolheu um nome grego - Andros Dareios -, pois 
Andros significava "homem" e Dareios, "rico". As noites escuras na priso o haviam deixado com medo, e Andros jurou para si mesmo que nunca mais seria preso. Raspou 
os cabelos revoltos e abandonou para sempre o mundo das drogas. Recomeou a vida do zero - explorando prazeres nunca antes imaginados. A serenidade de velejar sozinho 
no azul-escuro do Egeu substituiu o barato de herona; a volpia de abocanhar pedaos suculentos de arni souvlakia direto do espeto tornou-se seu novo ecstasy; e 
a emoo de saltar das encostas escarpadas para o mar cheio de espuma de Mykonos virou sua cocana. 
Eu nasci de novo.  
     Andros comprou uma ampla villa na ilha de Syros e se instalou entre a bella gente na exclusiva cidade de Possidonia. Esse novo mundo girava em torno no "penas 
da riqueza, mas tambm da cultura e da perfeio fsica. Seus vizinhos tinham muito orgulho de seus corpos e mentes, e isso era contagioso. O recm-chegado comeou 
a correr na praia, a bronzear o corpo plido e a mergulhar na leitura. Andros leu a Odisseia, de Homero, e ficou fascinado pelas imagens de fortes homens de bronze 
travando batalhas naquelas ilhas. No dia seguinte, comeou a fazer musculao. Ficou maravilhado ao ver como seu peito e seus braos logo aumentaram de volume. Aos 
poucos, passou a sentir os olhares das mulheres observando-o, e a admirao delas era embriagante. Ele ansiava por   ficar ainda mais forte. E ficou. Com a ajuda 
de ciclos de anabolizantes agressivos, misturados a hormnios de crescimento contrabandeados e interminveis horas de malhao, Andros se transformou em algo que 
jamais imaginara vir a ser: um espcime perfeito de homem. Sua estatura e sua musculatura aumentaram e ele desenvolveu peitorais fortes e pernas grossas, musculosas, 
que mantinha sempre bronzeadas.  
     Agora todo mundo estava olhando.  
     Como Andros tinha sido alertado, os potentes anabolizantes e hormnios, alm de modificar seu corpo, transformaram sua voz em um sussurro rouco que o fazia 
se sentir ainda mais misterioso. A voz suave e enigmtica, o fsico musculoso, o dinheiro e a recusa em falar sobre seu passado secreto eram uma combinao irresistvel 
para as mulheres que o conheciam. Elas se entregavam com facilidade, e ele as satisfazia. Ningum se fartava dele - das modelos de passagem pela ilha para fazer 
ensaios fotogrficos s universitrias norte-americanas virgens em frias, passando pelas esposas solitrias dos vizinhos e por um ou outro rapaz. Eu sou uma obra-prima. 
     No entanto, com o passar dos anos, as aventuras sexuais de Andros comearam a perder o encanto. Assim como todo o resto. A culinria da ilha deixou de ter o 
mesmo sabor, os livros j no prendiam seu interesse e at os estonteantes poentes vistos de sua villa pareciam sem graa. Como isso  possvel? Apesar de ter apenas 
20 e poucos anos, sentia-se velho. O que mais a vida tem a oferecer?  Ele havia esculpido o prprio corpo para transform-lo numa obra de arte; havia se instrudo 
e alimentado a mente com cultura; fizera do paraso seu lar e tinha o amor de qualquer pessoa que desejasse.  
     No entanto, por incrvel que parecesse, sentia-se to vazio quanto naquela priso turca.  
     O que est faltando para mim? 
     Vrios meses depois, ele teve a resposta. Andros estava sentado sozinho em sua villa, zapeando distraidamente os canais de TV no meio da noite, quando se deparou 
com um programa sobre os segredos da Francomaonaria. O programa era malfeito, continha mais perguntas do que respostas, mas mesmo assim ele ficou intrigado com 
a enorme quantidade de teorias da conspirao que cercavam a irmandade. O narrador ia descrevendo uma lenda depois da outra.  
     A Francomaonaria e a Nova Ordem Mundial... 
     O Grande Selo Manico dos Estados Unidos... 
     A Loja Manica P2...  
     O Segredo Perdido...  
     A Pirmide Manica... 
     Andros se sentou ereto, espantado. Pirmide. O narrador comeou a contar a histria de uma misteriosa pirmide de pedra gravada com inscries que prometiam 
conduzir a um saber perdido e a um poder incomensurvel. A histria, embora aparentemente inverossmil, despertou nele uma lembrana distante... a vaga recordao 
de uma poca bem mais obscura. Andros se lembrou do que Zachary Solomon tinha escutado do pai em relao a uma misteriosa pirmide. 
     Ser possvel? Andros se esforou para recordar os detalhes. 
     Quando o programa terminou, ele saiu para a varanda, deixando o ar frio clarear sua mente.  medida que as lembranas voltavam, Andros comeou a achar que talvez 
aquela lenda tivesse um fundo de verdade. E, nesse caso, Zachary Solomon - embora morto havia tempos - ainda tinha algo a oferecer.  
     O que eu tenho a perder?  
     Trs semanas mais tarde, depois de planejar cuidadosamente cada etapa, Andros estava parado sob o frio intenso diante do jardim de inverno da propriedade dos 
Solomon em Potomac. Atravs do vidro, podia ver Peter Solomon conversando e rindo com a irm, Katherine. Parece que eles no tiveram problema nenhum para esquecer 
Zachary, pensou.  
     Antes de enfiar o gorro de esqui na cabea, Andros cheirou uma carreira de cocana, a primeira em muito tempo. Sentiu a conhecida onda de destemor. Sacou uma 
arma, usou uma velha chave para destrancar a porta e entrou no recinto.  
     - Ol, famlia Solomon.  
     Infelizmente, a noite no correu como Andros esperava. Em vez de conseguir a pirmide que tinha ido buscar, ele foi alvejado com tiros de chumbinho e teve que 
fugir pelo gramado coberto de neve em direo  mata densa. Para sua surpresa, Peter Solomon saiu em seu encalo com uma pistola reluzindo na mo. Andros correu 
para o meio da mata e desceu uma trilha que margeava um desfiladeiro. L embaixo, o barulho de uma cascata subia ecoando pelo cortante ar de inverno. Ele passou 
por um bosque e fez uma curva para a esquerda, derrapando ao frear na trilha congelada e escapando da morte por um triz.  
     Meu Deus!  
     Poucos metros adiante, a trilha acabava, mergulhando direto num rio congelado bem l embaixo. A grande rocha ao lado da trilha tinha sido gravada pela mo inexperiente 
de uma criana: 
     
     
     
     Do outro lado da ribanceira, a trilha continuava. Mas onde est a ponte? A cocana no estava mais fazendo efeito. Estou encurralado! Em pnico, Andros se virou 
para voltar pela mesma trilha, mas deu de cara com Peter Solomon em p  sua frente, ofegante, com a pistola na mo.  
     Andros olhou para a arma e recuou um passo. A queda atrs dele tinha pelo menos 15 metros at um rio de superfcie congelada. A bruma da cascata se erguia  
sua volta, gelando-o at os ossos.  
     - A ponte do Zach apodreceu h muito tempo - disse Solomon, sem flego.  - Ele era o nico a vir to longe. - Solomon segurava a arma com a mo espantosamente 
firme. - Por que voc matou meu filho?  
     - E1e no era nada - retrucou Andros. - No passava de um viciado. Eu fiz  um favor a ele.  
     Solomon chegou mais perto, a arma apontada para o peito de Andros.  
     - Talvez eu devesse retribuir o favor. - Seu tom era surpreendentemente cruel,  - Voc espancou meu filho at a morte. Como  que algum faz uma coisa dessas 
     - As pessoas fazem coisas inimaginveis quando levadas ao limite.  
     - Voc matou meu filho!  
     - No - retrucou Andros, assumindo um tom exaltado. - Quem matou se  filho foi voc. Que tipo de pai deixa o filho na priso quando tem a possibilidade de tir-lo 
de l? Voc matou seu filho! No eu.  
     - Voc no sabe de nada! - berrou Solomon com a voz cheia de dor.  
     Voc est errado, pensou Andros. Eu sei de tudo.  
     Peter Solomon chegou mais perto, parando a menos de cinco metros de distncia. O peito de Andros ardia e ele podia sentir que estava sangrando muito. Um lquido 
quente escorria por sua barriga. Ele olhou por cima do ombro para  a ribanceira. Impossvel. Tornou a se virar para Solomon.  
     - Eu sei mais a seu respeito do que voc pensa - sussurrou ele. - Sei que no   o tipo de homem que mata a sangue-frio. 
     Solomon deu um passo  frente, mirando bem.  
     - Estou lhe avisando - disse Andros. - Se voc apertar esse gatilho, vou  assombr-lo para sempre.  
     - Voc j vai me assombrar. - E, com essas palavras, Solomon atirou.  
     
     Enquanto disparava ao volante da limusine preta rumo a Kalorama Heights, aquele que agora se chamava Mal'akh refletia sobre os milagrosos acontecimentos que 
o haviam livrado da morte certa no alto da ribanceira gelada. Ele havia sido transformado para sempre. O tiro s ecoara por um instante, mas  seus efeitos haviam 
reverberado por quase uma dcada. Seu corpo, outrora bronzeado e perfeito, ficara marcado pelas cicatrizes daquela noite... que ele escondia sob os smbolos tatuados 
da sua nova identidade.  
     Eu sou Mal'akh.  
     Esse sempre foi o meu destino.  
     Ele atravessara o fogo, fora reduzido a p e depois ressurgira... novamente transformado. Esta noite seria a ltima etapa de sua longa e magnfica jornada. 
     
     
     CAPTULO  58
      
     O explosivo Key4, apesar do apelido modesto, havia sido desenvolvido pelas Foras Especiais para arrombar portas causando danos colaterais mnimos. Basicamente 
uma mistura de ciclotrimetilenotrinitramina com aditivos plastificantes, era na verdade um pedao de explosivo C-4 enrolado em lminas finssimas para ser inserido 
em batentes de portas. No caso da sala de leitura da biblioteca, ele havia funcionado  perfeio.  
     O agente Turner Simkins, lder daquela operao, passou por cima dos escombros das portas e correu os olhos pela enorme sala octogonal em busca de qualquer 
sinal de movimento. Nada.  
     - Apaguem as luzes - disse ele.  
     Um segundo agente encontrou o interruptor e desligou as luzes, mergulhando a sala na escurido. Em perfeita sincronia, os quatro homens ergueram as mos e abaixaram 
o equipamento de viso noturna, ajustando os culos por cima dos olhos. Ento ficaram parados, vasculhando a sala de leitura que agora se materializava em sombras 
verdes fosforescentes.  
     A cena parecia congelada.  
     Nada mudou. Ningum saiu correndo no escuro.  
     Os fugitivos provavelmente estavam desarmados, mas mesmo assim a equipe entrou na sala de armas em punho. Naquele breu, elas emitiam quatro ameaadores feixes 
de raios laser. Os homens projetaram os feixes em todas as direes, pelo cho, pelas paredes do fundo, para dentro das galerias, vasculhando a escurido. Muitas 
vezes, a simples viso de uma arma com mira a laser bastava para provocar uma rendio imediata. 
     Aparentemente, no esta noite. 
     Ainda no houvera nenhum movimento.  
     O agente Simkins levantou a mo, gesticulando para sua equipe entrar no recinto. Em silncio, os homens se espalharam. Avanando com cautela pelo corredor central, 
Simkins acionou um boto nos culos, ativando a mais recente inovao do arsenal da CIA. Os geradores de imagens trmicas existiam havia muitos anos, mas avanos 
recentes em miniaturizao, sensibilidade diferencial e integrao de duas fontes haviam possibilitado uma nova gerao de equipamentos de otimizao visual que 
dava aos agentes uma viso quase sobre-humana.  
     Ns podemos ver no escuro. Podemos ver atravs das paredes. E agora... podemos ver o passado.  
     Os equipamentos geradores de imagens trmicas haviam se tornado to sensveis s diferenas de temperatura que eram capazes de detectar no apenas a localizao 
de uma pessoa... mas tambm onde ela esteve antes. A capacidade de ver o passado muitas vezes se revelava a maior vantagem de todas. E, naquela noite, mais uma vez, 
ela provava seu valor. O agente Simkins viu uma assinatura trmica em uma das mesas de leitura. As duas cadeiras de madeira surgira fosforescentes em seus culos, 
num tom roxo-avermelhado, o que indicava que elas estavam mais quentes do que as outras cadeiras da sala. A lmpada da luminria sobre a mesa brilhava em cor laranja. 
Era bvio que os dois homens tinham se sentado ali, mas a pergunta agora era em que direo tinham fugido.  
     Ele encontrou a resposta no balco central que rodeava o grande armrio de madeira no centro da sala. A fantasmagrica impresso de uma palma de mo, reluzia 
em vermelho-vivo.  
     De arma em punho, Simkins avanou em direo ao mvel octogonal, correndo o laser pela superfcie. Deu a volta at ver uma abertura na lateral do armrio No 
acredito que eles tenham se metido neste beco sem sada! O agente verificou o friso ao redor da abertura e viu ali outra marca brilhante de mo. Obviamente, pessoa 
havia segurado o batente da porta ao se enfiar dentro do armrio.  
     A hora de ficar em silncio havia terminado.  
     - Assinatura trmica! - gritou Simkins, apontando para a abertura.  - Flancos, convergir!  
     Seus dois flancos avanaram de direes opostas, cercando com eficcia o armrio octogonal.  
     Simkins avanou na direo da abertura. Embora ainda estivesse a trs metros, j podia ver uma fonte de luz l dentro.  
     - H uma luz acesa no armrio! - gritou, torcendo para que o som da sua voz convencesse o Sr. Bellamy e o Sr. Langdon a sarem l de dentro com as mos para 
cima.   
     Nada aconteceu.  
     Beleza, a gente faz do outro jeito.  
      medida que se aproximava da abertura, Simkins pde ouvir um zumbido inesperado emanando l de dentro. Parecia um som de mquina. Ele se deteve, tentando imaginar 
o que poderia estar fazendo aquele barulho dentro de um espao to pequeno. Aproximou-se devagar, passando a ouvir vozes misturadas ao rudo mecnico. Ento, no 
instante em que ele alcanou a abertura, as luzes l dentro se apagaram.
     Obrigado, pensou, ajustando os culos de viso noturna. Vantagem nossa. 
     Parado junto ao limiar, ele espiou pela abertura. Ficou surpreso com o que viu l dentro. Aquilo no era bem um armrio, mas sim a entrada para um ngreme lance 
de escada que levava a um aposento logo abaixo. Mirando a arma para a saleta, o agente comeou a descer os degraus. O zumbido ficava mais forte a cada passo.  
     Que raio de lugar  este?  
     O recinto abaixo da sala de leitura era um pequeno espao de aspecto industrial. O rudo que o agente ouvia vinha de fato de uma mquina, embora ele no soubesse 
precisar se ela estava ligada porque Bellamy e Langdon a haviam acionado ou porque funcionava em tempo integral. De toda forma, aquilo obviamente no tinha importncia. 
Os fugitivos tinham deixado suas reveladoras assinaturas trmicas na nica sada dali: uma pesada porta de ao cujo teclado de acesso exibia quatro impresses digitais 
bem ntidas reluzindo sobre os nmeros. Nesgas brilhantes de cor laranja irradiavam sob o batente da porta, indicando que as luzes do outro lado estavam acesas. 
     - Explodam esta porta - ordenou Simkins. - Eles fugiram por aqui.  
     Os agentes de campo s precisaram de oito segundos para inserir e detonar uma lmina de Key4. Quando a fumaa se dissipou, eles se viram diante de um  estranho 
mundo subterrneo conhecido como "as estantes".  
     A Biblioteca do Congresso tinha quilmetros e mais quilmetros de estantes, a maioria delas subterrneas. As interminveis filas de prateleiras pareciam algum 
tipo de iluso de tica "infinita" criada com espelhos.  
     Simkins empurrou as portas destrudas e sentiu um ar frio do outro lado.  No pde reprimir um sorriso ao ler a placa: 
     
     AMBIENTE DE TEMPERATURA CONTROLADA
     Mantenha esta porta fechada.
     
     Mais fcil que isso, impossvel. Em ambientes de temperatura controlada, as assinaturas trmicas brilhavam feito bolas de fogo, e seus culos j revelavam um 
borro vermelho reluzente em um corrimo mais  frente que Bellamy ou Langdon haviam segurado ao passar correndo.  
     - Vocs podem correr - sussurrou para si mesmo -, mas no podem se esconder.  
      medida que Simkins e sua equipe entravam no labirinto de estantes, ele percebeu que o jogo estava to desequilibrado a seu favor que nem precisaria dos culos 
para encontrar sua presa. Em circunstncias normais, aquele mundo de estantes teria sido um esconderijo de respeito, mas a Biblioteca do Congresso usava lmpadas 
com sensores de movimento para poupar energia, de modo que a rota de sada dos fugitivos agora estava acesa feito uma pista de aterrissagem. Uma estreita faixa iluminada 
se estendia a perder de vista, curvando-se e serpenteando adiante.  
     Todos os homens arrancaram os culos. Bem treinados, os agentes de campo seguiram a trilha de luz, ziguezagueando por um labirinto de livros aparentemente interminvel. 
Logo Simkins comeou a ver luzes se acendendo na escurido  frente. Estamos chegando perto. Ele apertou o passo, acelerando at ouvir o som de passadas e uma respirao 
ofegante mais alm. Foi ento que viu um alvo.  
     - Contato visual! - berrou.  
     A forma esguia de Warren Bellamy parecia estar na retaguarda. Vestido de forma impecvel, ele cambaleava por entre as estantes, evidentemente sem flego. No 
adianta, velhote.  
     - Parado a, Sr. Bellamy! - gritou Simkins.  
     Bellamy continuou a correr, fazendo curvas fechadas, serpenteando por entre as fileiras de livros. Cada vez que mudava de direo, tentando despist-los, as 
luzes se acendiam acima de sua cabea.  
     Quando estava a menos de 20 metros de distncia, Simkins gritou novamente para Bellamy parar, mas ele seguiu correndo.  
     - Derrubem-no! - ordenou.  
     O agente que portava a arma no letal da equipe ergueu-a e disparou. O projtil que zuniu pelo corredor e envolveu as pernas de Bellamy tinha o inocente apelido 
de Silly String, pois se assemelhava aos sprays de serpentina, s que de inocente no tinha nada. Tecnologia militar desenvolvida no Laboratrio Nacional Sandia, 
aquele "incapacitante" no letal era um fio de poliuretano pegajoso que se tornava duro como pedra ao entrar em contato com outro objeto, criando uma teia de plstico 
rgida na parte de trs dos joelhos dos fugitivos. O efeito sobre um alvo que estivesse correndo era o mesmo que enfiar um  pedao de pau entre os raios da roda 
de uma bicicleta. As pernas de Bellamy se imobilizaram no meio de um passo e ele caiu para a frente, desabando no cho. Ainda deslizou mais trs metros pelo corredor 
escuro antes de parar, fazendo com que as luzes acima se acendessem sem cerimnia.  
     - Eu cuido de Bellamy - gritou Simkins. - Vocs continuam atrs de Langdon!  Ele deve estar mais adiante... - O lder da equipe se calou, percebendo que as 
estantes diante de Bellamy estavam todas mergulhadas em um breu total. Era bvio que no havia mais ningum correndo na frente dele. Ele est sozinho?  
     Bellamy continuava deitado de bruos, respirando pesado, com as pernas e os tornozelos imobilizados pelo plstico duro. O agente chegou perto dele e usou o 
p para vir-lo de barriga para cima.  
     - Onde ele est?! - perguntou o agente.  
     A boca de Bellamy sangrava por causa da queda. 
     - Onde est quem?  
     O agente Simkins levantou o p e pisou com a bota bem em cima da imaculada gravata de seda de Bellamy. Ento inclinou o corpo para baixo, fazendo um pouco de 
presso.  
     - Pode acreditar em mim, Sr. Bellamy, o senhor no vai querer fazer esse  joguinho comigo.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  59
     
     Robert Langdon se sentia um cadver.  
     Estava deitado de barriga para cima, mos dobradas sobre o peito, em meio  escurido total, confinado num espao incrivelmente apertado. Embora Katherine estivesse 
deitada numa posio parecida, perto da sua cabea, Langdon no conseguia enxerg-la. Tinha fechado os olhos para no ter o menor vislumbre da assustadora situao 
em que se encontrava.  
     O espao  sua volta era pequeno. 
     Muito pequeno.  
     Sessenta segundos antes, quando as portas duplas da sala de leitura tinham desabado, ele e Katherine haviam seguido Bellamy at o armrio octogonal, descido 
um lance de escada e entrado no inesperado recinto mais abaixo.  
     Langdon entendera imediatamente onde estavam. No corao do sistema de  distribuio da biblioteca. Parecida com o setor de bagagens de um pequeno aeroporto, 
a sala de distribuio tinha vrias esteiras rolantes que seguiam em direes diferentes. Como a Biblioteca do Congresso ocupava trs prdios distintos, os livros 
solicitados na sala de leitura muitas vezes tinham de ser transportados por grandes distncias. Isso se dava por meio de um sistema de esteiras que percorria uma 
teia de tneis subterrneos. 
     Bellamy atravessou imediatamente o recinto at uma porta de ao na qual inseriu seu carto de acesso e apertou uma seqncia de botes, abrindo-a em seguida 
com um empurro. O espao do outro lado era escuro, mas, quando a porta se abriu, uma srie de luzes ativadas por sensores de movimento se acendeu. 
     Quando Langdon olhou para a sala  sua frente, percebeu que estava diante de algo que poucas pessoas j haviam visto. As estantes da Biblioteca do Congresso. 
O plano de Bellamy o encheu de confiana. Que lugar melhor para se esconder do que dentro de um labirinto gigante? 
     Mas Bellamy no os guiou para o meio das estantes. Em vez disso, escorou a porta com um livro e tornou a se virar de frente para eles.  
     - Eu esperava poder explicar muito mais coisas a vocs, mas no temos tempo. - Ele entregou a Langdon seu carto de acesso. - Vai precisar disto aqui. 
     - Voc no vem conosco? - perguntou Langdon.  
     Bellamy fez que no com a cabea. 
     - Vocs s vo conseguir se nos separarmos. O mais importante  manter a pirmide e o cume em segurana. 
     Langdon no via outra sada a no ser a escada que subia de volta para a sala de leitura.  
     - E para onde voc vai?  
     - Vou atra-los para as estantes, para longe de vocs - disse Bellamy. -  tudo  que posso fazer para ajud-los. 
     Antes de Langdon ter chance de perguntar por onde ele e Katherine deveriam fugir, Bellamy j estava tirando um grande caixote de livros de cima de uma das esteiras. 
     - Deitem na esteira - disse Bellamy. - No deixem as mos para fora. 
     Langdon ficou parado olhando. Voc no pode estar falando srio! A esteira seguia por uma curta distncia, depois desaparecia dentro de um buraco escuro na 
parede. A abertura parecia grande o suficiente para um caixote de livros, mas no muito mais do que isso. Langdon tornou a olhar para as estantes com uma expresso 
suplicante. 
     - Pode esquecer - disse Bellamy. - Vai ser impossvel se esconder ali com os sensores de movimento acendendo as luzes.   
     - Assinatura trmica! - gritou uma voz l em cima. - Flancos, convergir! 
     Katherine pareceu ter escutado a senha para entrar em ao. Subiu na esteira rolante, com a cabea a poucos metros da abertura na parede. Ento cruzou as mos 
por cima do peito como uma mmia dentro de um sarcfago.  
     Langdon continuou petrificado. 
     - Robert - instou Bellamy -, se voc no quiser fazer isso por mim, faa por Peter.  
     As vozes l em cima pareciam mais prximas. 
     Como em um sonho, Langdon se encaminhou para a esteira. Depositou ali a bolsa de viagem e em seguida subiu, deitando a cabea aos ps de Katherine. A esteira 
de borracha dura estava fria contra suas costas. Ele olhou fixamente para o teto e teve a sensao de estar no hospital, se preparando para entrar de cabea dentro 
de um aparelho de ressonncia magntica. 
     - Deixe o telefone ligado - Bellamy disse a Langdon. - Uma pessoa vai ligar em breve... e oferecer ajuda. Confie nela. 
     Uma pessoa vai ligar? Langdon sabia que Bellamy vinha tentando falar com algum sem conseguir e que mais cedo havia deixado um recado. E, pouco antes, enquanto 
desciam correndo a escada em caracol, ele tinha feito uma ltima tentativa e conseguido completar a ligao, sussurrando algumas palavras e depois desligando. 
     - Sigam a esteira at o final - disse Bellamy. - E pulem depressa antes que ela d a volta completa e retorne para c. Usem meu carto de acesso para sair. 
     - Mas onde ns vamos sair? - quis saber Langdon. 
     Bellamy, no entanto, j estava acionando as alavancas. Todas as esteiras da sala ganharam vida com um zumbido. Com um tranco, Langdon sentiu que estava entrando 
em movimento e o teto comeou a desfilar sobre sua cabea. 
     Que Deus me ajude. 
     Enquanto se aproximava da abertura na parede, Langdon viu Warren Bellamy atravessar correndo a porta que conduzia s estantes, fechando-a atrs de si. Segundos 
depois, o professor penetrou na escurido, engolido pela biblioteca... no exato momento em que um pontinho brilhante e vermelho de laser surgiu danando escada abaixo. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  60
     
     A agente de segurana da firma Preferred Security conferiu novamente na sua ordem de servio o endereo em Kalorama Heights.  isso mesmo? O porto  sua frente 
pertencia a uma das maiores e mais tranqilas casas do bairro, portanto parecia estranho a emergncia ter acabado de receber uma ligao urgente a seu respeito. 
     Como era de praxe sempre que recebia uma ligao no confirmada, a emergncia, antes de acionar a polcia, entrara em contato com a empresa responsvel pelo 
alarme da casa. A agente mal remunerada sempre achara que o lema da empresa - "Sua primeira linha de defesa" - poderia muito bem ser "Alarmes falsos, trotes, animais 
de estimao perdidos e queixas de vizinhos doidos". 
     Naquela noite, como de hbito, a agente tinha chegado ao local indicado sem ter qualquer informao mais precisa. Eu no ganho para isso. Seu trabalho consistia 
apenas em ir at l com a luz giratria amarela do carro acesa, avaliar o imvel e relatar qualquer coisa fora do normal. Na maioria dos casos, o alarme da casa 
havia sido disparado por algo inofensivo e ela s precisava usar o cdigo de segurana para reativ-lo. Aquela casa, porm, estava silenciosa. No havia alarme tocando. 
Da rua, tudo parecia escuro e tranqilo.  
     A agente tocou o interfone do porto, mas no obteve resposta. Digitou o cdigo de segurana para abri-lo e entrou com o carro. Deixando o motor ligado e a 
luz amarela girando, foi at a porta da frente e tocou a campainha. Ningum atendeu. Ela no viu nenhuma luz ou movimento. 
     Seguindo com relutncia o protocolo, ela acendeu a lanterna para comear a ronda pela casa e verificar portas e janelas em busca de algum sinal de arrombamento. 
Quando estava fazendo a curva para ir at os fundos, uma enorme limusine preta passou em frente  casa, diminuindo a velocidade por alguns segundos antes de prosseguir. 
Vizinhos enxeridos.  
     Ela contornou a propriedade devagar, mas no viu nada fora do comum. O imvel era maior do que havia imaginado e, quando chegou ao quintal dos fundos, estava 
tremendo de frio. Era bvio que no havia ningum em casa.  
     - Central? - chamou ela pelo rdio. - Estou atendendo ao chamado de Kalorama Heights. Os donos no esto em casa. No h sinal de problema. Terminei a verificao 
do permetro. Nenhum indcio de intrusos. Alarme falso. 
     - Entendido - respondeu o atendente. - Boa noite.  
     A agente tornou a prender o rdio no cinto e comeou a refazer o caminho,  ansiosa para voltar ao interior quentinho do carro. Ao faz-lo, porm, viu algo que 
tinha deixado passar antes: um pontinho de luz azulada nos fundos da casa.
     Intrigada, foi at l, e ento pde ver a origem da luz: uma pequena janela basculante que parecia dar para o poro. O vidro tinha sido escurecido, revestido 
por dentro com tinta fosca. Talvez algum tipo de laboratrio fotogrfico? O brilho azulado que a agente vira emanava de um buraquinho na janela onde a tinta preta 
havia comeado a descascar.  
     Ela se agachou, tentando espiar l dentro, mas no conseguiu ver muita coisa pela abertura diminuta. Bateu no vidro, imaginando se haveria algum trabalhando 
l embaixo.  
     - Ol? - gritou.  No houve resposta, mas, quando ela bateu no vidro, a lasca de tinta de repente se soltou e caiu, proporcionando-lhe uma viso mais completa. 
Ela chegou mais perto, praticamente colando o rosto ao vidro para vasculhar o poro. No mesmo instante, desejou no ter feito isso.  
     Meu Deus do cu, que diabo  isso?  
     Hipnotizada, ela permaneceu agachada ali, encarando com um horror abjeto a cena  sua frente. Por fim, tremendo, a agente tateou o cinto em busca do rdio. 
     No chegou a encontr-lo.  
     O par eletrizante de ganchos de uma arma de choque foi pressionado contra sua nuca, e uma dor lancinante varou-lhe o corpo. Seus msculos sofreram um espasmo 
e ela caiu para a frente, sem ao menos conseguir fechar os olhos antes de o rosto se estatelar no cho frio.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  61
     
     Aquela no era a primeira vez que Warren Bellamy era vendado. Assim como todos os seus irmos maons, ele havia usado a "venda" ritual durante a ascenso aos 
escales superiores da Maonaria. Mas aquilo tinha acontecido entre amigos. Ali era diferente. Aqueles homens truculentos o haviam amarrado, coberto sua cabea com 
um saco e agora o obrigavam a marchar entre as estantes de livros.  
     Os agentes haviam ameaado Bellamy fisicamente e exigido que ele revelasse o paradeiro de Robert Langdon. Sabendo que seu corpo envelhecido no suportaria muita 
punio, Bellamy contara logo sua mentira.  
     - Langdon no desceu at aqui comigo! - disse ele, arquejando para recuperar o flego. - Eu disse a ele para subir at a galeria e se esconder atrs da esttua 
de Moiss, mas no sei para onde ele foi!  
     Aparentemente, a histria os convenceu, pois dois dos agentes saram no encalo de Langdon. Os outros dois o conduziram por entre as estantes.  
     O nico consolo de Bellamy era saber que Langdon e Katherine estavam levando a pirmide para um lugar seguro. Em breve, Langdon receberia a ligao de um homem 
que podia lhes oferecer abrigo. Confie nele. O homem para quem Bellamy tinha telefonado sabia muito sobre a Pirmide Manica e o segredo nela contido - a localizao 
de uma escada em caracol oculta que conduzia para dentro da terra, at o esconderijo de um poderoso saber antigo havia muito enterrado. Bellamy finalmente conseguira 
entrar em contato com o homem enquanto eles fugiam da sala de leitura, e estava seguro de que seu curto recado seria perfeitamente compreendido.  
     Agora, enquanto avanava pela mais completa escurido, Bellamy pensava na pirmide de pedra e no cume de ouro dentro da bolsa de Langdon. Faz muitos anos desde 
que essas duas peas estiveram juntas no mesmo lugar. 
     O Arquiteto nunca esqueceria aquela dolorosa noite. A primeira de muitas para Peter. Bellamy tinha sido convidado  propriedade dos Solomon em Potomac para 
o 18. aniversrio de Zachary. Apesar de ser um adolescente rebelde, o rapaz era um Solomon, o que significava que, naquela noite, segundo a tradio familiar, iria 
receber sua herana. Bellamy era um dos melhores amigos de Peter e um irmo maom de confiana, motivo pelo qual fora convidado para servir de testemunha. Mas Bellamy 
no fora chamado para assistir apenas  transferncia do dinheiro. Havia muito mais em jogo ali.  
     Bellamy tinha chegado cedo e, conforme solicitado, ficara aguardando no escritrio particular de Peter. A maravilhosa sala antiga recendia a couro, lareira 
e ch de boa qualidade. Warren j estava sentado quando Peter entrou com  filho. Ao ver Bellamy, o rapaz magricelo de 18 anos fechou a cara. 
     - O que est fazendo aqui?  
     - Servindo de testemunha - respondeu Bellamy. - Parabns, Zachary.  
     O rapaz soltou um resmungo e olhou para o outro lado. 
     - Sente-se, Zach - disse Peter.  
     Zachary se sentou na nica cadeira diante da escrivaninha do pai. Solomon trancou a porta do escritrio. Bellamy ficou um pouco mais afastado.  
     Solomon se dirigiu ao filho em tom srio.   
     - Voc sabe por que est aqui?  
     - Acho que sim - respondeu Zachary.  
     Solomon deu um profundo suspiro.  
     - Sei que faz algum tempo que voc e eu no ficamos cara a cara, Zach. Eu fiz o que pude para ser um bom pai e preparar voc para este momento.  
     Zachary no disse nada.  
     - Como voc sabe, quando ficam adultos, todos os filhos da famlia Solomon recebem o que  seu por direito: uma parcela da nossa fortuna destinada a ser uma 
semente... uma semente para voc cuidar, fazer crescer e usar para ajudar a alimentar a humanidade.  
     Solomon andou at um cofre na parede, destrancou-o e tirou l de dentro uma grande pasta preta.  
     - Filho, esta pasta contm tudo de que voc precisa para transferir legalmente a sua herana para seu nome. - Ele ps a pasta sobre a escrivaninha.  O objetivo 
 que voc use esse dinheiro para construir uma vida de produtividade, prosperidade e filantropia.  
     Zachary estendeu a mo para a pasta. 
     - Valeu.  
     - Espere a - disse o pai, pondo a mo sobre a pasta. - Ainda preciso explicar mais uma coisa.  
     Zachary lanou um olhar insolente para o pai e tornou a afundar na cadeira. 
     - Existem aspectos da herana dos Solomon que voc ainda no conhece. - O pai passou a encarar o filho com intensidade. - Voc  meu primognito, Zachary, o 
que significa que tem direito a uma escolha.  
     O adolescente se empertigou, parecendo intrigado.  
     -  uma escolha que pode muito bem determinar a direo do seu futuro, ento recomendo que voc reflita com calma.
     - Que escolha  essa?  
     Seu pai respirou fundo.  
     - A escolha... entre riqueza e saber. 
     Zachary o encarou sem expresso.  
     Riqueza e saber? No estou entendendo.  
     Solomon se levantou e foi novamente at o cofre, de onde tirou uma pesada pirmide de pedra com smbolos manicos gravados. A seguir depositou-a sobre a escrivaninha, 
ao lado da pasta.  
     - Esta pirmide foi criada h muito tempo e confiada  nossa famlia por muitas geraes.  
     - Uma pirmide?  - Zachary no parecia muito animado.   
     - Filho, esta pirmide  um mapa... que revela a localizao de um dos maiores tesouros perdidos da humanidade. Esse mapa foi criado para que o tesouro um dia 
pudesse ser redescoberto. - A voz de Peter ento se encheu de orgulho: - E, hoje  noite, segundo a tradio, eu posso oferec-la a voc... sob algumas condies. 
     Zachary espiava a pirmide, desconfiado. 
     - Qual  o tesouro? 
     Bellamy pde ver que essa pergunta grosseira no era o que Peter esperava.  Mesmo assim, Solomon no se abalou. 
     - Zachary,  difcil explicar isso sem remontar  origem da histria. Mas esse tesouro, em essncia,  algo que ns chamamos de Antigos Mistrios.  
     Zachary soltou uma risada, aparentemente achando que o pai estava de brincadeira.  
     Bellamy pde ver a tristeza nos olhos de Peter aumentar. 
     -  muito difcil para mim descrever isso, Zach. Tradicionalmente, quando um Solomon completa 18 anos, est prestes a comear sua instruo superior em... 
     - Eu j disse! - disparou Zachary em resposta. - No estou interessado em fazer faculdade!  
     - Eu no estou falando de faculdade - disse o pai com a voz ainda calma baixa. - Estou falando da Francomaonaria. Estou falando de uma instruo nos mistrios 
eternos da cincia humana. Se voc tivesse planos de se juntar mim nessa irmandade, estaria prestes a receber o conhecimento necessrio para compreender a importncia 
da deciso que deve tomar hoje.  
     Zachary revirou os olhos. 
     - Me poupe de mais esse sermo manico. Eu sei que sou o primeiro Solomon a no querer entrar para a irmandade. Mas e da? Ser que voc no entende? Eu no 
tenho o menor interesse em ficar brincando de me fantasiar com um bando de velhos!  
     Seu pai ficou um bom tempo calado, e Bellamy reparou nas finas rugas que haviam comeado a aparecer ao redor dos olhos ainda joviais de Peter.
     - Sim, eu entendo - disse ele por fim. - Os tempos so outros. Entendo que a Maonaria possa parecer estranha para voc, ou talvez at chata. Mas quero que 
saiba que essa porta vai estar sempre aberta caso mude de idia algum dia.  
     - Pode esperar sentado - resmungou Zach.  
     - Agora chega! - disparou Peter, pondo-se de p. - Eu sei que voc est atravessando uma fase difcil, Zach, mas eu no sou seu nico exemplo. Existem homens 
bons  sua espera, que iro receb-lo de braos abertos na Francomaonaria e lhe mostrar seu verdadeiro potencial.   
     Zachary deu uma risadinha e relanceou os olhos para Bellamy.  -
       por isso que o senhor est aqui, Sr. Bellamy? Para que, juntos, os irmos maons possam me intimidar?  
     Bellamy no disse nada. Em vez disso, lanou um olhar respeitoso para Peter Solomon - um lembrete para Zachary de quem detinha o poder ali.  
     Zachary tornou a se virar para o pai.  
     - Zach - disse Peter -, assim ns no vamos chegar a lugar nenhum... ento, deixe-me dizer s uma coisa. Quer voc compreenda ou no a responsabilidade que 
lhe est sendo oferecida,  minha obrigao familiar apresent-la. - Ele gesticulou na direo da pirmide. - Proteger essa pirmide  um raro privilgio. Eu o aconselho 
a pensar sobre essa oportunidade durante alguns dias antes de tomar sua deciso. 
     - Oportunidade? - disse Zach. - De bancar a bab de uma pedra?  
     - Existem grandes mistrios neste mundo, Zach - disse Peter com um suspiro. - Segredos que transcendem a mais desenfreada imaginao. Esta pirmide protege 
esses segredos. E, o que  mais importante, vai chegar um dia, provavelmente ainda durante seu tempo de vida, em que esta pirmide finalmente ser decifrada e seus 
segredos, desenterrados. Ser um momento de grande transformao humana... e voc tem a oportunidade de desempenhar um importante papel nesses acontecimentos. Quero 
que pense nisso com cuidado. A riqueza  algo comum, mas o saber  raro. - Ele gesticulou em direo  pasta e em seguida apontou para a pirmide. - Imploro a voc 
que se lembre de que riqueza sem sabedoria pode muitas vezes terminar em tragdia.  
     Zachary parecia estar pensando que o pai havia perdido a razo.  
     - Tudo bem, pai, mas eu nunca vou abrir mo da minha herana por causa disso a. - Ele indicou a pirmide.  
     Peter uniu as mos na frente do corpo.  
     - Se voc decidir aceitar a responsabilidade, eu guardarei seu dinheiro e a pirmide at voc ter concludo com sucesso sua instruo junto aos maons. Isso 
levar anos, mas depois voc ter maturidade para receber o dinheiro e a pirmide. Riqueza e sabedoria. Uma combinao poderosa.  
     Zachary se levantou com um pulo.  
     - Meu Deus do cu, pai! Voc no desiste, no ? No est vendo que eu no ligo a mnima para os maons nem para pirmides de pedra e mistrios antigos? - Ele 
estendeu a mo e recolheu a pasta preta, brandindo-a em frente ao rosto do pai. - Isto aqui  meu por direito! O mesmo direito dos Solomon que vieram antes de mim! 
No acredito que voc tentou me passar a perna com essas histrias ridculas sobre antigos mapas do tesouro para eu no receber minha herana! - Ele enfiou a pasta 
debaixo do brao e passou pisando firme por Bellamy at as portas do escritrio que davam para a varanda.  
     - Zachary, espere! - Peter correu atrs do filho enquanto ele saa altivamente porta afora. - Faa o que fizer, voc nunca pode falar sobre a pirmide que viu! 
- A voz de Peter Solomon fraquejou. - Com ningum! Nunca!  
     Mas Zachary o ignorou e sumiu noite adentro.  
     Os olhos cinzentos de Peter Solomon estavam cheios de pesar quando ele voltou  escrivaninha e sentou-se pesadamente na cadeira de couro. Aps um longo silncio, 
ergueu os olhos para Bellamy e forou-se a dar um sorriso triste.  
     - Tudo bem.  
     Bellamy suspirou, compartilhando a dor de Solomon.  
     - Peter, eu no quero parecer insensvel, mas... voc confia nele? 
     Solomon fitou o vazio com um olhar inexpressivo.  
     - Quer dizer... - insistiu Bellamy  - ... voc acredita que ele vai guardar segredo sobre a pirmide?  
     O rosto de Solomon estava sem vida.  
     - Eu realmente no sei o que dizer, Warren. No tenho certeza mais nem se o conheo.  
     Bellamy se levantou e ps-se a zanzar lentamente diante da grande escrivaninha. 
     - Peter, voc cumpriu seu dever de famlia, mas agora, levando em conta o que acabou de acontecer, acho que precisamos tomar precaues. Seria melhor eu lhe 
devolver o cume para que voc encontre um novo lar para ele. Alguma outra pessoa deveria proteg-lo.  
     - Por qu? - perguntou Solomon.  
     - Se Zachary contar a algum sobre a pirmide... e mencionar minha presena hoje  noite...  
     - Ele no sabe nada sobre o cume e  imaturo demais para achar que a pirmide tem importncia. No precisamos de um novo lar para o cume. Vou deixar a pirmide 
dentro do meu cofre. E voc vai guardar o cume num local seguro. Como sempre fizemos.  
     Seis anos depois, no dia de Natal, quando a famlia ainda estava se curando da morte de Zachary, o monstro que afirmava t-lo matado invadiu a propriedade dos 
Solomon. O intruso tinha ido at l buscar a pirmide, mas roubara apenas a vida de Isabel Solomon.  
     Dias depois, Peter convocou Bellamy a seu escritrio. Trancou a porta e tirou a pirmide do cofre, depositando-a sobre a escrivaninha entre os dois.  
     - Eu deveria ter escutado voc.  
     Bellamy sabia que Peter estava mortificado por causa daquilo. 
     - No teria feito diferena. 
     Solomon respirou fundo, cansado. 
     - Voc trouxe o cume?  
     Bellamy tirou do bolso um pequeno embrulho em forma de cubo. O papel pardo desbotado estava amarrado com barbante e exibia o lacre de cera do anel dos Solomon. 
Bellamy ps o embrulho sobre a mesa, sabendo que, naquela noite, as duas metades da Pirmide Manica estavam mais prximas do que deveriam.  
     - Encontre outra pessoa para cuidar disso. No me diga quem . 
     Solomon aquiesceu.  
     - E eu sei onde voc pode esconder a pirmide - disse Bellamy. Ele contou ao amigo sobre o segundo subsolo do Capitlio. - No existe lugar mais seguro em toda 
a Washington.  
     Bellamy se lembrava de que Solomon abraara a idia na mesma hora, porque lhe parecia adequado esconder a pirmide no corao simblico do pas. Tpico de Solomon, 
pensara. Idealista mesmo durante uma crise.  
     Agora, 10 anos depois, enquanto era empurrado s cegas pela Biblioteca do Congresso, Bellamy tinha certeza de que a crise daquela noite estava longe do fim. 
Tambm sabia quem Solomon escolhera para proteger o cume... e rezava a Deus para Robert Langdon ser digno daquela tarefa.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  62
     
     Estou debaixo da Rua 2.  
     Langdon manteve os olhos bem fechados enquanto a esteira seguia aos solavancos pela escurido rumo ao Adams Building. Esforou-se ao mximo para no imaginar 
as toneladas de terra acima dele e o tnel estreito pelo qual avanava. Podia ouvir Katherine respirando logo adiante, embora, at o momento, ela no tivesse pronunciado 
uma s palavra.  
     Ela est em choque. Langdon no estava com a menor vontade de lhe falar  sobre a mo cortada de Peter. Voc tem que contar, Robert. Ela precisa saber.  
     - Katherine - disse Langdon por fim, sem abrir os olhos. - Voc est bem? 
     Uma voz trmula respondeu mais  frente.  
     - Robert, essa pirmide que voc est carregando. Ela pertence a Peter, no ? 
     - Sim - respondeu Langdon.   
     Seguiu-se um longo silncio. 
     - Eu acho... que foi por causa dessa pirmide que minha me foi assassinada. 
     Langdon sabia muito bem que Isabel Solomon fora assassinada 10 anos antes,  mas no conhecia os detalhes, e Peter nunca havia mencionado nada sobre uma pirmide. 
     - Como assim? 
     A voz de Katherine se encheu de emoo enquanto ela relatava os terrveis acontecimentos daquela noite e como o assassino do seu sobrinho tinha invadido a propriedade 
da famlia. 
     - Faz muito tempo, mas eu nunca vou esquecer que ele pediu uma pirmide.  Disse que Zachary tinha falado nela na priso... pouco antes de morrer.  
     Langdon ficou escutando, assombrado. A tragdia que assolava a famlia Solomon era quase inconcebvel. Katherine prosseguiu, contando a Langdon que sempre pensara 
que o intruso tivesse sido morto naquela noite... at ele reaparecer fingindo ser o psiquiatra de Peter e atra-la para sua casa.  
     - Ele conhecia detalhes da vida particular do meu irmo, sabia da morte da minha me e tinha informaes at sobre o meu trabalho - disse ela, nervosa -, coisas 
que s Peter poderia ter revelado. Ento eu confiei nele... e foi assim que ele conseguiu entrar no Centro de Apoio dos Museus Smithsonian. - Katherine respirou 
fundo e disse a Langdon que tinha quase certeza de que aquele homem destrura seu laboratrio.  
     Langdon seguia ouvindo, chocado. Durante alguns instantes, os dois ficaram deitados em silncio sobre a esteira rolante. Langdon sabia que tinha a obrigao 
de compartilhar com Katherine o restante das terrveis notcias daquela noite. Com a maior delicadeza possvel, contou a ela como seu irmo lhe havia confiado anos 
antes um pequeno embrulho e como o seqestrador o manipulara, fazendo com que trouxesse o pacote at Washington. Por fim, revelou como a mo de Peter fora encontrada 
na Rotunda do Capitlio.  
     A reao de Katherine foi um silncio de gelar o sangue. 
     Langdon sabia que ela devia estar profundamente abalada e desejou poder estender a mo para reconfort-la, mas, como estavam deitados um na frente do outro 
dentro de um tnel escuro e estreito, isso era impossvel. 
     - Peter est bem - sussurrou. - Ele est vivo, e ns vamos traz-lo de volta -  Langdon tentou lhe dar esperanas. - Katherine, o seqestrador prometeu que 
seu irmo ser devolvido com vida... se eu decifrar a pirmide para ele.
     Katherine permaneceu calada. 
     Langdon continuou falando. Contou a ela sobre a pirmide de pedra, a cifra manica, o cume lacrado e,  claro, sobre as alegaes de Bellamy de que aquele 
artefato era na verdade a Pirmide Manica da lenda... um mapa que revelava o esconderijo de uma comprida escada em caracol que conduzia ao centro da Terra... descendo 
centenas de metros at um antigo tesouro mstico enterrado tempos atrs em Washington.  
     Katherine finalmente falou, mas com uma voz montona e sem emoo. 
     - Robert, abra os olhos.  
     Abrir os olhos? Langdon no queria ver nem de relance como aquele lugar era apertado.  
     - Robert! - chamou Katherine, desta vez com mais urgncia. - Abra os olhos! Chegamos!  
     Os olhos de Langdon se abriram depressa enquanto seu corpo emergia por uma abertura parecida com a da outra ponta. Katherine j estava descendo da esteira. 
Ela pegou a bolsa enquanto Langdon passava as pernas pela beirada e saltava para o cho de ladrilho bem a tempo, antes de a esteira fazer a curva e retomar na direo 
contrria. O espao que os cercava era uma sala de distribuio bem parecida com a do prdio de onde tinham vindo. Uma plaquinha indicava ADAMS BUILDING: SALA DE 
DISTRIBUIO 3.  
     Langdon teve a sensao de que acabara de ser parido por algum canal subterrneo. Eu nasci de novo. Ele se virou na mesma hora para Katherine.  
     - Voc est bem?  
     Seus olhos estavam vermelhos e era bvio que ela havia chorado, mas mesmo assim Katherine assentiu, demonstrando sua determinao. Pegou a bolsa de Langdon 
e levou-a at o outro lado da sala sem dizer nada, pondo-a em cima de uma mesa entulhada. Acendeu a luminria, abriu o zper da bolsa, dobrou as laterais para baixo 
e olhou para o objeto  sua frente.  
     Sob o brilho lmpido da lmpada halgena, a pirmide de granito parecia quase austera. Katherine correu os dedos pela cifra manica gravada na pedra e Langdon 
pde sentir que ela estava tomada de profunda emoo. Devagar, ela ps a mo dentro da bolsa e retirou o embrulho em forma de cubo. Ento o segurou sob a luz para 
examin-lo melhor.  
     - Como voc pode ver - falou Langdon baixinho -, o lacre de cera traz o braso do anel manico de Peter. Ele disse que o anel foi usado para lacrar o embrulho 
mais de um sculo atrs.  
     Katherine no fez nenhum comentrio.  
     - Quando seu irmo me confiou o embrulho - prosseguiu Langdon -, ele me disse que o que havia aqui dentro me daria o poder de criar ordem a partir do caos. 
No estou muito certo do que isso significa, mas s posso supor que o cume revela algo importante, porque Peter enfatizou que ele no poderia cair em mos erradas. 
Warren Bellamy acaba de me dizer a mesma coisa e insistiu para que eu escondesse a pirmide e no deixasse ningum abrir o embrulho.
     Katherine ento se virou para ele, parecendo zangada. 
     - Bellamy lhe disse para no abrir o embrulho?  
     - Isso mesmo. Ele foi categrico.  
     Katherine parecia no acreditar.  
     - Mas voc falou que este cume  o nosso nico meio de decifrar a pirmide...  
     - Provavelmente, sim.  
     Katherine comeou a levantar a voz.  
     - Robert, voc no acabou de dizer que o seqestrador lhe deu ordens expressas de decifrar a pirmide e que essa  a nica forma de termos Peter de volta?  
     Langdon fez que sim.  
     - Nesse caso, por que deixaramos de abrir o embrulho e decifrar este troo agora mesmo?  
     Langdon no soube o que responder.  
     - Katherine, eu tive exatamente a mesma reao, mas Bellamy me disse que proteger o segredo desta pirmide era o mais importante de tudo... mais at do que 
salvar a vida do seu irmo.  
     Os belos traos de Katherine endureceram e ela ajeitou uma mecha de cabelos atrs da orelha. Quando falou, sua voz estava decidida.  
     - Esta pirmide de pedra, seja ela o que for, j me custou minha famlia inteira. Primeiro meu sobrinho Zachary, depois minha me e agora meu irmo. E convenhamos, 
Robert, se voc no tivesse ligado hoje  noite para me alertar... eu tambm...  
     Langdon se sentia encurralado entre a lgica de Katherine e a insistncia de Bellamy.  
     - Eu posso ser uma cientista - disse ela -, mas tambm venho de uma famlia de maons renomados. Acredite em mim, j escutei todas as histrias possveis sobre 
a Pirmide Manica e sua promessa de um grande tesouro capaz de iluminar a humanidade. Sinceramente, acho difcil acreditar que uma coisa dessas exista. Mas se 
existir... talvez esteja na hora de ser revelada. - Katherine deslizou um dedo sob o velho barbante do embrulho.  
     Langdon deu um pulo.  
     - Katherine, no! Espere!  
     Ela parou, mas manteve o dedo sob o barbante.  
     - Robert, eu no vou deixar meu irmo morrer por causa disto. O que quer que este cume diga... sejam quais forem os tesouros perdidos que a inscrio possa 
revelar... esses segredos terminam hoje.    
     Com essas palavras, Katherine deu um puxo desafiador no barbante - e o frgil lacre de cera se partiu.  
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  63
     
     Em um bairro tranqilo imediatamente a oeste da Embassy Row, em Washington, existe um jardim murado em estilo medieval cujas rosas, dizem, brotam de roseiras 
plantadas no sculo XII. Conhecido como Shadow House, o mirante do jardim se ergue, elegante, entre sinuosas trilhas de pedras extradas da pedreira particular de 
George Washington.
     Naquela noite, o silncio que ali reinava foi quebrado por um rapaz que  entrou correndo e gritando pelo porto de madeira.  
     - Ol? - chamou ele, esforando-se para ver  luz do luar. - O senhor est a? 
     A voz que respondeu era dbil, quase inaudvel.  
     - Estou aqui no mirante... tomando um pouco de ar.  
     O rapaz encontrou seu superior sentado no banco de pedra, debaixo de um cobertor. Era um velho corcunda, frgil, cujos traos lembravam os de um elfo . Os anos 
haviam vergado seu corpo e lhe roubado a viso, mas sua alma ainda era uma fora digna de respeito.  
     Recuperando o flego, o rapaz disse:  
     - Acabei de... receber um telefonema... do seu amigo... Warren Bellamy.  
     - Foi mesmo? - O velho se animou. - O que ele queria?  
     - No falou, mas parecia bem afobado. Ele me disse que deixou um recado  na sua caixa postal que o senhor precisa escutar agora mesmo.  
     - Foi s isso que ele disse?  
     - Na verdade, no. Ele me pediu que fizesse uma pergunta ao senhor. - O  rapaz fez uma pausa. Uma pergunta muito estranha. - Disse que precisava da sua resposta 
imediatamente.  
     O velho se inclinou mais para perto. 
     - Que pergunta?  
     Quando o rapaz repetiu o que Warren Bellamy havia perguntado, a nuvem que cruzou o semblante do velho foi visvel at sob a luz do luar. Na mesma hora, ele 
se livrou do cobertor e comeou a se levantar com dificuldade.  
     - Me ajude a entrar, por favor. Agora.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 64
      
     Chega de segredos, pensou Katherine Solomon.  
     Na mesa  sua frente, o lacre de cera que havia permanecido intacto por muitas geraes jazia em pedaos. Ela terminou de retirar o papel pardo desbotado do 
embrulho do irmo. Ao seu lado, Langdon parecia claramente desconfortvel.  
     De dentro do papel Katherine extraiu uma caixinha de pedra cinza. Semelhante a um cubo de granito polido, no tinha dobradias nem fecho - e aparentemente no 
havia como abri-la. Lembra aquelas caixinhas chinesas que so verdadeiros quebra-cabeas, pensou Katherine.  
     - Parece um bloco macio - disse ela, correndo os dedos pelas bordas. - Tem certeza de que o raio X mostrou que h um cume dentro dela?  
     - Tenho - respondeu Langdon, aproximando-se e examinando a misteriosa caixinha. Ele e Katherine a estudaram de ngulos diferentes, tentando encontrar um jeito 
de abri-la.  
     - Achei - disse Katherine, depois de localizar com a unha a fenda escondida que margeava uma das laterais superiores da caixa. Depois de coloc-la sobre a mesa, 
ela ergueu cuidadosamente a tampa, que se abriu com facilidade, como a parte de cima de um porta-jias elegante.  
     Quando a tampa caiu para trs, tanto Langdon quanto Katherine arquejaram ruidosamente de espanto. O interior da caixa parecia reluzir, brilhando com um fulgor 
quase sobrenatural. Katherine nunca tinha visto um pedao de ouro daquele tamanho, de modo que levou alguns instantes para perceber que  precioso metal estava simplesmente 
refletindo o brilho da luminria. 
     - Espetacular - sussurrou ela.  
     Apesar de ter passado mais de um sculo lacrado num cubo de pedra, o cume no perdera o brilho nem exibia qualquer defeito. O ouro resiste s leis entrpicas 
da decomposio; esse  um dos motivos pelos quais os antigos o consideravam mgico. Katherine sentiu o pulso acelerar enquanto se inclinava para olhar o topo dourado. 
     - Tem uma inscrio nele.  
     Langdon se aproximou at os ombros dos dois se tocarem. Seus olhos azuis faiscavam de curiosidade. Ele havia contado a Katherine sobre o antigo costume grego 
de criar um symbolon - um cdigo dividido em vrias partes - e lhe explicara que aquele cume, havia muito separado da pirmide em si, conteria a chave para decifr-la. 
Supostamente, aquela inscrio, qualquer que fosse seu significado, criaria ordem a partir do caos.  
     Katherine ergueu a caixinha at a luz para examinar o cume.
     Embora pequena, a inscrio era perfeitamente legve1 - um texto minsculo delicadamente gravado em uma das laterais. Katherine leu as sete palavras simples. 
     Em seguida, releu-as.  
     - No! - exclamou. - No pode ser isso que est escrito!  
     
     Do outro lado da rua, a diretora Sato seguia apressada pelo caminho em frente ao Capitlio at seu ponto de encontro na Rua 1. O ltimo informe da sua equipe 
havia sido inaceitvel. Nada de Langdon. Nada de pirmide. Nada de cume. Bellamy estava sob custdia, mas ele no estava falando a verdade. Pelo menos ainda no. 
     Mas ele vai falar. Eu garanto.  
     Ela olhou por cima do ombro para uma das mais novas vistas de Washington - o domo do Capitlio desenhado sobre o novo centro de visitantes. O domo iluminado 
s fazia acentuar a importncia do que estava realmente em jogo naquela noite. poca perigosa a nossa.  
     Sato ficou aliviada ao ouvir o toque do celular e ver o nome de sua analista se estampar na tela.  
     - Nola - atendeu ela. - O que voc descobriu?  
     Nola Kaye lhe deu a m notcia. O raio X da inscrio no cume estava apagado  demais para ser lido e os filtros de otimizao de imagem no tinham ajudado. 
     Merda. Sato mordeu o lbio. 
     - E a grade de 16 letras?  
     - Ainda estou tentando - respondeu Nola -, mas at agora no achei nenhum sistema secundrio de criptografia que se aplique. Mandei o computador reorganizar 
as letras para procurar algo identificvel, mas existem mais de 20 trilhes de possibilidades.  
     - Continue trabalhando nisso. Me mantenha informada. - Sato desligou e fez cara feia. Sua esperana de decifrar a pirmide usando apenas uma foto l' um raio 
X estava indo por gua abaixo. Preciso da pirmide e do cume... e meu tempo est se esgotando.  
     Sato chegou  Rua 1 bem na hora em que um utilitrio Escalade preto com vidros escurecidos ultrapassou zunindo a faixa dupla amarela, cantando pneu at parar 
no ponto de encontro. Um nico agente saltou do carro.  
     - Alguma notcia de Langdon? - quis saber Sato.   
     - Estamos confiantes - disse o homem, sem aparentar emoo. - Acabamos de receber reforos. Todas as sadas da biblioteca esto cercadas. Temos at apoio areo 
a caminho. Vamos encher aquilo l de gs lacrimogneo e ele no vai ter para onde correr.  
     - E Bellamy?  
     - Est algemado ali atrs.  
     timo. O ombro dela continuava doendo.  
     O agente entregou a Sato um saco plstico contendo um celular, um molho  de chaves e uma carteira.  
     - Os pertences de Bellamy.  
     - S isso?  
     - Sim, senhora. A pirmide e o pacote ainda devem estar com Langdon.  
     - Certo - disse Sato. - Bellamy sabe muita coisa que no est dizendo. Eu  gostaria de interrog-lo pessoalmente.  
     - Sim, senhora. Devo lev-lo para Langley, ento?  
     Sato respirou fundo enquanto andava de um lado para outro junto ao carro.  O interrogatrio de civis norte-americanos era regido por protocolos muito rgidos, 
e tomar o depoimento de Bellamy seria altamente ilegal a menos que isso fosse feito em Langley, diante das cmeras, de testemunhas, advogados, bl-bl-bl...  
     - No, para Langley, no - disse ela, tentando pensar em algum lugar mais perto. E mais reservado.  
     O agente no disse nada e continuou ao lado do veculo, aguardando ordens. 
     Sato acendeu um cigarro, deu uma longa tragada e baixou os olhos para o saco plstico com os pertences de Bel1amy. Havia percebido que o chaveiro dele inclua 
um controle eletrnico com quatro letras: USBG. Sato,  claro, sabia a qual prdio do governo aquele controle dava acesso. Ele ficava bem perto e, quela hora, era 
muito reservado.  
     Ela sorriu e ps o controle no bolso. Perfeito.  
     Quando Sato disse ao agente para onde queria que ele levasse Bellamy, imaginou que ele fosse fazer cara de surpresa, mas o homem apenas assentiu e abriu a porta 
do carona para a diretora, seus olhos frios insondveis.  
     Sato adorava profissionais.  
     
     Em p no subsolo do Adams Building, Langdon encarava, incrdulo, as palavras gravadas com elegncia na lateral do cume de ouro.  
      s isso que diz a inscrio?  
     Ao seu lado, Katherine segurava o cume sob a luz e sacudia a cabea.    
     - Tem que haver mais coisa - insistiu ela, se sentindo enganada. - Foi isso que meu irmo passou todos esses anos protegendo?  
     Langdon tinha de admitir que estava perplexo. Segundo Peter e Bellamy, o cume deveria ajud-los a decifrar a pirmide de pedra. Com base nessas afirmaes, 
Langdon esperava algo esclarecedor e til. Isto aqui est mais para bvio e intil. Tornou a ler as sete palavras inscritas na lateral do cume. 
     
     O
     segredo
     se esconde
     dentro da Ordem
     
     O segredo se esconde dentro da Ordem?  
      primeira vista, a inscrio parecia afirmar o bvio - que as letras da pirmide estavam fora de "ordem" e que o segredo estava em descobrir sua seqncia 
correta. Essa interpretao, porm, alm de bvia, parecia improvvel por outro motivo. 
     - A palavra Ordem est em maiscula - disse Langdon.  
     - , eu percebi. - Katherine aquiesceu, inexpressiva.  
     O segredo se esconde dentro da Ordem. Langdon s conseguia pensar em uma  implicao lgica.  
     - Ordem deve ser uma referncia  Ordem Manica.  
     - Certo - disse Katherine -, mas de que isso adianta? No nos revela nada.  
     Langdon foi obrigado a concordar. Afinal de contas, toda a histria daquela pirmide girava em torno de um segredo escondido na Ordem Manica.  
     - Mas, Robert, meu irmo no disse a voc que o cume lhe daria o poder de ver ordem onde outros enxergavam apenas caos?  
     Ele balanou a cabea, frustrado. Pela segunda vez naquela noite, Robert Langdon no estava se sentindo digno daquele desafio.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  65
     
     Depois que Mal'akh terminou de cuidar da visitante inesperada - uma agente de segurana da empresa Preferred Security -, tornou a vedar a janela atravs da 
qual ela conseguira espiar seu local de trabalho sagrado.   
     Ento, subindo da suave bruma azul do poro, ele emergiu por uma passagem secreta para dentro de sua sala de estar. Uma vez ali, se deteve, admirando o espetacular 
quadro das Trs Graas e saboreando os cheiros e sons conhecidos da casa.  
     Logo irei embora daqui para sempre. Mal'akh sabia que, depois daquela noite, no poderia mais voltar ali. Depois desta noite, pensou, sorrindo, no terei mais 
necessidade deste lugar.  
     Ele imaginou se Robert Langdon j teria entendido o verdadeiro poder da pirmide... ou o importante papel que o destino lhe reservara. Langdon ainda no me 
ligou, pensou Mal'akh, depois de verificar outra vez os recados em seu telefone. J eram 22h02. Ele tem menos de duas horas.
     Mal'akh subiu at o banheiro de mrmore italiano no andar de cima e abriu o registro de gua quente do chuveiro para deix-la esquentar. Metodicamente, se despiu, 
ansioso para comear seu ritual de purificao.  
     Bebeu dois copos d'gua para acalmar o estmago faminto. Ento foi at o espelho e estudou seu corpo nu. Os dois dias de jejum haviam acentuado sua musculatura 
e ele no pde deixar de admirar aquilo em que tinha se transformado. Ao raiar do dia, eu serei muito mais.  
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  66
     
      melhor sairmos daqui - disse Langdon para Katherine. -  s uma questo de tempo at descobrirem onde estamos. - Ele torceu para Bellamy ter conseguido fugir. 
     Katherine continuava fascinada pelo cume de ouro, parecendo no acreditar que a inscrio os ajudasse to pouco. Ela o havia tirado da caixa, examinado cada 
lateral, e agora o recolocava cuidadosamente l dentro.  
     O segredo se esconde dentro da Ordem, pensou Langdon. Isso  que  ajuda. 
     Langdon estava comeando a se perguntar se Peter no poderia estar mal informado quanto ao contedo do pacote que lhe confiara. Aquela pirmide e aquele cume 
tinham sido criados muito antes de seu amigo nascer, e ele estava apenas fazendo o que seus antepassados o haviam instrudo: guardando um segredo provavelmente to 
misterioso para ele quanto para Langdon e Katherine.  
     Mas o que eu esperava?, pensou Langdon. Quanto mais descobria sobre a lenda da Pirmide Manica, menos plausvel aquilo tudo lhe parecia. Estou procurando 
uma escada em caracol escondida sob uma imensa pedra? Algo dizia a Langdon que ele estava perseguindo moinhos de vento. Ainda assim, decifrar aquela pirmide parecia 
ser a sua maior chance de salvar Peter.  
     - Robert, o ano de 1514 significa alguma coisa para voc?  
     Mil quinhentos e catorze? A pergunta parecia totalmente fora de contexto.  Langdon deu de ombros. 
     - No. Por qu?  
     Katherine lhe entregou a caixa de pedra.  
     - Olhe aqui. A caixa est datada. D uma olhada na luz.
     Langdon se sentou  mesa e analisou a caixa em formato de cubo sob a claridade. Katherine pousou a mo em seu ombro, aproximando-se para apontar o texto diminuto 
que havia encontrado na parte externa da caixa, junto a um dos cantos inferiores.  
     - 1514 A.D. - disse ela, apontando para a caixa.  
     De fato, a inscrio exibia o nmero 1514 seguido por uma grafia pouco usual das letras A e D, de Anno Domini: 
     
     
     
     - Quem sabe essa data  a pea que est faltando? - disse Katherine, repentinamente esperanosa. - Esse cubo se parece muito com uma pedra angular manica, 
ento talvez ele esteja indicando uma pedra angular de verdade, no? Ou algum prdio construdo em 1514 A.D.?  
     Langdon mal escutava o que ela dizia.  
     Mil quinhentos e catorze A.D. no  uma data.  
     O smbolo , como qualquer estudioso de arte medieval seria capaz de identificar, era uma conhecida "simbatura" - um smbolo usado em lugar de uma assinatura. 
Muitos dos filsofos, artistas e escritores do passado assinavam suas obras no com o nome, mas com um smbolo pessoal ou monograma prprio. Esse costume acrescentava 
um vis misterioso a seu trabalho e tambm os protegia da perseguio caso seus escritos ou obras de arte fossem considerados contrrios ao sistema.  
     Naquele caso, as letras A e D no significavam Anno Domini, e sim outra coisa completamente diferente... em alemo.  
     No mesmo instante, Langdon viu todas as peas se encaixarem. Em segundos, teve certeza de que sabia exatamente como decifrar a pirmide.   
     - Katherine, voc matou a charada - disse ele, juntando suas coisas. - Era s  disso que precisvamos. Vamos. No caminho eu explico.  
     Katherine parecia atnita.  
     - A data 1514 A.D. significa alguma coisa para voc? 
     Langdon piscou para ela e encaminhou-se para a porta. 
     - A.D. no  uma data, Katherine.  uma pessoa.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  67
     
     A oeste da Embassy Row, tudo estava novamente silencioso dentro do jardim murado com suas rosas do sculo XII e seu mirante. Do outro lado da entrada, um jovem 
ajudava seu superior corcunda a atravessar um amplo gramado.  
     Ele est me deixando gui-lo?  
     Normalmente, o velho cego recusaria a ajuda, preferindo se orientar pela memria quando estava dentro de seu santurio. Naquela noite, porm, parecia ter pressa 
de entrar para retornar a ligao de Warren Bellamy.  
     - Obrigado - disse o velho quando os dois chegaram  construo que abrigava seu escritrio particular. - Posso seguir sozinho daqui.  
     - Senhor, seria um prazer continuar ajudando...  
     - Voc est liberado por hoje - disse o velho, soltando o brao do ajudante  e seguindo com seu passo arrastado rumo  escurido. - Boa noite.  
     O rapaz saiu do prdio e tornou a atravessar o amplo gramado at sua modesta casinha dentro da propriedade. Ao entrar em casa, ele no conseguia mais conter 
a curiosidade. Era bvio que o velho tinha ficado abalado com a pergunta feita pelo Sr. Bellamy. No entanto, ela lhe parecera estranha, quase sem significado.  
     No haver esperana para o filho da viva?
     Mesmo usando toda a sua imaginao, o rapaz no fazia a menor idia do que aquilo significava. Intrigado, foi at o computador e digitou a frase num site de 
buscas.  
     Para sua grande surpresa, pginas e mais pginas de referncias apareceram, todas citando textualmente a pergunta. Pasmo, ele comeou a ler as informaes. 
Parecia que Warren Bellamy no era a primeira pessoa na histria a ter feito aquela estranha pergunta. As mesmas palavras haviam sido pronunciadas  muitos sculos 
antes... pelo rei Salomo, ao prantear um amigo assassinado. Supostamente, a pergunta ainda era feita hoje em dia pelos maons, que a usavam como um pedido de ajuda 
em cdigo. Warren Bellamy parecia estar mandando um S.O.S. para um irmo maom.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  68
     
     Albrecht Drer?  
     Katherine estava tentando juntar as peas do quebra-cabea enquanto acompanhava Langdon a passos rpidos pelo subsolo do Adams Building. A.D. quer dizer Albrecht 
Drer? O famoso gravador e pintor alemo do sculo XVI era um dos artistas preferidos de seu irmo, de modo que Katherine conhecia um pouco a sua obra. Mesmo assim, 
no conseguia imaginar como Drer poderia ajud-los naquele caso. Para comear, ele morreu h mais de 400 anos.  
     - Simbolicamente, Drer  perfeito - dizia Langdon enquanto eles seguiam a trilha de placas iluminadas indicando SADA. - Ele representou a mente renascentista 
por excelncia: foi artista, filsofo, alquimista e, ainda por cima, passou a vida inteira estudando os Antigos Mistrios. At hoje, ningum compreende inteiramente 
as mensagens escondidas na sua obra.  
     - Pode at ser - disse ela. - Mas como  que "1514 Albrecht Drer" explica como decifrar a pirmide?  
     Eles chegaram a uma porta trancada e Langdon usou o carto de acesso de Bellamy para passar.  
     O nmero 1514 est nos indicando uma obra bem especfica de Drer - disse Langdon enquanto subiam a escada depressa. Chegaram a um enorme corredor e, depois 
de olhar em volta, ele apontou para a esquerda. - Por aqui. - Os dois apertaram novamente o passo. - Na verdade, Albrecht Drer escondeu esse nmero em sua gravura 
mais misteriosa, chamada Melancolia I, que concluiu em 1514. Ela  considerada a obra seminal do Renascimento do norte europeu.  Peter certa vez havia mostrado aquela 
gravura a Katherine em um velho livro sobre misticismo, mas ela no se lembrava de nenhum nmero 1514 escondido. 
     - Como voc talvez saiba - disse Langdon, animado -, Melancolia I retrata a luta do homem para compreender os Antigos Mistrios. Seu simbolismo  to complexo 
que faz Leonardo da Vinci parecer explcito.   
     Katherine estacou abruptamente e olhou para Langdon. 
     - Robert, Melancolia I est aqui em Washington. Exposta na National Gallery.  
     - Sim - disse ele com um sorriso -, e algo me diz que isso no  coincidncia. A galeria est fechada a esta hora, mas eu conheo o curador e... 
     - Nem pensar, Robert. Sei o que acontece quando voc entra num museu. 
     Katherine mudou de direo, indo para uma saleta onde havia uma mesa com um computador. Langdon a seguiu com ar cabisbaixo. 
     - Vamos fazer isso do jeito mais fcil - disse ela. Para o professor Langdon, especialista em arte, usar a internet quando o original estava to perto era um 
dilema tico. Quando o computador finalmente  ganhou vida, Katherine no soube o que fazer. 
     - Cad o cone do navegador?  
     -  uma rede interna da biblioteca - explicou Langdon, apontando para um  cone na rea de trabalho. - Tente isto aqui. 
     Ela clicou no cone chamado ACERVOS DIGITAIS e o computador abriu uma nova tela. Langdon tornou a apontar e Katherine clicou no cone que ele havia escolhido: 
ACERVO DE GRAVURAS. A tela se atualizou. GRAVURAS: BUSCA. 
     - Digite "Albrecht Drer". 
     Katherine digitou o nome, clicando em seguida no boto de busca. Em poucos segundos, o monitor comeou a exibir uma srie de imagens minimizadas.  Todas pareciam 
seguir o mesmo estilo - intrincadas gravuras em preto e branco. Drer aparentemente tinha feito dezenas de obras parecidas. 
     
     Ado e Eva 
     A Traio de Cristo  
     Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse 
     A Grande Paixo 
     A ltima Ceia 
     
     Ao ver todos os ttulos bblicos, Katherine se lembrou de que Drer praticava algo conhecido como cristianismo mstico - uma fuso de cristianismo primitivo, 
alquimia, astrologia e cincia.  
     Cincia...  
     A imagem de seu laboratrio em chamas passou por sua cabea. Ela mal conseguia pensar nas conseqncias daquilo a longo prazo, mas, por ora, estava mal. preocupada 
com sua assistente, Trish. Espero que ela tenha conseguido escapar.   
     Langdon estava dizendo alguma coisa sobre a verso de Drer da ltima Ceia, mas Katherine mal o escutou. Ela havia acabado de encontrar o link para Melancolia 
I. 
     Deu um dique com o mouse e a pgina foi atualizada com informaes genricas. 
     
     Melancolia I, 1514
     Albrecht Drer
     (gravura sobre papel)
     Coleo Rosenwald
     National Gallery of Art
     Washington, D.C.
     
     Quando ela desceu pela pgina, uma imagem digital em alta resoluo da obra-prima de Drer surgiu em toda a sua glria.  Katherine tinha esquecido como aquele 
trabalho era estranho e ficou olhando  para ele, espantada. 
     Langdon deu uma risadinha cmplice. 
     - Como eu disse,  uma obra crptica.  
     Melancolia I mostrava uma figura taciturna, dotada de asas gigantescas, sentada em frente a um edifcio de pedra, cercada pela mais disparatada e bizarra coleo 
de objetos que se possa imaginar - uma balana, um co raqutico, ferramentas de carpintaria, uma ampulheta, alguns slidos geomtricos, um sino, um querubim, uma 
lmina, uma escada.  
     Katherine se lembrava vagamente do irmo lhe dizendo que aquela figura alada era uma representao do "gnio humano" - um grande pensador segurando o queixo, 
com ar deprimido, ainda incapaz de alcanar a iluminao. O gnio est cercado por todos os smbolos de seu intelecto - cincia, matemtica, filosofia, geometria 
e at mesmo carpintaria -, mas nem assim consegue subir a escada que conduz  verdadeira iluminao. At mesmo o gnio acha difcil compreender os Antigos Mistrios. 
     - Simbolicamente - disse Langdon -, isso representa o fracasso da humanidade em transformar o intelecto humano em poder divino. Em termos alqumicos, representa 
nossa incapacidade de transformar chumbo em ouro.  
     - No  uma mensagem particularmente encorajadora - comentou Katherine. - Mas ento como essa gravura pode nos ajudar? - Ela no conseguia ver o nmero 1514 
escondido sobre o qual Langdon falava.  
     - Ordem  partir do caos - disse Langdon, lanando-lhe um sorriso enviesado. - Exatamente como seu irmo prometeu. - Ele ps a mo dentro do bolso e sacou a 
grade de letras que tinha anotado mais cedo a partir da cifra manica. - At agora esta grade era incompreensvel. - Ele estendeu o papel sobre a mesa.  
     
     
     
     
     
     
     
     Katherine olhou para a grade. Definitivamente no significa nada. 
     - Mas Drer vai transform-la.  
     - E como ele vai fazer isso?  
     - Alquimia lingstica. - Langdon gesticulou para o monitor. - Olhe com  ateno. H algo escondido nessa obra-prima que vai dar sentido s nossas 16 letras. 
- Ele aguardou. - Est vendo? Procure o nmero 1514.  
     Katherine no estava com humor para brincar de sala de aula.
     - Robert, eu no estou vendo nada... uma esfera, uma escada, uma faca, um poliedro, uma balana... Desisto.  
     - Olhe! Aqui no fundo. Inscrito nesse prdio atrs da figura alada, debaixo  do sino... Drer gravou um quadrado cheio de nmeros.  
     Katherine finalmente viu o quadrado que continha o nmero 1514. 
     - Katherine, esse quadrado  a chave para decifrar a pirmide! 
     Ela lanou-lhe um olhar de surpresa.  
     - Esse no  um quadrado qualquer - disse Langdon, abrindo um sorriso.  - Esse, Sra. Solomon,  um quadrado mgico. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  69
     
     Para onde esses desgraados esto me levando?  
     Bellamy continuava vendado no banco de trs do veculo. Depois de parar por um instante em algum lugar prximo  Biblioteca do Congresso, o carro seguira viagem... 
mas apenas por um minuto. Agora, depois de avanar mais ou menos um quarteiro, tornara a parar.  
     Bellamy ouviu vozes abafadas.  
     - Sinto muito... impossvel... - dizia uma voz autoritria - ...est fechado a esta hora...  
     O homem que dirigia o carro respondeu com igual autoridade.  
     - Investigao da CIA... segurana nacional... - Aparentemente, aquela troca de palavras e identificaes foi persuasiva, pois o tom mudou na mesma hora. 
     - Sim, claro... entrada de servio... - Ouviu-se o estrpito do que parecia um porto de garagem e, quando este se abriu, a voz acrescentou: - Devo acompanh-los? 
Quando estiverem l dentro, no vo conseguir passar por...  
     - No. Ns j temos acesso.  
     Se o vigia ficou surpreso, no teve tempo de dizer. O veculo avanou rapidamente, parando cerca de 50 metros depois. O porto pesado se fechou atrs deles 
com estardalhao.
     Silncio.  
     Bellamy percebeu que estava tremendo.  Com um estalo, a porta do carro se abriu. Bellamy sentiu uma dor aguda nos ombros enquanto era arrastado para fora pelos 
braos. Sem dizer uma palavra, uma fora poderosa o colocou de p e o conduziu por uma vasta extenso de cimento. Havia naquele lugar um cheiro estranho, de terra, 
que ele no conseguia identificar. Podia ouvir os passos de outra pessoa os acompanhando, mas, quem quer que fosse, ainda no tinha dito nada.  Pararam diante de 
uma porta e Bellamy ouviu um bipe eletrnico. A porta se abriu com um clique. Bellamy foi conduzido com truculncia por vrios corredores e no pde deixar de perceber 
que a atmosfera ali estava mais quente e mida. Talvez uma piscina coberta? No. O cheiro no ar no era de cloro... era muito mais terroso, primitivo.  
     Que lugar  este? Bellamy sabia que no podia estar a mais de um ou dois quarteires do prdio do Capitlio. Tornaram a parar e ele escutou novamente o bipe 
eletrnico de uma porta de segurana. Desta vez, ela se abriu com um silvo. Quando eles o empurraram para dentro, o cheiro que o atingiu foi inconfundvel.  
     Bellamy ento se deu conta de onde estavam. Meu Deus! Ele entrava naquele lugar com freqncia, embora nunca pela porta de servio. O magnfico prdio de vidro 
ficava a menos de 300 metros do Capitlio e, tecnicamente, fazia parte do mesmo complexo. Eu administro este lugar! O Arquiteto ento percebeu que era seu prprio 
controle que estava lhes dando acesso.  
     Braos potentes o empurraram porta adentro, conduzindo-o por uma passarela sinuosa e familiar. O calor pesado e mido daquele lugar em geral lhe parecia reconfortante. 
Naquela noite, o fazia suar.  
     O que estamos fazendo aqui?  
     De repente, Bellamy foi obrigado a parar e se sentar num banco. O homem musculoso que o arrastava abriu as algemas apenas por tempo suficiente para prend-las 
ao banco atrs dele.  
     - O que vocs querem de mim? - perguntou Bellamy, com o corao batendo descompassado.  
     A nica resposta que recebeu foi o rudo de botas se afastando e da porta de  vidro deslizando at fechar.  
     Ento, silncio.  
     Um silncio sepulcral.  
     Ser que eles vo simplesmente me deixar aqui? Bellamy comeou a transpirar ainda mais enquanto se esforava para soltar as mos. No vo me deixar nem tirar 
a venda?  
     - Socorro! - gritou ele. - Tem algum a?  
     Embora gritasse de pnico, Bellamy sabia que ningum iria escut-lo. Aquele imenso ambiente de vidro - conhecido como a Selva - ficava totalmente isolado quando 
as portas eram fechadas.  
     Eles me deixaram na Selva, pensou ele. Ningum vai me encontrar at de manh. 
     Foi ento que ele escutou.  
     O som era quase inaudvel, porm o aterrorizou mais do que qualquer outro que tivesse escutado na vida. Alguma coisa est respirando. Muito perto.  
     Ele no estava sozinho no banco.  
     O sbito chiado de um fsforo crepitou to prximo de seu rosto que ele pde sentir o calor da chama. Bellamy se encolheu, puxando com fora as algemas, instintivamente. 
     Ento, sem aviso, a mo de algum tocou seu rosto e retirou a venda.  
     A chama  sua frente se refletiu nos olhos negros de Inoue Sato enquanto ela pressionava o fsforo no cigarro que lhe pendia da boca, a poucos centmetros do 
rosto de Bellamy. 
     Sob a luz do luar que atravessava o telhado de vidro, ela o encarou com dio.  Parecia satisfeita em ver seu medo.  
     - Ento, Sr. Bellamy - disse Sato, sacudindo o fsforo para apag-lo -, por onde ns vamos comear?   
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 70
     
     Um quadrado mgico. Enquanto olhava para o quadrado numerado na gravura de Drer, Katherine assentiu. A maioria das pessoas teria pensado que o professor havia 
perdido a razo, mas ela logo se deu conta de que Langdon estava certo. 
     O termo quadrado mgico no se referia a algo mstico, e sim matemtico: era como se chamava uma grade de nmeros ordenada de tal forma que as fileiras, colunas 
e diagonais, somadas, dessem o mesmo resultado. Mas ainda havia quem acreditasse que aqueles quadrados, criados cerca de 4 mil anos atrs por matemticos do Egito 
e da ndia, fossem dotados de poderes mgicos. Katherine tinha lido que, mesmo hoje em dia, indianos devotos desenhavam em seus altares de puja quadrados especiais 
de trs por trs chamados Kubera Kolam. O homem moderno, porm, os havia relegado  categoria da "matemtica recreativa", e algumas pessoas ainda tinham prazer em 
buscar novas configuraes "mgicas". Sudoku para gnios.  
     Katherine analisou rapidamente o Quadrado de Drer, somando os nmeros nas diversas fileiras e colunas.    
     
     
     
     - Trinta e quatro - disse ela. - Em qualquer direo, a soma d 34.  
     - Exato - disse Langdon. - Mas voc sabia que este quadrado mgico  famoso porque Drer fez algo que parecia impossvel?  
     Ele mostrou a Katherine que, alm de fazer a soma das fileiras, colunas e diagonais ser igual a 34, Drer tambm fizera os quatro quadrantes, os quatro quadrados 
centrais e at os quatro quadrados dos cantos somarem esse mesmo nmero.
     - Mas o mais incrvel foi Drer ter conseguido posicionar os nmeros 15 e 14 juntos na fileira de baixo para indicar o ano em que realizou essa proeza!  
     Katherine correu os olhos pelos nmeros, maravilhada com todas as combinaes.  
     O tom de Langdon foi ficando mais animado:  
     - Melancolia I representa um marco, a primeira vez na histria em que um quadrado mgico  retratado na arte europia. Alguns historiadores acreditam que essa 
foi a maneira codificada que Drer encontrou para indicar que os Antigos Mistrios haviam ultrapassado as fronteiras das Escolas de Mistrios egpcias e eram agora 
guardados pelas sociedades secretas da Europa. - Langdon fez uma pausa. - O que nos traz de volta a... isto aqui.  
     Ele indicou com um gesto o pedacinho de papel com a grade de letras da pirmide de pedra.   
     
     
     
     - Imagino que a disposio agora lhe parea familiar - arriscou Langdon.  
     - Um quadrado de quatro por quatro.  Langdon pegou o lpis e copiou cuidadosamente no pedao de papel o quadrado mgico numerado de Drer, bem ao lado do que 
continha as letras da pirmide. Katherine percebeu ento como aquilo seria fcil. Ele ficou parado, com o lpis na mo, mas... estranhamente, depois de todo aquele 
entusiasmo, pareceu hesitar.  
     - Robert?  
     Ele se virou para Katherine com uma expresso de ansiedade. 
     - Voc tem certeza de que quer fazer isso? Peter disse expressamente...  
     - Robert, se voc no quiser decifrar a inscrio, eu decifro. - Ela estendeu a mo para apanhar o lpis.  
     Langdon viu que no havia como dissuadi-la, ento aquiesceu, tornando a se concentrar na pirmide. Com cuidado, superps o quadrado mgico  grade de letras 
e atribuiu um nmero a cada uma delas. Em seguida, criou outra grade, colocando as letras da cifra manica na nova ordem definida pela seqncia do quadrado mgico 
de Drer.
     Quando Langdon terminou, os dois examinaram o resultado.  
      
     
     
     
     Katherine ficou confusa na mesma hora. 
     - Continua incompreensvel.  
     Langdon permaneceu calado por alguns instantes.  
     - Na verdade, Katherine, no continua, no. - Os olhos dele tornaram a brilhar com a emoo da descoberta. - Isto ... latim.  
     
     O velho cego avanava com seus passos arrastados por um longo e escuro corredor em direo a seu escritrio. Quando enfim chegou l, se deixou cair sobre a 
cadeira diante da escrivaninha, os ossos frgeis gratos pelo descanso. Sua secretria eletrnica apitava. Ele apertou o boto e escutou.
     "Aqui  Warren Bellamy", disse o sussurro abafado de seu velho amigo e irmo maom. "Infelizmente, tenho notcias alarmantes..."  
     
     Os olhos de Katherine Solomon voltaram  grade de letras, examinando mais uma vez o texto. De fato, uma palavra agora se materializava diante de seus olhos. 
Jeova.   
     
     
     
     Katherine nunca tinha estudado latim, mas conhecia aquela palavra por ter lido textos hebraicos antigos. Jehovah. Ela continuou a leitura, se surpreendendo 
ao perceber que entendia o texto inteiro.   
     Jeova Sanctus Unus.  
     Soube na mesma hora o que aquilo queria dizer. A frase era onipresente nas tradues modernas da escritura hebraica. Na Tor, o Deus dos hebreus era conhecido 
por muitos nomes - Jehovah, Jeshua, Yahweh, a Fonte, o Elohim -, mas muitas tradues romanas haviam consolidado essa nomenclatura confusa numa nica frase em latim: 
Jeova Sanctus Unus.  
     - nico Deus Verdadeiro? - sussurrou ela para si mesma. - A expresso certamente no se parecia com algo que pudesse ajud-los a encontrar seu irmo. -  essa 
a mensagem secreta da pirmide? nico Deus Verdadeiro? Pensei que isto aqui fosse um mapa.  
     Langdon tambm parecia perplexo, a animao em seus olhos dando lugar  decepo.  
     - A interpretao evidentemente est correta, mas...  
     O homem que est com meu irmo quer saber uma localizao. - Ela ajeitou os cabelos atrs das orelhas. - Duvido que ele v ficar muito contente com isto aqui. 
     - Katherine - falou Langdon. - Eu j temia isso. Passei a noite inteira com a sensao de que estamos tratando uma coleo de mitos e alegorias como realidade. 
Talvez esta inscrio indique uma localizao metafrica... e nos diga que o potencial humano s pode ser alcanado por meio do nico Deus Verdadeiro.  
     - Mas isso no faz sentido! - retrucou Katherine, seu maxilar contrado de frustrao. - A minha famlia passou geraes protegendo esta pirmide! nico Deus 
Verdadeiro?  esse o segredo? E a CIA considera isso uma questo de segurana nacional? Ou eles esto mentindo ou ns no estamos percebendo algum detalhe!  
     Langdon encolheu os ombros, concordando com ela. 
     Nesse exato instante, seu telefone comeou a tocar.  
     
     Em um escritrio bagunado, cheio de livros antigos, o velho se curvava sobre a escrivaninha, segurando o fone com fora na mo artrtica.  
     O telefone para o qual ligara chamou diversas vezes.  
     Por fim, uma voz atendeu.  
     - Al? - A voz era grave mas hesitante. 
     O velho sussurrou:  
     - Soube que o senhor precisa de abrigo.  
     O homem do outro lado da linha soou espantado. 
     - Quem est falando? Warren Bell...    
     - Sem nomes, por favor - disse o velho. - Me diga, o senhor conseguiu proteger o mapa que lhe foi confiado?  
     Houve uma pausa de espanto.  
     - Consegui... mas no acho que isso tenha importncia. Ele no diz muita coisa. Se for mesmo um mapa, parece mais metafrico do que...  
     - No, a pirmide  um mapa de verdade, eu garanto. E indica um lugar real.   preciso proteg-lo. No h como enfatizar suficientemente a importncia disso. 
O senhor est sendo perseguido, mas, se conseguir chegar sem ser visto at onde eu estou, poderei lhe dar abrigo... e respostas.  
     O homem titubeou, parecendo desconfiado.  
     - Meu amigo - comeou o velho, escolhendo as palavras com cuidado.  - Existe em Roma um refgio, ao norte do Tibre, que contm 10 pedras do monte  Sinai, uma 
do prprio cu e outra com o semblante do pai obscuro de Luke. O senhor entende a minha localizao?  
     Houve uma pausa comprida do outro lado da linha, e ento Langdon respondeu:  
     - Entendo, sim.  
     O velho sorriu. Achei que fosse entender, professor.  
     - Venha agora mesmo. Certifique-se de no estar sendo seguido.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  71
     
     Mal'akh estava em p na quentura enfumaada de seu chuveiro. Depois de lavar o que restava do cheiro de etanol, sentia-se novamente limpo, os poros se abrindo 
com o calor. Ento deu incio a seu ritual.  Primeiro, esfregou depilatrios qumicos pelo corpo e pelo couro cabeludo tatuados, retirando qualquer vestgio de pelos. 
Imberbes eram os deuses das sete ilhas de Helades. Em seguida, massageou leo de Abramelin sobre a pele macia. Abramelin  o leo sagrado dos grandes Magos. Por 
fim, girou a alavanca do chuveiro com fora para a esquerda, deixando a gua gelada cair em seu corpo. Permaneceu um minuto inteiro debaixo da ducha fria para fechar 
os poros e guardar l dentro o calor e a energia. O frio servia para lembr-lo do rio gelado em que havia comeado sua transformao.  
     Estava tremendo quando saiu do chuveiro, mas em segundos o calor dentro dele subiu pelas camadas de sua carne para aquec-lo. As entranhas de Mal'akh pareciam 
uma fornalha. Ele parou nu diante do espelho e admirou a prpria forma. Aquela poderia ser a ltima vez que veria a si mesmo como um simples mortal. 
     Seus ps eram as garras de um gavio. Suas pernas - Hoaz e Jaquim -, os antigos pilares da sabedoria. A virilha e o abdmen eram as arcadas do poder mstico. 
Pendendo sob essa arcada, o imenso sexo exibia os smbolos tatuados de seu destino. Em outra vida, aquele pesado basto de carne tinha sido sua fonte de prazer carnal. 
Mas agora no mais.  Eu fui purificado. 
     Assim como os monges eunucos msticos de Katharoi, Mal'akh havia removido os prprios testculos. Sacrificara sua potncia fsica em troca de outra mais valiosa. 
Os deuses no tm sexo. Depois de se livrar daquela imperfeio humana juntamente com o impulso terreno da tentao sexual, Mal'akh se igualara a Urano, tis, Sporus 
e aos grandes mgicos castrati da lenda arturiana. Toda metamorfose espiritual  precedida por outra, fsica. Era essa a lio de todos os grandes deuses... Osris, 
Tammuz, Jesus, Shiva e at mesmo o prprio Buda.  
     Devo me despir da vestimenta de homem. 
     De repente, Mal'akh dirigiu o olhar para cima, passando pela fnix de duas cabeas em seu peito, pelo mosaico de antigos sigilos que lhe adornava o rosto, at 
chegar ao topo da cabea. Inclinou-a na direo do espelho, mal conseguindo ver o crculo de pele no tatuada que aguardava ali. Aquele lugar era sagrado. Conhecido 
como fontanela, era a nica rea do crnio humano que ainda no se encontrava ossificada no nascimento. Uma janela para o crebro. Embora esse portal fisiolgico 
se fechasse em poucos meses, ele continuava sendo um vestgio simblico da conexo perdida entre os mundos exterior e interior. 
     Mal'akh analisou aquele trecho sagrado de pele virgem, rodeado por um ouroboros - uma serpente mstica devorando o prprio rabo. A pele nua pareceu retribuir 
seu olhar... brilhando de promessa. 
     Robert Langdon logo iria desvendar o grande tesouro de que Mal'akh precisava. Quando o obtivesse, o vazio no topo de sua cabea seria preenchido, e ele finalmente 
estaria pronto para a transformao final. 
     Mal'akh atravessou descalo seu quarto de dormir e retirou da ltima gaveta da cmoda uma longa faixa de seda branca. Como j havia feito diversas vezes, enrolou-a 
em volta do sexo e das ndegas. Ento desceu para o andar de baixo. 
     Foi at o escritrio e abriu o computador para checar seus e-mails. 
     Seu contato acabara de lhe enviar uma mensagem:  
     
     AQUILO DE QUE VOC PRECISA J EST AO ALCANCE.
     ENTRAREI EM CONTATO DAQUI A NO MXIMO UMA HORA. PACINCIA.
     
     Mal'akh sorriu. Estava na hora dos ltimos preparativos. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  72
     
     O agente de campo da CIA estava de mau humor ao descer da galeria da sala de leitura. Bellamy mentiu para ns. No tinha encontrado nenhuma assinatura trmica 
l em cima, nem perto da esttua de Moiss nem em nenhum outro lugar. 
     Onde Langdon foi parar, cacete? 
     O agente ento refez seus passos at o nico local em que tinha visto alguma assinatura trmica - o centro de distribuio da biblioteca. Tornou a descer a 
escada que saa do armrio octogonal. Enquanto se embrenhava l dentro, ps os culos trmicos e vasculhou a rea. Nada. Olhou na direo das estantes, onde a porta 
destruda ainda aparecia quente por causa da exploso. Fora isso, no viu...  
     Puta merda! 
     O agente deu um pulo para trs quando uma luminescncia inesperada surgiu no seu campo de viso. Como dois fantasmas, as impresses levemente brilhantes de 
duas formas humanas haviam acabado de emergir da parede sobre uma esteira rolante. Assinaturas trmicas. 
     Atnito, o agente ficou olhando as duas aparies darem a volta na sala, fazendo o circuito da esteira, e depois mergulharem de cabea em um buraco  estreito 
na parede. Eles saram daqui na esteira? Que loucura. 
     Alm de descobrir que Robert Langdon tinha acabado de despist-los fugindo por um pequeno tnel, o agente de campo percebeu outra coisa. Langdon no est sozinho? 
     Estava prestes a ligar o rdio para chamar o lder da equipe quando recebeu um chamado dele. 
     - Ateno, todos os postos, temos um Volvo abandonado em frente  biblioteca. Registrado em nome de Katherine Solomon. Uma testemunha ocular afirma que uma 
mulher entrou na biblioteca h pouco. Desconfiamos que esteja com Robert Langdon. A diretora Sato deu ordens para encontrar os dois imediatamente.   
     - Achei assinaturas trmicas dos dois! - gritou o agente que estava na sala de distribuio, explicando em detalhes o que havia descoberto.  
     - Pelo amor de Deus! - retrucou o lder da equipe. - Para onde vai essa esteira? 
     O agente de campo j estava consultando um diagrama sobre a rea de circulao das esteiras afixado no quadro de avisos dos funcionrios.  
     - Para o Adams Building - respondeu ele. - A um quarteiro daqui.  
     - Ateno, todos os postos. Redirecionamento para o Adams Building!  AGORA!  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  73
     
     Abrigo. Respostas.  As duas palavras ecoavam na mente de Langdon enquanto ele e Katherine saam correndo por uma porta lateral do Adams Building e adentravam 
a fria noite de inverno. O misterioso homem do telefonema lhes revelara sua localizao de forma cifrada, mas Langdon tinha entendido. A reao de Katherine ao saber 
para onde eles estavam indo fora surpreendentemente otimista: Que melhor lugar para encontrar o nico Deus Verdadeiro?  
     Agora a questo era como chegar l.  
     Langdon girou o corpo, tentando se localizar. Estava escuro, mas felizmente as nuvens haviam se dissipado. Os dois estavam num pequeno ptio. Dali, o domo do 
Capitlio parecia espantosamente distante, e Langdon percebeu que era a primeira vez que saa ao ar livre em muitas horas, desde que chegara ao Capitlio.  
     E eu achei que ia dar uma simples palestra.  
     - Robert, olhe ali. - Katherine apontou para a silhueta do Jefferson Building.  
     A primeira reao de Langdon ao ver o prdio foi de espanto por terem percorrido uma distncia to grande sobre a esteira rolante. A segunda, porm, foi de 
alarme. O Jefferson Building formigava de atividade - caminhes e carros chegando, homens gritando. Aquilo  um holofote?  
     Langdon agarrou a mo de Katherine. 
     - Vamos.  
     Eles atravessaram correndo o ptio na direo nordeste, sumindo rapidamente de vista por trs de um elegante prdio em forma de U, que Langdon percebeu ser 
a Biblioteca Folger, especializada na obra de Shakespeare. Aquele prdio especfico parecia um esconderijo bem adequado para eles naquela noite, j que abrigava 
o manuscrito original em latim da Nova Atlntida, de Francis Bacon, a viso utpica que os pais fundadores dos Estados Unidos tinham supostamente usado como modelo 
para um novo mundo baseado no saber antigo. Apesar disso, Langdon preferiu deixar a visita para outra ocasio.  
     Precisamos de um txi.  
     Chegaram  esquina da Rua 3 com a East Capitol. Havia pouco trfego e, quando Langdon olhou em volta  procura de um txi, sentiu suas esperanas murcharem. 
Ele e Katherine saram correndo pela Rua 3 na direo norte, afastando-se mais ainda da Biblioteca do Congresso. Foi s depois de percorrerem um quarteiro inteiro 
que Langdon finalmente viu um txi dobrando a esquina. Fez sinal para o motorista e o txi encostou.  
     O rdio tocava uma msica do Oriente Mdio e o jovem taxista rabe lhes  lanou um sorriso acolhedor.  
     - Para onde? - perguntou ele quando os dois pularam para dentro do carro.  
     - Temos que ir para...  
     - L! - interrompeu Katherine, apontando para noroeste, na direo contrria ao Jefferson Building. - Siga at a Union Station, depois vire  esquerda na Massachusetts 
Avenue. A gente avisa quando for parar.  
     O taxista deu de ombros, fechou a divisria e tornou a pr a msica. 
     Katherine lanou um olhar repreensivo para Langdon como quem diz: "No podemos deixar rastros". Apontou pela janela, chamando a ateno de Langdon para um helicptero 
preto que se aproximava dali voando baixo. Merda. Pelo jeito, Sato estava decidida a recuperar a pirmide de Solomon.
     Enquanto assistiam ao helicptero aterrissar entre o Jefferson e o Adams  Building, Katherine se virou para ele, parecendo cada vez mais aflita. 
     - Posso ver seu celular um segundo?  
     Langdon lhe passou o telefone.  
     - Peter comentou comigo que voc tem uma memria espetacular - disse ela, abrindo a janela. - E que se lembra de todos os nmeros que j discou na vida.  verdade? 
     -  verdade, mas...  
     Katherine arremessou o aparelho para fora do carro. Langdon se virou no banco e viu o celular dar uma cambalhota e se espatifar ao atingir o asfalto atrs deles. 
     - Por que voc fez isso?  
     - Para nos tirar do radar - disse Katherine com uma expresso grave. - Essa pirmide  nossa nica esperana de encontrar meu irmo, e eu no tenho a menor 
inteno de deixar a CIA roub-la de ns.  
     
     No banco da frente, Omar Amirana balanava a cabea e cantarolava ao ritmo da msica. A noite tinha sido fraca e ele se sentia abenoado por ter finalmente 
conseguido uma corrida. Seu txi estava passando em frente ao Stanton Park quando a conhecida voz da atendente de sua empresa chiou no rdio:  
     - Aqui  a central. Ateno todos os carros nas imediaes do National Mall.  Acabamos de receber um boletim de autoridades do governo sobre dois fugitivos 
na rea do Adams Building...  
     Omar escutou, atnito, enquanto a central descrevia justamente o casal sentado no seu txi. Ele lanou um olhar nervoso pelo retrovisor. O passageiro alto no 
lhe era estranho. Ser que eu j vi esse cara naquele programa de TV sobre os bandidos mais procurados do pais?  
     Discretamente, Omar estendeu a mo para apanhar o rdio.  
     - Central? - disse ele, falando baixinho no aparelho. - Aqui  o carro 134.  Essas duas pessoas que vocs acabaram de descrever... estou com elas no meu txi... 
agora.  
     A central imediatamente informou a Omar o que fazer. As mos do taxista tremiam ao discar o nmero que lhe deram. A voz que atendeu era precisa e eficiente, 
como a de um soldado.  
     - Aqui  o agente Turner Simkins, do comando de operaes da CIA. Quem fala?  
     - H ... O taxista - respondeu Omar. - Me disseram para ligar sobre...  
     - Os fugitivos esto dentro do seu veculo agora? Responda apenas sim ou no.  
     - Sim.  - Eles esto ouvindo esta conversa? Sim ou no?  
     - No. A divisria est...  
     - Para onde o senhor est levando os dois?  
     - Estamos na Massachusetts, direo noroeste.  
     - O destino exato?  
     - Eles no falaram.  
     O agente hesitou.  
     - Um dos passageiros est carregando uma bolsa de couro?
     Omar olhou pelo retrovisor, e seus olhos se arregalaram.  
     - Sim! Essa bolsa no est cheia de explosivos nem nada do...
     - Oua com ateno - disse o agente. - Contanto que siga exatamente as  minhas instrues, o senhor no correr perigo. Est claro?    
     - Sim, senhor.  
     - Qual  o seu nome?  
     - Omar - respondeu o taxista, comeando a suar.  
     - Omar, escute - falou o homem com calma. - Voc est indo bem. Quero  que dirija o mais lentamente possvel enquanto eu mando minha equipe para a. Entendido? 
     - Sim, senhor.  
     - Mais uma coisa: seu txi tem um sistema de interfone para voc se comunicar com os passageiros no banco de trs? 
     - Sim, senhor.  
     - timo. Quero que faa o seguinte...  
     
     CAPTULO  74
     
     A Selva, como  conhecida,  o maior destaque do U.S. Botanic Garden (USBG), o Jardim Botnico dos Estados Unidos, um museu vivo situado ao lado do prdio do 
Capitlio. Tecnicamente uma floresta tropical, a Selva fica dentro de uma imensa estufa e abriga seringueiras gigantescas, figueiras estranguladoras e uma passarela 
suspensa para os turistas mais ousados.  
     Em geral, Warren Bellamy se sentia reconfortado pelo cheiro de terra da Selva e pela luz do sol cintilando atravs da bruma que descia dos vaporizadores no 
telhado de vidro. Naquela noite, contudo, iluminada apenas pelo luar, a Selva parecia aterrorizante. Ele suava em bicas e se contorcia por causa das cibras que 
castigavam seus braos, presos dolorosamente s costas.  
     A diretora Sato andava de um lado para outro diante dele, fumando calmamente seu cigarro - um ato de ecoterrorismo naquele ambiente cuidadosamente controlado. 
Seu rosto parecia quase demonaco sob o luar enfumaado que descia pelo telhado de vidro.  
     - Ento - continuou Sato -, quando o senhor chegou ao Capitlio hoje  noite e descobriu que eu j estava l... tomou uma deciso. Em vez de me informar sobre 
sua presena, o senhor desceu discretamente at o SBB, onde, correndo um grande risco pessoal, atacou o chefe Anderson e a mim, ajudando Langdon a fugir com a pirmide 
e o cume. - Ela esfregou o ombro. - Uma escolha interessante.  
     Da qual no me arrependo, pensou Bellamy.   
     - Onde est Peter? - indagou o Arquiteto com raiva.  
     - Como  que eu vou saber? - rebateu Sato.  
     - A senhora parece saber todo o resto! - retrucou Bellamy, sem tentar esconder sua suspeita de que ela estava de alguma forma por trs daquilo tudo. - A senhora 
sabia que precisava ir at o Capitlio. Sabia que precisava encontrar Robert Langdon. E sabia at que podia encontrar o cume dentro da bolsa dele.  bvio que algum 
est lhe dando muitas informaes secretas.  
     Sato deu uma risada fria e se aproximou dele.  
     - Sr. Bellamy, foi por isso que o senhor me atacou? Acha que o inimigo sou eu? Acha que eu estou tentando roubar a sua piramidezinha? - Sato deu uma tragada 
no cigarro e soltou a fumaa pelas narinas. - Oua bem. Ningum entende melhor do que eu a importncia de guardar segredos. Assim como o senhor, eu tambm acredito 
que existem determinadas informaes que as massas no devem conhecer. Hoje  noite, porm, h foras em jogo que infelizmente acho que o senhor ainda no compreendeu. 
O homem que seqestrou Peter Solomon tem um poder enorme... do qual o senhor ainda no se deu conta. Pode acreditar em mim, ele  uma bomba-relgio ambulante, capaz 
de desencadear uma srie de acontecimentos que mudaro profundamente o mundo tal como o senhor o conhece.  
     - No estou entendendo. - Bellamy se remexeu no banco, seus braos algemados doendo.  
     - O senhor no precisa entender. S precisa obedecer. Neste momento, minha nica esperana de evitar um enorme desastre  cooperar com esse homem... e seguir 
as instrues dele tim-tim por tim-tim. O que significa que o senhor vai ligar para o Sr. Langdon e dizer a ele para se entregar, juntamente com a pirmide e o cume. 
Quando Langdon estiver sob minha custdia, vai decifrar a inscrio da pirmide, obter a informao que esse homem est exigindo e lhe dar exatamente o que ele quer. 
     A localizao da escada em caracol que conduz aos Antigos Mistrios?  
     - Eu no posso fazer isso. Fiz voto de segredo.  
     Sato se enfureceu.  
     - Estou pouco me lixando para o voto que o senhor fez, e vou jog-lo na cadeia to depressa...  
     - Pode me ameaar quanto quiser - disse Bellamy em tom desafiador. - Eu no vou ajud-la.  
     Sato respirou fundo e sua voz se transformou num sussurro medonho.  
     - Sr. Bellamy, o senhor no faz a menor idia do que est acontecendo esta noite, no ?    
     Um silncio tenso pairou por vrios segundos, sendo finalmente quebrado pelo toque do telefone de Sato. Ela mergulhou a mo no bolso para peg-lo, ansiosa. 
     - Diga - atendeu, escutando a resposta com ateno. - Onde est o txi agora?  Quanto tempo? Certo, timo. Traga os dois para o Jardim Botnico. Entrada de 
servio. E no se esquea de pegar a maldita pirmide e o cume.  
     Sato desligou e tornou a se virar para Bellamy com um sorriso presunoso. 
     - Bom... parece que sua utilidade est se esgotando depressa.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  75
     
     Robert Langdon fitava o vazio com um olhar inexpressivo, cansado demais para insistir que o vagaroso taxista andasse mais rpido. Ao seu lado, Katherine tambm 
estava em silncio, parecendo frustrada por eles no terem entendido o que tornava a pirmide to especial. Haviam repassado novamente os estranhos acontecimentos 
da noite, assim como tudo o que sabiam sobre a pirmide e o cume. Mesmo assim, continuavam sem compreender como aquela pirmide podia ser um mapa de onde quer que 
fosse.  
     Jeova Sanctus Unus? O segredo se esconde dentro da Ordem?
     Seu misterioso contato lhes prometera respostas caso eles conseguissem encontr-lo em um lugar especfico. Um refgio em Roma, ao norte do Tibre. Langdon sabia 
que a "nova Roma" dos pais fundadores tinha sido rebatizada de Washington no incio de sua histria, mas ainda restavam vestgios desse sonho original: as guas 
do Tibre ainda corriam para o Potomac; senadores se reuniam sob uma rplica do domo de So Pedro; e Vulcano e Minerva protegiam  a chama havia muito extinta da Rotunda. 
     As respostas que Langdon e Katherine buscavam aparentemente os aguardavam a poucos quilmetros dali. Rumo noroeste pela Massachusetts Avenue. Seu destino era 
de fato um refgio... ao norte do Tiber Creek, um antigo riacho que atualmente corria por debaixo de Washington. Langdon desejou que o motorista fosse mais ligeiro. 
     De repente, Katherine se sobressaltou como se atingida por uma sbita revelao.  
     - Ai, meu Deus, Robert! - Ela se virou para encar-lo e seu rosto ficou branco. Depois de hesitar alguns instantes, falou com veemncia: - Ns estamos indo 
para o lugar errado!   
     - No, est certo - retrucou Langdon. - Para noroeste pela Massachu...  
     - No! Quero dizer que estamos indo para o lugar errado! 
     Langdon ficou confuso. J revelara a Katherine o local descrito pelo misterioso homem do telefonema. O lugar contm 10 pedras do monte Sinai, uma do prprio 
cu e outra com o semblante do pai obscuro de Luke. Somente um lugar na Terra correspondia a essa descrio. E era exatamente para l que o txi estava indo.  
     - Katherine, eu tenho certeza de que a localizao est correta.  
     - No! - gritou ela. - Ns no precisamos mais ir para l. Eu entendi a pirmide e o cume! Sei o que isso tudo quer dizer! 
     Langdon estava pasmo. 
     - Voc entendeu?  
     - Entendi! Ns temos que ir  para a Freedom Plaza! 
     Agora Langdon no estava entendendo mais nada. A Freedom Plaza, embora ficasse ali perto, parecia totalmente irrelevante. 
     - Jeova Sanctus Unus! - disse Katherine. - O nico Deus Verdadeiro dos hebreus, cujo smbolo sagrado  a estrela judaica, ou Selo de Salomo, muito importante 
para os maons! - Ela fisgou uma nota de um dlar do bolso. - Me, d aqui sua caneta.  
     Perplexo, Langdon sacou uma caneta do palet. 
     - Veja bem. - Ela estendeu a nota sobre a coxa e pegou a caneta dele, apontando para o Grande Selo no verso. - Se sobrepusermos o Selo de Salomo e o Grande 
Selo dos Estados Unidos... - Ela desenhou uma estrela judaica bem em cima da pirmide. - Olhe s o que aparece! 
     Langdon baixou os olhos para a nota e tornou a olhar para Katherine como se ela estivesse louca. 
     - Robert, olhe com mais ateno! No est vendo o que eu estou apontando? Ele olhou novamente para o desenho. 
     
     
       
     Aonde ela est querendo chegar com isso? Langdon j vira aquela imagem antes. Ela era popular entre os partidrios de teorias da conspirao, que viam ali uma 
"prova" de que os maons tiveram uma influncia secreta sobre a nao durante os seus primrdios. Quando a estrela de seis pontas era colocada exatamente sobre o 
Grande Selo dos Estados Unidos, o vrtice superior dela se encaixava perfeitamente em cima do olho manico que tudo v... e de modo um tanto sinistro os outros 
cinco vrtices apontavam claramente para as letras M-A-S-O-N, formando a palavra "maom" em ingls. 
     - Katherine, isso  s uma coincidncia, e ainda no entendo como a Freedom Plaza entra nessa histria. 
     - Olhe de novo! - disse ela, quase zangada quela altura. - Voc no est olhando para onde eu estou apontando! Bem aqui. No est vendo?  No instante seguinte, 
Langdon viu. 
     O lder da equipe de campo da CIA, Turner Simkins, estava parado em frente ao Adams Building com o celular bem apertado junto  orelha, esforando-se para ouvir 
a conversa no banco traseiro do txi. Alguma coisa acabou de acontecer. Sua equipe estava prestes a embarcar no helicptero modificado Sikorsky UH-60 para tomar 
a direo noroeste e bloquear a rua, mas agora a situao parecia ter mudado subitamente. 
     Segundos antes, Katherine Solomon tinha comeado a insistir que eles estavam indo para o lugar errado. A explicao dela - algo relacionado  nota de um dlar 
e a estrelas judaicas - no fez sentido para o lder da equipe e tampouco, ao que parecia, para Robert Langdon. Pelo menos no incio. O simbologista, no entanto, 
j parecia ter entendido o que ela queria dizer.  
     - Meu Deus, tem razo! - exclamou ele. - Eu no tinha visto isso! 
     De repente, Simkins ouviu algum batendo na divisria do motorista, que se abriu. 
     - Mudana de planos - gritou Katherine para o motorista. - Leve-nos para a Freedom Plaza! 
     - Freedom Plaza? - disse o taxista, nervoso. - No vamos mais para noroeste pela Massachusetts?  
     - Esquea isso! - gritou Katherine. - Vamos para a Freedom Plaza! Dobre  esquerda aqui! Aqui! AQUI! 
     O agente Simkins ouviu o txi fazer uma curva cantando pneu. Katherine estava novamente falando com Langdon, animada, dizendo alguma coisa sobre o famoso Grande 
Selo gravado em bronze no cho da praa.   
     - Senhora, s para confirmar - interveio a voz do taxista, tensa. - Estamos  indo para a Freedom Plaza... na esquina da Pennsylvania com a 13? 
     - Isso! - disse Katherine. - Rpido!  
     - Fica bem perto. Dois minutos.  
     Simkins sorriu. Muito bem, Omar. Enquanto corria em direo ao helicptero j ligado, ele gritou para a equipe:  
     - Pegamos eles! Freedom Plaza! Mexam-se!  
     
     CAPTULO  76
     
     A Freedom Plaza  um mapa.  
     Situada na esquina da Pennsylvania Avenue com a Rua 13, a ampla superfcie de pedra da praa retrata as ruas de Washington como elas foram originalmente projetadas 
por Pierre L'Enfant. O local  um ponto turstico popular, no apenas por ser divertido caminhar sobre o gigantesco mapa, mas tambm porque Martin Luther King Jr., 
a quem o lugar devia o nome de "praa da liberdade", tinha escrito grande parte de seu discurso "Eu tenho um sonho" ali perto, no Hotel Willard.  
     Sendo taxista em Washington, Omar Amirana sempre levava turistas  Freedom Plaza, mas, naquela noite, era bvio que seus dois passageiros no eram visitantes 
comuns. A CIA est atrs deles? Omar mal teve tempo de parar junto ao meio-fio antes de o casal saltar do carro.  
     - No saia daqui! - disse o homem de palet de tweed para Omar. - Ns voltamos j!  
     Omar viu os dois sarem correndo pela vastido do imenso mapa, apontando e gritando enquanto examinavam a geometria de ruas entrecruzadas. Omar agarrou o celular 
que estava em cima do painel.  
     - Senhor, ainda est a?  
     - Sim, Omar! - exclamou uma voz quase inaudvel, tamanho o barulho do  outro lado da linha. - Onde eles esto agora?  
     - L fora, em cima do mapa. Parece que esto procurando alguma coisa.  
     - No os perca de vista - gritou o agente. - Estou quase chegando!  
     Omar ficou olhando os dois fugitivos encontrarem rapidamente o famoso Grande Selo da praa - um dos maiores medalhes de bronze jamais gravados. Passaram alguns 
instantes parados sobre ele e logo comearam a apontar para sudoeste. Ento o homem de tweed voltou correndo para o txi. Omar ps depressa o celular sobre o painel 
enquanto o outro chegava ofegante.  
     - Para que lado fica Alexandria, na Virgnia? - perguntou ele. 
     - Alexandria? - Omar apontou para sudoeste, mesma direo que a dupla  havia acabado de mostrar.  
     - Eu sabia! - sussurrou o homem, girando o corpo e gritando de volta para  a mulher: - Voc tem razo!  Alexandria!  
     A mulher ento indicou uma placa iluminada do outro lado da praa: METR. 
     - A linha azul vai direto para l. A nossa estao  a de King Street!  
     Omar foi invadido por uma onda de pnico. Ah, no.  
     O homem tornou a se virar para Omar e lhe entregou uma quantidade de notas muito superior ao preo da corrida.  
     - Obrigado. Ns vamos descer aqui. - Ele jogou a bolsa de couro sobre o ombro e saiu correndo.  
     - Esperem! Eu posso levar vocs! Vou l a toda hora!  
     Mas era tarde demais. Os dois j estavam atravessando a praa rapidamente.  Ento desapareceram escada abaixo, entrando na estao Metro Center. 
     Omar agarrou o celular.  
     - Senhor! Eles correram para dentro do metr! No consegui impedir! Vo pegar a linha azul para Alexandria!  
     - No saia da! - gritou o agente. - Estou chegando em 15 segundos!  
     Omar baixou os olhos para o mao de notas que o homem lhe entregara. A nota de cima parecia ser aquela em que eles estavam escrevendo. Tinha uma estrela judaica 
por cima do Grande Selo dos Estados Unidos. De fato, as pontas da estrela coincidiam com as letras da palavra MASON, "maom".
     Inesperadamente, Omar sentiu uma vibrao ensurdecedora  sua volta, como se um trator estivesse prestes a colidir com seu txi. Ergueu os olhos, mas  a rua 
estava deserta. O barulho aumentou e de repente um lustroso helicptero  preto desceu do cu noturno, aterrissando com grande impacto no meio do mapa da praa.  
     Um grupo de homens vestidos de preto desembarcou. A maioria saiu correndo em direo  estao de metr, mas um deles partiu direto para o txi de Omar, abrindo 
a porta do carona com violncia.  
     - Omar?  voc?  
     O taxista aquiesceu, incapaz de falar.  
     - Eles disseram para onde estavam indo? - perguntou o agente.  
     - Para Alexandria! Estao de King Street - respondeu prontamente. - Eu me ofereci para lev-los, mas...   
     - Eles disseram para onde em Alexandria estavam indo?  
     - No! Ficaram olhando o medalho do Grande Selo na praa, depois perguntaram sobre Alexandria e me pagaram com isto aqui. - Ele entregou ao agente a nota de 
um dlar com o bizarro diagrama desenhado. Enquanto o agente analisava a cdula, Omar de repente juntou as peas. Os maons! Alexandria! Uma das mais famosas construes 
manicas dos Estados Unidos ficava em Alexandria. -  isso! - disparou ele. - O Monumento Manico a George Washington! Ele fica bem em frente  estao de King 
Street!  
     -  isso - disse o agente, que aparentemente havia chegado  mesma concluso, enquanto o resto da equipe saa correndo da estao.  - Eles escaparam! - berrou 
um dos homens. - O trem da linha azul acabou de sair! Eles no esto l embaixo! 
     O agente Simkins verificou o relgio e tornou a se virar para Omar.  
     - Quanto tempo o metr leva at Alexandria?  
     - Uns 10 minutos, pelo menos. Provavelmente mais. 
     - Omar, voc fez um excelente trabalho. Obrigado.  
     - No h de qu. S queria saber por que toda essa perseguio.  
     Mas o agente Simkins j estava correndo de volta para o helicptero, aos gritos. 
     - Estao de King Street! Vamos chegar l antes deles!
     Atnito, Omar ficou olhando o grande helicptero preto levantar vo. O aparelho se inclinou abruptamente na direo sul, sobrevoou a Pennsylvania Avenue e, 
em seguida, partiu rugindo noite adentro.  
     
     Sob os ps do taxista, o trem do metr ganhava velocidade ao se afastar da Freedom Plaza. Sentados a bordo, Robert Langdon e Katherine Solomon, ofegantes, no 
trocaram uma s palavra enquanto o trem os conduzia rumo ao seu destino.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO  77
     
     A lembrana sempre comeava do mesmo jeito.  
     Ele estava caindo da ribanceira... despencando de costas em direo a um rio coberto de gelo. Acima dele, os impiedosos olhos cinzentos de Peter Solomon  olhavam 
para baixo por sobre o cano da pistola. Enquanto Andros caa, o mundo l em cima ia ficando menor, at que tudo desapareceu quando ele foi engolido pela bruma que 
se erguia da queda d'gua rio acima.  
     Por um instante tudo ficou branco, como o paraso. 
     Ento ele se chocou com o gelo.  
     Frio. Escurido. Dor.  
     Estava no meio de um turbilho... sendo arrastado por uma fora poderosa que  golpeava sem d contra as pedras em meio a um vazio inimaginavelmente glido. 
Seus pulmes ansiavam por ar, mas o frio fizera os msculos de seu peito se contrarem de forma to violenta que ele sequer conseguia inspirar.  
     Estou debaixo do gelo.  
     Aparentemente, o gelo perto da cascata era fino por causa da turbulncia da gua e Andros o atravessara ao cair. Agora, estava sendo levado correnteza abaixo, 
encurralado sob um teto transparente. Arranhou a superfcie inferior da parede de gelo para tentar se libertar, mas ela era lisa demais. A dor lancinante do buraco 
de bala em seu ombro estava evaporando, assim como a ardncia provocada pelo chumbinho. S restava o latejar insuportvel de seu corpo ficando dormente.  
     A correnteza, cada vez mais veloz, projetava-o em disparada por uma curva no rio. Seu corpo clamava por oxignio. De repente, se viu emaranhado em galhos, preso 
em uma rvore que cara dentro d'gua. Pense! Tateou freneticamente o galho para subir em direo  superfcie e encontrou o ponto onde este havia penetrado o gelo. 
As pontas de seus dedos encontraram o diminuto espao de gua ao redor do galho e ele forou as bordas, tentando aumentar o furo. Puxou uma vez, duas vezes, e a 
abertura comeou a crescer, ganhando vrios centmetros de largura.  
     Apoiando-se no galho, ele inclinou a cabea para trs e pressionou a boca  contra a pequena abertura. O ar de inverno que entrou em seus pulmes pareceu quente. 
A sbita dose de oxignio aumentou suas esperanas. Ele plantou os ps no tronco da rvore e empurrou com fora para cima, usando as costas e os ombros. O gelo em 
volta da rvore cada, perfurado por galhos e outros sedimentos, j estava enfraquecido e, quando ele forou as pernas musculosas contra o tronco, sua cabea e seus 
ombros conseguiram quebr-lo, fazendo Andros irromper na noite invernal. Seus pulmes se encheram de ar. Com a maior parte do corpo ainda submersa, ele se contorceu 
desesperadamente, fazendo fora com as pernas, puxando com os braos, at por fim conseguir sair da gua e se deitar, ofegante, em cima do gelo liso.  
     Andros arrancou o gorro de esqui ensopado e o guardou no bolso, olhando rio acima em busca de Peter Solomon. A curva do rio atrapalhava sua viso. Seu peito 
recomeou a arder. Sem fazer barulho, ele arrastou um pequeno galho e tapou o buraco no gelo. Quando o dia amanhecesse, a abertura j teria congelado novamente. 
     Enquanto Andros cambaleava para dentro do mato, comeou a nevar. Ele no fazia idia da distncia que havia corrido quando emergiu do meio do bosque para o 
acostamento inclinado de uma pequena rodovia. Estava com hipotermia, e sua mente delirava. Havia comeado a nevar mais forte e um solitrio par de faris surgiu 
ao longe. Andros acenou desesperado, e a caminhonete encostou na mesma hora. Tinha placa de Vermont. Um velho de camisa quadriculada vermelha saltou l de dentro. 
     Andros cambaleou na sua direo, segurando o peito que sangrava. 
     - Um caador... me deu um tiro! Preciso... de um hospital!
     Sem hesitar, o velho ajudou Andros a se acomodar no banco do carona da  caminhonete e aumentou a calefao.  
     - Onde fica o hospital mais prximo?  
     Andros nem desconfiava, mas apontou para o sul.  
     - Na prxima sada - improvisou. - Ns no vamos para hospital nenhum. 
     No dia seguinte, a polcia foi informada sobre o sumio do velho de Vermont,  mas ningum sequer imaginava em que parte do trajeto ele poderia ter desaparecido 
em meio  ofuscante tempestade de neve. Tampouco relacionaram seu desaparecimento  outra notcia que dominou as manchetes do dia seguinte: O chocante assassinato 
de Isabel Solomon.
     Quando Andros acordou, estava num quarto desenxabido de um hotel barato de beira de estrada que ficava fechado durante o inverno. Lembrava-se de t-lo arrombado 
e de ter amarrado os ferimentos com lenis rasgados. Depois afundara em uma cama frgil, debaixo de uma pilha de cobertores bolorentos, e simplesmente apagara. 
Agora estava faminto.  
     Foi mancando at o banheiro e viu a pilha de balas de chumbinho ensangentadas dentro da pia. Recordava-se vagamente de t-las extrado do peito. Erguendo os 
olhos para o espelho sujo, desfez com relutncia as ataduras que lhe envolviam o corpo para avaliar os estragos. A musculatura slida de seu peito e de seu abdmen 
havia impedido o chumbinho de penetrar fundo demais, mas, mesmo assim, seu corpo outrora perfeito estava arruinado pelos ferimentos. A nica bala disparada por Peter 
Solomon aparentemente atravessara seu ombro de fora a fora, deixando uma cratera coberta de sangue.  
     Para piorar as coisas, Andros no havia conseguido obter o objeto que viera de to longe para buscar. A pirmide. Sua barriga roncava e ele saiu mancando do 
quarto at a caminhonete do velho, torcendo para encontrar alguma comida. O veculo j estava todo coberto de neve, e Andros se perguntou quanto tempo passara dormindo 
naquele velho hotel. Graas a Deus eu acordei. No achou nada para comer na cabine, mas encontrou alguns analgsicos para artrite no porta-luvas. Tomou um punhado 
de comprimidos, engolindo-os com a ajuda de vrios punhados de neve.  
     Preciso de comida.  
     Algumas horas mais tarde, a caminhonete que saiu de trs do velho hotel em nada se parecia com a que ali chegara dois dias antes. No havia mais capota cobrindo 
a carroceria, nem calotas, nem adesivos no pra-choque, nem qualquer outro enfeite. As placas de Vermont haviam desaparecido, substitudas pelas de uma velha caminhonete 
de manuteno que Andros encontrara estacionada junto ao depsito de lixo do hotel, onde se livrara dos lenis ensangentados, das balas de chumbinho e de outros 
vestgios de que algum dia estivera ali.  
     Andros no havia desistido da pirmide, mas por enquanto ela teria de esperar. Ele precisava se esconder, se curar e, acima de tudo, comer. Encontrou uma lanchonete 
de beira de estrada onde se entupiu de ovos com bacon e batatas fritas e bebeu trs copos de suco de laranja. Ao terminar, pediu mais comida para viagem. De volta 
 estrada, Andros ficou escutando o velho rdio da caminhonete. No via televiso nem lia jornais desde a invaso da casa dos Solomon e, quando sintonizou uma estao 
de notcias local, a reportagem o deixou estupefato.  
     "Investigadores do FBI", anunciava o locutor, "continuam  procura do intruso responsvel pelo assassinato de Isabel Solomon anteontem em sua casa s margens 
do Potomac. Acredita-se que o assassino tenha cado no rio e sido arrastado para o mar."  
     Andros gelou. Assassinato de Isabel Solomon? Mudo de espanto, seguiu dirigindo enquanto escutava o resto da reportagem.  
     Estava na hora de ir para longe, bem longe dali.  
     
     O apartamento de Upper West Side tinha uma vista estonteante para o Central Park. Andros o havia escolhido porque o mar de verde  sua janela o fazia pensar 
na vista perdida do Adritico. Embora soubesse que deveria ficar feliz por estar vivo, no era isso que sentia. O vazio jamais o abandonara por completo, e ele se 
descobriu obcecado pela tentativa fracassada de roubar a pirmide de Peter Solomon.   
     Andros havia passado muitas horas pesquisando a lenda da Pirmide Manica. Embora no houvesse um consenso em relao  sua existncia, todos concordavam que 
ela prometia enorme conhecimento e poder. A Pirmide Manica  real, disse Andros a si mesmo. Minha informao privilegiada  irrefutvel.  
     O destino havia posto a pirmide ao alcance de Andros, e ele sabia que ignorar esse fato era como ter na mo um bilhete de loteria premiado e nunca ir buscar 
o prmio. Eu sou o nico no maom vivo a saber que a pirmide  real... e a conhecer a identidade do homem que a protege.  
     Meses se passaram e, embora seu corpo tivesse se curado, Andros no era mais o homem vaidoso que fora na Grcia. Havia parado de fazer musculao, e tambm 
de se admirar nu no espelho. Tinha a sensao de que seu fsico dava sinais de envelhecimento. Sua pele outrora perfeita era uma colcha de retalho de cicatrizes, 
o que o deixava ainda mais deprimido. Continuava dependente dos analgsicos que comeara a tomar quando fora ferido e sentia-se retomando aos poucos o mesmo estilo 
de vida que o fizera ir parar no presdio de Soganlik. Mas pouco se importava. O corpo precisa do que o corpo precisa.  
     Certa noite, ele estava no Greenwich Village comprando drogas quando reparou no longo relmpago tatuado no antebrao do traficante. Andros se interessou pela 
tatuagem, e o homem lhe disse que ela cobria uma longa cicatriz que arranjara num acidente de carro. 
     - Ver a cicatriz todos os dias me fazia lembrar do acidente - disse o traficante ento eu tatuei por cima um smbolo de poder pessoal. Da recuperei o controle. 
     Naquela noite, sob o efeito das drogas que havia acabado de comprar, Andros entrou cambaleando em um estdio de tatuagens e tirou a camisa. 
     - Quero esconder essas cicatrizes - anunciou. Quero recuperar o controle. 
     - Esconder? - O tatuador olhou para seu peito. - Com o qu? 
     - Com tatuagens.  
     - Sim... mas tatuagens de qu? 
     Andros deu de ombros, querendo apenas ocultar aqueles feios lembretes do passado. 
     - No sei. Escolha voc. 
     O tatuador fez que no com a cabea e entregou a Andros um folheto sob a antiga e sagrada tradio da tatuagem. 
     - Volte quando tiver decidido. 
     Andros descobriu que a Biblioteca Pblica de Nova York tinha em sua coleo 53 livros sobre tatuagem; em poucas semanas, leu todos eles. Depois de reencontrar 
a paixo pela 1eitura, comeou a ir e vir entre a biblioteca e seu apartamento com mochilas cheias de livros que devorava admirando a vista do Central Park.  
     Os livros sobre tatuagem abriram a porta de um estranho mundo que Andros nem sabia que existia - um mundo de smbolos, misticismo, mitologia e magia. Quanto 
mais ele lia, mais percebia como tinha sido cego. Comeou a preencher cadernos com idias, esboos e sonhos bizarros. Quando no conseguiu mais encontrar o que queria 
na biblioteca, entrou em contato com negociantes de livros raros e passou a encomendar alguns dos textos mais esotricos j escritos at ento. 
     De Praestigiis Daemonum... Lemegeton... Ars Almadel... Grimorium Verum... Ars Notoria... e assim por diante. Andros leu tudo, ficando cada vez mais seguro de 
que o mundo ainda tinha muitos tesouros a lhe oferecer. Existem segredos por a que transcendem a compreenso humana. 
     Foi ento que descobriu os escritos de Aleister Crowley, mstico visionrio do incio do sculo XX considerado pela Igreja "o homem mais malvolo de todos os 
tempos". As grandes mentes so sempre temidas pelas mais medocres. Andros aprendeu sobre o poder do ritual e da feitiaria. Aprendeu que as palavras sagradas, quando 
ditas da forma correta, funcionavam como chaves que abriam portais para outros mundos. Por trs deste universo, existe outro universo de sombras... um mundo do qual 
eu posso extrair poder. E, embora Andros ansiasse por esse poder, sabia que havia regras e tarefas a serem cumpridas antes.  
     Transformar-se em algo divino, escrevera Crowley. Tornar-se sagrado.  
     O antigo ritual da "sacralizao" j havia sido uma prtica comum. Desde os primeiros hebreus a queimar oferendas no templo, passando pelos maias que decapitavam 
seres humanos no topo da pirmide de Chichn Itz, at Jesus Cristo, que ofereceu o prprio corpo na cruz, os antigos compreendiam as exigncias divinas do sacrifcio. 
O sacrifcio era o rito original que possibilitava aos seres humanos carem nas graas dos deuses e se tornarem eles mesmos sagrados.  
     Sacrum - sagrado. 
     Fcio - fazer.  
     Muito embora o ritual do sacrifcio j tivesse sido abandonado havia muitas eras, seu poder perdurava. Diversos msticos modernos, incluindo Aleister Crowley, 
haviam praticado a Arte, aperfeioando-a com o tempo e transformando-se gradualmente em algo mais. Andros ansiava por ser como eles. Mas sabia que, para tanto, teria 
de atravessar uma ponte perigosa.  
     S o sangue separa a luz da escurido.  
     Certa noite, um corvo entrou voando pela janela do banheiro de Andros e ficou preso dentro do apartamento. Ele viu o pssaro voar agitado de um lado para outro 
e finalmente parar, aceitando sua incapacidade de fugir. Andros j aprendera o suficiente para reconhecer o sinal. Estou sendo chamado a avanar. 
     Agarrando o pssaro com uma das mos, postou-se diante do altar improvisado em sua cozinha e ergueu uma faca afiada, recitando em voz alta o feitio que sabia 
de cor. 
     - Camiach, Eomiahe, Emial, Macbal, Emoii, Zazean... pelos mais sagrados nomes dos anjos no Livro de Assamaian, eu os conjuro a me auxiliar nesta operao em 
nome do poder do nico Deus Verdadeiro. 
     Andros ento baixou a faca e, com muito cuidado, perfurou a grande veia na asa direita do pssaro aterrorizado. O corvo comeou a sangrar. Enquanto via o riacho 
de lquido vermelho escorrer para dentro do clice de metal, Andros sentiu uma inesperada friagem no ar. Ainda assim, prosseguiu. 
     - Poderosos Adonai, Arathron, Ashai, Elohim, Elohi, Elion, Asher Eheieh, Shaddai... venham em meu auxlio, para que este sangue tenha poder e eficcia em tudo 
aquilo que eu possa desejar e em tudo aquilo que eu venha a pedir.  
     Naquela noite, ele sonhou com pssaros... com uma gigantesca fnix que emergia de uma fogueira resplandecente. No dia seguinte, acordou com uma energia que 
no sentia desde a infncia. Foi se exercitar no parque e correu mais depressa e mais longe do que jamais poderia imaginar. Quando no conseguiu mais correr, comeou 
a fazer flexes e abdominais. Repetiu os exerccios incontveis vezes. Mesmo assim, ainda lhe restava energia.  
      noite, tornou a sonhar com a fnix.  
     
     O outono voltara a cair sobre o Central Park e os animais silvestres corriam pelo gramado em busca de comida para o inverno. Andros detestava o frio, mas ,sua 
proximidade fazia com que as armadilhas cuidadosamente escondidas capturassem com facilidade ratos e esquilos. Ele os levava para casa dentro da  mochila, executando 
rituais cada vez mais complexos.  
     Emanual, Massiach, Yod, He, Vaud... eu imploro, considerem-me digno. 
     Os rituais de sangue aumentavam sua vitalidade. Andros se sentia rejuvenescido. Continuava a passar dias e noites lendo - antigos textos msticos, poemas picos 
medievais, os filsofos primitivos - e, quanto mais aprendia sobre a verdadeira natureza das coisas, mais percebia que no havia esperana para a humanidade. Eles 
esto cegos... vagam sem rumo por um mundo que nunca iro compreender. 
     Andros ainda era um homem, mas sentia que estava se transformando em outra coisa. Algo mais grandioso. Sagrado. Seu fsico impressionante emergira mais vigoroso 
do que nunca do estado latente em que se encontrava. Ele finalmente compreendeu a verdadeira finalidade daquele corpo. Meu corpo no passa de um receptculo para 
o meu mais poderoso tesouro... minha mente.  
     Andros sabia que ainda no havia alcanado todo o seu potencial, de modo que foi mais fundo em sua busca. Qual  o meu destino? Todos os textos antigos falavam 
sobre o bem e o mal... e sobre a necessidade que o homem tinha de escolher um dos dois. J fiz minha escolha muito tempo atrs, sabia ele, embora no sentisse remorso. 
O que  o mal seno uma lei da natureza? A luz dava lugar  escurido. A ordem dava lugar ao caos. Entropia era fundamental. Tudo se deteriorava. Cristais perfeitamente 
ordenados com o tempo se transformavam em partculas aleatrias de poeira.  
     H aqueles que criam... e aqueles que destroem.  
     Foi s quando Andros leu Paraso Perdido, de Milton, que viu seu destino se materializar  sua frente. Ele leu sobre o grande anjo cado... o demnio guerreiro 
que combateu a luz... o mais valente... o anjo chamado Moloch.  
     Moloch andou pela Terra como um deus. Andros descobriria mais tarde que o nome do anjo, na lngua antiga, era Mal'akh.
     E eu tambm andarei.  
     Assim como todas as grandes transformaes, aquela deveria comear com um sacrifcio, mas no de ratos ou pssaros. No, aquela transformao exigia um sacrifcio 
de verdade.
     S existe um sacrifcio realmente digno. 
     De repente, ele entendeu tudo com absoluta clareza. Todo o seu destino havia se materializado. Passou trs dias fazendo esboos em uma gigantesca folha de papel. 
Ao terminar, tinha criado um plano daquilo em que se transformaria. Pendurou na parede o desenho em tamanho real e o admirou como se olhasse para um espelho.  
     Eu sou uma obra-prima.  
     No dia seguinte, levou o desenho at o estdio do tatuador. 
     Ele estava pronto.  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 78
     
     O Monumento Manico a George Washington fica no alto da colina de Shuter's Hill em Alexandria, na Virgnia. Construda em trs camadas distintas de crescente 
complexidade arquitetnica - drica, jnica e corntia - a estrutura representa um smbolo fsico da ascenso intelectual do homem. Inspirada no antigo Farol de 
Alexandria, no Egito, a alta torre  encimada por uma pirmide egpcia arrematada com um ornamento em forma de chama.
     O espetacular saguo de mrmore abriga uma imensa esttua de George Washington vestido com trajes manicos completos, alm da colher de pedreiro que usou para 
assentar a pedra angular do Capitlio. Acima do saguo, nove diferentes andares ostentam nomes como Grota, Sala da Cripta e Capela dos Templrios. Entre os tesouros 
guardados nesses espaos h mais de 20 mil volumes de escritos manicos, uma estonteante rplica da Arca da Aliana e at mesmo uma maquete da sala do trono do 
Templo do Rei Salomo.
     O agente Simkins da CIA conferiu o relgio enquanto o helicptero modificado UH-60 sobrevoava o Potomac em baixa altitude. Seis minutos para o metr chegar. 
Ele suspirou, olhando pela janela para o reluzente Monumento Manico no horizonte. Tinha de admitir que aquela torre de brilho intenso era to impressionante quanto 
qualquer outro prdio do National Mall. Simkins nunca tinha entrado ali, nem pretendia entrar naquela noite. Se tudo corresse como o planejado, Robert Langdon e 
Katherine Solomon nem chegariam a sair da estao de metr.
     - Ali! - gritou Simkins para o piloto, apontando para a estao de King Street, em frente ao monumento.
     O piloto inclinou o helicptero e aterrissou em uma ampla rea gramada ao p da Shuter's Hill.
     Pedestres surpresos ergueram os olhos quando Simkins e sua equipe saltaram do helicptero, atravessaram a rua e entraram correndo na estao. Na escadaria, 
vrios passageiros que vinham no sentido contrrio abriram caminho, colando-se s paredes enquanto a falange de homens armados vestidos de preto passava por eles 
com alarde.
     A estao de King Street era maior do que Simkins imaginava e, aparentemente, vrias linhas passavam por ali - a azul, a amarela e a da Amtrak. Ele correu at 
o mapa do metr afixado  parede, encontrou a Freedom Plaza e a linha que conduzia direto quela estao.
     - Linha azul, plataforma sentido sul! - gritou Simkins. - Desam at l e evacuem todo mundo! - Sua equipe saiu correndo.
     Simkins caminhou apressado at o guich, mostrou sua identificao e berrou para a mulher l dentro:
     - A que horas chega o prximo trem da estao Metro Center?
     A mulher fez cara de assustada.
     - No sei bem. A linha azul chega de 11 em 11 minutos.
     - H quanto tempo passou o ltimo trem?
     - Cinco... seis minutos, talvez. No mais do que isso.
     Turner fez as contas. Perfeito. O trem seguinte s podia ser o de Langdon.
     
     Dentro de um vago de metr em alta velocidade, Katherine Solomon se remexia no banco de plstico duro. As fortes luzes fluorescentes do teto irritavam seus 
olhos, e ela lutou contra o impulso de deixar as plpebras se fecharem, mesmo que apenas por um segundo. Sentado ao seu lado no vago vazio, Langdon encarava com 
um olhar inexpressivo a bolsa de couro aos seus ps. Suas plpebras tambm pareciam pesadas, como se o balano ritmado do trem em movimento o estivesse ninando at 
uma espcie de transe.
     Katherine pensou nos estranhos objetos dentro da bolsa de Langdon. Por que a CIA quer esta pirmide? Bellamy tinha dito que Sato talvez estivesse atrs dela 
porque conhecia seu verdadeiro potencial. Contudo, mesmo que aquele artefato de alguma forma revelasse o esconderijo de antigos segredos, Katherine achava difcil 
acreditar que sua promessa de um saber mstico ancestral pudesse interessar  CIA.
     Por outro lado, ela lembrou a si mesma que a CIA fora muitas vezes surpreendida coordenando programas parapsicolgicos ou psquicos que beiravam a magia e o 
misticismo. Em 1995, o escndalo conhecido como "Stargate/Scannate" havia revelado uma tecnologia confidencial da CIA chamada visualizao remota - uma espcie de 
viagem mental teleptica que possibilitava a um "visualizador" transportar a mente para qualquer local da Terra de modo a espion-lo sem estar fisicamente presente. 
 claro que essa tecnologia no era novidade. Os msticos a chamavam de projeo astral e os iogues, de experincia extracorprea Infelizmente, os horrorizados contribuintes 
norte-americanos chamavam de absurdo, de modo que o programa havia sido abortado. Pelo menos na esfera pblica.
     Ironicamente, Katherine via conexes notveis entre os programas fracassados da CIA e suas prprias descobertas no campo da cincia notica.
     Estava ansiosa para entrar em contato com a polcia e saber se haviam descoberto alguma coisa em Kalorama Heights, mas tanto ela quanto Langdon estavam sem 
telefone e, de toda forma, contatar as autoridades quela altura seria provavelmente um erro. Era impossvel saber a extenso da influncia de Sato.
     Pacincia, Katherine. Dali a poucos minutos, eles estariam escondidos em um lugar seguro e encontrariam o homem que lhes prometera respostas. O que quer que 
ele dissesse, Katherine esperava que pudesse ajud-la a salvar seu irmo.
     - Robert? - sussurrou, erguendo os olhos para o mapa do metr. - Ns vamos descer na prxima estao.
     Langdon emergiu lentamente de seu devaneio.
     - Certo, obrigado. - Enquanto o trem sacolejava, ele recolheu a bolsa de viagem e olhou para Katherine, inseguro. - S espero que nossa chegada seja tranqila.
     
     Quando Turner Simkins correu para se juntar a seus homens, a plataforma havia sido totalmente liberada e sua equipe estava se espalhando para assumir posies 
atrs das colunas de sustentao. Um ribombar distante ecoou dentro do tnel na outra ponta da estao e, conforme seu volume foi aumentando, Simkins sentiu a presso 
de um ar quente e viciado se agitar  sua volta.
     Sem sada, Sr. Langdon.
     Simkins se virou para os dois agentes que estavam com ele na plataforma.
     - Saquem as identificaes e as armas. Esses trens so automatizados, mas h sempre um condutor que abre as portas.  ele que vocs precisam encontrar.
     Ento o farol dianteiro do trem surgiu dentro do tnel e o rudo estridente dos freios cortou o ar. Enquanto o trem entrava na estao e comeava a desacelerar, 
Simkins e os dois agentes inclinaram o corpo por sobre os trilhos, brandindo os distintivos da CIA e tentando fazer contato visual com o condutor antes que ele abrisse 
as portas.
     O trem se aproximava depressa. No terceiro vago, Simkins finalmente viu o rosto atnito do condutor, que parecia estar tentando entender por que trs homens 
de preto acenavam para ele com distintivos. Simkins correu em direo ao trem, j quase totalmente parado quela altura.
     - CIA! - gritou ele erguendo a identificao. - NO abra as portas! -  medida que o trem passava devagar, Simkins foi se aproximando do vago do condutor, 
berrando repetidas vezes. - No abra as portas! Entendeu? NO abra as portas!
     O trem parou enquanto o condutor de olhos arregalados fazia que sim com a cabea.
     - Qual  o problema? - perguntou o homem pela janela lateral.
     - No deixe este trem sair do lugar - disse Simkins. - E no abra as portas.
     - Tudo bem.
     - Pode nos deixar entrar no primeiro vago?
     O condutor assentiu, parecendo assustado. Depois, desceu do trem, fechou a porta e acompanhou Simkins e seus homens at o primeiro vago, abrindo a porta manualmente.
     - Tranque depois que ns passarmos - falou Simkins, sacando a arma e entrando rapidamente com seus homens.
     O primeiro vago continha apenas quatro passageiros - trs rapazes adolescentes e uma senhora de idade - e todos pareceram compreensivelmente surpresos ao verem 
trs homens armados. Simkins ergueu o distintivo.
     - Est tudo bem. S continuem sentados.
     Simkins e os outros comearam a busca, vasculhando vago por vago rumo ao final do trem - "apertando a pasta de dente", como se dizia na CIA. Havia poucos 
passageiros naquele trem e, depois de cruzarem metade do caminho, os agentes ainda no tinham visto ningum remotamente parecido com a descrio de Robert Langdon 
e Katherine Solomon. Ainda assim, Simkins continuava confiante. No havia esconderijo possvel dentro de uma composio do metr. Nada de banheiros, vages de carga 
ou sadas alternativas. Ainda que os alvos os tivessem visto subir no trem e houvessem fugido para a outra ponta, no havia como sair. Forar uma das portas era 
quase impossvel e, de toda forma, Simkins tinha homens vigiando a plataforma de ambos os lados.
     Pacincia.
     Entretanto, quando chegou ao penltimo vago, Simkins j estava ansioso. Havia apenas um passageiro ali, um chins. Simkins e seus agentes seguiram adiante, 
procurando algum lugar onde uma pessoa pudesse se esconder. No existia nenhum.
     - ltimo vago - disse Simkins, empunhando a arma enquanto os trs avanavam em direo ao limiar do nico compartimento que restava. Ao entrarem no ltimo 
carro, todos os trs estacaram na mesma hora, vidrados.
     Mas que...? Simkins correu at o final do vago deserto, procurando atrs de todos os bancos. Virou-se para seus homens com o sangue fervendo nas veias.
     - Onde  que eles foram parar, cacete?
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 79
     
     Treze quilmetros ao norte de Alexandria, Robert Langdon e Katherine atravessavam calmamente uma vasta extenso de grama coberta de gelo.
     - Voc deveria ser atriz - comentou Langdon, ainda impressionado com o raciocnio rpido e a capacidade de improvisao de Katherine.
     - Voc tambm no se saiu nada mal. - Ela abriu um sorriso.
     No incio, Langdon no entendeu o sbito ataque de Katherine no txi. Sem aviso nenhum, ela de repente tinha exigido que fossem at a Freedom Plaza com base 
em algum tipo de revelao sobre uma estrela judaica e o Grande Selo dos Estados Unidos. Desenhou numa nota de um dlar um smbolo freqentemente usado por defensores 
de teorias da conspirao e depois insistiu que Langdon olhasse com ateno para onde ela estava apontando.
     Langdon por fim percebeu que Katherine estava apontando no para a nota de um dlar, mas para uma diminuta luzinha na traseira do banco do motorista. A lmpada 
estava to coberta de sujeira que ele sequer a notara. No entanto, ao se inclinar para a frente, pde ver que ela estava acesa e emitia um tnue brilho vermelho. 
Viu tambm as duas palavras apagadas escritas logo abaixo da luz.
     INTERFONE LIGADO
     Alarmado, Langdon virou para Katherine e viu o desespero em seus olhos ao indicar o banco da frente. Ele espiou discretamente atravs da divisria: o celular 
do taxista estava em cima do painel, aberto, iluminado e virado para o alto-falante do interfone. Um segundo depois, Langdon entendeu o estranho comportamento de 
Katherine.
     Eles sabem que ns estamos neste txi... e esto nos escutando.
     Langdon no fazia idia de quanto tempo tinham antes de o txi ser detido e cercado, mas sabia que precisavam agir depressa. Na mesma hora, entrou no jogo dela, 
percebendo que o motivo de Katherine querer ir at a Freedom Plaza no tinha nada a ver com a pirmide, mas sim com o fato de l haver uma grande estao do metr, 
a estao de Metro Center, na qual eles podiam pegar as linhas vermelha, azul ou laranja em seis direes diferentes.
     Os dois saltaram do txi na Freedom Plaza e Langdon assumiu o comando da encenao, fazendo seu prprio improviso e deixando um rastro que conduziria ao Monumento 
Manico em Alexandria. Ento ele e Katherine entraram correndo na estao de metr, passando batidos pela plataforma da linha azul e seguindo at a linha vermelha, 
onde pegaram um trem na direo oposta.
     Depois de seguir para o norte por seis paradas at Tenleytown, os dois emergiram sozinhos em um bairro tranqilo e elegante. Seu destino, a mais alta construo 
em um raio de muitos quilmetros, tornou-se imediatamente visvel no horizonte, logo depois da Massachusetts Avenue e no meio de um amplo e bem cuidado gramado.
     Agora "fora do radar", como dizia Katherine, os dois atravessavam a grama mida.  sua direita havia um jardim em estilo medieval famoso por suas roseiras antigas 
e por seu mirante chamado Shadow House. Passaram por ele e tomaram o rumo da magnfica construo  qual haviam sido
     convocados. Um refgio contendo 10 pedras do monte Sinai, uma do prprio cu e outra com o semblante do pai obscuro de Luke.
     - Nunca vim aqui  noite - comentou Katherine, erguendo os olhos para as torres acesas. -  espetacular.
     Langdon, que havia esquecido como aquele lugar era impressionante, concordou. A obra-prima neurtica ficava na extremidade norte da Embassy Row. Fazia muitos 
anos que ele no ia ali, desde que escrevera um artigo para uma revista infantil na esperana de estimular os jovens leitores a visitar
     aquele incrvel local histrico. O artigo, intitulado "Moiss, pedras lunares e Guerra nas Estrelas", acabou servindo de incentivo ao turismo na regio.
     A Catedral Nacional de Washington, pensou Langdon, sentindo uma ansiedade inesperada por estar de volta depois de tantos anos. Que lugar melhor para perguntar 
sobre o nico Deus Verdadeiro?
     - Esta catedral tem mesmo 10 pedras do monte Sinai? - perguntou Katherine, olhando para as duas torres do campanrio.
     Langdon fez que sim com a cabea.
     - Perto do altar-mor. Elas simbolizam os 10 Mandamentos entregues a Moiss no monte Sinai.
     - E tem tambm uma pedra lunar?
     Uma pedra do prprio cu.
     - Sim. Um dos vitrais se chama Janela Espacial e tem um fragmento de pedra lunar incrustado.
     - Tudo bem, mas voc no pode estar falando srio em relao  ltima coisa. - Katherine o encarou, seus belos olhos transbordando ceticismo. - Uma escultura 
de... Darth Vader?
     Langdon deu uma risadinha.
     - O pai obscuro de Luke Skywalker? Isso mesmo. Vader  uma das grgulas mais populares da Catedral Nacional. - Ele apontou bem para o alto das torres a oeste. 
-  noite  difcil de ver, mas ele est l.
     - E o que Darth Vader est fazendo na Catedral Nacional de Washington?
     - Houve um concurso em que as crianas deviam esculpir uma grgula que retratasse o rosto do mal. Darth venceu.
     Eles chegaram  grandiosa escadaria do acesso principal, recuada sob uma arcada de quase 25 metros e encimada por uma estonteante roscea. Quando comearam 
a subir, Langdon pensou no misterioso desconhecido que lhes telefonara. Sem nomes, por favor... Me diga, o senhor conseguiu proteger o mapa que lhe foi confiado? 
O ombro de Langdon doa de tanto carregar a pesada pirmide de pedra, e ele estava ansioso para coloc-la em algum lugar seguro. Abrigo e respostas. Ao se aproximarem 
do alto da escada, deram de cara com um imponente par de portas de madeira.
     -  s bater? - indagou Katherine.
     Langdon vinha se perguntando a mesma coisa, mas, antes que pudesse responder, uma das portas se abriu com um rangido.
     - Quem ? - perguntou uma voz frgil. O rosto de um velho encarquilhado surgiu no batente. Ele vestia roupas de padre e tinha um olhar vazio. Suas rbitas eram 
opacas e brancas, enevoadas pela catarata.
     - Meu nome  Robert Langdon - respondeu ele. - Katherine Solomon e eu estamos em busca de abrigo.
     O cego suspirou de alvio.
     - Graas a Deus. Eu estava esperando vocs.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 80
     
     Warren Bellamy sentiu um lampejo repentino de esperana.
     Na Selva, a diretora Sato havia acabado de receber o telefonema de um agente de campo e comeado na mesma hora a lhe dar uma bronca.
     - Acho bom voc encontrar os dois. Agora! - gritou ela para dentro do aparelho. - Nosso tempo est se esgotando! - Depois disso desligou e comeou a andar de 
um lado para outro, como se estivesse tentando decidir o que fazer em seguida.
     Por fim, parou bem na frente de Bellamy e se virou.
     - Sr. Bellamy, vou perguntar uma vez e uma s. - Ela o fitou bem dentro dos olhos. - O senhor tem alguma idia de onde Robert Langdon pode estar agora? Sim 
ou no?
     Ele tinha mais do que uma boa idia, mas sacudiu a cabea.
     - No.
     O olhar penetrante de Sato no havia se desgrudado do seu.
     - Infelizmente, faz parte do meu trabalho saber quando as pessoas esto mentindo.
     Bellamy desviou os olhos.
     - Sinto muito, no posso ajud-la.
     - Arquiteto Bellamy - disse Sato -, hoje  noite, logo depois das sete horas, o senhor estava jantando em um restaurante fora da cidade quando recebeu o telefonema 
de um homem que lhe disse ter seqestrado Peter Solomon.
     No mesmo instante, Bellamy teve um calafrio e voltou a encar-la nos olhos. Como a senhora pode saber disso?
     - Esse homem - continuou Sato - disse que tinha mandado Robert Langdon para o Capitlio e lhe confiado uma tarefa que exigia a sua ajuda. Ele avisou que, se 
Langdon fracassasse, seu amigo Peter Solomon iria morrer. Em pnico, o senhor ligou para todos os telefones de Peter, mas no conseguiu falar com ele. Compreensivelmente, 
foi correndo para o Capitlio.
     Bellamy no conseguia imaginar como Sato sabia sobre o telefonema.
     - Quando o senhor estava fugindo de l - prosseguiu Sato por trs da ponta acesa do cigarro -, enviou um torpedo para o seqestrador dizendo que o senhor e 
Langdon estavam com a Pirmide Manica.
     Onde ela conseguiu essas informaes?, perguntou-se Bellamy. Nem mesmo Langdon sabe que mandei essa mensagem. Logo depois de entrar no tnel que conduzia  
Biblioteca do Congresso, Bellamy tinha ido at a sala de mquinas para acender as luzes do trecho em obras. Nesse instante de privacidade, decidira enviar um torpedo 
ao seqestrador, contando-lhe sobre a entrada de Sato em cena, mas garantindo que ele e Langdon tinham conseguido pegar a Pirmide Manica e atenderiam s suas 
exigncias. Era mentira, claro, mas Bellamy esperava que isso pudesse faz-los ganhar tempo, tanto para Peter Solomon quanto para esconder a pirmide.
     - Quem disse  senhora que eu mandei um torpedo? - quis saber Bellamy.
     Sato jogou o celular dele sobre o banco ao seu lado.
     - No  preciso ser nenhum gnio.
     Bellamy ento se lembrou que seu telefone e suas chaves haviam sido confiscados pelos agentes na hora de sua captura.
     - Quanto ao resto das minhas informaes privilegiadas - disse Sato -, a Lei Patritica me d o direito de grampear o telefone de qualquer pessoa que eu considere 
uma possvel ameaa  segurana nacional. E julgo que Peter Solomon representa uma ameaa desse tipo, por isso ontem  noite comecei a agir.
     Bellamy mal conseguia acreditar no que ela estava dizendo.
     - A senhora grampeou o telefone de Peter Solomon?
     - Grampeei. Foi assim que descobri que o seqestrador telefonou para o senhor. Logo depois, o senhor ligou bastante nervoso para o celular de Peter e deixou 
um recado falando da chamada que havia recebido e querendo saber se estava tudo bem com ele.
     Bellamy percebeu que ela estava certa.
     - Ns tambm interceptamos uma ligao de Robert Langdon, do Capitlio. Ele estava muito perturbado, pois acabara de descobrir que havia sido enganado para 
ir at l. Na mesma hora, me encaminhei para o Capitlio e cheguei antes do senhor porque estava mais perto. Quanto a saber que
     deveria haver algum objeto valioso na bolsa de Langdon... Bom, quando percebi que ele estava envolvido nisso tudo, mandei minha equipe reavaliar uma ligao 
aparentemente incua entre a pessoa que se fazia passar por assistente de Peter Solomon e Langdon. Nesse telefonema, dado hoje de manh, o seqestrador convence 
o professor a vir dar uma palestra aqui e tambm a trazer um pequeno embrulho que Peter lhe confiara tempos atrs. Quando Langdon no abriu o jogo comigo em relao 
ao pacote que estava carregando, pedi o raio X da bolsa.
     Bellamy mal conseguia raciocinar. Tudo o que Sato dizia era factvel, mas alguma coisa no estava fazendo sentido.
     - Mas... como  que a senhora pode achar que Peter Solomon  uma ameaa  segurana nacional?
     - Pode acreditar, Peter Solomon  uma sria ameaa  segurana nacional - disparou ela. - E, para ser franca, Sr. Bellamy, o senhor tambm.
     Bellamy se empertigou no banco, fazendo as algemas lhe esfolarem os pulsos.
     - Como  que ?
     Ela forou um sorriso.
     - Vocs, maons, esto metidos em um jogo arriscado. E guardam um segredo muito, muito perigoso.
     Ser que ela est se referindo aos Antigos Mistrios?
     - Felizmente, sempre souberam guardar muito bem seus segredos. Mas, nos ltimos tempos, foram um pouco negligentes. E, hoje  noite, seu segredo mais perigoso 
est prestes a ser revelado ao mundo. E, a menos que ns consigamos impedir que isso acontea, eu lhe garanto que os resultados sero catastrficos.
     Bellamy a encarava, espantado.
     - Se o senhor no tivesse me atacado - disse Sato -, teria percebido que estamos jogando no mesmo time.
     No mesmo time. As palavras despertaram em Bellamy uma idia que parecia quase inconcebvel. Ser que Sato  membro da Estrela do Oriente? A Ordem da Estrela 
do Oriente - muitas vezes considerada uma organizao irm da Francomaonaria - acreditava em uma filosofia mstica similar de benevolncia, saber secreto e tolerncia 
espiritual. No mesmo time? Eu estou algemado! Ela grampeou o telefone de Peter!
     - O senhor vai me ajudar a deter esse homem - disse Sato. - Ele tem o potencial de causar um cataclismo do qual este pas talvez no se recupere. - Seu rosto 
parecia feito de pedra.
     - Ento por que vocs no vo atrs dele?
     Sato aparentou incredulidade.
     - O senhor acha que eu no estou tentando? Ns rastreamos o celular de Solomon, mas o sinal caiu antes de conseguirmos identificar a localizao do aparelho. 
O outro telefone que esse homem est usando parece ser um modelo descartvel, quase impossvel de rastrear. A empresa do jatinho particular nos disse que o vo de 
Langdon foi agendado pelo assistente de Solomon, a partir do celular de Solomon, com o carto de crdito de Solomon. No h rastro nenhum. Mas isso de qualquer forma 
no tem importncia. Mesmo que soubssemos exatamente onde ele est, no poderamos nos arriscar a fazer nenhum movimento para peg-lo.
     - Por qu?
     - Prefiro no revelar o motivo, pois essa informao  confidencial - disse Sato, cuja pacincia estava claramente se esgotando. - Vou ter que lhe pedir para 
confiar em mim.
     - Bom, mas eu no confio!
     Os olhos de Sato pareciam gelo. Ela se virou de repente e gritou para o outro lado da Selva:
     - Agente Hartmann! A pasta, por favor.
     Bellamy ouviu o silvo da porta eletrnica, e um agente entrou na Selva a passos largos. Carregava uma pasta de titnio lustrosa, que depositou no cho ao lado 
da diretora do ES.
     - Deixe-nos a ss - disse Sato.
     Quando o agente se foi, a porta tornou a apitar, e ento tudo ficou em silncio.
     Sato apanhou a pasta de metal, colocou-a no colo e abriu os fechos com um estalo. Em seguida, ergueu os olhos lentamente para Bellamy.
     - Eu no queria fazer isso, mas nosso tempo est se esgotando e o senhor no me deixou alternativa.
     Bellamy olhou para a estranha pasta e sentiu uma onda de medo. Ser que ela vai me torturar? Tornou a dar um puxo nas algemas.
     - O que h dentro dessa pasta?
     Sato deu um sorriso sinistro.
     - Algo que vai convenc-lo a ver as coisas do meu jeito. Eu lhe garanto.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 81
     
     O espao subterrneo no qual Mal'akh praticava a Arte era engenhosamente escondido.  primeira vista, o poro de sua casa parecia bastante normal, com boiler, 
caixa de fusveis, pilha de lenha e uma barafunda de objetos guardados. Mas tudo isso ocupava apenas uma parte do subterrneo. Uma rea considervel havia sido isolada 
para suas prticas clandestinas.
     O espao de trabalho particular de Mal'akh era uma seqncia de pequenos cmodos, cada qual com uma funo especfica. A nica entrada era uma rampa ngreme 
cujo acesso se dava por uma passagem secreta na sala de estar, o que tornava praticamente impossvel a algum descobrir aquele lugar.
     Naquela noite, enquanto Mal'akh descia a rampa, os sigilos e sinais tatuados em sua carne pareciam ganhar vida sob o brilho celeste da iluminao do poro. 
Antes de adentrar a nvoa azulada, ele passou por vrias portas fechadas e encaminhou-se diretamente para o maior dos cmodos, no final do corredor.
     O "sanctum sanctorum", como Mal'akh gostava de cham-lo, era um quadrado perfeito de 12 ps de lado, pouco mais de 3,5 metros. Doze so os signos do zodaco. 
Doze so as horas do dia. Doze so os portes do paraso. No centro do cmodo havia uma mesa de pedra na forma de um quadrado de sete por sete. Sete so os selos 
do Apocalipse. Sete so os degraus do Templo. Pendendo sobre o centro da mesa, uma fonte de iluminao cuidadosamente regulada percorria ciclicamente um espectro 
de cores preordenadas, completando o ciclo a cada seis horas de acordo com a sagrada Tabela Planetria das Horas. A hora de Yanor  azul. A hora de Nasnia  vermelha. 
A hora de Salam  branca.
     Agora era a hora de Caerra, o que significava que a luz na sala havia sido modulada para um suave tom de roxo. Vestindo apenas um pano enrolado em volta das 
ndegas e do sexo castrado, Mal'akh comeou seus preparativos.
     Combinou com cuidado os produtos qumicos de sufumigao que queimaria mais tarde para santificar o ar. Ento dobrou o roupo de seda novo que usaria depois 
no lugar do pano. Por fim, purificou um frasco de gua para ungir sua oferenda. Quando terminou, ps todos esses ingredientes sobre uma bancada lateral.
     Ento foi at uma prateleira e pegou uma caixa de marfim, levando-a at a bancada e juntando-a aos outros elementos. No pde resistir  tentao de abrir a 
tampa e admirar o tesouro, embora ainda no estivesse pronto para us-lo.
     A faca.
     Dentro da caixa de marfim, aninhada sobre uma almofada de veludo preto, brilhava a faca sacrificial que Mal'akh vinha guardando para aquela noite. Ele a comprara 
no ano anterior por 1,6 milho de dlares no mercado negro de antiguidades do Oriente Mdio.
     A faca mais famosa da histria.
     Inacreditavelmente antiga e supostamente perdida, aquela preciosa lmina era feita de ferro e presa a um cabo de osso. Ao longo dos anos, havia pertencido a 
incontveis indivduos poderosos. Contudo, durante as ltimas dcadas, estivera desaparecida, provavelmente esquecida em uma coleo particular secreta. Mal'akh 
tivera enorme dificuldade para encontr-la. Desconfiava que aquela faca no derramava sangue havia dcadas... talvez at sculos. Naquela noite, no entanto, a lmina 
provaria novamente o gosto do poder do sacrifcio para o qual havia sido afiada.
     Mal'akh tirou a faca do compartimento acolchoado e, em atitude de reverncia, poliu a superfcie com um pano de seda embebido em gua purificada. Suas habilidades 
haviam progredido muito desde os primeiros experimentos rudimentares em Nova York. A Arte obscura praticada por Mal'akh j fora conhecida por muitos nomes em muitas 
lnguas, mas, independentemente de como fosse chamada, era
     uma cincia precisa. Aquele saber primitivo outrora detinha a chave dos portais do poder, mas fora banido havia tempos, relegado s sombras do ocultismo e da 
magia. Os poucos que ainda praticavam aquela Arte eram considerados loucos, mas Mal'akh sabia que isso no era verdade. Este no  um trabalho para ineptos. A antiga 
Arte obscura, da mesma forma que a cincia moderna, era uma disciplina que envolvia frmulas precisas, ingredientes especficos e uma sincronizao meticulosa.
     Aquela Arte no era a magia negra inofensiva de hoje em dia, muitas vezes praticada sem convico por almas curiosas. Assim como a fsica nuclear, ela possua 
o potencial de liberar um enorme poder. Os perigos eram enormes, O praticante no habilitado corre o risco de ser atingido por uma corrente de refluxo e destrudo.
     Mal'akh terminou de admirar a lmina sagrada e voltou sua ateno para uma nica tira de velino grosso estendida sobre a mesa  sua frente. Ele mesmo o fabricara 
utilizando a pele de um cordeiro. Como mandava o protocolo, o animal era puro e ainda no havia alcanado a maturidade sexual. Ao lado do velino, uma caneta que 
fizera usando uma pena de corvo, uma salva de prata e trs velas dispostas em torno de uma tigela de bronze macio. A tigela continha dois dedos de um lquido espesso 
e rubro.
     Era o sangue de Peter Solomon.
     O sangue  a tintura da eternidade.
     Mal'akh ps a mo esquerda sobre o velino e, mergulhando a pena no sangue, desenhou com cuidado o contorno da mo espalmada. Ao terminar, acrescentou os cinco 
smbolos dos Antigos Mistrios, um na ponta de cada dedo desenhado.
     A coroa... para simbolizar o rei em que irei me transformar.
     A estrela... para simbolizar o cu que ordenou meu destino.
     O sol... para simbolizar a iluminao da minha alma.
     A lamparina... para simbolizar a luz tnue da compreenso humana.
     E a chave... para simbolizar a pea que falta, aquela que hoje  noite finalmente ser minha.
     Mal'akh completou o traado de sangue e admirou seu trabalho  luz das trs velas. Esperou o
     sangue secar, ento dobrou a pele grossa de cordeiro trs vezes. Enquanto entoava um antigo e etreo sortilgio, encostou o velino  terceira vela, fazendo-o 
pegar fogo. Colocou a pele em chamas sobre a salva de prata e deixou-a queimar. Enquanto se consumia, o tecido animal se decompunha, ficando carbonizado. Quando 
a chama se apagou, Mal'akh transferiu as cinzas com cuidado para a tigela de bronze cheia de sangue. Ento mexeu a mistura com a pena de corvo.
     O lquido adquiriu um tom mais fechado de vermelho, quase preto.
     Segurando a tigela com as duas mos, Mal'akh a ergueu acima da cabea e agradeceu, entoando o antigo eukharistos de sangue. Ento, despejou cuidadosamente a 
mistura enegrecida
     dentro de um frasco de vidro e o fechou com uma rolha. Aquela seria a tinta que usaria para adornar a pele no tatuada do topo da cabea e completar sua obra-prima.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 82
     
     A Catedral Nacional de Washington  a sexta maior do mundo e se eleva mais alto do que um arranha-cu de 30 andares. Enfeitada com mais de 200 vitrais, um carrilho 
de 53 sinos e um rgo de 10.647 foles, essa obra-prima da arquitetura gtica tem capacidade para acomodar mais de 3 mil fiis.
     Naquela noite, porm, a imensa catedral estava deserta.
     O reverendo Colin Galloway - decano da catedral - dava a impresso de estar vivo desde sempre. Curvo e mirrado, usava uma batina preta simples e avanava s 
cegas, com passos arrastados, sem dizer palavra. Langdon e Katherine o seguiam, igualmente em silncio, em meio  escurido dos 120 metros do corredor central da 
nave, que fazia uma levssima curva para a esquerda de modo a criar uma suave iluso de tica. Quando chegaram  Grande Divisria, o decano os conduziu at o outro 
lado do arco cruzeiro - separao simblica entre a rea pblica da igreja e o altar mais adiante.
     Um cheiro de olbano pairava no ar do presbitrio. O espao sagrado estava escuro, iluminado apenas por reflexos indiretos nos arcos do teto decorados com folhas. 
Bandeiras dos 50 estados americanos pendiam acima do coro, enfeitado com uma elaborada srie de retbulos retratando cenas da Bblia. O decano Galloway continuou 
andando; aparentemente, conhecia o trajeto de cor. Por um instante, Langdon pensou que estivessem indo em direo ao altar-mor, onde estavam encravadas as 10 pedras 
do monte Sinai, mas o velho decano finalmente virou  esquerda e atravessou tateando uma porta discretamente oculta que conduzia a um anexo administrativo.
     Eles percorreram um corredor curto at a porta de um escritrio que exibia uma placa de lato:
     
     REVERENDO DR. COLIN GALLOWAY
     DECANO DA CATEDRAL
     
     Galloway abriu a porta e acendeu a luz para seus convidados. Ele os fez entrar na sala e fechou a porta.
     A sala do decano era pequena mas elegante, com estantes altas, uma escrivaninha, um armrio entalhado e um banheiro privativo. Das paredes pendiam tapearias 
do sculo XVI e vrias pinturas religiosas. O velho decano indicou com um gesto as duas cadeiras de couro em frente  escrivaninha. Langdon se sentou ao lado de 
Katherine, sentindo-se grato por finalmente largar a pesada bolsa de viagem no cho.
     Abrigo e respostas, pensou Langdon, acomodando-se na cadeira confortvel.
     O homem idoso arrastou os ps at atrs da escrivaninha e sentou devagar na cadeira de espaldar alto. Ento, com um suspiro cansado, levantou a cabea, as rbitas 
enevoadas olhando o vazio. Quando ele falou, sua voz soou surpreendentemente clara e forte.
     - Sei que  a primeira vez que nos encontramos - disse o velho -, mas sinto como se j nos conhecssemos. - Ele sacou um leno e enxugou a boca. - Professor 
Langdon, estou bastante familiarizado com seus escritos, incluindo o texto brilhante que assinou sobre o simbolismo desta catedral. Sra. Solomon, seu irmo Peter 
e eu somos irmos maons h muitos anos.
     - Peter est correndo srio perigo - disse Katherine.
     - Foi o que me disseram. - O velho deu um suspiro. - E eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajud-los.
     Langdon no viu nenhum anel manico na mo do decano, porm sabia que muitos maons, sobretudo os que faziam parte do clero, optavam por no alardear sua filiao 
 irmandade.
     Quando comearam a conversar, ficou claro que o decano Galloway j estava ciente de parte dos acontecimentos da noite graas ao recado telefnico de Warren 
Bellamy. Conforme Langdon e Katherine foram lhe contando o resto, ele pareceu ficar cada vez mais preocupado.
     - E esse homem que levou nosso querido Peter - falou o decano - est insistindo que os senhores decifrem a pirmide em troca da vida dele?
     - Isso - respondeu Langdon. - Ele acha que a pirmide  um mapa capaz de conduzi-lo ao esconderijo dos Antigos Mistrios.
     O decano cravou os olhos sinistros e opacos em Langdon.
     - Meus ouvidos esto me dizendo que o senhor no acredita nessas coisas.
     Langdon no queria perder tempo enveredando por esse caminho.
     As minhas crenas no tm qualquer importncia. O que precisamos fazer  ajudar Peter. Infelizmente, quando deciframos a pirmide, ela no apontou para lugar 
nenhum.
     O velho se endireitou na cadeira.
     - Vocs decifraram a pirmide?
     Katherine interveio, explicando rapidamente que, apesar dos alertas de Bellamy e do pedido de seu irmo para que o embrulho no fosse violado, ela resolvera 
abri-lo, por achar que sua prioridade era ajudar Peter. Contou ao decano sobre o cume de ouro, sobre o quadrado mgico de Albrecht Drer e
     sobre como este decodificava a cifra manica de 16 letras transformando-a na expresso Jeova Sanctus Unus.
     -  s isso que diz a inscrio? - perguntou o decano. - nico Deus Verdadeiro?
     - Sim, senhor - respondeu Langdon. - A pirmide parece mais um mapa metafrico do que um mapa geogrfico.
     O decano estendeu as mos.
     - Deixe-me tate-la.
     Langdon abriu o zper da bolsa e retirou a pirmide, erguendo-a cuidadosamente e posicionando-a em cima da mesa, bem em frente ao reverendo.
     Langdon e Katherine ficaram olhando as frgeis mos do homem examinarem cada centmetro da pedra - o lado gravado, a base lisa e o topo decepado. Depois de 
terminar, ele tornou a estender as mos.
     - E o cume?
     Langdon pegou a caixinha de pedra, colocou-a sobre a mesa e abriu a tampa. Ento retirou o cume e o depositou nas mos esticadas do velho. O decano efetuou 
um exame parecido, tateando cada centmetro e se detendo na inscrio, aparentemente com alguma dificuldade para ler o pequeno texto gravado de forma elegante.
     - "O segredo se esconde dentro da Ordem" - ajudou Langdon. - E a palavra ordem est em maiscula.
     O rosto do velho no exibiu nenhuma expresso enquanto ele posicionava o cume em cima da pirmide e o alinhava com o auxlio do tato. Pareceu se deter por um 
instante, como se orasse, e correu as mos vrias vezes por toda a pirmide com reverncia. Em seguida estendeu a mo e apanhou a caixa em formato de cubo, examinando 
cuidadosamente tanto a parte interna quanto a externa.
     Ao terminar, largou a caixa e tornou a se recostar na cadeira.
     - Digam-me - perguntou em um tom subitamente rspido -, por que vieram a mim?
     A pergunta pegou Langdon desprevenido.
     - Ns viemos at aqui porque o senhor mandou. E o Sr. Bellamy disse que deveramos confiar no senhor.
     - E, apesar disso, os senhores no confiaram nele?
     - Como assim?
     Os olhos brancos do decano pareciam perscrutar Langdon.
     - O embrulho que continha o cume estava lacrado. O Sr. Bellamy lhes disse que no o abrissem; alm disso, o prprio Peter Solomon pediu que no abrisse a caixa. 
E mesmo assim os senhores abriram.
     - Reverendo Galloway - interveio Katherine -, ns estvamos tentando ajudar meu irmo. O homem que o levou exigiu que decifrssemos...
     - Eu entendo - declarou o decano -, mas o que conseguiram abrindo o embrulho? Nada. O seqestrador de Peter est em busca de um lugar e no vai se contentar 
com a resposta Jeova Sanctus Unus.
     - Concordo - disse Langdon -, mas infelizmente isso e tudo o que a pirmide revela. Como eu disse, o mapa est parecendo mais figurativo do que...
     - O senhor est enganado, professor - falou o decano. - A Pirmide Manica  um mapa de verdade. Ela indica um lugar real. O senhor no entende isso porque 
ainda no a desvendou. No chegou nem perto.
     Langdon e Katherine se entreolharam, atnitos.
     O decano tornou a pousar as mos sobre a pirmide, quase acariciando-a.
     - Este mapa, assim como os Antigos Mistrios, possui muitas camadas de significado. Seu verdadeiro segredo continua oculto.
     - Decano Galloway - disse Langdon -, ns examinamos cada centmetro da pirmide e do cume. No h mais nada para ver.
     - No no estado em que esto atualmente. Mas os objetos mudam.
     - O que o senhor quer dizer com isso?
     - Professor, como o senhor sabe, essa pirmide promete um poder de transformao milagroso. Segundo a lenda, ela  capaz de mudar de formato e de alterar sua 
forma fsica para revelar seus segredos. Assim como a famosa pedra que libertou Excalibur nas mos do rei Arthur, a Pirmide Manica pode se transformar... e revelar 
seu segredo a quem for digno de conhec-lo.
     Langdon comeou a achar que a idade avanada do velho talvez houvesse prejudicado suas faculdades mentais.
     - Desculpe, senhor. Est dizendo que esta pirmide pode passar por uma transformao fsica?
     - Professor, se eu estendesse a mo e transformasse esta pirmide bem aqui na sua frente, o senhor acreditaria nos seus olhos?
     Langdon no fazia idia do que responder.
     - Acho que eu no teria escolha.
     - Muito bem. Daqui a pouco, farei exatamente isso. - Ele tornou a enxugar a boca com o leno. - Deixe-me lembrar-lhe que houve um tempo em que at as mentes 
mais inteligentes pensavam que a Terra fosse plana. Afinal, se ela fosse redonda, com certeza os oceanos se derramariam. Imagine como zombariam do senhor se proclamasse 
naquela poca: "O mundo no s  esfrico como existe uma fora mstica e invisvel que prende tudo  superfcie!"
     - Existe uma diferena - disse Langdon - entre a existncia da gravidade... e a capacidade de transformar objetos com um simples toque da mo.
     - Existe mesmo? Ser que ainda no estamos vivendo na Idade das Trevas e fazendo pouco das foras "msticas" que no podemos ver nem compreender? Se a histria 
nos ensinou alguma coisa, foi que as estranhas idias que hoje ridicularizamos um dia sero verdades celebradas. Eu afirmo que posso transformar esta pirmide com 
um toque, e o senhor questiona a minha sanidade. Eu esperaria mais de um historiador. A histria est cheia de grandes mentes que proclamaram a mesma coisa... grandes 
mentes que insistiram, sem exceo, que o homem possui habilidades msticas das quais no tem conscincia.
     Langdon sabia que o decano estava certo, O famoso aforismo hermtico - No sabeis que sois deuses? - era um dos pilares dos Antigos Mistrios. Assim em cima 
como embaixo... Homem criado  imagem de Deus... Apoteose... Essa mensagem persistente da divindade do prprio homem - de seu potencial oculto - era o tema recorrente 
dos textos antigos de inmeras tradies. At mesmo a Bblia Sagrada, em Salmos 82:6, proclamava: Vs sois deuses!
     - Professor - disse o velho -, eu entendo que o senhor, assim como muitas pessoas instrudas, vive dividido, com um p no mundo espiritual e o outro no mundo 
fsico. Seu corao anseia por acreditar... mas seu intelecto se recusa a permitir isso. Como acadmico, seria sensato da sua parte aprender com as grandes mentes 
da histria. - Ele fez uma pausa e pigarreou. - Se no me falha a memria, uma das maiores mentes de todos os tempos afirmou: "Aquilo que  impenetrvel para ns 
existe de fato. Por trs dos segredos da natureza h algo sutil, intangvel e inexplicvel. A venerao a essa fora que est alm de tudo o que podemos compreender 
 a minha religio."
     - Quem disse isso? - indagou Langdon. - Gandhi?
     - No - respondeu Katherine. - Albert Einstein.
     
     Katherine Solomon lera tudo o que Einstein havia escrito na vida e nunca deixara de se impressionar com o profundo respeito que ele nutria pelo misticismo e 
com suas previses de que as massas um dia sentiriam a mesma coisa. A religio do futuro, previra Einstein, ser uma religio csmica. Ela transcender o Deus pessoal 
e evitar o dogma e a teologia.
     Robert Langdon parecia estar se debatendo com essa idia. Katherine sentia a crescente frustrao do professor com o velho sacerdote episcopal, e o compreendia. 
Afinal de contas, eles tinham ido at l em busca de respostas e, em vez disso, haviam encontrado um cego que se dizia capaz de transformar objetos com um simples 
toque da mo. Ainda assim, a paixo evidente do decano pelas foras msticas fazia Katherine se lembrar do irmo.
     - Reverendo Galloway - disse Katherine -, Peter est correndo perigo, a CIA est atrs de ns e Warren Bellamy nos mandou procur-lo. No sei o que esta pirmide 
diz nem para onde ela aponta, mas, se decifr-la significa que podemos ajudar Peter,  isso que devemos fazer. O Sr. Bellamy pode preferir sacrificar a vida do meu 
irmo para proteger esta pirmide, mas tudo o que ela trouxe para minha famlia foi dor. Seja qual for o segredo guardado aqui ele termina esta noite.
     - Tem razo - respondeu o velho com uma voz taciturna. - Tudo vai mesmo terminar esta noite. Quem garantiu isso foi a senhora. - Ele deu um suspiro. - Sra. 
Solomon, quando rompeu o lacre desta caixa, a senhora desencadeou uma srie de acontecimentos inevitveis. Existem foras em ao hoje que a senhora ainda no compreende. 
No h como voltar atrs.
     Katherine encarava o reverendo, pasma. Havia algo de apocalptico no tom dele, como se estivesse se referindo aos Sete Selos do Apocalipse ou  caixa de Pandora.
     - Com todo o respeito, senhor - interveio Langdon. - Eu no consigo imaginar como uma pirmide de pedra poderia desencadear seja l o que for.
     -  claro que no consegue, professor. - O velho fixou nele seu olhar cego. - O senhor ainda no tem olhos para ver.
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 83
     
     No ar mido da Selva, o Arquiteto do Capitlio podia sentir o suor escorrendo por suas costas. Os pulsos algemados doam, mas toda a sua ateno continuava 
focada na ameaadora pasta de titnio que a diretora do ES acabara de colocar no banco entre os dois.
     O contedo desta pasta, dissera-lhe Sato, vai convenc-lo a veras coisas do meu jeito. Eu lhe garanto. A asitica baixinha havia aberto a pasta de modo a deixar 
seu contedo fora do campo de viso de Bellamy. Enquanto Sato mexia em alguma coisa l dentro, a imaginao do Arquiteto corria solta. Ele temia que, a qualquer 
momento, a diretora fosse sacar uma srie de ferramentas reluzentes e afiadas.
     De repente, uma fonte de luz se acendeu no interior da maleta, ficando em seguida mais forte e iluminando o rosto de Sato de baixo para cima. Suas mos continuaram 
a remexer l dentro, e a luz mudou de cor. Alguns segundos depois, ela recolheu as mos, segurou a pasta e a virou para Bellamy de modo que ele pudesse ver o que 
havia nela.
     Bellamy estava diante do que parecia um laptop futurista munido de fone porttil, duas antenas e teclado duplo. A onda de alvio que sentiu logo se transformou 
em confuso.
     O monitor exibia o logo da CIA e o seguinte texto:
     
     LOGIN SEGURO
     USURIO: INOUE SATO
     PERMISSO DE ACESSO: NVEL 5
     Embaixo da janela de login do laptop, um cone de carregamento girava:
     
     UM INSTANTE...
     DECODIFICANDO ARQUIVO...
     
     Bellamy tornou a fitar Sato, que tinha os olhos cravados nele.
     - Eu no queria lhe mostrar isso - disse ela. - Mas o senhor no me deixou outra alternativa.
     O monitor tornou a piscar e Bellamy baixou os olhos enquanto o arquivo se abria, seu contedo preenchendo a tela de cristal lquido.
     Bellamy ficou um bom tempo observando o monitor, tentando discernir o que estava vendo. Ao compreender do que se tratava, sentiu o sangue se esvair de seu rosto. 
Horrorizado, no conseguia desviar os olhos da tela.
     - Mas isso... no pode ser! - exclamou. - Como... como  possvel?
     O rosto de Sato estava carregado.
     -  o senhor quem vai me dizer, Sr. Bellamy.  o senhor quem vai me dizer.
     Quando o Arquiteto do Capitlio comeou a entender as implicaes do que estava vendo, todo o seu mundo pareceu oscilar precariamente  beira de um desastre.
     Meu Deus... eu cometi um erro terrvel, terrvel!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 84
     
     O decano Galloway se sentia cheio de vida.
     Como todos os seres vivos, sabia que estava chegando a hora de se desprender de seu invlucro mortal, mas ainda no seria naquela noite. Seu corao batia com 
fora e depressa... e sua
     mente estava alerta. H trabalho a fazer.
     Enquanto corria as mos artrticas pela superfcie da pirmide, ele mal conseguia acreditar no que sentia. Jamais imaginei que viveria para testemunhar este 
momento. Durante geraes, as peas do symbolon haviam sido mantidas a uma distncia segura uma da outra. Agora estavam finalmente unidas. Galloway se Perguntava 
se aquele seria o momento profetizado.
     Estranhamente, o destino havia escolhido dois no maons para unir a pirmide. De certa forma, isso parecia adequado. Os Mistrios esto se afastando dos crculos 
internos... saindo da escurido... em direo  luz.
     - Professor - disse ele, virando a cabea na direo de onde vinha a respirao de Langdon -, Peter lhe disse por que queria que o senhor cuidasse do pequeno 
embrulho?
     Ele disse que pessoas poderosas estavam querendo roub-lo dele - respondeu Langdon.
     O decano assentiu.
     - Ele me falou a mesma coisa.
     - Foi mesmo? - perguntou Katherine. - O senhor e o meu irmo conversaram sobre esta pirmide?
     -  claro que sim - disse Galloway. - Seu irmo e eu conversamos sobre muitas coisas. Eu j fui o Venervel Mestre da Casa do Templo, e Peter s vezes vinha 
me pedir conselhos. Mais ou menos um ano atrs, ele me procurou. Estava muito abalado. Sentou-se exatamente onde os senhores
     esto agora e me perguntou se eu acreditava em premonies sobrenaturais.
     - Premonies? - Katherine parecia preocupada. - O senhor quer dizer... vises?
     - No exatamente. Era mais visceral do que isso. Peter disse que estava sentindo a presena cada vez mais forte de uma fora obscura em sua vida. Sentia que 
algo o observava.., esperando... e planejando lhe fazer muito mal.
     - Evidentemente ele tinha razo - disse Katherine -, considerando que o mesmo homem que matou nossa me e o filho de Peter veio para Washington e se tornou 
um de seus irmos maons.
     -  verdade - disse Langdon -, mas isso no explica o envolvimento da CIA.
     Galloway no tinha tanta certeza.
     - Os homens no poder esto sempre interessados em ficar mais poderosos.
     - Mas... a CIA? - retrucou Langdon. - Envolvida com segredos msticos? Alguma coisa nessa histria no faz sentido.
     - Faz, sim - disse Katherine. - A CIA sempre investiu em inovaes tecnolgicas e realizou experimentos com cincias msticas: percepo extra-sensorial, visualizao 
remota, privao sensorial, estados mentalizados induzidos por drogas.  tudo a mesma coisa: formas de entrar em contato com o potencial invisvel da mente humana. 
Se aprendi algo com Peter, foi o seguinte: a cincia e o misticismo esto intimamente relacionados e s se distinguem pela abordagem. O objetivo dos dois  idntico... 
apenas os mtodos so diferentes.
     - Peter me contou - disse Galloway - que sua rea de estudos  uma espcie de cincia mstica moderna.
     - Chama-se notica - explicou Katherine. - E est provando que o homem tem poderes alm da nossa imaginao. - Ela gesticulou para um vitral que exibia a famosa 
imagem do "Jesus Luminoso": Cristo com raios de luz emanando da cabea e das mos. - Acabo de fazer um experimento usando uma cmera CCD, com dispositivo de carga 
acoplado super-resfriado, para fotografar as mos de um curandeiro em ao. As fotos ficaram muito parecidas com a imagem de Jesus nesse vitral... e mostram feixes 
de energia saindo das pontas dos dedos do curandeiro.
     A mente bem treinada, pensou Galloway, escondendo um sorriso. Como a senhora acha que Jesus curava os doentes?
     - Eu sei - disse Katherine - que a medicina moderna ridiculariza os curandeiros e xams, mas vi isso com meus prprios olhos. Minhas cmeras CCD fotografaram 
claramente esse homem transmitindo um enorme campo energtico pelas pontas dos dedos... e literalmente modificando a disposio celular do paciente. Se isso no 
 poder divino, no sei o que seria.
     O decano Galloway se permitiu sorrir. Katherine possua a mesma paixo arrebatada do irmo.
     - Peter certa vez comparou os cientistas noticos aos primeiros exploradores que eram alvo de chacota por acreditar no conceito herege de uma Terra esfrica. 
Quase da noite para o dia, depois de descobrir mundos nunca antes visitados e expandir os horizontes de todas as pessoas do planeta, esses exploradores se transformaram 
de tolos em heris. Peter acha que a senhora tambm vai fazer isso. Ele deposita muitas esperanas no seu trabalho. Afinal de contas, todas as grandes mudanas filosficas 
da histria comearam com uma nica idia ousada.
     Galloway sabia,  claro, que no era preciso ir a um laboratrio para obter provas dessa nova e ousada idia, dessa teoria do potencial no explorado do homem. 
Ali, naquela catedral, organizavam-se rodas de orao para curar doentes que alcanavam muitas vezes resultados milagrosos e transformaes fsicas documentadas 
pela medicina. A questo no era se Deus havia imbudo o homem de grandes poderes... mas sim o que era preciso fazer para liber-los.
     O velho decano colocou as mos nas laterais da Pirmide Manica em um gesto de reverncia e disse bem baixinho:
     - Meus amigos, no sei exatamente para onde esta pirmide aponta... mas sei uma coisa. Existe um grande tesouro espiritual enterrado por ai em algum lugar... 
um tesouro que est esperando pacientemente no escuro h muitas geraes. Acredito que seja um catalisador com o poder de transformar este mundo. - Ele tocou a ponta 
de ouro do cume. - E agora que esta pirmide est montada... a hora est chegando depressa. E por que no? A promessa de uma grande iluminao transformadora vem 
sendo profetizada desde o incio dos tempos.
     - Reverendo - disse Langdon em tom desafiador -, ns todos conhecemos a Revelao de So Joo e o significado literal do Apocalipse, mas a profecia bblica 
no parece exatamente...
     - Ora, o Livro do Apocalipse  um caos! - falou o decano. - Ningum sabe como interpretar aquilo. Estou falando de mentes lcidas escrevendo em linguagem clara: 
das previses de Santo Agostinho, Sir Francis Bacon, Newton, Einstein, e a lista continua, todos prevendo um instante de iluminao transformador. At o prprio 
Jesus disse: "No h nada oculto que no ser revelado, nem segredo que no vir  luz."
     -  uma previso bem fcil de se fazer - disse Langdon. - O conhecimento aumenta de forma exponencial. Quanto mais sabemos, maior a nossa capacidade de aprender 
e mais depressa expandimos nossa base de conhecimento.
     -  verdade - acrescentou Katherine. - Ns vemos isso na cincia o tempo todo. Cada nova tecnologia que inventamos se torna uma ferramenta para inventar outras... 
e isso vira uma bola de neve.  por essa razo que a cincia avanou mais nos ltimos cinco anos do que nos 5 mil anteriores. Crescimento exponencial. Matematicamente, 
com o passar do tempo, a curva exponencial do progresso se torna quase vertical, e novos desdobramentos ocorrem incrivelmente depressa.
     Um silncio pesado tomou conta da sala do decano, e Galloway sentiu que seus dois
     convidados ainda no faziam a menor idia de como a pirmide poderia ajud-los a revelar o que quer que fosse. Foi por isso que o destino os trouxe at mim, 
pensou ele. Eu tenho um papel a desempenhar.
     Durante muitos anos, o reverendo Colin Galloway e seus irmos maons haviam exercido o papel de guardies. Agora tudo estava mudando.
     Eu no sou mais um guardio... sou um guia.
     - Professor Langdon? - disse Galloway, estendendo a mo por cima da escrivaninha. - Segure a minha mo, por favor.
     Robert Langdon ficou inseguro ao olhar para a palma estendida do decano Galloway  sua frente.
     Ser que ns vamos rezar?
     Com educao, Langdon esticou o brao e ps a mo direita sobre a mo encarquilhada do decano. O velho a segurou com fora, mas no comeou a rezar. Em vez 
disso, encontrou o indicador de Langdon e o guiou para baixo at a caixa de pedra que antes protegia o cume da pirmide.
     - Seus olhos o deixaram cego - falou o decano. - Se o senhor visse com as pontas dos dedos, como eu, perceberia que esta caixa ainda tem algo a lhe ensinar.
     Obediente, Langdon correu a ponta do dedo pelo interior da caixa, mas no sentiu nada. O lado de dentro parecia perfeitamente liso.
     - Continue procurando - incentivou Galloway.
     Por fim, Langdon sentiu alguma coisa - um minsculo crculo em relevo, um pontinho no centro da base. Ele retirou a mo e olhou para dentro da caixa. O pequeno 
crculo era praticamente invisvel a olho nu. O que ser isso?
     - Est reconhecendo esse smbolo? - perguntou Galloway.
     - Smbolo? - retrucou Langdon. - No d para enxergar nada.
     - Aperte-o.
     Langdon obedeceu e apertou o pontinho. O que ele acha que vai acontecer?
     - Pressione-o com o dedo - orientou o decano.
     Langdon olhou de relance para Katherine, que exibia um ar intrigado enquanto ajeitava uma mecha de cabelo atrs da orelha.
     Poucos segundos depois, o velho decano assentiu com a cabea.
     - Est bom, tire a mo da caixa. A alquimia est completa.
     Alquimia? Robert Langdon recolheu a mo e ficou sentado em silncio. No havia acontecido absolutamente nada. A caixa simplesmente continuava ali em cima da 
escrivaninha.
     - Nada - disse Langdon.
     - Olhe para a ponta do seu dedo - retrucou o decano. - O senhor deveria ver uma transformao.
     Langdon olhou para o dedo, mas a nica transformao que pde ver foi que passara a exibir na pele uma pequena marca feita pelo relevo esfrico - um crculo 
diminuto com um pontinho no meio.
     
     
     
     - Agora est reconhecendo o smbolo? - perguntou o decano.
     Embora Langdon o reconhecesse, estava mais impressionado pelo fato de o decano ter conseguido identific-lo. Ver com a ponta dos dedos era aparentemente uma 
habilidade adquirida.
     - Ele vem da alquimia - disse Katherine, deslizando a cadeira mais para perto e examinando o dedo de Langdon. -  o antigo smbolo do ouro.
     - De fato. - O decano sorriu, dando um tapinha na caixa. - Parabns, professor. O senhor acaba de conseguir o que todos os alquimistas da histria lutaram para 
obter. A partir de uma substncia sem valor, o senhor criou ouro.
     Langdon franziu o cenho, nem um pouco impressionado. Aquele pequeno truque de salo no parecia ajudar em nada.
     -  uma idia interessante, senhor, mas infelizmente esse crculo com um pontinho no meio, chamado circumponto, tem dezenas de significados. Ele  um dos smbolos 
mais usados da histria.
     - Do que o senhor est falando? - indagou o decano com ceticismo.
     Langdon ficou espantado que um maom no conhecesse melhor a importncia espiritual daquele smbolo.
     - Meu senhor, o circumponto tem inmeros significados. No Antigo Egito, era o smbolo de R, o deus-sol, e a astronomia moderna ainda o utiliza da mesma forma. 
Na filosofia oriental, ele representa o insight espiritual do terceiro olho, a rosa divina e a iluminao. Os cabalistas costumam us-lo para simbolizar o Kether, 
o mais elevado dos Sephiroth e a "mais escondida de todas as coisas escondidas". Os primeiros msticos chamavam-no de Olho de Deus, e ele  a origem do olho que 
tudo v do Grande Selo. Os pitagricos usavam o circumponto como smbolo da Mnada, a Divina Verdade, a Prisca Sapientia, a unio da mente e da alma e o...
     - Chega! - O decano Galloway agora estava rindo. - Obrigado, professor. O senhor tem razo,  claro.
     Langdon ento percebeu que tinha acabado de ser feito de bobo. Ele sabia de tudo isso.
     - O circumponto - disse Galloway, ainda sorrindo para si mesmo -  essencialmente o smbolo dos Antigos Mistrios. Por esse motivo, eu diria que sua presena 
nesta caixa no  mera coincidncia. Segundo a lenda, os segredos deste mapa esto escondidos nos mais nfimos detalhes.
     - Tudo bem - disse Katherine -, mas, mesmo que esse smbolo tenha sido gravado a de propsito, ele no nos deixa mais perto de decifrar o mapa, deixa?
     - A senhora disse que o lacre de cera que rompeu estava gravado com o braso do anel de Peter, certo?
     - Certo.
     - E o senhor disse que est com o anel?
     - Estou. - Langdon enfiou a mo dentro do bolso, encontrou o anel, tirou-o do saco plstico e o ps sobre a escrivaninha em frente ao decano.
     Galloway pegou o anel e comeou a alis-lo.
     - Este anel nico foi criado junto com a Pirmide Manica e tradicionalmente  usado pelo maom encarregado de proteg-la. Hoje  noite, quando senti o circumponto 
no fundo da caixa de pedra, percebi que o anel faz parte do symbolon.
     -  mesmo?
     - Tenho certeza. Peter  meu amigo mais ntimo, e ele usou este anel por muitos anos. Eu o conheo bem. - Ele entregou o anel a Langdon. - Veja o senhor mesmo.
     Langdon pegou o anel e o examinou, passando os dedos por cima da fnix de duas cabeas, do nmero 33, das palavras ORDO AB CHAO e tambm da frase: "Tudo  revelado 
no grau 33." No encontrou nada. Ento,  medida que seus dedos desciam pela parte externa do aro, ele estacou. Espantado, virou-o, fitando o ponto mais baixo do 
anel.
     - Encontrou? - perguntou Galloway.
     - Sim, acho que sim! - disse Langdon.
     Katherine arrastou a cadeira para mais perto.
     - O que foi?
     - H um smbolo de grau no aro - disse Langdon, mostrando a ela. -  to pequeno que nem d para perceber a olho nu, mas, quando voc passa o dedo, sente que 
h algo gravado, como uma pequena inciso circular. - O smbolo de grau estava centrado na parte de baixo do aro externo... e de
     fato parecia ter o mesmo tamanho do crculo em relevo no fundo do cubo.
     -  do mesmo tamanho? - Katherine chegou mais perto, parecendo animada.
     - S tem um jeito de descobrir. - Ele passou o anel para dentro da caixa, alinhando os dois pequenos crculos. Quando fez presso para baixo, o smbolo protuberante 
da caixa se encaixou na abertura do anel, e ouviu-se um clique baixinho, porm inconfundvel.
     Os trs se sobressaltaram.
     Langdon aguardou, mas nada aconteceu.
     - O que foi isso? - perguntou o sacerdote.
     - Nada - respondeu Katherine. - O anel se encaixou no lugar... e s.
     - Nenhuma grande transformao? - Galloway parecia intrigado.
     Ainda no terminamos, percebeu Langdon, olhando para as insgnias em relevo do braso do anel - uma fnix de duas cabeas e o nmero 33. Tudo  revelado no 
grau 33. Sua mente se encheu de pensamentos sobre Pitgoras, geometria sagrada e ngulos; e ele se perguntou se grau no teria um significado matemtico.
     Devagar, com o corao batendo mais depressa quela altura, ps a mo dentro da caixa e segurou o anel afixado  base do cubo. Ento, bem lentamente, comeou 
a gir-lo para a direita. Tudo  revelado no grau 33.
     Virou o anel em um ngulo de 10 graus... 20 graus... 30 graus...
     O que aconteceu em seguida pegou Langdon totalmente de surpresa.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 85
     
     Transformao.
     O decano Galloway a ouviu acontecer, portanto no precisou v-la.
     Sentados  sua frente, Langdon e Katherine se calaram por completo, sem dvida encarando com espanto o cubo de pedra que havia acabado de se transformar bem 
diante de seus olhos.
     Galloway no conseguiu reprimir um sorriso. Havia previsto aquilo e, embora ainda no soubesse como aquela transformao poderia ajud-los a solucionar o enigma 
da pirmide, estava gostando da rara oportunidade de ensinar algo sobre smbolos a um simbologista de Harvard.
     - Professor - falou o decano -, poucas pessoas sabem que os maons veneram a imagem do cubo, ou ashlar, como o chamamos, por ela ser uma representao tridimensional 
de outro smbolo muito mais antigo, bidimensional.
     Galloway no precisou perguntar se o professor reconhecia o antigo smbolo  sua frente na escrivaninha. Era um dos mais famosos do mundo.
     
     Os pensamentos de Robert Langdon se agitavam enquanto ele olhava para a caixa que tinha diante de si. Eu no fazia idia...
     Segundos antes, havia enfiado os dedos dentro da caixa de pedra, segurara o anel manico e o girara delicadamente. No momento em que ele atingiu o ngulo de 
33 graus, o cubo subitamente se transformou diante de seus olhos. Quando suas dobradias ocultas foram acionadas, os painis quadrados que formavam as laterais da 
caixa tombaram em direes opostas. A caixa se desmontou na mesma hora, as laterais e a tampa caindo para fora e batendo com fora sobre a escrivaninha.
     
     
     
     
     O cubo se transforma em cruz, pensou Langdon. Alquimia simblica.
     Katherine parecia atordoada pela viso do cubo desmontado.
     - A Pirmide Manica tem relao com o... cristianismo?
     Por um instante, Langdon havia se perguntado a mesma coisa. Afinal de contas, o crucifixo era um smbolo respeitado entre os maons, e certamente havia muitos 
cristos na irmandade. No entanto, a Maonaria tambm contava com judeus, muulmanos, budistas, hindus e praticantes de outras religies cujo deus no tinha nome. 
A presena de um smbolo exclusivo do cristianismo parecia restritiva. Foi ento que o verdadeiro significado dele lhe ocorreu.
     - No  um crucifixo - disse Langdon, levantando-se. - A cruz com o circumponto no meio  um smbolo binrio: dois smbolos unidos para criar um s.
     - Do que voc est falando? - Katherine o acompanhava com os olhos enquanto ele zanzava pela sala.
     - A cruz - disse Langdon - s virou um smbolo cristo no sculo IV. Muito antes disso, era usada pelos egpcios para representar a interseo de duas dimenses: 
a humana e a celeste. Assim em cima como embaixo. Ela era uma representao visual do ponto no qual homem e Deus se tornam um.
     - Certo.
     - O circumponto - disse Langdon -, como j sabemos, tem muitos significados, e um dos mais esotricos  a rosa, smbolo alqumico da perfeio. Mas, quando 
voc pe uma rosa no centro de uma cruz, cria um smbolo totalmente diferente: a rosa-cruz.
     Galloway se reclinou na cadeira, sorrindo.
     - Ora, ora. Agora o senhor est esquentando.
     Katherine tambm se levantou.
     - No estou entendendo.
     - A rosa-cruz - explicou Langdon -  um smbolo comum na Francomaonaria. Na verdade, um dos graus do Rito Escocs se chama "Cavaleiro Rosa-cruz", em homenagem 
aos antigos rosa-cruzes, que contriburam para a filosofia mstica manica. Peter talvez tenha mencionado a Ordem Rosa-cruz para voc. Dezenas de grandes cientistas 
foram membros dela: John Dee, Elias Ashmole, Robert Fludd...
     - Ele mencionou, sim - disse Katherine. - Eu li todos os manifestos rosa-cruzista na minha pesquisa.
     Todo cientista deveria fazer isso, pensou Langdon. A Ordem Rosa-cruz - ou, em sua denominao mais formal, a Antiga e Mstica Ordem Rosae Crucis - teve uma 
histria enigmtica que muito influenciou a cincia e possui fortes semelhanas com a lenda dos Antigos Mistrios... sbios primitivos que detinham um conhecimento 
secreto transmitido ao longo das eras... um conhecimento s estudado pelas mentes mais brilhantes. Supostamente, a lista de rosa-cruzes famosos  um verdadeiro almanaque 
de renascentistas europeus ilustres: Paracelso, Bacon, Fludd, Descartes, Pascal, Spinoza, Newton, Leibniz.
     Segundo a doutrina rosa-cruzista, a ordem era "baseada em verdades esotricas do passado antigo" que precisavam ser "escondidas do homem comum" e que prometiam 
grandes revelaes sobre "o reino espiritual". Com o passar dos anos, o smbolo da irmandade se transformou em uma rosa sobre uma cruz ornamentada, mas sua forma 
inicial era modesta: um crculo contendo um ponto sobre uma cruz nua. A mais simples representao da rosa sobre a mais simples representao da cruz.
     - Peter e eu conversamos muitas vezes sobre a filosofia rosa-cruzista - disse Galloway a Katherine.
     Enquanto o decano comeava a destacar a relao entre os maons e os rosa-cruzes, Langdon sentiu sua ateno voltar a ser atrada para o mesmo pensamento insistente 
que vinha tendo a noite inteira. Jeova Sanctus Unus. Essa expresso est de alguma forma ligada  alquimia. Ele ainda no conseguia lembrar exatamente o que Peter 
lhe dissera sobre a expresso, mas, por algum motivo, a meno  Ordem Rosa-cruz parecia ter reavivado a lembrana. Pense, Robert!
     - O fundador da ordem - ia dizendo Galloway - foi supostamente um mstico alemo chamado Christian Rosenkreuz. Obviamente um pseudnimo, talvez at de Francis 
Bacon, que alguns historiadores acreditam ser o verdadeiro fundador do grupo, embora no haja provas de...
     - Um pseudnimo! - gritou Langdon de repente, espantando at a si mesmo. -  isso! Jeova Sanctus Unos!  um pseudnimo!
     - Que histria  essa? - quis saber Katherine.
     A pulsao de Langdon estava acelerada.
     - Eu passei a noite inteira tentando lembrar o que Peter me disse sobre a expresso Jeova Sanctus Unos e sua relao com a alquimia. Finalmente consegui. No 
tem a ver com a alquimia propriamente dita, mas sim com um alquimista! Um alquimista muito famoso!
     Galloway deu uma risadinha.
     - J no era sem tempo, professor. Eu mencionei o nome dele duas vezes e tambm a palavra pseudnimo.
     Langdon encarou o velho decano.
     - O senhor sabia?
     - Bem, eu tive l minhas suspeitas quando o senhor falou que a inscrio dizia Jeova Sanctus Unus e tinha sido decodificada usando o alqumico quadrado mgico 
de Drer, mas, com o aparecimento da rosa-cruz, tive certeza. Como o senhor deve saber, os documentos pessoais do cientista em questo incluam um exemplar repleto 
de anotaes dos manifestos rosa-cruzistas.
     - Quem  ele? - perguntou Katherine.
     - Um dos maiores cientistas do mundo! - respondeu Langdon. - Era alquimista, membro da Real Sociedade de Londres e da Ordem Rosa-cruz. E ele assinou alguns 
de seus documentos cientficos mais secretos com o pseudnimo Jeova Sanctus Unus!
     - nico Deus Verdadeiro? - disse Katherine. - Que sujeito modesto.
     - Na verdade, um sujeito brilhante - corrigiu Galloway. - Ele assinava o nome assim porque, como os antigos adeptos, considerava a si mesmo divino. Alm do 
mais, as 16 letras de Jeova Sanctus Unus podiam ser reorganizadas para soletrar seu nome em latim, o que tornava esse pseudnimo perfeito.
     Katherine agora parecia intrigada.
     - Jeova Sanctus Unus  um anagrama do nome em latim de um alquimista famoso?
     Langdon pegou uma folha de papel e um lpis na mesa do decano e foi escrevendo  medida que falava.
     - Em latim, as letras J e I so intercambiveis, assim como o V e o U, o que significa que Jeova Sanctus Unus pode ser perfeitamente reorganizado para soletrar 
o nome desse homem.
     Langdon escreveu 16 letras: Isaacus Neutonuus.
     Ento, entregou o pedao de papel a Katherine e disse:
     - Talvez voc j tenha ouvido falar nele.
     - Isaac Newton? - perguntou Katherine, olhando para o papel. - Ento era isso que a inscrio na pirmide estava tentando nos dizer!
     Por alguns instantes, Langdon se viu de volta  Abadia de Westminster, diante da tumba piramidal de Newton, onde havia vivenciado uma revelao semelhante. 
E hoje  noite o grande cientista torna a aparecer.  claro que aquilo no era uma coincidncia... as pirmides, os mistrios, a cincia, o conhecimento oculto... 
estava tudo interligado. O nome de Newton sempre fora uma referncia constante para aqueles em busca de conhecimentos secretos.
     - Isaac Newton - disse Galloway - deve ter alguma coisa a ver com a forma de decifrar o significado da pirmide. No posso imaginar o que seria, mas...
     - Genial! - exclamou Katherine, arregalando os olhos. -  assim que a gente transforma a pirmide!
     - Voc entendeu? - perguntou Langdon.
     - Entendi! - disse ela. - No acredito que no vimos antes! Estava bem na nossa cara. Um simples processo alqumico. Posso transformar esta pirmide usando 
cincia bsica! Cincia newtoniana!
     Langdon se esforava para entender.
     - Decano Galloway - falou Katherine -, se o senhor ler o anel, ele diz...
     - Pare! - O velho decano ergueu de repente o dedo no ar, pedindo silncio. Devagar, inclinou a cabea para o lado como se escutasse alguma coisa. Logo em seguida, 
levantou-se abruptamente. - Meus amigos, est claro que esta pirmide ainda tem segredos a revelar. No sei aonde a Sra. Solomon est querendo chegar, mas, se ela 
sabe qual deve ser o prximo passo, j cumpri meu papel. Juntem suas coisas e no me digam mais nada. Deixem-me no escuro por enquanto. Prefiro no ter nenhuma informao 
para compartilhar caso nossos visitantes tentem me obrigar a faz-lo.
     - Visitantes? - disse Katherine, apurando o ouvido. - No escuto ningum.
     - Mas vai escutar - disse Galloway, encaminhando-se para a porta. - Logo.
     
     Do outro lado da cidade, uma torre de telefonia celular tentava entrar em contato com um aparelho despedaado na Massachusetts Avenue. No conseguindo sinal, 
encaminhou a chamada para a caixa postal.
     - Robert! - gritou Warren Bellamy, em pnico. - Onde voc est? Ligue para mim! Est acontecendo uma coisa terrvel!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 86
     
     Sob o brilho celeste da luz do poro, Mal'akh continuava seus preparativos diante da mesa de pedra. Enquanto trabalhava, seu estmago vazio roncava. Ele no 
lhe deu ouvidos. Seus dias de servido aos caprichos da carne haviam ficado para trs.
     Transformao exige sacrifcio.
     Assim como muitos dos homens mais espiritualmente evoludos da histria, Mal'akh havia assumido um compromisso com o prprio destino fazendo o mais nobre dos 
sacrifcios carnais. A castrao fora menos dolorosa do que ele imaginava. E, como havia descoberto, era bastante freqente. A cada ano, milhares de homens se submetiam 
 castrao cirrgica - interveno conhecida como orquiectomia -, motivados por questes de mudana de gnero, pelo desejo de
     refrear compulses sexuais, ou por crenas espirituais profundas. Para Mal'akh, os motivos eram os mais elevados. Assim como o tis da mitologia, que havia 
castrado a si mesmo, ele sabia que alcanar a imortalidade exigia uma ruptura drstica com o mundo material de masculino e feminino.
     O andrgino  um.
     Hoje em dia, os eunucos eram rejeitados, mas os antigos compreendiam o poder desse sacrifcio transmutacional. Os cristos primitivos haviam escutado o prprio 
Jesus louvar suas virtudes em Mateus 19:12: "H eunucos que castraram a si mesmos por causa do reino dos cus. Quem puder aceitar isso aceite-o."
     Peter Solomon tinha feito um sacrifcio da carne, embora uma s mo fosse um preo pequeno dentro do contexto geral. Antes do fim da noite, porm, Solomon sacrificaria 
muito, muito mais.
     Para criar, eu preciso destruir.
     Essa era a natureza da polaridade.
     Peter Solomon,  claro, merecia o destino que o aguardava naquela noite. Seria um final adequado. Muito antes, ele havia desempenhado um papel decisivo na vida 
de Mal'akh. Por esse motivo, fora escolhido para representar o mesmo papel na sua grande transformao. Aquele homem fizera por merecer todo o horror e sofrimento 
que estava prestes a suportar. Peter Solomon no era quem o mundo acreditava que fosse.
     Ele sacrificou o prprio filho.
     Solomon certa vez apresentara ao filho uma escolha impossvel - riqueza ou saber. Zachary escolheu mal. A deciso do rapaz desencadeara uma srie de acontecimentos 
que o conduziram s profundezas do inferno. A priso de Soganlik. Zachary Solomon tinha morrido naquele presdio turco. O mundo inteiro conhecia a histria... mas 
o que o mundo no sabia era que Peter Solomon poderia ter salvado seu filho.
     Eu estava l, pensou Mal'akh. Eu ouvi tudo.
     Mal'akh jamais se esquecera daquela noite. A deciso cruel de Solomon significou o fim de Zach, mas tambm o nascimento de Mal'akh.
     Alguns devem morrer para que outros possam viver.
     Quando a luz acima da cabea de Mal'akh comeou a mudar novamente de cor, ele percebeu que j era tarde. Completou seus preparativos e tornou a subir a rampa. 
Estava na hora de tratar de assuntos mortais.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 87
     
     Tudo  revelado no grau 33, pensou Katherine enquanto corria. Eu sei como transformar a pirmide! A resposta estava na cara deles o tempo todo.
     Katherine e Langdon agora estavam sozinhos, correndo pelo anexo da catedral e seguindo as placas para o "Jardim" Ento, exatamente como o decano havia explicado, 
eles saram do edifcio e adentraram um imenso ptio murado.
     O jardim da catedral era um espao pentagonal cercado por um claustro, com um chafariz de bronze ps-moderno no centro. Katherine ficou espantada com a altura 
do eco que a gua corrente parecia produzir no ptio. Ento percebeu que aquele barulho no era do chafariz.
     - Helicptero! - gritou ela quando um facho de luz varou o cu noturno acima deles. - Entre debaixo daquele prtico!
     O brilho ofuscante vindo de um canho de luz inundou o jardim na hora em que Langdon e Katherine chegaram ao outro lado, passando sob um arco gtico rumo a 
um tnel que conduzia ao gramado externo. L dentro, aguardaram encolhidos enquanto o helicptero descrevia grandes crculos
     em volta da catedral.
     - Acho que Galloway tinha razo quando disse ter escutado visitantes - falou Katherine, impressionada. Olhos ruins produzem timos ouvidos. Os dela, por sua 
vez, latejavam no mesmo ritmo de sua pulsao acelerada.
     - Por aqui - disse Langdon, segurando firme a bolsa de viagem e avanando pelo corredor.
     O decano Galloway lhes dera uma nica chave e instrues claras. Infelizmente, quando chegaram ao final do curto tnel, eles se viram separados do seu destino 
por um longo gramado descoberto, inundado naquele instante pela luz do helicptero mais acima.
     - No d para atravessar - disse Katherine.
     - Espere... olhe ali. - Langdon apontou para uma sombra preta que comeava a se materializar  esquerda do gramado. No incio era uma bolha disforme, no entanto, 
foi crescendo
     depressa, movendo-se na direo dos dois e ganhando definio. Ela se aproximava cada vez mais rpido deles, esticando-se at se transformar em um imenso retngulo 
negro, coroado por duas torres.
     - A fachada da catedral est bloqueando o canho de luz - disse Langdon.
     - Eles esto pousando l na frente!
     Langdon agarrou a mo de Katherine.
     - Corra! Agora!
     
     Dentro da catedral, o decano Galloway notou no prprio passo uma leveza que no sentia h muitos anos. Atravessou a Grande Divisria e desceu a nave em direo 
ao nrtex e s portas da frente.
     J conseguia ouvir o helicptero sobrevoando a entrada da catedral e imaginou suas luzes entrando pela roscea  sua frente, lanando cores espetaculares por 
todo o santurio. Recordou os dias em que podia ver as cores. Ironicamente, o vazio sem luz em que seu mundo se transformara havia iluminado muitas coisas para ele. 
Hoje sou capaz de ver com mais clareza do que nunca.
     Galloway recebera o chamado de Deus ainda rapaz e, ao longo da vida, amara a Igreja tanto quanto um homem  capaz de amar. Assim como muitos de seus colegas 
que haviam dedicado sua existncia a Deus, Galloway estava cansado. Tinha passado a vida inteira tentando se fazer escutar acima do alarido da ignorncia.
     Mas o que eu esperava?
     Desde as Cruzadas at a poltica norte-americana, passando pela Inquisio, o nome de Jesus vinha sendo usado em vo em todo tipo de disputa de poder. Os ignorantes 
sempre haviam gritado mais alto, convocando as massas incautas e forando-as a fazer o que mandavam. Defendiam seus desejos mundanos citando Escrituras que no compreendiam. 
Celebravam sua intolerncia como prova de suas convices. Agora, depois de tantos anos, a humanidade finalmente conseguira erodir por completo tudo aquilo que Jesus 
outrora tinha de belo.
     Naquela noite, a rosa-cruz enchera o decano Galloway de grandes esperanas, trazendo-lhe  mente as profecias dos manifestos que havia lido incontveis vezes 
e dos quais ainda se recordava.
     Captulo Um: Jeov ir redimir a humanidade revelando os segredos antes reservados apenas aos eleitos.
     Captulo Quatro: O mundo inteiro se tornar um s livro, e as contradies entre cincia e teologia sero superadas.
     Captulo Sete: Antes do fim do mundo, Deus criar um grande dilvio de luz espiritual para aliviar o sofrimento da humanidade.
     Captulo Oito: Antes que essa revelao seja possvel, o mundo deve dormir para curar a embriaguez de seu clice envenenado, cheio da vida falsa das vinhas 
da teologia.
     Galloway sabia que a Igreja havia se desvirtuado, e dedicara a vida a recoloc-la no bom caminho. Agora, percebia que o momento da transformao se aproximava 
depressa.
     A hora mais sombria  sempre a que precede o amanhecer.
     
     Turner Simkins, agente de campo da CIA, estava empoleirado no helicptero Sikorsky ao aterrissarem sobre a grama coberta de gelo. Ele pulou para o cho, logo 
seguido por seus homens, e imediatamente fez sinal para que o helicptero levantasse vo e vigiasse todas as sadas.
     Ningum sai deste prdio.
     Enquanto a aeronave retornava ao cu noturno, Simkins e sua equipe subiram correndo os degraus que conduziam  entrada principal da catedral. Antes que pudesse 
se decidir em qual das seis portas bater, uma delas se abriu.
     - Pois no? - disse uma voz calma sada das sombras.
     Simkins mal conseguiu discernir a forma encurvada com roupas de sacerdote.
     - O senhor  o decano Galloway?
     - Ele mesmo - respondeu o velho.
     - Estou procurando Robert Langdon. O senhor o viu?
     O velho ento deu um passo  frente, cravando os olhos vazios e sinistros em Simkins.
     - Bem, isso seria um milagre.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 88
     
     O tempo est se esgotando.
     A analista de segurana Nola Kaye estava nervosa. Para completar, a terceira caneca de caf que bebia comeara a circular por suas veias como uma corrente eltrica.
     Nenhuma notcia de Sato ainda.
     Por fim, seu telefone tocou e Nola pulou para atender.
     - ES - disse ela. - Nola falando.
     - Nola, aqui  Rick Parrish, da segurana de sistemas.
     O corpo de Nola afundou na cadeira. No  Sato.
     - Oi, Rick. Em que posso ajudar?
     - Eu s queria avisar que talvez nosso departamento tenha informaes relevantes para o trabalho que voc est fazendo hoje.
     Nola pousou a caneca de caf. E como voc sabe em que eu estou trabalhando?
     - Como assim?
     - Desculpe,  o beta do novo software de IC que estamos testando - disse Parrish. - Ele no para de indicar o nmero da sua estao de trabalho.
     Nola ento compreendeu do que ele estava falando. A CIA vinha testando um novo programa de "integrao cooperativa" destinado a produzir alertas em tempo real 
para departamentos distintos da agncia que estivessem processando campos de dados correlacionados. Numa poca de ameaas terroristas em que o tempo era fator crucial, 
a chave para evitar uma tragdia muitas vezes consistia em um simples aviso de que o cara do outro lado do corredor estava analisando justamente a informao de 
que voc precisava. Para Nola, esse software de IC havia se revelado mais uma distrao do que uma ajuda - ela o chamava de programa de interrupo constante.
     - Ah, sim, eu tinha me esquecido - disse Nola. - O que vocs acharam? - A analista estava certa de que ningum mais no prdio sequer sabia sobre aquela situao, 
muito menos poderia estar trabalhando em algo relacionado a ela. Alm disso, Nola passara a maior parte do tempo fazendo uma
     simples pesquisa histrica para Sato sobre assuntos esotricos ligados  Maonaria. Mesmo assim, era obrigada a entrar no jogo e fingir interesse.
     - Bom, provavelmente no  nada - disse Parrish -, mas ns impedimos o ataque de um hacker hoje  noite, e o software de IC no para de sugerir que eu compartilhe 
a informao com voc.
     Um hacker? Nola bebeu um gole de caf.
     - Estou ouvindo.
     - H mais ou menos uma hora - disse Parrish - pegamos um cara chamado Zoubianis tentando acessar um arquivo de uma das nossas bases de dados. Ele disse que 
tinha sido contratado para o servio, mas que no fazia idia do que havia naquele arquivo nem do que motivara o interesse por ele. Tambm no sabia que os dados 
estavam em um servidor da CIA.
     - Certo.
     - Ns acabamos de interrogar o sujeito, e ele est limpo. Mas h algo estranho... o mesmo arquivo que ele estava tentando acessar tinha sido sinalizado mais 
cedo por uma ferramenta de busca interna. Parece que algum entrou no nosso sistema, fez uma pesquisa de palavras-chave especficas e gerou um arquivo editado. A 
questo  que as palavras-chave pesquisadas so muito estranhas. E uma delas em especial foi apontada pelo programa de IC por ser de alta prioridade, ou seja, uma 
ocorrncia nica em ambos os conjuntos de dados. - Ele fez uma pausa. - Voc por acaso j ouviu falar em... symbolon?
     Nola deu um pulo na cadeira, derramando caf sobre a mesa.
     - As outras palavras-chave tambm so bem esquisitas - continuou Parrish. - Pirmide, portal...
     - Desa aqui agora - ordenou Nola, enxugando sua mesa. - E traga tudo o que tiver!
     - Essas palavras significam mesmo alguma coisa para voc?
     - AGORA!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 89
     
     O Cathedral College  um prdio elegante, com ar de castelo, adjacente  Catedral Nacional. A Escola de Pregadores, como originalmente concebida pelo primeiro 
bispo episcopal de Washington, foi criada para proporcionar uma formao contnua para o clero aps a ordenao. Atualmente, a instituio oferece vrios programas 
sobre teologia, justia global, cura e espiritualidade.
     Depois de atravessar correndo o gramado, Langdon e Katherine entraram no prdio, usando a chave que Galloway lhes dera. Assim que pisaram no saguo, viram o 
helicptero se erguer novamente por sobre a catedral, seu canho de luz transformando a noite em dia. Agora, ofegantes, olhavam ao
     redor para avaliar onde estavam. As janelas forneciam iluminao suficiente, de modo que Langdon no viu motivo para acender as luzes e revelar sua localizao 
para os agentes da CIA.
     Descendo o corredor central, passaram por uma srie de sales de conferncia, salas de aula e reas de estar. A simplicidade do ambiente fez Langdon pensar 
nos prdios neogticos da Universidade de Yale - deslumbrantes por fora mas surpreendentemente funcionais por dentro, o elegante estilo de poca adaptado para suportar 
um intenso trfego de pessoas.
     - Por aqui - disse Katherine, indicando a outra ponta do corredor.
     Ela ainda precisava compartilhar com Langdon a revelao que tivera, aparentemente provocada pela referncia a Isaacus Neutonuus. Tudo o que conseguira dizer 
enquanto os dois cruzavam o gramado era que a pirmide poderia ser transformada usando cincia bsica.
     Katherine achava que encontraria todos os apetrechos de que precisava ali mesmo, naquele prdio. Langdon no fazia idia do que seria necessrio ou de como 
a cientista pretendia transformar um pedao macio de granito ou de ouro. Contudo, levando em conta que acabara de testemunhar a metamorfose de um cubo no smbolo 
dos rosa-cruzes, ele estava disposto a ter f.
     Os dois chegaram ao final do corredor e Katherine franziu as sobrancelhas, parecendo no ver o que desejava.
     - Voc disse que este prdio tem alojamentos?
     - Sim, para conferencistas convidados.
     - Ento deve haver uma cozinha em algum lugar, certo?
     - Voc est com fome?
     Ela tornou a franzir as sobrancelhas, desta vez para ele.
     - No, eu preciso de um laboratrio.
      claro que precisa. Langdon viu um smbolo promissor perto de uma escada. O pictograma preferido dos Estados Unidos.
     
     
     
     A cozinha no subsolo tinha aparncia industrial - muito ao inox e tigelas enormes - e fora claramente projetada para servir grupos grandes. No havia janelas. 
Katherine fechou a porta e acendeu as luzes. Os exaustores se ligaram automaticamente.
     Ela comeou a vasculhar os armrios em busca do que quer que estivesse precisando.
     - Robert - pediu -, ponha a pirmide em cima da bancada, por favor.
     Sentindo-se como um subchefe novato recebendo ordens de Daniel Boulud, Langdon fez o que ela mandava: tirou a pirmide da bolsa e posicionou o cume de ouro 
por cima. Quando terminou, Katherine estava ocupava enchendo uma imensa panela com gua da torneira.
     - Pode levar isto aqui at o fogo para mim, por favor?
     Langdon ergueu a panela cheia d'gua e a ps em cima do fogo enquanto Katherine acendia a boca e aumentava a chama.
     - Vamos cozinhar lagostas? - perguntou ele, esperanoso.
     - Muito engraado. No, vamos praticar alquimia. E, para seu governo, essa panela  de massa, no de lagosta. - Ela apontou para o escorredor que havia retirado 
da panela e pousado sobre a bancada ao lado da pirmide.
     - E fazer macarro vai nos ajudar a decifrar a pirmide?
     Katherine ignorou o comentrio, assumindo um tom srio.
     - Como tenho certeza de que voc sabe, existe um motivo histrico e simblico para os maons terem escolhido o grau 33 como o mais elevado da irmandade.
     - Claro - respondeu Langdon. Na poca de Pitgoras, seis sculos antes de Cristo, a tradio da numerologia alardeava o 33 como o mais elevado de todos os Nmeros 
Mestres. Ele era o mais sagrado, o que simbolizava a Verdade Divina. A tradio perdurou entre os maons... e em outras instituies. No   toa que os ensinamentos 
cristos dizem que Jesus foi crucificado aos 33 anos, apesar de no haver nenhum indcio histrico disso. Tampouco  coincidncia o fato de Jos supostamente ter 
33 anos ao se casar com a Virgem Maria, ou de Jesus ter operado 33 milagres, ou de o nome de Deus ter sido mencionado 33 vezes no Gnesis. Em outras religies, o 
nmero tambm aparece. No islamismo, todos os habitantes do paraso tm eternamente 33 anos.
     - Trinta e trs - disse Katherine -  um nmero sagrado em muitas tradies msticas.
     - Correto. - Langdon ainda no entendia o que isso tinha a ver com a panela de macarro.
     - Ento voc no deveria ficar surpreso que um precursor da alquimia, membro da Ordem Rosa-cruz e mstico como Isaac Newton considerasse o nmero 33 especial.
     - No tenho duvidas de que ele considerava mesmo - retrucou Langdon. - Newton se interessava muito por numerologia, profecia e astrologia, mas o que isso...
     - Tudo  revelado no grau 33.
     Langdon tirou o anel de Peter do bolso e leu a inscrio. Ento tornou a olhar para a panela d'gua.
     - Desculpe, no estou entendendo.
     - Robert, a princpio ns todos imaginamos que "grau 33" estivesse se referindo ao grau manico, mas, quando giramos o anel em um ngulo de 33 graus, o cubo 
se transformou e revelou uma cruz. Nessa hora, percebemos que a palavra grau estava sendo usada em outro sentido.
     - Sim. Graus de uma circunferncia.
     - Exatamente. Mas grau tem tambm um terceiro significado.
     Langdon olhou para a panela d'gua em cima do fogo.
     - Graus de temperatura.
     - Exatamente! - exclamou ela. - A resposta estava na nossa cara a noite inteira. "Tudo  revelado no grau 33." Se esquentarmos a pirmide a essa temperatura... 
talvez ela revele alguma coisa.
     Langdon sabia que Katherine era uma cientista extremamente inteligente, mas, apesar disso, ela parecia estar deixando escapar um detalhe bastante bvio.
     - Se no me engano, 33 graus na escala Fahrenheit, que usamos aqui nos Estados Unidos,  quase a temperatura do congelamento. No deveramos colocar a pirmide 
no freezer?
     Katherine sorriu.
     - No se quisermos seguir a receita do grande alquimista e rosa-cruz que assinava seus documentos como Jeova Sanctus Unus.
     Isaacus Neutonuus escreveu receitas?
     - Robert, a temperatura  o mais importante catalisador alqumico e nem sempre foi medida pelas escalas Fahrenheit ou Celsius. Existem outras bem mais antigas, 
uma delas inventada por Isaac...
     -A escala de Newton! - exclamou Langdon, percebendo que ela estava certa.
     - Isso! Isaac Newton inventou todo um sistema para quantificar a temperatura inteiramente baseado em fenmenos naturais. A temperatura de fuso do gelo foi 
o ponto inicial de Newton, que a batizou de "grau zero". - Ela fez uma pausa. - Imagino que voc consiga adivinhar que grau ele atribuiu  temperatura de ebulio 
da gua, o rei de todos os processos alqumicos.
     - Trinta e trs.
     - Sim, 33! O grau 33. Na escala de Newton, a temperatura de fervura da gua  33 graus. Lembro que um dia perguntei ao meu irmo por que Newton tinha escolhido 
esse nmero. Afinal de contas, parecia aleatrio demais. A fervura da gua  o mais fundamental dos processos alqumicos, e ele escolhe 33?
     Por que no 100? Por que no algo mais redondo? Peter me explicou que, para um mstico como Isaac Newton, no existia nmero mais elegante do que 33.
     Tudo  revelado no grau 33. Langdon olhou para a panela e, em seguida, para a pirmide.
     - Katherine, a pirmide  feita de granito e ouro macios. Voc acha que o calor da gua fervente basta para transform-la?
     O sorriso no rosto de Katherine indicava que ela sabia alguma coisa de que Langdon nem desconfiava. Confiante, andou at a bancada, ergueu a pirmide de granito 
com seu cume de ouro e colocou-a dentro do escorredor, mergulhando-o cuidadosamente na gua borbulhante.
     Por que a gente no tenta descobrir?
     
     Bem acima da Catedral Nacional, o piloto da CIA acionou o dispositivo que fazia o helicptero pairar automaticamente e examinou o permetro do prdio e o terreno. 
Nenhum movimento. Seu gerador de imagens trmicas no conseguia penetrar as paredes de pedra da catedral, portanto, ele no tinha como saber o que a equipe estava 
fazendo l dentro, mas, se algum tentasse sair de fininho, o equipamento detectaria.
     Sessenta segundos depois, um dos sensores trmicos emitiu um bipe. Funcionando segundo o mesmo princpio dos sistemas de segurana domsticos, o detector havia 
identificado uma forte diferena de temperatura. Em geral, isso significava uma forma humana se movendo por um espao frio, mas o que aparecia no monitor era mais 
uma nuvem trmica, uma mancha de ar quente que se deslocava pelo gramado. O piloto encontrou sua origem: um duto de ventilao do Cathedral College.
     No deve ser nada, pensou. Ele via aquele tipo de alterao o tempo todo. Algum cozinhando ou lavando roupa. Quando estava prestes a virar as costas para o 
monitor, porm, reparou em uma coisa estranha. No havia nenhum carro no estacionamento, nem luzes em qualquer lugar do prdio.
     O piloto ficou um bom tempo analisando o gerador de imagens do UH-60. Ento passou um rdio para o lder de sua equipe.
     - Simkins, no deve ser nada, mas...
     
     - Indicador incandescente de temperatura!
     Langdon teve de admitir que aquilo era engenhoso.
     -  cincia elementar - disse Katherine. - Substncias diferentes incandescem a temperaturas diferentes. Ns as chamamos de marcadores trmicos. A cincia usa 
esses marcadores o tempo todo.
     Langdon baixou os olhos para a pirmide e o cume submersos. Espirais de vapor serpeavam sobre a gua borbulhante, mas ele no estava esperanoso. Olhou para 
o relgio e seu ritmo cardaco se acelerou: 23h45.
     - Voc acha que alguma coisa vai se tornar luminescente a dentro?
     - Luminescente, no, Robert. Estou falando em incandescente. A diferena  grande. A incandescncia  causada pelo calor e ocorre a uma temperatura especfica. 
Por exemplo, ao temperar barras de ao, os fabricantes as borrifam com um revestimento transparente que incandesce a uma temperatura-alvo especfica, para indicar 
quando esto prontas. Pense naqueles anis que mudam de cor conforme o humor da pessoa. Basta coloc-los no dedo que o calor do corpo muda a colorao deles.
     - Katherine, essa pirmide foi fabricada no sculo XIX! Posso entender um arteso que constri dobradias ocultas em uma caixa de pedra, mas aplicar algum tipo 
de revestimento trmico transparente no  um pouco demais?
     -  totalmente possvel - disse ela, olhando para a pirmide submersa. - Os primeiros alquimistas usavam fsforos orgnicos como marcadores trmicos. Os chineses 
fabricavam fogos de artifcio coloridos, e at os egpcios... - Katherine parou a frase no meio, observando com ateno a gua revolta.
     - O que foi? - Langdon seguiu o olhar dela para dentro da panela, mas no viu absolutamente nada.
     Katherine chegou mais perto, examinando a gua com mais ateno. De repente, virou-se e atravessou a cozinha correndo em direo  porta.
     - Aonde voc est indo? - gritou Langdon.
     Ela parou diante do interruptor de luz e o desligou. As luzes se apagaram e o exaustor parou de funcionar, mergulhando o espao em total escurido e silncio. 
Langdon se voltou para a pirmide e olhou para o cume debaixo d'gua. Quando Katherine reapareceu, o professor estava boquiaberto.
     Exatamente como ela previra, um pedacinho do cume de metal estava comeando a reluzir debaixo d'gua. Letras apareciam aos poucos, ficando mais brilhantes  
medida que a gua esquentava.
     - Um texto! - sussurrou Katherine.
     Langdon aquiesceu, estupefato. As palavras brilhantes se materializavam logo abaixo da inscrio gravada no cume. Pareciam ser apenas trs e, embora Langdon 
ainda no estivesse conseguindo ler o que diziam, imaginou se seriam capazes de revelar o que eles procuravam. A pirmide  um mapa de verdade, dissera-lhes Galloway, 
e indica um lugar real.
     Quando o brilho das letras aumentou, Katherine desligou o fogo, interrompendo a fervura. O cume ento entrou em foco sob a superfcie calma da gua.
     Trs palavras brilhantes estavam claramente legveis.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 90
     
     Sob a luz tnue da cozinha do Cathedral College, Langdon e Katherine encaravam o cume transformado dentro da panela d'gua. Numa das laterais, brilhava uma 
mensagem incandescente.
     Langdon leu o texto reluzente, mal conseguindo acreditar nos prprios olhos. Sabia que a pirmide supostamente revelava uma localizao especfica... mas jamais 
imaginara que seria to especfica assim.
     
     Eight Franklin Square
     
     - Um endereo... Franklin Square, nmero 8... - sussurrou ele, atnito.
     Katherine parecia igualmente abismada.
     -  uma praa. No sei o que tem l, voc sabe?
     Langdon fez que no com a cabea. Sabia que a Franklin Square ficava em uma das partes mais antigas de Washington, mas no conhecia aquele endereo. Olhou para 
a ponta do cume e foi lendo de cima para baixo, abarcando o texto inteiro:
     O
     segredo
     se esconde
     dentro da Ordem
     Eight Franklin Square
     Ser que existe algum tipo de Ordem na Franklin Square? Algum prdio que esconde a entrada de uma longa escada em espiral?
     Langdon no tinha a menor idia se havia ou no algo enterrado naquele endereo. O importante era que ele e Katherine haviam decifrado a pirmide e agora tinham 
a informao necessria para negociar a libertao de Peter.
     E bem na hora.
     Os ponteiros brilhantes do seu relgio de Mickey Mouse indicavam que restavam menos de 10 minutos.
     - D o telefonema - falou Katherine, apontando para o aparelho na parede da cozinha. - Agora!
     A chegada sbita daquele momento deixou Langdon alarmado, e ele se pegou hesitando.
     - Ns temos certeza disso?
     - Eu tenho, absoluta.
     - No vou dizer nada para ele at sabermos que Peter est seguro.
     -  claro que no. Voc se lembra do nmero dele, no ?
     Langdon assentiu e se encaminhou para o telefone da cozinha. Ergueu o fone e discou o nmero do celular do homem. Katherine se aproximou e ps a cabea junto 
 dele para poder ouvir.
     Quando o telefone do outro lado comeou a tocar, Langdon se preparou para o sussurro sinistro do homem que o havia enganado.
     Por fim, a ligao foi completada.
     No entanto, ningum disse "al". No se ouviu voz alguma. Apenas o rudo de uma respirao do outro lado.
     Depois de esperar um pouco, Langdon falou:
     - Tenho a informao que voc quer, mas s vou revel-la se nos devolver Peter.
     - Quem est falando? - respondeu uma voz de mulher.
     Langdon levou um susto.
     - Robert Langdon - respondeu ele por reflexo. - E a senhora, quem ? - Por um instante, ele achou que poderia ter discado o nmero errado.
     - Seu nome  Langdon? - A mulher soava surpresa. - Algum aqui perguntou pelo senhor.
     O qu?
     - Desculpe, mas quem est falando?
     - Agente Paige Montgomery, da Preferred Security. - Ela parecia nervosa. - Talvez o senhor possa nos ajudar. H mais ou menos uma hora, minha colega atendeu 
a um chamado de emergncia em Kalorama Heights... uma possvel situao com refns. Eu perdi o contato com ela, ento chamei reforos e vim verificar o imvel. Encontramos 
minha colega morta no quintal dos fundos. O proprietrio no estava, ento arrombamos a casa. Havia um celular tocando na mesa do hall e eu...
     - A senhora est dentro da casa? - perguntou Langdon.
     - Estou... e a denncia feita ao disque-emergncia... procedia - gaguejou a mulher. - Desculpe se estou parecendo abalada, mas minha colega est morta, e encontramos 
um homem mantido aqui  fora. O estado dele  grave, e estamos prestando os primeiros socorros. Ele perguntou por duas pessoas: uma chamada Langdon e outra, Katherine.
     -  o meu irmo! - exclamou Katherine, colando sua cabea  de Langdon. - Fui eu que liguei para a emergncia! Ele est bem?
     - Na verdade, senhora, ele est... - A voz da mulher falhou. - O estado dele  grave. Ele teve a mo direita cortada...
     - Por favor - pediu Katherine -, quero falar com ele.
     - Ele est sob cuidados agora. No est conseguindo se manter consciente. Se estiver por perto,  melhor vir at aqui. Seu irmo quer v-la.
     - Ns estamos a uns seis minutos da! - disse Katherine.
     - Ento sugiro que se apressem. - Houve um rudo abafado ao fundo e logo em seguida a mulher voltou a falar. - Desculpe, parece que esto precisando de mim. 
Conversamos quando chegarem.
     A ligao foi cortada.
     
     
     
     CAPTULO 91
     
     Dentro do Cathedral College, Langdon e Katherine subiram aos saltos a escada do subsolo e atravessaram em disparada um corredor escuro  procura de uma sada. 
No estavam mais escutando o barulho do helicptero, e Langdon teve esperanas de que pudessem escapar despercebidos e chegar a Kalorama Heights o mais rpido possvel 
para ver Peter.
     Eles o encontraram. Ele est vivo.
     Assim que Langdon desligara o telefone, cerca de 30 segundos antes, Katherine se apressara a tirar a pirmide e o cume fumegantes da gua. A pirmide ainda 
pingava quando ela a colocou dentro da bolsa de Langdon. Agora ele podia sentir seu calor atravessando o couro.
     A notcia de que Peter fora encontrado os deixara to animados que nem refletiram mais sobre a mensagem reluzente do cume - Eight Franklin Square. Haveria tempo 
para isso depois que chegassem ao local onde ele estava.
     De repente, Katherine estacou, apontando para uma sala de estar do outro lado do saguo. Pela janela de sacada, Langdon podia ver um helicptero preto lustroso 
pousado em silncio sobre a grama. De costas para eles, um solitrio piloto falava no rdio, ao lado da aeronave. Havia tambm um Escalade preto de vidros escurecidos 
estacionado ali perto.
     Sem abandonar as sombras, Langdon e Katherine entraram na sala de estar e espiaram pela janela para ver se conseguiam distinguir o resto da equipe de campo. 
Felizmente, o imenso gramado do lado de fora da Catedral Nacional estava vazio.
     - Eles devem estar dentro da catedral - sussurrou Langdon.
     - No esto, no - disse uma voz grave atrs deles.
     Langdon e Katherine se viraram para ver quem havia falado. Sob o batente da sala de estar, duas figuras vestidas de preto lhes apontavam armas com miras a laser. 
Langdon pde ver um pontinho vermelho brilhante danando sobre seu peito.
     -  um prazer reencontr-lo, professor - disse uma conhecida voz rascante. Os agentes se afastaram, e a forma diminuta da diretora Sato passou entre eles sem 
esforo, atravessando a sala de estar na direo de Langdon. - O senhor fez algumas pssimas escolhas hoje  noite.
     - A polcia encontrou Peter Solomon - declarou Langdon, enftico. - O estado dele  grave, mas ele vai sobreviver. Est tudo acabado.
     Se Sato ficou surpresa com o fato de terem encontrado Peter, no deixo transparecer. Manteve o olhar firme enquanto se aproximava de Langdon, parando a poucos 
centmetros dele.
     - Professor, posso garantir que essa histria no est nem perto de ter acabado. E, se a polcia agora est envolvida, isso s significa que a situao ficou 
ainda mais sria. Como lhe disse mais cedo, estamos diante de um quadro extremamente delicado. O senhor nunca deveria ter fugido com a pirmide.
     - Senhora - disse Katherine -, eu tenho que ver meu irmo. Pode ficar com a pirmide, mas precisa deixar...
     - Eu preciso? - indagou Sato, virando-se para Katherine. - Sra. Solomon, imagino? - Ela encarou Katherine com fogo nos olhos, tornando a se virar para Langdon 
em seguida. - Ponha a bolsa de couro sobre a mesa.
     Langdon baixou os olhos para as duas miras de raio laser sobre seu peito. Ento pousou a bolsa sobre a mesa de centro. Um agente se aproximou, abriu o zper 
e afastou as duas laterais. Uma pequena lufada de vapor escapou l de dentro. Ele iluminou o interior com a lanterna e ficou olhando intrigado por um instante. Em 
seguida fez um gesto com a cabea para que Sato se aproximasse.
     A diretora chegou mais perto e espiou dentro da bolsa. A pirmide e o cume molhados cintilavam sob o facho da lanterna. Sato se agachou, examinando o cume de 
ouro bem de perto. Langdon se deu conta de que ela s o vira em raio X.
     - A inscrio - comeou Sato. - Ela significa alguma coisa para o senhor? "O segredo se esconde dentro da Ordem"?
     - No temos certeza, senhora.
     - Por que a pirmide est fumegante?
     - Ns a mergulhamos em gua fervente - respondeu Katherine sem titubear. - Fazia parte do processo de decifrar a pirmide. Ns vamos contar tudo  senhora, 
mas, por favor, deixe-nos ir ver meu irmo. Ele passou por...
     - Vocs ferveram a pirmide? - perguntou Sato.
     - Apague a lanterna - disse Katherine. - Olhe para o cume. Provavelmente ainda vai conseguir ver.
     O agente apagou a lanterna e Sato se ajoelhou em frente ao cume. Mesmo de onde estava, Langdon podia perceber que o texto ainda emitia um brilho fraco.
     - Eight Franklin Square? - disse Sato, parecendo espantada.
     - Sim, senhora. Esse texto foi escrito com uma tinta incandescente ou algo do gnero. Na verdade, o grau 33 era...
     - E o endereo? - perguntou Sato. -  isso que o tal sujeito quer?
     -  - disse Langdon. - Ele acredita que a pirmide  um mapa que vai revelar a localizao de um grande tesouro: a chave para desvendar os Antigos Mistrios.
     Sato tornou a olhar para o cume com uma expresso de incredulidade.
     - Me digam uma coisa - falou ela, o medo se insinuando em sua voz -, os senhores j entraram em contato com esse homem? J deram a ele o endereo?
     - Ns tentamos - respondeu Langdon, explicando o que havia acontecido quando telefonaram para o celular do seqestrador.
     Sato escutou, passando a lngua pelos dentes amarelos enquanto ele falava. Embora parecesse prestes a explodir de raiva, ela se virou para um dos agentes e 
falou num tom contido.
     - Mande-o entrar. Ele est no carro.
     O agente assentiu e transmitiu suas ordens pelo rdio.
     - Mandar quem entrar? - perguntou Langdon.
     - A nica pessoa que tem alguma chance de consertar a cagada que os senhores fizeram!
     - Que cagada? - disparou Langdon. - Agora que Peter est seguro, tudo o mais ...
     - Pelo amor de Deus! - explodiu Sato. - Isso no tem nada a ver com Peter! Eu tentei lhe dizer isso l no Capitlio, professor, mas o senhor decidiu ir contra 
mim em vez de trabalhar junto comigo! Agora fez uma confuso do cacete! Quando destruiu seu celular, que, alis, ns estvamos rastreando, sim, o senhor interrompeu 
nossa comunicao com o homem. E esse endereo que vocs encontraram, seja l o que signifique,  a nossa nica chance de capturar esse maluco. Preciso que o senhor 
jogue de acordo com as regras dele, que lhe revele esse endereo para sabermos onde podemos captur-lo!
     Antes que Langdon pudesse responder, Sato direcionou o resto de sua ira para Katherine.
     - E a senhora, Sra. Solomon, sabia onde esse louco morava? Por que no me contou? Em vez disso, mandou um guardinha de araque para a casa do homem. No est 
vendo que arruinou nossas chances de captur-lo ali? Fico feliz por seu irmo estar bem, mas vou lhe dizer uma coisa: ns estamos diante de uma crise cujas ramificaes 
vo muito alm da sua famlia. Elas sero sentidas pelo mundo todo. Esse seqestrador tem um poder enorme, e precisamos peg-lo imediatamente.
     Quando ela terminava de dar sua bronca, a silhueta alta de Warren Bellamy emergiu das sombras e adentrou a sala de estar. Ele estava desalinhado, ferido e abalado... 
como se tivesse visitado o inferno.
     - Warren! - Langdon se levantou. - Voc est bem?
     - No - respondeu o outro. - Na verdade, no.
     - Voc ouviu? Peter est seguro!
     Bellamy aquiesceu, parecendo atordoado, como se nada mais importasse.
     - Sim, acabei de ouvir a conversa de vocs. Fico feliz.
     - Warren, que diabos est acontecendo?
     Sato interveio.
     - Vocs podero colocar a conversa em dia daqui a um minuto, rapazes. Mas agora o Sr. Bellamy vai tentar se comunicar com esse maluco. Exatamente como vem fazendo 
a noite inteira.
     Langdon sentiu-se perdido.
     - Bellamy no se comunicou com esse sujeito hoje  noite! Esse cara nem sabe que ele est envolvido!
     Sato se virou para o Arquiteto e arqueou as sobrancelhas.
     Bellamy deu um suspiro.
     - Robert, no fui totalmente honesto com voc.
     Langdon s conseguiu encar-lo.
     - Achei que estivesse fazendo a coisa certa... - falou Bellamy, parecendo assustado.
     - Bem - disse Sato -, agora o senhor vai fazer a coisa certa... e  melhor todos ns rezarmos para isso funcionar. - Como se quisesse enfatizar o tom portentoso 
de Sato, o relgio acima da lareira comeou a bater as horas. A diretora apanhou um saco plstico e jogou-o para Bellamy. - Tome aqui suas coisas. Seu celular tira 
fotos?
     - Sim, senhora.
     - timo. Segure o cume.
     
     O recado que Mal'akh acabara de receber era de seu contato - Warren Bellamy -, o maom que ele enviara ao Capitlio para ajudar Robert Langdon. Assim como o 
professor, Bellamy queria que Peter Solomon fosse devolvido com vida, por isso lhe garantiu que ajudaria Langdon a obter e decifrar a
     pirmide. Mal'akh passara a noite inteira recebendo atualizaes por e-mail, que haviam sido automaticamente encaminhadas para seu celular.
     Isso deve ser interessante, pensou Mal'akh ao abrir a mensagem.
     
     De: Warren Bellamy
     
     acabei me separando de langdon
     mas consegui a informao que voc
     pediu. prova em anexo. ligue para
     pedir a pea que falta. - wb
     
     - um anexo (jpeg) -
     
     Ligue para pedir a pea que falta?, estranhou Mal'akh, abrindo o anexo.
     Era uma foto.
     Quando Mal'akh a viu, arfou, sentindo o corao golpear seu peito de tanta emoo. Estava olhando para o dose de uma diminuta pirmide de ouro. O lendrio cume! 
A elaborada inscrio na superfcie trazia uma mensagem promissora: O segredo se esconde dentro da Ordem.
     Foi ento que notou, logo abaixo da inscrio, algo que o deixou espantado. As palavras pareciam reluzir. Incrdulo, ficou encarando o texto de brilho tnue 
e percebeu que a lenda era literalmente verdade: A Pirmide Manica se transforma para revelar seu segredo a quem  merecedor.
     Mal'akh no sabia como aquela transformao mgica havia ocorrido, e isso no lhe interessava. O texto brilhante indicava uma localizao especfica em Washington, 
D.C., exatamente como profetizado. Franklin Square. Infelizmente, a foto do cume tambm inclua o dedo indicador de Warren Bellamy, estrategicamente posicionado 
para esconder uma informao essencial.
     
     O
     segredo
     se esconde
     dentro da Ordem
     ???? Franklin Square
     
     Ligue para pedir a pea que falta. Mal'akh finalmente entendeu o que Bellamy queria dizer.
     O Arquiteto do Capitlio tinha cooperado com ele a noite inteira, mas agora decidira fazer um jogo perigoso.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 92
     
     Sob o olhar atento de vrios agentes armados da CIA, Langdon, Katherine e Bellamy aguardavam ao lado de Sato na sala de estar do Cathedral College. Diante deles, 
sobre a mesa de centro, a bolsa de couro de Langdon ainda estava aberta, e o cume de ouro despontava pela abertura. As palavras Eight Franklin Square j haviam se 
apagado, sem deixar nenhum vestgio de sua existncia.
     Katherine havia implorado a Sato que a deixasse ir ver o irmo, mas a diretora se limitara a negar com a cabea, seus olhos grudados ao celular de Bellamy. 
O aparelho estava sobre a mesa de centro e ainda no havia tocado.
     Por que Bellamy simplesmente no me disse a verdade?, perguntou-se Langdon. Ao que tudo indicava, o Arquiteto passara a noite inteira em contato com o seqestrador 
para lhe assegurar que Langdon estava progredindo na decodificao da pirmide. Era um blefe, uma tentativa de ganhar tempo para Peter. Na verdade, ele estava fazendo 
todo o possvel para evitar que o segredo da pirmide fosse revelado. Agora, contudo, o Arquiteto parecia ter mudado de time. Ele e Sato estavam dispostos a pr 
em risco o segredo na esperana de capturar aquele homem.
     - Tirem suas mos de mim! - gritou uma voz idosa no saguo. - Eu sou cego, no invlido!
     Sei andar pelo Cathedral College! - O decano Galloway continuou protestando bem alto enquanto um agente da CIA o conduzia com brutalidade at a sala de estar, 
forando-o a se sentar em uma das cadeiras.
     - Quem est a? - quis saber Galloway, fixando os olhos vazios no espao  sua frente. - Pelo barulho, vocs parecem ser muitos. De quantas pessoas precisam 
para prender um velho? Francamente!
     Ns somos sete - declarou Sato. - Incluindo Robert Langdon, Katherine Solomon e seu irmo maom Warren Bellamy.
     Galloway afundou os ombros e toda a sua insolncia desapareceu.
     - Ns estamos bem - disse Langdon. - E acabamos de saber que Peter est em segurana.
     Seu estado  grave, mas a polcia est cuidando dele.
     - Graas a Deus - disse Galloway. - E a...
     Um zumbido alto fez todos os presentes se sobressaltarem. Era o celular de Bellamy que vibrava sobre a mesa. O silncio foi geral.
     - Muito bem, Sr. Bellamy - disse Sato. - No estrague nossa chance. O senhor sabe o que est em jogo.
     Bellamy inspirou fundo, soltando o ar em seguida. Ento estendeu a mo e apertou o boto do viva voz para atender a chamada.
     - Aqui  Bellamy - disse ele, falando alto na direo do telefone sobre a mesa.
     A voz que emergiu, com um chiado, do alto-falante era familiar: um sussurro rouco. Ele parecia estar ligando de dentro de um carro, usando o viva voz para deixar 
as mos livres.
     - J passa da meia-noite, Sr. Bellamy. Eu estava prestes a pr fim ao sofrimento de Peter.
     Um silncio aflito se fez na sala.
     - Deixe-me falar com ele.
     - Impossvel - respondeu o homem. - Estou na estrada. Peter est amarrado dentro do porta-malas.
     Langdon e Katherine se entreolharam e sacudiram a cabea para os demais. Ele est blefando! Peter no est mais com ele!
     Sato gesticulou para Bellamy insistir.
     - Eu quero uma prova de que Peter est vivo - disse Bellamy. - No vou lhe dar o resto do...
     - Seu Venervel Mestre precisa de um mdico. No perca tempo com negociaes. Me d o nmero do prdio na Franklin Square e eu lhe entregarei Peter l.
     - Eu j disse, quero...
     - Agora! - explodiu o homem. - Seno encosto o carro e Peter Solomon morre agora mesmo!
     - Escute aqui - falou Bellamy, decidido. - Se quiser o endereo completo, voc ter de obedecer s minhas regras. Me encontre na Franklin Square. Depois que 
me entregar Peter vivo, eu lhe direi o nmero do prdio.
     - Como vou saber que as autoridades no estaro l?
     - Porque no posso me arriscar a trair voc. A vida de Peter no  seu nico trunfo. Sei o que est realmente em jogo hoje  noite.
     - Se eu desconfiar - disse o homem ao telefone - que h alguma outra pessoa alm de voc na Franklin Square, no vou parar o carro e Peter Solomon desaparecer 
para sempre. E  claro... essa vai ser a menor das suas preocupaes.
     - Irei sozinho - respondeu Bellamy. - Quando voc me entregar Peter, eu lhe darei o que quer.
     - No meio da praa - disse o homem. - Vou levar pelo menos 20 minutos para chegar l. Sugiro que me espere o tempo que for preciso.
     A ligao foi cortada.
     Na mesma hora, o saguo ganhou vida. Sato comeou a gritar ordens. Vrios agentes de campo agarraram seus rdios e se encaminharam para a porta.
     - Andem! Andem!
     Em meio quele caos, Langdon olhou para Bellamy em busca de algum tipo de explicao sobre o que realmente estava acontecendo naquela noite, mas o Arquiteto 
j estava sendo conduzido s pressas pela porta.
     - Eu preciso ver meu irmo! - gritou Katherine. - Vocs tm que nos deixar ir!
     Sato se aproximou de Katherine.
     - Eu no tenho que fazer nada, Sra. Solomon. Est claro?
     Katherine no arredou p, fitando, em desespero, os olhos midos de Sato.
     - Sra. Solomon, minha prioridade  prender esse homem na Franklin Square, e a senhora vai ficar aqui sentada com um de meus homens at eu fazer isso. Ento, 
e s ento, vamos nos preocupar com seu irmo.
     - A senhora no est entendendo - disse Katherine. - Sei exatamente onde esse homem mora! Fica a cinco minutos daqui, em Kalorama Heights, e l existem provas 
que podero ajud-la! Alm do mais, a senhora disse que no quer que este caso vaze. Sabe-se l o que Peter vai dizer s autoridades quando o estado dele se estabilizar.
     Sato contraiu os lbios, aparentemente processando o argumento de Katherine. Do lado de fora, as hlices do helicptero comearam a girar. A diretora franziu 
o cenho, virando-se em seguida para um de seus homens.
     - Hartmann, pegue o Escalade. Leve a Sra. Solomon e o Sr. Langdon at Kalorama Heights. Peter Solomon no deve falar com ningum. Entendido?
     - Sim, senhora - respondeu o agente.
     - Me ligue quando chegar l para dizer o que encontrou. E no perca esses dois de vista.
     O agente Hartmann fez um rpido meneio de cabea, tirou a chave do Escalade do bolso e seguiu em direo  porta.
     Katherine foi atrs dele.
     Sato se virou para Langdon.
     - Vejo o senhor em breve, professor. Sei que est achando que o inimigo sou eu, mas posso garantir que isso no  verdade. V encontrar Peter imediatamente. 
Isto aqui ainda no terminou.
     Ao lado de Langdon, o decano Galloway estava sentado diante da mesa de centro sem dizer nada. Suas mos haviam encontrado a pirmide de pedra dentro da bolsa 
de couro aberta, e ele corria os dedos pela superfcie morna.
     - Reverendo, o senhor vem conosco? - disse Langdon.
     - Eu s iria atras-los. - Galloway retirou as mos da bolsa e fechou o zper por cima da pirmide. - Vou ficar aqui e rezar pela recuperao de Peter. Podemos 
todos conversar mais tarde. Mas, quando o senhor mostrar a pirmide a ele, poderia lhe dizer uma coisa por mim?
     - Claro. - Langdon colocou a bolsa no ombro.
     - Diga a ele que - Galloway pigarreou - a Pirmide Manica sempre guardou seu segredo... de forma sincera.
     - No entendi.
     - Apenas diga isso a Peter - disse o velho sorrindo. - Ele vai entender.
     Com essas palavras, o decano abaixou a cabea e comeou a rezar.
     Langdon saiu apressado. Katherine j estava sentada no banco do carona explicando o caminho ao agente. Langdon sentou no banco de trs e mal teve tempo de fechar 
a porta antes de o gigantesco veculo disparar pelo gramado na direo norte, rumo a Kalorama Heights.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 93
     
     A Franklin Square fica no quadrante noroeste do centro de Washington, ladeada pelas ruas K e 13. A praa abriga muitos prdios histricos, em particular a Franklin 
School, de onde Alexander Graham Bell enviou, em 1880, a primeira mensagem por telgrafo do mundo.
     Bem acima da praa, um helicptero UH-60 se aproximou depressa pelo lado oeste, tendo percorrido em poucos minutos a distncia da Catedral Nacional at ali. 
Tempo de sobra, pensou Sato ao olhar para a praa l embaixo. Ela sabia que era fundamental que os agentes assumissem suas posies sem serem vistos, antes de o 
alvo chegar. Ele disse que iria demorar pelo menos 20 minutos.
     Obedecendo s ordens de Sato, o piloto deixou os passageiros no telhado do edifcio mais alto das redondezas - o famoso One Franklin Square, um imenso e prestigioso 
prdio de escritrios encimado por duas torres. A manobra era ilegal,  claro, mas o helicptero s ficou alguns segundos ali, e seu patim de aterrissagem mal tocou 
o piso de cascalho. Assim que todos saltaram, o piloto levantou vo imediatamente, inclinando-se para leste, direo na qual subiria at uma "altitude silenciosa" 
para dar cobertura invisvel l de cima.
     Sato esperou a equipe de campo juntar suas coisas e preparar Bellamy para a misso. O Arquiteto ainda parecia atordoado pelo que vira no laptop da diretora 
do ES. Como eu disse... uma questo de segurana nacional. Bellamy logo entendera o que ela estava querendo dizer e agora cooperava sem restries.
     - Tudo pronto, senhora - disse o agente Simkins.
     Seguindo as ordens dadas por Sato, os agentes conduziram Bellamy pelo telhado e desapareceram por uma escada, rumando para o trreo para assumir suas posies.
     A diretora foi at a beirada do prdio e olhou para baixo. O parque arborizado ocupava o quarteiro inteiro. Bastante lugar para se esconder. A equipe de campo 
compreendia a importncia de uma interceptao discreta. Se o alvo sentisse a presena das autoridades e decidisse simplesmente ir embora... Sato no queria nem 
pensar nisso.
     O vento l em cima estava forte e frio. A diretora abraou o prprio corpo e plantou os ps no cho com firmeza para no ser arrastada para fora do telhado. 
Daquele ngulo privilegiado, a Franklin Square parecia menor do que ela se lembrava, com menos prdios. Sato se perguntou qual deles seria o nmero 8. Havia solicitado 
essa informao  sua analista, Nola, de quem aguardava notcias a qualquer momento.
     Bellamy e os agentes surgiram l embaixo, parecendo formigas se espalhando pela escurido da rea arborizada. Simkins posicionou o Arquiteto em uma clareira 
prxima ao centro do parque deserto. Ento ele e sua equipe se misturaram s arvores, sumindo de vista. Em poucos segundos, Bellamy estava sozinho, andando de um 
lado para outro e tremendo sob a luz de um poste de rua.
     Sato no sentiu pena.
     Ela acendeu um cigarro e deu uma longa tragada, saboreando o calor da fumaa  medida que impregnava seus pulmes. Convencida de que tudo l embaixo estava 
em ordem, afastou-se da beirada para esperar seus dois telefonemas: um da analista Nola e outro do agente Hartmann, que seguira para Kalorama Heights.
     
     
     
     
     CAPTULO 94
     
     Mais devagar! Langdon se agarrou ao banco de trs do Escalade, que zunia por uma curva, se inclinando num angulo perigoso O agente Hartmann da CIA ou estava 
querendo se exibir para Katherine ou tinha ordens de chegar o mais rpido possvel at onde Peter Solomon estava, a fim de evitar que ele dissesse qualquer coisa 
que no devia as autoridades locais.
     A correria para escapar dos sinais vermelhos na Embassy Row j tinha sido bastante aflitiva, mas agora eles seguiam em alta velocidade pelas sinuosas ruas residenciais 
de Kalorama Heights Katherine gritava instrues pelo caminho pois j estivera na casa do seqestrador naquela tarde.
     A cada curva, a bolsa de couro aos ps de Langdon era jogada de um lado para outro, e ele podia ouvir o cume batendo. Deduziu que ele havia se soltado do topo 
da pirmide e agora sacolejava no interior da bolsa. Temendo que se danificasse, Langdon remexeu l dentro at encontr-lo. A pea ainda estava quente, mas o texto 
brilhante j havia desaparecido e a inscrio voltara ao estado original:
     O segredo se esconde dentro da Ordem.
     Quando Langdon estava prestes a guardar o cume em um compartimento lateral, percebeu que a superfcie de ouro estava coberta por pontinhos brancos, Intrigado, 
tentou limp-los, mas estavam presos e endurecidos... como se fossem de plstico. Mas o que  isso? Ele ento percebeu que a
     pirmide de pedra tambm estava coberta daquela substncia. Langdon arrancou um dos pontinhos com a unha, rolando-o entre os dedos.
     - Cera? - deixou escapar.
     Katherine olhou por cima do ombro.
     - O qu?
     - A pirmide e o cume esto cobertos de pedacinhos de cera. No estou entendendo. De onde ela pode ter sado?
     - De alguma coisa dentro da sua bolsa, talvez?
     - Acho que no.
     Ao fazerem uma curva, Katherine apontou pelo pra-brisa e virou-se para o agente Hartmann.
     -  ali! Chegamos.
     Langdon ergueu os olhos e viu as luzes giratrias do carro da firma de segurana parado numa entrada de garagem mais  frente. O porto estava aberto, e o agente 
entrou correndo na propriedade com o utilitrio esportivo.
     A casa era uma manso espetacular. Todas as luzes l dentro estavam acesas e a porta da frente estava escancarada. Havia meia dzia de veculos estacionados 
de qualquer maneira sobre o gramado, parecendo ter chegado ali s pressas. Alguns dos carros ainda estavam ligados e com os faris acesos, a maioria deles apontados 
para a casa, mas um, virado de lado, praticamente os cegou quando chegaram.
     O agente Hartmann parou no gramado ao lado de um sed branco com PREFERRED SECURITY estampado em cores vivas na lataria. As luzes giratrias e os faris altos 
em seus olhos dificultavam a viso.
     Katherine saltou do carro sem demora e correu em direo  casa. Langdon pendurou a bolsa no ombro sem se dar o trabalho de fechar o zper. Seguiu Katherine 
com uma corridinha pelo gramado at a porta da frente aberta. Vozes ecoavam l dentro. Atrs de Langdon, o utilitrio esportivo emitiu um bipe quando o agente Hartmann 
o trancou e saiu apressado atrs deles.
     Katherine subiu aos saltos os degraus da frente, passando pela porta e desaparecendo no hall de entrada. Langdon cruzou a soleira atrs dela e pde ver que 
Katherine j estava atravessando o hall e seguindo o corredor principal rumo ao barulho das vozes. No final do corredor, havia uma mulher
     vestida com o uniforme da firma de segurana sentada de costas para eles diante de uma mesa de jantar.
     - Agente! - gritou Katherine enquanto corria. - Onde est Peter Solomon?
     Langdon correu atrs dela, mas, no caminho, um movimento inesperado atraiu seu olhar.  sua esquerda, pela janela da sala de estar, pde ver que o porto de 
entrada estava se fechando. Que estranho. E outra coisa chamou sua ateno... algo antes escondido pelo brilho das luzes giratrias e pelos faris que os haviam 
ofuscado ao chegar. Aqueles carros parados de qualquer maneira em frente  casa no se pareciam em nada com viaturas policiais e veculos de emergncia.
     Um Mercedes?... Um Hummer?... Um Tesla Roadster?
     Nesse instante, Langdon tambm percebeu que as vozes que ouvia dentro da casa nada mais eram do que unia televiso ligada.
     Girando o corpo em cmera lenta, Langdon gritou para o corredor:
     - Katherine, espere!
     Mas, quando ele acabou de se virar, pde ver que Katherine Solomon no estava mais correndo.
     Ela estava suspensa no ar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 95
     
     Katherine Solomon sabia que estava caindo... mas no conseguia entender por qu.
     Estava avanando pelo corredor em direo  agente de segurana na sala de jantar quando de repente seus ps se enroscaram em um obstculo invisvel e seu corpo 
se precipitara para a frente, levantando vo.
     Agora ela estava voltando  terra... no caso, o cho de madeira de lei.
     Katherine desabou de barriga e o ar foi expulso com violncia de seus pulmes. Acima dela, um pesado cabideiro balanou e depois caiu, quase a atingindo. Ela 
ergueu a cabea, ainda tentando recuperar o flego, intrigada ao ver que a agente de segurana sentada na cadeira no tinha movido um s msculo. E, mais estranho 
ainda, o cabideiro cado parecia ter um fio bem fino preso  sua base, esticado de um lado a outro do corredor.
     Por que algum iria...?
     - Katherine! - gritou Langdon e, quando ela rolou de lado para olhar em sua direo, sentiu o sangue gelar. Robert! Atrs de voc! Katherine tentou gritar, 
mas ainda estava ofegante. Tudo o que pde fazer foi olhar enquanto Langdon avanava pelo corredor em cmera lenta para ajud-la, sem fazer idia de que, atrs dele, 
o agente Hartmann atravessava cambaleante a soleira da porta, agarrando a prpria garganta. O sangue esguichava por entre seus dedos enquanto ele tateava o cabo 
de uma comprida chave de fenda que despontava de seu pescoo.
     Quando o agente caiu para a frente, seu agressor ficou visvel.
     Meu Deus... no!
     Completamente nu a no ser por uma estranha roupa ntima parecida com uma tanga, o imenso homem aparentemente estivera escondido no hall. Seu corpo musculoso 
era coberto da cabea aos ps por estranhas tatuagens. Enquanto a porta da frente se fechava, ele se lanou pelo corredor atrs de Langdon.
     O agente Hartmann atingiu o cho bem na hora em que a porta da frente se fechou com um baque. Com uma expresso de surpresa, Langdon comeou a se virar, porm 
o homem tatuado j estava em cima dele, pressionando algum tipo de aparelho contra suas costas. Houve um claro acompanhado de um forte chiado eltrico, e Katherine 
viu Langdon se retesar. Com os olhos arregalados e vidrados, ele se precipitou para a frente e desabou no cho, paralisado. Caiu com fora por cima da bolsa de couro, 
e a pirmide saiu rolando de dentro dela.
     Sem ao menos relancear os olhos para sua vtima, o homem tatuado passou por cima de Langdon e avanou direto para Katherine. Nesse meio-tempo, ela j engatinhava 
para trs em direo  sala de jantar, onde esbarrou numa cadeira. Ento a agente de segurana que havia sido sentada ali oscilou e caiu no cho ao seu lado. A expresso 
sem vida da mulher era de terror. Um trapo embolado enchia sua boca.
     O homem enorme conseguiu alcanar Katherine antes que ela tivesse tempo de reagir. Ele a agarrou pelos ombros com uma fora inacreditvel. Sem o disfarce da 
maquiagem, seu rosto era uma viso aterradora. Ele flexionou os msculos, e Katherine sentiu que era virada de bruos como uma boneca de pano. Um joelho pesado apertou 
suas costas e, por alguns instantes, ela pensou que fosse se partir ao meio. Ele agarrou seus braos e os puxou para trs.
     Com a cabea de lado e a bochecha colada ao tapete, Katherine pde ver Langdon com o corpo ainda tomado por espasmos e o rosto virado para baixo. Mais adiante, 
o agente Hartmann jazia imvel no cho do hall.
     Um metal frio beliscou os pulsos de Katherine e ela percebeu que estava sendo amarrada com arame. Tentou se desvencilhar, aterrorizada, mas sentiu uma dor lancinante.
     - Se tentar se mexer, este arame vai cortar - disse o homem, terminando de prender seus pulsos e em seguida passando aos tornozelos com assustadora eficincia.
     Katherine lhe deu um chute e ele retribuiu com um forte soco na parte de trs de sua coxa direita, paralisando sua perna. Em poucos segundos, seus tornozelo 
estavam presos.
     - Robert! - ela conseguiu finalmente gritar.
     Langdon gemia no cho do corredor. Estava encolhido sobre a bolsa de couro, com a pirmide de pedra cada de lado junto  sua cabea. Katherine percebeu que 
a pirmide era sua ltima
     esperana.
     - Ns deciframos a pirmide! - disse ela a seu agressor. - Vou contar tudo para voc!
     - Vai, sim. - Com essas palavras, ele removeu o trapo da boca da mulher morta e o enfiou com firmeza na de Katherine.
     O pano tinha o gosto da morte.
     
     O corpo de Robert Langdon no lhe pertencia. Ele estava deitado, dormente e imvel, com a bochecha pressionada contra o cho de madeira de lei. Tinha ouvido 
falar o suficiente sobre armas de choque para saber que elas incapacitavam as vtimas com uma sobrecarga temporria do sistema nervoso. Seu efeito - algo chamado 
interrupo eletromuscular - poderia muito bem ser comparado ao de um relmpago. A descarga de dor excruciante parecia penetrar cada molcula de seu corpo.
     Agora, apesar da determinao de sua mente, seus msculos se recusavam a obedecer ao comando que ele lhes enviava.
     Levante-se, Robert!
     Com o rosto virado para baixo, paralisado no cho, Langdon mal conseguia respirar. Ainda no tinha visto o homem que o atacara, mas conseguia enxergar o agente 
Hartmann deitado sobre uma poa de sangue cada vez maior. Langdon escutara Katherine lutar e discutir, mas pouco antes a voz dela tinha ficado abafada, como se o 
homem houvesse enfiado alguma coisa em sua boca.
     Levante-se, Robert! Voc precisa ajud-la!
     As pernas de Langdon passaram a formigar, recuperando a sensibilidade de forma ardida e dolorosa, mas ainda se recusavam a cooperar. Mexa-se! Seus braos sofriam 
espasmos  medida que as sensaes comeavam a retornar, junto com a sensibilidade da face e do pescoo. Com grande esforo, conseguiu girar a cabea, arrastando 
a bochecha com fora pelo cho de madeira enquanto virava o rosto para olhar em direo  sala de jantar.
     Mas algo impedia a viso de Langdon - a pirmide de pedra, que havia cado da bolsa e jazia de lado no cho, com a base a poucos centmetros de seu rosto.
     Por alguns instantes, ele no compreendeu o que estava vendo, O quadrado de pedra  sua frente era evidentemente a base da pirmide, mas parecia de certa forma 
diferente. Muito diferente. Ainda era quadrada, e ainda era feita de pedra... mas no era mais lisa e lustrosa. Aquela base estava coberta por inscries gravadas. 
Como  possvel? Ele passou vrios segundos encarando-a, imaginando se estaria tendo alucinaes. Olhei para esse negcio mais de 10 vezes.., e no havia inscrio 
nenhuma!
     Langdon ento percebeu por qu.
     Ele retomou o controle de sua respirao e sorveu profundamente o ar, dando-se conta de que a Pirmide Manica ainda no havia revelado todos os seus segredos. 
Eu testemunhei uma nova transformao. Em um lampejo, Langdon compreendeu o significado do ltimo pedido de Galloway. Diga a Peter que a Pirmide Manica sempre 
guardou seu segredo... de forma sincera. Na ocasio, essas palavras lhe pareceram sem sentido, mas agora Langdon entendia que o decano Galloway estava enviando uma 
mensagem codificada para Peter. Por ironia, esse mesmo cdigo tinha servido para provocar uma reviravolta no enredo de um thriller medocre que Langdon lera anos 
antes.
     Sin-cera...
     Desde os dias de Michelangelo, os escultores escondiam os defeitos de seus trabalhos usando cera quente e p de pedra para tapar eventuais fendas. O mtodo 
era considerado trapaa e, portanto, toda escultura "sine cera" - ou seja, sem cera - era chamada de obra de arte "sincera". A expresso pegou. At hoje, usamos 
"sinceramente" para assinar as cartas, como uma garantia de que nossas palavras so verdadeiras.
     A inscrio naquela base tinha sido escondida usando o mesmo mtodo. Quando Katherine ferveu a pirmide, a cera derreteu, revelando uma nova mensagem. Galloway 
passara as mos na pirmide na sala de estar do Cathedral College e, aparentemente, sentira as marcas na base.
     Ento, ainda que s por um instante, Langdon esqueceu todo o perigo que ele e Katherine estavam correndo e encarou o inacreditvel conjunto de smbolos na base 
da pirmide. No fazia idia do que significavam... ou do que poderiam vir a revelar, mas uma coisa era certa. A Pirmide Manica ainda tem segredos a contar. Eight 
Franklin Square no  a resposta final.
     Langdon no saberia dizer se foi por causa dessa revelao cheia de adrenalina ou apenas pelos segundos a mais que passou ali deitado, mas de repente sentiu 
que recuperava o controle do corpo.
     Dolorosamente, moveu um brao para o lado, afastando a bolsa de couro de modo a poder enxergar a sala de jantar.
     Para seu horror, viu que Katherine tinha sido amarrada e que um trapo enorme estava enfiado em sua boca. Langdon flexionou os msculos para tentar se ajoelhar, 
mas logo em seguida congelou, totalmente incrdulo. O vo da porta da sala de jantar acabara de ser preenchido por uma viso aterradora - uma forma humana diferente 
de tudo o que Langdon jamais vira.
     Meu Deus do cu, o que ...?!
     Langdon rolou o corpo, agitando as pernas numa tentativa de recuar, mas O imenso homem tatuado o agarrou, virando-o de costas e prendendo seu tronco com as 
coxas. Apoiou os joelhos sobre os bceps de Langdon, imobilizando-o violentamente contra o cho. O peito do homem exibia uma fnix de duas cabeas encrespada por 
seus msculos. Seu pescoo, rosto e cabea raspada estavam cobertos por um estonteante conjunto de smbolos particularmente intrincados - sigilos, como Langdon sabia, 
usados nos rituais de magia negra.
     Antes que Langdon conseguisse processar qualquer outra coisa, o homem descomunal segurou suas orelhas entre as palmas das mos, ergueu sua cabea do cho e, 
com uma fora terrvel, golpeou-a contra a madeira.
     Tudo ficou preto.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 96
     
     Em p no corredor, Mal'akh olhou para a carnificina  sua volta. Sua casa parecia um campo de batalha.
     Robert Langdon estava deitado inconsciente aos seus ps.
     Katherine Solomon estava amarrada e amordaada no cho da sala de jantar.
     Perto dela jazia o cadver da agente de segurana, que cara da cadeira. Tentando salvar a prpria vida, a agente tinha feito exatamente o que Mal'akh mandara. 
Com uma faca pressionada contra o pescoo, ela havia atendido seu celular e contado a mentira que convencera Langdon e Katherine a irem correndo at l. Ela no 
tinha colega nenhuma, e Peter Solomon com certeza no est bem. Assim que a mulher concluiu sua encenao, Mal'akh a esganou calmamente.
     Para completar a iluso de que no estava em casa, telefonara para o Arquiteto de dentro de um de seus carros, usando o viva voz. Estou na estrada, dissera 
a Bellamy e a quem mais estivesse escutando. Peter est amarrado dentro do porta-malas. Na verdade, Mal'akh estava dirigindo pelo quintal da frente, onde havia deixado 
vrios de seus numerosos carros estacionados desordenadamente, com os faris acesos e os motores ligados.
     A farsa tinha funcionado  perfeio.
     Quase.
     O nico porm era o monte ensangentado vestido de preto no hall de entrada, com uma chave de fenda enfiada no pescoo. Mal'akh revistou o cadver e teve que 
rir ao encontrar um rdio de ltima gerao e um celular com a logo da CIA. Parece que at eles tm conscincia do meu poder. Retirou as baterias e esmagou os dois 
aparelhos com um grande calo de bronze que segurava a porta.
     Mal'akh sabia que precisava agir depressa, sobretudo se a CIA estava envolvida. Tornou a andar at Langdon. O professor estava desacordado e ficaria assim por 
algum tempo. Os olhos do seqestrador ento se moveram, ansiosos, para a pirmide de pedra no cho ao lado da bolsa aberta. Ele ficou sem flego, e seu corao comeou 
a bater disparado.
     Esperei anos...
     Mal'akh tremia um pouco ao estender a mo e recolher a Pirmide Manica. Enquanto corria os dedos lentamente pelas inscries, sentiu-se maravilhado com a 
promessa que continham. Antes que ficasse arrebatado demais, tornou a guardar a pirmide e o cume na bolsa de Langdon, fechando o
     zper.
     Em breve eu a montarei... em um lugar bem mais seguro.
     Jogou a bolsa por sobre o ombro e em seguida tentou erguer Langdon, porm o fsico atltico do professor era mais pesado do que ele imaginara. Mal'akh se contentou 
em agarr-lo pelas axilas e arrast-lo pelo cho. Ele no vai gostar do lugar para onde est indo, pensou.
     Enquanto arrastava Langdon, a televiso da cozinha continuava aos berros. O vozerio da TV fizera parte da encenao, e Mal'akh ainda no a havia desligado. 
O canal agora exibia um programa evanglico, no qual um pastor conduzia sua congregao em um pai-nosso coletivo. Mal'akh se perguntou se algum dos telespectadores 
hipnotizados fazia idia da origem daquela orao.
     "... Assim na Terra como no cu...", entoou o grupo.
     Sim, pensou Mal'akh. Assim em cima como embaixo.
     "... E no nos deixeis cair em tentao..."
     Ajudai-nos a dominar a fraqueza de nossa carne.
     "... Livrai-nos do mal...", imploraram todos.
     Mal'akh sorriu. Essa parte talvez seja difcil. A escurido est aumentando. Ainda assim, ele tinha de respeit-los por tentarem. Humanos que se dirigiam a 
foras invisveis para pedir ajuda eram uma raa em extino no mundo moderno.
     O seqestrador estava arrastando Langdon pela sala de estar quando a congregao declarou: "Amm!"
     Amon, corrigiu ele. O Egito  o bero da religio de vocs. O deus Amon foi o prottipo de Zeus... de Jpiter... e de todas as faces modernas de Deus. At hoje, 
todas as religies da Terra
     exclamavam uma variao de seu nome. Amm! Amin! Aum!
     O pastor evanglico da TV comeou a citar versculos da Bblia descrevendo hierarquias de anjos, demnios e espritos que governavam o cu e o inferno "Protejam 
suas almas das foras do mal!", alertou ele. "Ergam seus coraes em prece! Deus e seus anjos iro ouvi-los!"
     Ele tem razo. Mas os demnios tambm.
     Mal'akh tinha aprendido que, com a aplicao adequada da Arte, o praticante poderia abrir um portal para o reino espiritual. As foras invisveis existentes 
ali, como acontecia com os prprios homens, podiam assumir muitas formas, tanto boas quanto ms. As foras da Luz curavam, protegiam e buscavam dar ordem ao Universo. 
As das Trevas funcionavam de forma oposta... trazendo destruio e caos.
     Quando corretamente invocadas, as foras invisveis podiam ser convencidas a cumprir os desejos do praticante... imbuindo-o assim de um poder aparentemente 
sobrenatural. Em troca dessa ajuda, as foras exigiam oferendas: oraes e louvor no caso das foras da Luz, e derramamento de sangue no caso das foras das Trevas.
     Quanto maior o sacrifcio, maior o poder transferido. Mal'akh havia comeado sua prtica com o sangue de animais. Com o tempo, no entanto, seus sacrifcios 
tinham ficado mais ousados. Hoje  noite, darei o passo que falta.
     "Cuidado!", gritou o pastor, alertando sobre a vinda do Apocalipse. "A derradeira batalha pelas almas dos homens logo ser travada!"
     De fato, pensou Mal'akh. E eu me tornarei seu maior guerreiro.
      claro que essa batalha j tinha comeado havia muito, muito tempo. No Antigo Egito, os grandes adeptos tinham aperfeioado a Arte, evoluindo para alm das 
massas e se tornando verdadeiros praticantes da Luz. Eles percorriam a Terra como deuses. Construam grandes templos de iniciao, nos quais nefitos vindos do outro 
lado do mundo buscavam assimilar seu conhecimento. Assim nasceu uma raa de homens de ouro. Durante um breve intervalo, a humanidade pareceu a ponto de se elevar 
e transcender suas amarras terrenas.
     A idade de ouro dos Antigos Mistrios.
     Mas o homem, sendo de carne, era suscetvel aos pecados da arrogncia, do dio, da impacincia e da cobia. Com o tempo, alguns corromperam a Arte, pervertendo-a 
e abusando de seus poderes em proveito prprio. Essas pessoas comearam a invocar foras obscuras. Uma Arte diferente se desenvolveu.., um poder mais forte, imediato 
e embriagante.
     Essa  a minha Arte.
     Essa  a minha Grande Obra.
     Os adeptos iluminados e suas fraternidades esotricas testemunharam a ascenso do mal e viram que o homem no estava usando seu conhecimento recm-adquirido 
para o bem da espcie. Portanto, eles o esconderam para mant-lo protegido dos no merecedores. Depois de algum tempo, esse saber se perdeu.
     Com isso veio a Grande Queda do Homem.
     E uma escurido perene.
     At os dias de hoje, os nobres descendentes dos adeptos continuavam sua batalha, tateando s cegas em busca da Luz, tentando resgatar o poder perdido e manter 
afastada a escurido. Eram os sacerdotes e as sacerdotisas das igrejas, templos e santurios de todas as religies do planeta. O tempo havia apagado as lembranas... 
afastando-os de seu passado. Eles ignoravam a Fonte de onde outrora brotara seu poderoso conhecimento. Quando perguntados sobre os divinos mistrios de seus antepassados, 
os novos protetores da f os renegavam com veemncia, condenando-os como se fosse heresia.
     Tero eles esquecido de fato?, perguntou-se Mal'akh.
     Ecos da antiga Arte ainda ressoavam em todos os cantos do globo terrestre, desde os msticos cabalistas do judasmo at os sufis esotricos do Isl. Seus vestgios 
perduravam nos misteriosos rituais do cristianismo, em seus ritos da Santa Comunho em que Deus era devorado, nas hierarquias dos santos, anjos e demnios em seus 
cnticos e louvores, nas bases astrolgicas de seu calendrio sagrado, nas vestes consagradas e na promessa de vida eterna. At hoje, seus sacerdotes espantavam 
os maus espritos balanando incensrios cheios de fumaa, tocando sinos sagrados e borrifando gua benta. Os cristos ainda praticavam o oficio sobrenatural do 
exorcismo - prtica primitiva de sua f que
     exigia a capacidade no apenas de expulsar demnios, mas tambm de invoc-los.
     E mesmo assim eles no conseguem ver seu passado...
     Em nenhum outro lugar o passado mstico da Igreja era mais evidente do que em seu epicentro. Na cidade do Vaticano, no corao da praa de So Pedro, erguia-se 
um imenso obelisco egpcio. Esculpido 1.300 anos antes de Jesus vir ao mundo, o portentoso monlito no tinha relevncia alguma ali, nenhum vnculo com o cristianismo 
moderno. No entanto, l estava ele. No corao da Igreja de Cristo. Um marco de pedra gritando para ser ouvido. Um lembrete para aqueles poucos sbios que recordavam 
onde tudo havia comeado. Aquela Igreja, nascida do ventre dos Antigos Mistrios, ainda ostentava seus ritos e smbolos.
     Um smbolo acima de todos os outros.
     Adornando seus altares, vestimentas, campanrios e Escrituras havia a imagem singular da cristandade - a de um ser humano precioso e sacrificado. Mais do que 
qualquer outra f, o cristianismo compreendia o poder transformador do sacrifcio. Mesmo na atualidade, para honrar a imolao de
     Jesus, seus seguidores realizavam dbeis gestos individuais de renncia... jejuns, restries na Quaresma, dzimos.
     Todas essas coisas,  claro, so impotentes. Sem sangue... no existe sacrifcio de verdade.
     As foras das Trevas adotavam o sacrifcio de sangue havia muito tempo e, com isso, tinham se tornado to poderosas que o bem agora lutava para mant-las sob 
controle. Em breve a Luz seria consumida por completo e a escurido se espalharia sem obstculos pela mente dos homens.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 97
     
     - O nmero 8 da Franklin Square tem que existir - insistiu Sato. - Procure de novo!
     Nola Kaye sentou-se  sua mesa e ajustou o fone de ouvido.
     - J procurei por toda parte... esse endereo no existe em Washington.
     - Mas eu estou no telhado do One Franklin Square, o prdio moderno que fica no nmero 1 - disse Sato. - Tem que haver um nmero 8!
     A diretora Sato est em cima de um telhado?
     - Espere um pouco.
     Nola iniciou uma nova busca. Estava cogitando contar  diretora do ES sobre o hacker, mas Sato no momento parecia obcecada pelo nmero 8 da Franklin Square. 
Alm do mais, a analista ainda no tinha todas as informaes. Onde est aquele idiota da segurana de sistemas?
     - Certo - disse Nola, fitando o monitor. - Estou vendo qual  o problema. One Franklin Square, o tal nmero 1 de que a senhora est falando,  o nome do edifcio... 
no o endereo. O endereo na verdade  Rua K, 1.301.
     A notcia pareceu deixar a diretora confusa.
     - Nola, no estou com tempo para explicar... A pirmide aponta claramente para o endereo Franklin Square, 8.
     Nola se empertigou na cadeira. A pirmide aponta para um lugar especfico?
     - A inscrio - continuou Sato - diz o seguinte: "O segredo se esconde dentro da Ordem: Eight Franklin Square."
     Nola mal conseguia imaginar uma coisa daquelas.
     - Ordem como... uma ordem manica ou uma fraternidade?
     - Suponho que sim - respondeu Sato.
     Nola pensou um pouco e ento recomeou a digitar.
     - Senhora, talvez os nmeros dos prdios da praa tenham mudado com os anos, no? Quer dizer, se essa pirmide  to antiga quanto reza a lenda, quem sabe a 
numerao da Franklin Square no era diferente quando ela foi feita? Estou fazendo uma busca aqui sem o nmero 8... s por... "ordem"... "Franklin Square"... e "Washington, 
D.C."... talvez assim a gente consiga descobrir se existe... - Ela parou a frase no meio quando os resultados da pesquisa surgiram.
     - O que voc encontrou? - quis saber Sato.
     Nola encarou o primeiro resultado da lista - uma imagem espetacular da Grande Pirmide do Egito, que servia de fundo de tela para o site dedicado a um prdio 
na Franklin Square. O prdio era diferente de todos os outros que havia ali.
     Ou na cidade inteira, por sinal.
     O que chamou a ateno de Nola no foi a arquitetura bizarra do edifcio, mas sim a descrio do seu propsito. Segundo o site, aquele estranho prdio havia 
sido construdo como um santurio mstico sagrado, projetado por... e para... uma antiga ordem secreta.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 98
     
     Robert Langdon recuperou a conscincia com uma dor de cabea insuportvel.
     Onde eu estou?
     Seja l onde fosse, no havia luz. Apenas uma escurido cavernosa e um silncio sepulcral.
     Ele estava deitado de costas com os braos estendidos ao longo do corpo. Confuso, tentou mexer os dedos das mos e dos ps e ficou aliviado ao ver que estavam 
se movimentando
     normalmente e sem dor. O que houve? Com exceo da dor de cabea e da escurido profunda, tudo parecia mais ou menos normal.
     Quase tudo.
     Langdon percebeu que estava deitado em um cho duro que parecia particularmente liso, como uma placa de vidro. E o que era mais estranho: podia sentir que a 
superfcie plana estava em contato direto com sua pele nua... seus ombros, costas, ndegas, coxas, panturrilhas. Ser que estou pelado?
     Intrigado, passou as mos pelo corpo.
     Meu Deus! Cad minhas roupas?
     No escuro, a nvoa mental comeou a se dissipar e Langdon teve lampejos de memria... imagens assustadoras... um agente da CIA morto... o rosto de um monstro 
tatuado... sua prpria cabea golpeando o cho. Os flashes comearam a vir mais depressa... e ele ento se lembrou de Katherine Solomon amarrada e amordaada no 
cho da sala de jantar.
     Deus do cu!
     Langdon se levantou com um salto e, ao faz-lo, sua testa bateu em algo suspenso poucos centmetros acima. Uma exploso de dor se espalhou por seu crnio e 
ele caiu para trs, quase inconsciente. Grogue, estendeu as mos para o alto, tateando no escuro em busca do obstculo. O que encontrou no fez sentido para ele. 
Parecia que o teto daquela sala estava a menos de meio metro de altura. Mas o que  isto? Quando abriu os braos para os lados tentando rolar o corpo, suas duas 
mos encontraram paredes.
     Foi ento que a verdade se abateu sobre Langdon. Ele no estava em uma sala.
     Estou dentro de uma caixa!
     Na escurido daquele pequeno espao parecido com um caixo, Langdon comeou a esmurrar descontroladamente as paredes, gritando sem parar por socorro, O terror 
que o dominava foi ficando mais intenso a cada segundo, at se tornar intolervel.
     Fui enterrado vivo.
     A tampa do estranho caixo de Langdon se recusava a sair do lugar, mesmo que ele empurrasse para cima com toda a fora dos braos e pernas, em um pnico desvairado. 
Ao que tudo indicava, a caixa era feita de uma grossa fibra de vidro. Lacrada.  prova de som.  prova de luz.  prova de fuga.
     Vou sufocar sozinho dentro desta caixa.
     Ele pensou no poo profundo em que havia cado quando menino e na noite de terror que passara batendo os ps na gua, sozinho na escurido de um abismo sem 
fim. Esse trauma havia marcado sua psique, provocando uma fobia incontrolvel de lugares fechados.
     Enterrado vivo naquela noite, Robert Langdon estava vivendo seu maior pesadelo.
     
     Katherine Solomon tremia em silncio no cho da sala de jantar de Mal'akh. O arame afiado em volta de seus pulsos e tornozelos j a havia cortado, e seus menores 
movimentos s pareciam deix-lo ainda mais apertado.
     O homem tatuado havia nocauteado Langdon com brutalidade e depois arrastado seu corpo inerte pelo cho, levando junto a bolsa de couro e a pirmide de pedra. 
Katherine nem imaginava para onde eles teriam ido. O agente que os acompanhava estava morto. Fazia vrios minutos que no escutava nenhum som, de modo que se perguntou 
se o seqestrador e Langdon ainda estariam dentro da casa. Ela vinha tentando gritar por socorro, mas, a cada tentativa, o trapo em sua boca escorregava perigosamente 
mais para perto de sua traquia.
     Foi ento que sentiu passos se aproximarem e virou a cabea na esperana infundada de que algum estivesse vindo ajud-los. A imensa silhueta de seu algoz se 
materializou no corredor. Katherine se encolheu ao recordar a imagem daquele mesmo homem na casa de sua famlia 10 anos antes.
     Ele destruiu minha famlia.
     O monstro avanou em sua direo, se agachou e a segurou pela cintura, erguendo-a com truculncia sobre o ombro, O arame cortou seus pulsos e o trapo abafou 
seus gritos mudos de dor. Ele a carregou pelo corredor rumo  sala de estar onde, mais cedo naquele dia, os dois haviam tomado ch juntos. Katherine no viu Langdon 
em nenhum lugar.
     Para onde ele est me levando?
     Ele a carregou pela sala e parou bem em frente ao grande leo das Trs Graas que ela havia admirado naquela tarde.
     - Voc mencionou que gostava deste quadro - sussurrou o homem, com os lbios praticamente tocando sua orelha. - Fico feliz. Talvez seja a ltima coisa bonita 
que ver.
     Com essas palavras, estendeu a mo e pressionou a palma no lado direito da imensa moldura. Para espanto de Katherine, o quadro se moveu em torno de um eixo 
central, como uma porta giratria. Uma passagem secreta.
     Katherine tentou se desvencilhar, mas o homem a segurou firme, carregando-a pela abertura atrs da tela. Quando as Trs Graas tornaram a girar, fechando-se 
s suas costas, ela pde ver o isolamento acstico na parte de trs da pintura. Quaisquer que fossem os sons que ele fazia ali dentro, aparentemente no eram destinados 
a serem ouvidos pelo mundo exterior.
     O espao atrs do quadro estava abarrotado, mais parecendo um corredor do que um cmodo. O homem a carregou at o outro extremo e abriu uma porta pesada, que 
conduzia a um pequeno patamar. Ao chegar l, Katherine viu uma estreita rampa que levava a um subsolo profundo. Inspirou para soltar um grito, mas o trapo a sufocava.
     As paredes de cimento dos dois lados da rampa ngreme e apertada estavam banhadas por uma luz azulada que parecia emanar do fundo. O ar que subia de l era 
morno e pungente, carregado com uma sinistra mistura de aromas... o cheiro forte de produtos qumicos, o perfume suave de incenso, o odor terroso de suor humano 
e, dominando todo o resto, uma aura de medo visceral, animal.
     - A sua cincia me deixou impressionado - falou o homem quando chegaram ao final da rampa. - Espero que a minha tambm a impressione.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 99
     
     O agente de campo da CIA Turner Simkins se agachou na escurido do parque da Franklin Square e manteve o olhar grudado em Warren Bellamy. Ningum havia mordido 
a isca, mas ainda era cedo.
     O rdio de Simkins emitiu um bipe e ele o ativou, na expectativa de que um de seus homens tivesse visto alguma coisa. Mas era Sato. A diretora tinha novas informaes.
     Simkins escutou, compartilhando a preocupao dela.
     - Espere um instante - falou. - Vou ver se consigo contato visual. - Ele rastejou pelos arbustos onde estava escondido e olhou na direo pela qual havia entrado 
na praa. Depois de
     algumas manobras, conseguiu uma boa linha de viso.
     Puta merda.
     Aninhado entre dois edifcios muito maiores, havia um prdio que parecia uma mesquita do Velho Mundo. A fachada mourisca era feita de reluzentes ladrilhos de 
terracota dispostos em intrincados desenhos multicoloridos. Acima de trs portas imensas, duas fileiras de janelas ogivais davam a impresso de que arqueiros rabes 
poderiam aparecer e disparar suas flechas caso algum se aproximasse sem ser convidado.
     - Estou vendo - disse Simkins.
     - Alguma atividade?
     - Nada.
     - timo. Preciso que voc se reposicione e fique observando esse lugar com ateno. O nome dele  Templo de Almas, sede de uma ordem mstica.
     Fazia muito tempo que Simkins trabalhava na regio de Washington, mas no conhecia aquele templo nem qualquer ordem mstica sediada na Franklin Square.
     - Esse prdio - disse Sato - pertence a um grupo chamado Antiga Ordem rabe dos Nobres do Santurio Mstico.
     - Nunca ouvi falar.
     - Acho que j ouviu, sim.  um grupo paramanico mais conhecido como shriners.
     Simkins lanou um olhar incrdulo para o edifcio ornamentado, Os shriners? Aqueles que constroem hospitais para crianas? No conseguia imaginar "ordem" menos 
ameaadora do que uma irmandade de filantropos que usava pequenos barretes vermelhos e marchava em desfiles pela rua.
     Ainda assim, a preocupao de Sato era vlida.
     - Diretora, se o alvo perceber que esse prdio na verdade  a "Ordem" da Franklin Square, ele no vai precisar do endereo. Vai simplesmente deixar o encontro 
para l e seguir direto para o prdio.
     - Foi exatamente o que pensei. Fique de olho na entrada.
     - Sim, senhora.
     - Alguma notcia do agente Hartmann em Kalorama Heights?
     - No. A senhora pediu que ele ligasse direto para seu telefone.
     - Bom, ele no ligou.
     Que estranho, pensou Simkins, conferindo o relgio. J deveria ter ligado.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 100
     
     Robert Langdon estava deitado, trmulo, nu e sozinho na mais completa escurido. Paralisado de medo, no estava mais socando as paredes nem gritando. Em vez 
disso, havia fechado os olhos, fazendo o possvel para controlar o corao, que martelava em seu peito, e a respirao acelerada.
     Voc est deitado sob um vasto cu noturno, ele tentava se convencer. No h nada acima de voc a no ser quilmetros de espao aberto.
     Essa visualizao tranqilizadora tinha sido a nica forma encontrada por ele para sobreviver a um exame recente em um aparelho de ressonncia magntica... 
sem contar a dose tripla de Valium. Naquela noite, porm, a visualizao no estava surtindo efeito.
     
     O trapo na boca de Katherine Solomon havia escorregado para trs a ponto de quase sufoc-la. Seu agressor a carregara por uma rampa estreita at um corredor 
subterrneo escuro. Bem no fim dessa passagem, ela vira de relance um cmodo iluminado por uma sinistra luz roxo-avermelhada, mas os dois no se encaminharam para 
l. Em vez disso, o homem parara diante de uma pequena sala lateral, entrando em seguida e sentando-a numa cadeira de madeira. Ele a posicionara com os pulsos amarrados 
atrs do espaldar de modo que no pudesse se mexer.
     Katherine sentiu o arame em seus pulsos cortar-lhe mais fundo a carne. Porm mal registrou a dor, tamanho seu pnico por no conseguir respirar. O trapo em 
sua boca escorregou mais para dentro da garganta, e ela sentiu nsias de vmito. Sua viso comeou a escurecer.
     Atrs dela, o homem tatuado fechou a nica porta do cmodo e acendeu a luz. quela altura, os olhos de Katherine lacrimejavam copiosamente, e ela j no conseguia 
diferenciar os objetos mais prximos. Tudo tinha virado um borro.
     Uma imagem distorcida de carne colorida surgiu na sua frente e Katherine sentiu as plpebras comearem a tremer enquanto beirava a inconscincia. Um brao coberto 
de tatuagens se esticou e arrancou o trapo da sua boca.
     Katherine arquejou, inspirando fundo, tossindo e engasgando enquanto os pulmes se enchiam de ar. Aos poucos, sua viso comeou a clarear e ela deparou com 
o rosto do demnio. Aquele semblante quase no era humano. O pescoo, o rosto e a cabea raspada estavam cobertos por uma impressionante tapearia de bizarros smbolos 
tatuados. Com exceo de um pequeno crculo no alto da cabea, cada centmetro daquele corpo parecia estar decorado. Uma imensa fnix de duas cabeas no peito, cujos 
olhos eram formados por seus mamilos, a encarava com a ferocidade de um abutre faminto, esperando pacientemente que ela morresse.
     - Abra a boca - sussurrou o homem.
     Katherine encarou o monstro com uma repulsa absoluta. O qu?
     - Abra a boca - repetiu ele. - Ou eu torno a colocar o pano.
     Trmula, Katherine obedeceu. O homem estendeu o grosso indicador tatuado e o inseriu entre seus lbios. Quando ele tocou sua lngua, Katherine pensou que fosse 
vomitar. Ele retirou o dedo molhado de saliva e o levou ao topo da cabea raspada. Fechando os olhos, massageou a saliva no pequeno trecho circular de pele no tatuada.
     Enojada, Katherine desviou os olhos.
     O cmodo em que ela estava sentada parecia uma espcie de sala de caldeiras - canos nas paredes, barulho de gua correndo, luzes frias. No entanto, antes de 
conseguir assimilar o espao que a cercava, seu olhar se deteve em algo ao seu lado no cho. Era uma pilha de roupas: um suter de gola rul, um palet de tweed, 
um par de sapatos, um relgio do Mickey Mouse.
     - Meu Deus! - Ela tornou a se virar para o animal tatuado  sua frente. - O que voc fez com Robert?
     - Shh - sussurrou o homem. - Seno ele vai escut-la.
     O homem deu um passo para o lado e indicou algo s suas costas.
     Langdon no estava ali. Tudo o que Katherine viu foi uma imensa caixa preta de fibra de vidro. Seu formato tinha uma semelhana perturbadora com os grandes 
caixotes nos quais os cadveres de soldados mortos na guerra eram trazidos para casa. Dois trincos enormes fechavam a caixa.
     - Ele est a dentro? - deixou escapar Katherine. - Mas... ele vai sufocar!
     - No vai, no - disse o homem, apontando para uma srie de canos transparentes que corriam pela parede at o fundo da caixa. - Ele s vai desejar que isso 
acontea.
     Na escurido completa, Langdon escutava com ateno as vibraes abafadas que lhe chegavam do mundo l fora. Vozes? Ele comeou a socar a caixa e a gritar a 
plenos pulmes.
     - Socorro! Algum est me ouvindo?
     Bem longe, uma voz abafada gritou.
     - Robert! Ai, meu Deus, no! NO!
     Ele conhecia aquela voz. Era Katherine, e ela parecia aterrorizada. Ainda assim, o som era bem-vindo. Langdon respirou fundo para cham-la, mas parou no meio, 
surpreso ao sentir algo inesperado na nuca. Uma leve brisa parecia estar vindo do fundo da caixa. Como  possvel? Ele ficou totalmente parado, avaliando a situao. 
,  isso mesmo. Podia sentir a penugem em sua nuca ser agitada pelo movimento do ar.
     Por instinto, comeou a tatear o fundo da caixa em busca da origem daquele ar. Conseguiu encontr-la em poucos segundos. Um pequeno duto! A minscula abertura 
parecia a grade do ralo de uma pia ou banheira, com a diferena de que dela emanava uma brisa suave e constante.
     Ele est bombeando ar aqui para dentro. No quer que eu morra sufocado.
     O alvio de Langdon foi breve. Um som aterrorizante comeou a subir pelos furinhos do duto. Era o gorgolejar inconfundvel de um lquido escorrendo... e vindo 
na sua direo.
     
     Katherine ficou olhando, incrdula, para o lquido transparente que descia por um dos canos em direo  caixa de Langdon. A cena parecia uma espcie de nmero 
de mgica pervertido.
     Ele est bombeando gua para dentro da caixa?
     Katherine forou o arame que a prendia, ignorando os cortes profundos em seus pulsos. Tudo o que podia fazer era assistir, em pnico. Conseguia ouvir Langdon 
esmurrar as paredes em desespero, no entanto, quando a gua alcanou o fundo da caixa, os socos cessaram. Houve alguns instantes de silncio apavorado. Ento os 
socos recomearam com uma urgncia ainda maior.
     - Tire-o dali! - implorou Katherine. - Por favor! Voc no pode fazer isso!
     - A morte por afogamento  terrvel, sabia? - O homem falava com tranqilidade, andando em crculos ao seu redor. - Trish, sua assistente, no me deixa mentir.
     Katherine ouvia suas palavras, porm mal conseguia process-las.
     - Talvez voc se lembre que eu quase me afoguei uma vez - sussurrou o homem. - Foi na propriedade da sua famlia em Potomac. Seu irmo me deu um tiro e eu ca 
no rio congelado, l perto da ponte do Zach.
     Katherine o fulminou com um olhar cheio de dio. Na noite em que voc matou minha me.
     - Os deuses me protegeram naquela noite - disse ele. - E mostraram o caminho... para que eu me tornasse um deles.
     
     A gua que gorgolejava para dentro da caixa atrs da cabea de Langdon estava morna... na mesma temperatura do corpo. O lquido j alcanara vrios centmetros 
de profundidade, submergindo por completo a parte de trs de seu corpo nu. Quando ela comeou a subir por sua caixa torcica, Langdon sentiu uma terrvel realidade 
se aproximando depressa.
     Eu vou morrer.
     Com um pnico renovado, ergueu os braos e recomeou a socar as paredes, enlouquecido.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 101
     
     - Voc tem que deix-lo sair! - implorou Katherine, agora aos prantos. - Ns faremos tudo o que voc quiser! - Ela podia ouvir os murros cada vez mais alucinados 
de Langdon  medida que a gua enchia sua caixa.
     O homem tatuado se limitou a sorrir.
     - Voc  mais fcil do que seu irmo. No sabe as coisas que tive que fazer para obrig-lo a me contar seus segredos...
     - Onde ele est? - exigiu saber ela. - Onde est Peter? Me diga! Ns fizemos exatamente o que voc pediu! Deciframos a pirmide e...
     - No, vocs no decifraram a pirmide. Vocs me enrolaram, isso sim. Sonegaram informaes e trouxeram um agente do governo at a minha casa. No  o tipo 
de comportamento que pretendo recompensar.
     - Ns no tivemos escolha - retrucou Katherine, engolindo as lgrimas. - A CIA est atrs de voc. Eles nos obrigaram a vir com o agente. Vou lhe contar tudo. 
S deixe Robert sair!
     Ela podia ouvir Langdon gritando e dando socos dentro da caixa e via tambm a gua escorrendo pelo cano. Sabia que ele no tinha muito tempo.
      sua frente, o homem tatuado falou com calma, acariciando o queixo.
     - Imagino que haja homens da CIA esperando por mim na Franklin Square.
     Katherine no disse nada. Ento Mal'akh pousou as imensas mos sobre os ombros dela, puxando-a devagar para a frente. Como o arame prendia seus braos atrs 
da cadeira, seus ombros foram forados, ardendo de dor e parecendo prestes a se deslocarem das articulaes.
     - Sim! - disse Katherine. - H agentes na Franklin Square!
     Ele puxou com mais fora.
     - Qual  o endereo escrito no cume?
     A dor em seus pulsos e ombros se tornou insuportvel, mas Katherine continuou calada.
     - Ou voc me diz agora, Katherine, ou quebro seus braos e pergunto outra vez.
     - Oito! - respondeu com um arquejo de dor. - O nmero que falta  oito! O cume diz: "O segredo se esconde dentro da Ordem: Eight Franklin Square." Eu juro. 
No sei mais o que dizer! O endereo  Franklin Square, 8!
     Nem assim o homem soltou seus ombros.
     - Isso  tudo o que eu sei! - disse Katherine. -  esse o endereo! Me solte! Tire Robert de dentro desse tanque!
     - Eu at tiraria... - falou ele - ... mas estou com um problema. No posso ir ao nmero 8 da Franklin Square sem ser pego. Me diga, o que tem nesse endereo?
     - No sei!
     - E os smbolos da base da pirmide? Na parte de baixo? Voc sabe o que significam?
     - Que smbolos da base? - Katherine no fazia idia do que ele estava falando. - No h nada ali.  uma superfcie de pedra lisa!
     Aparentemente imune aos gritos de socorro abafados que vinham do tanque em forma de caixo, o homem tatuado caminhou tranquilamente at a bolsa de Langdon, 
apanhando a pirmide de pedra. Ento voltou para junto de Katherine e a ergueu para que ela pudesse ver a base.
     Quando viu os smbolos gravados, ela ficou boquiaberta.
     Mas...  impossvel!
     
     
     
     A base da pirmide estava totalmente coberta por um emaranhado de inscries. No havia nada a antes! Tenho certeza! Ela no fazia idia do que aqueles smbolos 
poderiam significar. Eles pareciam abarcar todas as tradies msticas do mundo, muitas das quais ela sequer conseguia identificar.
     Caos total.
     - Eu... eu no sei o que isso significa - disse ela.
     - Nem eu - respondeu seu captor. - Por sorte, ns temos um especialista  nossa disposio. - Ele relanceou os olhos para a caixa. - Que tal perguntarmos a 
ele? - Mal'akh levou a pirmide at l.
     Por um breve instante, Katherine pensou que ele fosse abrir a tampa. Em vez disso, o homem se sentou calmamente em cima da caixa, estendeu a mo para baixo 
e fez deslizar um pequeno painel, revelando uma janelinha de vidro na parte superior do tanque.
     Luz!
     Langdon cobriu os olhos, apertando-os ao ser atingido pelo raio de luz que vinha de cima.  medida que sua viso se adaptava, a esperana se transformou em 
incompreenso. Ele estava olhando para o que parecia uma janelinha na parte superior da caixa. Atravs dela, via um teto branco e uma luz
     fria.
     Sem aviso, o rosto tatuado surgiu acima dele, olhando para baixo.
     - Onde est Katherine? - gritou Langdon. - Me tire daqui!
     O homem sorriu.
     - Sua amiga Katherine est aqui comigo - disse ele. - Posso poupar a vida dela. A sua tambm. Mas seu tempo  curto, ento sugiro que escute com ateno.
     Langdon mal conseguia escut-lo atravs do vidro, e o nvel da gua havia aumentado ainda mais, subindo por seu peito.
     - Voc est ciente dos smbolos na base da pirmide? - perguntou o homem.
     - Sim! - gritou Langdon, que tinha visto as inscries quando a pirmide estava cada no cho do andar de cima. - Mas nem imagino o que possam significar! Voc 
precisa ir at o nmero 8 da Franklin Square! A resposta est l!  isso que o cume...
     - Professor, ns dois sabemos que a CIA est me esperando naquela praa. No tenho a menor inteno de cair em uma armadilha. Alm do mais, no precisava do 
nmero. S existe um prdio ali que poderia ser relevante... o Templo de Almas. - Ele fez uma pausa, baixando os olhos para Langdon. - A Antiga Ordem rabe dos Nobres 
do Santurio Mstico.
     Langdon ficou confuso. Ele conhecia o Templo de Almas, mas havia se esquecido de que ficava na Franklin Square. Os shriners so... a "Ordem"? O templo deles 
fica localizado em cima de uma escadaria secreta? Historicamente falando, aquilo no fazia nenhum sentido, mas, naquele momento, Langdon no estava em condies 
de discutir histria.
     - Sim! - gritou ele. - Deve ser isso! O segredo se esconde dentro da Ordem!
     - Voc conhece o prdio?
     - Claro! - Langdon ergueu a cabea latejante de modo a manter as orelhas acima da gua que subia depressa. - Posso ajud-lo! Me deixe sair daqui!
     - Ento acredita que pode me dizer qual a relao desse templo com os smbolos na base da pirmide?
     - Sim!  s me deixar ver os smbolos!
     - Muito bem, ento. Vamos ver o que consegue descobrir.
     Ande logo! Com o lquido morno subindo  sua volta, Langdon empurrou a tampa, instando o homem a abri-la. Por favor! Ande logo! Mas a tampa no se abriu. Em 
vez disso, a base da pirmide apareceu de repente, pairando sobre a janelinha.
     Langdon olhou para cima, em pnico.
     - Imagino que assim esteja perto o suficiente, no? - O homem segurava a pirmide com as mos tatuadas. - Pense depressa, professor. Pelas minhas contas, voc 
tem menos de 60 segundos.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 102
     
     Robert Langdon ouvira dizer muitas vezes que um animal encurralado era capaz de demonstrar uma fora inacreditvel. No entanto, quando ele empurrou com toda 
a fora a tampa da caixa, nada se moveu.  sua volta, o lquido continuava a subir de forma constante. Com no mximo 15 centmetros de
     espao para respirar, Langdon havia erguido a cabea em direo ao pouco ar que restava. Encontrava-se agora cara a cara com a janelinha, seus olhos a poucos 
centmetros da base da pirmide de pedra, cujas intrigantes inscries pairavam logo acima.
     No tenho idia do que isso significa.
     Escondida por mais de um sculo debaixo de uma mistura endurecida de cera e p de pedra, a ltima inscrio da Pirmide Manica agora jazia exposta. Tratava-se 
de um quadrado perfeito formando uma grade de smbolos oriundos de todas as tradies imaginveis: alqumica, astrolgica, herldica, anglica, mgica, numrica, 
siglica, grega, latina. No conjunto, aquilo era uma verdadeira anarquia de smbolos: uma sopa de letrinhas cujos caracteres provinham de dezenas de lnguas, culturas 
e perodos diferentes.
     Caos total.
     
     
     
     O simbologista Robert Langdon no conseguia imaginar, nem mesmo em suas interpretaes acadmicas mais delirantes, como aquela grade de smbolos poderia ser 
decifrada para produzir qualquer significado. Ordem a partir do caos? Impossvel.
     O lquido agora subia por seu pomo de ado, e Langdon podia sentir a intensidade de seu terror aumentar junto com o nvel da gua. Seguia esmurrando o tanque. 
A pirmide o encarava desafiadora.
     Em desespero, Langdon concentrou toda a sua energia mental naquele tabuleiro de xadrez de smbolos. O que eles podem significar? Infelizmente, a combinao 
parecia to dspar que ele no conseguia imaginar por onde comear. Esses smbolos nem sequer pertencem ao mesmo perodo histrico!
     Do lado de fora do tanque, em uma voz abafada, porm audvel, ele pde escutar Katherine, chorosa, implorando ao homem que o libertasse. Por mais que no conseguisse 
achar uma soluo, a perspectiva da morte pareceu motivar cada clula do seu corpo a encontr-la. Sentiu uma estranha clareza mental, diferente de tudo o que jamais 
havia experimentado. Pense! Langdon examinou a grade com ateno em busca de alguma pista - um padro, uma palavra oculta, um cone especial, qualquer coisa -, mas 
tudo o que viu foi um amontoado de smbolos desassociados. Caos.
     A cada segundo que passava, Langdon sentia um entorpecimento sinistro tomar conta de seu corpo. Era como se sua prpria carne estivesse se preparando para proteger 
a mente da dor da morte. A gua j ameaava entrar em seus ouvidos, e ele ergueu o mximo possvel a cabea, pressionando-a contra a tampa. Imagens assustadoras 
comearam a desfilar diante de seus olhos. Um menino tentando se manter  tona no fundo de um poo escuro na Nova Inglaterra. Um homem em Roma preso debaixo de um 
esqueleto sob um caixo virado.
     Os gritos de Katherine foram ficando mais histricos. At onde Langdon podia escutar, ela estava tentando racionalizar com um louco - insistindo que era impossvel 
Langdon decifrar a pirmide sem visitar o Templo de Almas.
     -  bvio que esse prdio tem a pea que falta para o quebra-cabea! Como Robert pode decifrar a pirmide sem todas as informaes?
     Langdon sentiu-se grato pelas tentativas dela, no entanto estava certo de que "Eight Franklin Square" no apontava para o Templo de Almas. A linha do tempo 
est toda errada! Segundo a lenda, a Pirmide Manica tinha sido criada na primeira metade do sculo XIX, dcadas antes de os shriners sequer existirem. Na verdade, 
percebeu Langdon, ela provavelmente remonta a uma poca em que aquela praa nem mesmo se chamava Franklin Square. Era impossvel o cume estar apontando para um prdio 
no construdo em um endereo inexistente. Fosse o que fosse que "Eight Franklin Square" indicava... tinha que existir em 1850.
     Infelizmente, Langdon no estava conseguindo encontrar nenhuma soluo.
     Ele vasculhou seus bancos de memria  procura de qualquer coisa que pudesse se encaixar na linha do tempo. Eight Franklin Square? Algo que j existia em 1850? 
No achou nada.
     O lquido comeava a entrar em seus ouvidos. Lutando contra o prprio terror, olhou para a grade de smbolos sobre o vidro. No entendo qual  a ligao! Em 
um frenesi, sua mente comeou a traar todos os paralelos improvveis capaz de produzir.
     Eight Franklin Square... alm de praa, square significa quadrado... quadrados... a grade de smbolos  um quadrado... outro significado  esquadro... o esquadro 
e o compasso so smbolos manicos... os altares manicos so quadrados... quadrados tm ngulos de 90 graus. A gua continuava a subir, mas Langdon tentou no 
pensar naquilo. Eight Franklin Square... o nmero oito... essa  uma grade de oito por oito... Franklin tem oito letras... oito virado de lado  o smbolo do infinito 
8... oito  o nmero da destruio na numerologia...
     Langdon no conseguia entender.
     Do lado de fora do tanque, Katherine continuava a suplicar, mas, quela altura, a gua em volta da cabea de Langdon s deixava que ele ouvisse frases entrecortadas.
     - ... impossvel sem saber... a mensagem do cume claramente... o segredo se esconde dentro...
     Ento a voz dela sumiu.
     A gua entrou de vez nos ouvidos de Langdon, abafando o que restava da voz de Katherine. Um sbito silncio, como se estivesse num tero, o engolfou, e Langdon 
percebeu que iria mesmo morrer.
     O segredo se esconde dentro...
     As ltimas palavras de Katherine ecoaram pelo silncio de sua tumba.
     O segredo se esconde dentro...
     Estranhamente, Langdon percebeu que j havia escutado essas mesmas palavras muitas vezes.
     O segredo se esconde... dentro.
     Mesmo naquele momento, parecia que os Antigos Mistrios o desafiavam. "O segredo se esconde dentro" era o principal preceito deles, que instava o homem a buscar 
Deus no nas alturas do cu... mas sim dentro de si mesmo. O segredo se esconde dentro. Era essa a mensagem de todos os grandes mestres msticos.
     O reino de Deus est entre vs, disse Jesus Cristo.
     Conhece-te a ti mesmo, disse Pitgoras.
     No sabeis que sois deuses, disse Hermes Trismegisto.
     A lista no tinha fim...
     Todos os ensinamentos msticos ao longo da histria haviam tentado transmitir essa mesma idia, O segredo se esconde dentro. Apesar disso, a humanidade continuava 
a procurar no cu a face de Deus.
     Para ele, tomar conscincia disso naquele instante tornou-se a maior de todas as ironias. Com os olhos voltados para o cu como todos os cegos que o haviam 
precedido, Robert Langdon de repente viu a luz.
     Ela o atingiu como um raio.
     
     O
     segredo
     se esconde
     dentro da Ordem
     Eight Franklin Square
     Em um lampejo, ele compreendeu.
     A mensagem do cume ficou cristalina. Seu significado estava o tempo todo  sua frente. Aquele texto, assim como a Pirmide Manica em si, era um symbolon - 
um cdigo dividido em pedaos -, uma mensagem escrita em vrias partes. O significado do cume estava camuflado de forma to simples que Langdon mal podia acreditar 
que ele e Katherine no o tivessem notado.
     O mais espantoso, Langdon agora percebia, era que a mensagem do cume de fato revelava como decifrar a grade de smbolos na base da pirmide. Era to simples. 
Exatamente como Peter Solomon prometera, o cume de ouro era um poderoso talism que tinha o poder de criar ordem a partir do caos.
     Langdon comeou a esmurrar a tampa e a gritar.
     - Eu entendi! Eu entendi!
     Acima dele, a pirmide de pedra foi erguida, sumindo de vista. Em seu lugar, o rosto tatuado tornou a aparecer, seu semblante assustador emoldurado pela janelinha.
     - Eu decifrei a pirmide! - gritou Langdon. - Me deixe sair daqui!
     Quando o homem tatuado falou, Langdon no escutou nada. Seus olhos, no entanto, viram os lbios articularem duas palavras.
     - Me diga.
     - Vou dizer! - gritou Langdon, com gua quase at os olhos. - Me deixe sair daqui! Vou explicar tudo!
      to simples, pensou.
     Os lbios do homem tornaram a se mover.
     - Me diga agora... ou morra.
     Com a gua cobrindo o ltimo centmetro do tanque, Langdon inclinou a cabea para trs de modo a manter a boca  tona. Quando fez isso, o lquido morno encheu 
seus olhos, embaando-lhe a viso. Arqueando as costas, ele pressionou a boca contra a janelinha de vidro.
     Ento, com os ltimos segundos de ar que lhe restavam, Robert Langdon revelou o segredo de como decifrar a Pirmide Manica.
     Quando terminou de falar, o lquido subiu mais um pouco, cercando seus lbios. Por instinto, Langdon inspirou uma ltima vez e fechou a boca com fora. Logo 
em seguida, a gua o cobriu por inteiro, chegando ao alto de sua tumba e se espalhando por baixo do vidro.
     
     Ele conseguiu, percebeu Mal'akh. Langdon descobriu como solucionar a pirmide. A resposta era to simples. bvia demais.
     Debaixo da janelinha, o rosto submerso de Robert Langdon o encarava com um olhar desesperado e suplicante.
     Mal'akh sacudiu a cabea para ele e articulou lentamente as palavras:
     - Obrigado, professor. Aproveite a vida aps a morte.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 103
     
     Como nadador aplicado que era, Robert Langdon muitas vezes tinha imaginado como seria morrer afogado. Sabia agora que estava fadado a experimentar na prpria 
pele. Embora conseguisse prender a respirao por mais tempo do que a maioria das pessoas, j podia sentir o corpo reagindo  ausncia de ar. O dixido de carbono 
se acumulava em seu sangue, trazendo consigo a nsia instintiva de inspirar. No respire! O reflexo ganhava fora a cada segundo que passava. Langdon sabia que estava 
prestes a chegar ao chamado limite de reteno respiratria - o instante crtico depois do qual uma pessoa no conseguia mais prender voluntariamente a respirao.
     Abra a tampa! O instinto de Langdon era esmurrar o tanque e se debater, mas ele sabia que no deveria desperdiar oxignio valioso. S lhe restava olhar atravs 
do borro de gua acima dele e ter esperana. O mundo externo no passava de uma mancha enevoada de luz do outro lado da janela. Os msculos de seu tronco haviam 
comeado a queimar, e ele soube que a hipxia estava comeando.
     De repente, um rosto belo e espectral apareceu, olhando para ele. Era Katherine, seus traos suaves parecendo quase etreos atravs do vu lquido. Os dois 
pares de olhos se encontraram,
     separados pela janela de vidro, e por um segundo Langdon pensou que estivesse salvo. Katherine! Ento escutou os gritos de horror abafados e percebeu que era 
seu captor que a estava segurando ali. O monstro tatuado a estava forando a assistir ao que estava prestes a acontecer.
     Katherine, sinto muito...
     Naquele lugar estranho e escuro, preso debaixo d'gua, Langdon lutou para compreender que aqueles seriam seus ltimos instantes de vida. Ele logo deixaria de 
existir... tudo o que ele era... tudo o que tinha sido.., tudo o que poderia ser um dia... estava acabando. Quando seu crebro morresse, todas as lembranas armazenadas 
em sua massa cinzenta, assim como todo o conhecimento que havia acumulado, simplesmente evaporariam em uma enxurrada de reaes qumicas.
     Naquele instante, Robert Langdon tomou conscincia de sua verdadeira insignificncia no Universo. Nunca havia se sentido to solitrio e humilde. Ficou quase 
aliviado ao sentir que logo no conseguiria mais segurar a respirao.
     Havia chegado a hora.
     Os pulmes de Langdon expeliram seu contedo, contraindo-se em uma ansiosa preparao para inspirar. Ainda assim, ele agentou mais alguns instantes. Seu ltimo 
segundo. Ento, como um homem que no suporta mais manter a mo perto de um fogo aceso, ele se rendeu ao destino.
     O reflexo superou a razo.
     Seus lbios se abriram.
     Seus pulmes se expandiram.
     E o lquido entrou em profuso.
     A dor que encheu seu peito foi maior do que Langdon jamais poderia imaginar. O lquido queimava ao entrar em seus pulmes. Na mesma hora, a dor se irradiou 
para seu crnio e ele teve a sensao de que um torno lhe esmagava a cabea. Um grande estrondo soou em seus ouvidos e, durante todo esse tempo, Katherine Solomon 
no parou de gritar.
     Houve um claro de luz ofuscante.
     E ento tudo ficou negro.
     Robert Langdon se foi.
     
     
     
     
     
     CAPTULO 104
     
     Acabou.
     Katherine Solomon tinha parado de gritar, O afogamento ao qual havia acabado de assistir a deixara catatnica, praticamente paralisada de choque e desespero.
     Debaixo da janelinha de vidro, os olhos mortos de Langdon pareciam olhar para o vazio. A expresso congelada em seu rosto era de dor e arrependimento. As ltimas 
minsculas bolhas de ar escaparam de sua boca sem vida, e ento, como se finalmente concordasse em partir, o professor de Harvard comeou a mergulhar lentamente 
para o fundo do tanque... onde sumiu nas sombras.
     Ele se foi. Katherine estava anestesiada.
     O homem tatuado estendeu a mo para baixo e, com um fatalismo cruel, deslizou a janelinha at ela fechar, lacrando o cadver de Langdon l dentro.
     Ento sorriu para Katherine.
     - Vamos?
     Antes que ela pudesse reagir, o homem jogou-a por cima do ombro, apagou a luz e carregou-a para fora dali. Com alguns passos largos, transportou Katherine at 
o final do corredor para um espao maior, que parecia banhado em uma luz roxo-avermelhada. O cmodo recendia a incenso. Ele a levou at uma mesa quadrada no centro 
e a deixou cair pesadamente de costas, expulsando o ar de seus pulmes. A superfcie era spera e fria. Isso  pedra?
     Katherine nem teve tempo de se localizar, pois o homem estava em cima dela, retirando o arame de seus pulsos e tornozelos. Instintivamente, ela tentou se desvencilhar, 
mas seus braos e pernas dormentes mal reagiam. Seu algoz comeou a prend-la  mesa usando correias grossas de couro,
     passando uma delas por cima de seus joelhos e em seguida prendendo uma segunda ao longo dos quadris, imobilizando tambm seus braos nas laterais do corpo. 
Por fim, passou uma ltima correia sobre seu esterno, logo acima dos seios.
     Isso tudo levou poucos segundos, e Katherine ficou novamente imobilizada. Seus pulsos e tornozelos passaram a latejar  medida que a circulao ia retornando 
a seus membros.
     - Abra a boca - sussurrou o homem, lambendo os prprios lbios tatuados.
     Katherine cerrou os dentes, enojada.
     Mal'akh tornou a estender o indicador, passando-o lentamente sobre os lbios de Katherine e fazendo sua pele se eriar. Ela cerrou os dentes com mais fora. 
O homem tatuado deu uma risadinha e, usando a outra mo, encontrou um ponto de presso em seu pescoo e apertou. O maxilar de
     Katherine se abriu no mesmo instante. Ela pde sentir o dedo dele penetrar sua boca e tocar-lhe a lngua. Teve nsia de vmito e tentou mord-lo, mas o dedo 
j havia sumido. Ainda sorrindo, ele ergueu o indicador molhado de saliva diante de Katherine. Ento fechou os olhos, esfregando mais uma vez a
     saliva dela no crculo de pele nua do topo da cabea.
     O homem suspirou e abriu os olhos devagar. Ento, com uma calma sinistra, virou-se e saiu dali.
     No silncio repentino, Katherine conseguia sentir seu corao batendo. Logo acima dela, uma estranha srie de lmpadas passou de um tom roxo-avermelhado para 
um vermelho fechado, iluminando o cmodo. Quando viu o teto, tudo o que conseguiu fazer foi olh-lo fixamente. Cada centmetro estava coberto por desenhos. A impressionante 
colagem parecia retratar o mapa celestial. Estrelas, planetas e constelaes se misturavam a smbolos astrolgicos, diagramas e frmulas. Havia flechas descrevendo 
rbitas elpticas, smbolos geomtricos indicando ngulos de ascenso e criaturas do zodaco que a espiavam l de cima. Era como se um cientista louco tivesse sido 
solto dentro da Capela Sistina.
     Katherine desviou os olhos, mas a parede  sua esquerda no era nada melhor. Uma srie de velas em castiais medievais lanava um brilho tremeluzente sobre 
uma parede escondida por pginas de texto, fotos e desenhos. Algumas delas pareciam feitas de papiro ou velino de livros antigos, enquanto outras eram claramente 
de textos mais recentes. Misturados s pginas, havia fotografias, desenhos, mapas e esquemas - tudo colado de forma meticulosa. Uma teia de aranha de barbantes 
havia sido afixada com tachinhas por cima do conjunto, interligando todos aqueles elementos em um nmero incontvel de possibilidades caticas.
     Katherine tornou a desviar os olhos, virando a cabea na outra direo.
     Infelizmente, isso lhe ofereceu a viso mais aterradora de todas.
     Ao lado da mesa de pedra  qual ela estava amarrada havia uma pequena bancada que a fez pensar na mesma hora na mesa de instrumentos de uma sala de cirurgia. 
Sobre a bancada estava disposta uma srie de objetos - entre eles uma seringa, um frasco de lquido escuro... e uma grande faca com cabo de osso e uma lmina de 
ferro polida at exibir um brilho particularmente intenso.
     Meu Deus... o que ele planeja fazer comigo?
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 105
     
     Quando o especialista em segurana de sistemas da CIA Rick Parrish finalmente entrou na sala de Nola Kaye, trazia na mo uma nica folha de papel.
     - Por que voc demorou tanto? - quis saber Nola. Eu disse para vir imediatamente!
     - Desculpe - disse ele, empurrando os culos fundo de garrafa mais para cima do nariz comprido. - Estava tentando juntar mais informaes para voc, mas...
     - Me mostre o que tem a e pronto.
     Parrish estendeu-lhe a folha impressa.
     -  um documento editado, mas voc vai entender o esprito da coisa.
     Nola correu os olhos pela pgina, estupefata.
     - Ainda estou tentando descobrir como um hacker conseguiu acessar isso - disse Parrish -, mas parece que um spider delegador invadiu uma das nossas ferramentas 
de busca...
     - Esquea essa histria! - disparou Nola, erguendo os olhos da pgina. - Que diabo a CIA est fazendo com um arquivo confidencial sobre pirmides, portais antigos 
e symbolons gravados?
     - Foi por isso que demorei tanto. Estava tentando ver qual arquivo era o alvo da busca, ento rastreei a localizao dele. - Parrish fez uma pausa e pigarreou. 
- Acabei descobrindo que o documento est em uma partio do disco destinada ao... diretor da CIA.
     Nola virou para Rick, encarando-o incrdula. O chefe de Sato tem um arquivo sobre a Pirmide Manica? Ela sabia que o atual diretor, assim como muitos outros 
chefes da agncia, era um maom de alto grau, mas no conseguia imaginar qualquer um deles guardando segredos manicos nos computadores da CIA.
     Mas, pensando bem, levando em conta o que ela havia testemunhado nas ltimas 24 horas, tudo era possvel.
     
     O agente Simkins estava deitado de bruos, escondido entre os arbustos da Franklin Square. Tinha os olhos cravados na entrada cheia de colunas do Templo de 
Almas. Nada. Nenhuma luz havia se acendido l dentro e ningum chegara perto da porta. Ele virou a cabea para dar uma conferida em
     Bellamy. O Arquiteto andava de um lado para outro no meio do parque, sozinho, parecendo sentir frio. Muito frio. Simkins podia ver que ele tremia e tinha calafrios.
     Seu telefone vibrou. Era Sato.
     - Qual o tempo de atraso do nosso alvo? - quis saber ela.
     Simkins conferiu o cronmetro do relgio.
     - O alvo disse 20 minutos. J se passaram quase 40. Alguma coisa est errada.
     - Ele no vem - disse Sato. - Acabou.
     Simkins sabia que ela estava certa.
     - Alguma notcia de Hartmann?
     - No, ele no ligou de Kalorama Heights. No consigo falar com ele.
     Simkins retesou o corpo. Se isso era verdade, alguma coisa estava errada mesmo.
     - Acabei de ligar para o apoio de operaes de campo - disse Sato -, e eles tambm no esto conseguindo encontr-lo.
     Puta merda.
     - Eles tm as coordenadas GPS do Escalade?
     - Tm. Um endereo residencial em Kalorama Heights - respondeu Sato. - Rena seus homens. Vamos sair daqui.
     
     Sato desligou o telefone e admirou o magnfico horizonte de prdios da capital de seu pas. Um vento glido atravessava seu blazer fino, e ela envolveu o corpo 
com os braos para se manter aquecida. A diretora Inoue Sato no era mulher de sentir frio... nem medo. Naquele momento, porm, estava sentindo as duas coisas.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 106
     
     Mal'akh vestia apenas sua tanga de seda ao subir correndo a rampa, atravessar a porta de ao e sair pelo quadro giratrio para dentro da sala de estar. Preciso 
me preparar depressa. Olhou de relance para o agente da CIA morto no hall de entrada. Esta casa no  mais segura.
     Segurando a pirmide de pedra em uma das mos, Mal'akh se encaminhou diretamente para seu escritrio e sentou-se diante do laptop. Ao fazer login no sistema, 
pensou em Langdon l embaixo e se perguntou quantos dias, ou mesmo semanas, se passariam antes de o cadver submerso ser descoberto no subsolo secreto. No fazia 
diferena. Quando isso acontecesse, Mal'akh a teria ido embora h muito tempo.
     Langdon cumpriu seu papel... de forma brilhante.
     O professor no s reunira as peas da Pirmide Manica, como tambm havia descoberto a soluo da misteriosa grade da base.  primeira vista, os smbolos 
pareciam indecifrveis... entretanto, a resposta era simples... e estava bem na cara deles.
     O laptop de Mal'akh ganhou vida e o monitor exibiu o mesmo e-mail que ele havia recebido mais cedo: a fotografia de um cume reluzente parcialmente ocultado 
pelo dedo de Warren Bellamy.
     O
     segredo
     se esconde
     dentro da Ordem
     ???? Franklin Square
     
     Eight... Franklin Square, tinha dito Katherine a Mal'akh, confirmando o nmero oito. Ela tambm admitira que agentes da CIA estavam vigiando a Franklin Square 
na esperana de captur-lo e de descobrir a que ordem o cume se referia. Seria uma aluso aos maons? Aos shriners? Aos rosa-cruzes?
     No era nada disso, Mal'akh agora sabia. Langdon enxergou a verdade.
     Dez minutos mais cedo, enquanto o lquido subia em volta de seu rosto, o professor de Harvard havia descoberto a chave para solucionar a pirmide.
     - A Ordem Oito do Quadrado de Franklin! - gritara com os olhos cheios de terror. - O segredo se esconde dentro do Quadrado de Franklin de Ordem Oito!
     A princpio, Mal'akh no conseguiu entender o que ele estava dizendo.
     - No  um endereo! - berrou Langdon, sua boca pressionada contra a janelinha de vidro. O oito no se referia a um prdio da Franklin Square. As palavras ordem 
e oito deviam ser lidas juntas. Elas se referiam  "ordem oito". -  um quadrado mgico! O Quadrado de Franklin de Ordem Oito! - Ento ele disse alguma coisa sobre 
Albrecht Drer... e sobre como o primeiro cdigo da pirmide era uma pista para solucionar aquele ltimo.
     Mal'akh conhecia os quadrados mgicos - os kameas, como os chamavam os primeiros msticos. O texto antigo De Occulta Philosophia descrevia em detalhes seu poder 
e os mtodos para elaborar sigilos baseados em grades numricas. Langdon estava querendo dizer que um quadrado mgico detinha a chave para decifrar a base da pirmide?
     - Voc precisa de um quadrado mgico de oito por oito! - havia berrado o professor, cujos lbios eram a nica parte do corpo ainda  tona. - Quadrados mgicos 
so categorizados em ordens! Um quadrado de trs por trs  de "ordem trs"! Um de quatro por quatro  de "ordem quatro"! Voc precisa de um que seja de "ordem oito"!
     O lquido estava prestes a engolfar Langdon por completo, e o professor sorveu o ar pela ltima vez, gritando alguma coisa sobre um famoso maom... um dos pais 
fundadores dos Estados Unidos... um cientista, mstico, matemtico, inventor... bem como criador do kamea que at hoje levava seu nome.
     Franklin.
     Em um lampejo, Mal'akh soube que Langdon tinha razo.
     Agora, ofegante de ansiedade, Mal'akh estava sentado diante do laptop no andar de cima. Fez uma busca rpida na internet, obtendo dezenas de ocorrncias. Ento, 
escolheu uma e comeou a ler.
     
     QUADRADO DE FRANKLIN DE ORDEM OITO
     
     Um dos quadrados mgicos mais conhecidos da histria  o de ordem oito divulgado em 1769 pelo cientista norte-americano Benjamin Franklin. Este quadrado ficou 
famoso por conter "somas diagonais" inditas. A obsesso de Franklin por essa forma de arte muito provavelmente vinha de suas ligaes pessoais com notrios alquimistas 
e msticos de sua poca, bem como de sua prpria crena na astrologia, que serviu de base para as previses por ele feitas no livro Poor Richard's Almanach.
     
     
     
     Mal'akh analisou a famosa criao de Franklin - uma disposio singular dos nmeros de 1 a 64 - em que a soma de qualquer fileira, coluna ou diagonal resultava 
na mesma constante mgica. O segredo se esconde dentro do Quadrado de Franklin de Ordem Oito.
     Mal'akh sorriu. Tremendo de emoo, apanhou a pirmide de pedra e a virou de cabea para baixo, examinando a base.
     
     
     
     Os 64 smbolos precisavam ser reorganizados e dispostos numa ordem diferente, a seqncia sendo definida pelos nmeros do quadrado mgico de Franklin. Embora 
Mal'akh no conseguisse imaginar como aquela grade catica de smbolos pudesse subitamente fazer sentido em outra disposio, tinha f na antiga promessa.
     Ordo ab chao.
     Com o corao disparado, sacou uma folha de papel e desenhou rapidamente uma grade vazia de oito por oito. Ento comeou a inserir os smbolos um a um em suas 
novas posies. Quase na mesma hora, para seu espanto, a grade comeou a fazer sentido.
     Ordem a partir do caos!
     Ele concluiu a decodificao e fitou, incrdulo, a soluo  sua frente. Uma imagem clara havia se formado. A grade embaralhada fora transformada... reorganizada... 
Embora Mal'akh no conseguisse entender o significado de toda a mensagem, compreendia o bastante para saber exatamente a direo que iria tomar.
     A pirmide aponta o caminho.
     A grade indicava uma das grandes localidades msticas do mundo. Incrivelmente, era o mesmo lugar onde Mal'akh sempre sonhara completar sua jornada.
     Destino.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 107
     
     A mesa de pedra sob as costas de Katherine Solomon estava fria.
     Imagens horripilantes da morte de Robert se agitavam em sua cabea. Alm disso, ela no conseguia parar de pensar no irmo. Ser que Peter tambm est morto? 
A estranha faca na bancada ao seu lado evocava vises do que poderia estar reservado para ela tambm.
     Ser que este  realmente o fim?
     Por incrvel que parea, seus pensamentos se voltaram repentinamente para sua pesquisa... para a cincia notica... e para suas descobertas recentes. Tudo perdido... 
transformado em fumaa. Ela nunca poderia compartilhar com o mundo o que havia aprendido. Sua descoberta mais chocante ocorrera poucos meses antes, e os resultados 
tinham potencial para redefinir a forma como os seres humanos encaravam a morte. Estranhamente, pensar nessa experincia ali... lhe trazia um alento inesperado.
     Quando menina, Katherine Solomon havia se perguntado muitas vezes se existiria vida aps a morte. Ser que o paraso existe? O que acontece quando morremos? 
 medida que foi ficando mais velha, seus estudos cientficos logo eliminaram qualquer conceito fantasioso de paraso, inferno ou existncia alm-tmulo. Passou 
a aceitar que o conceito de "vida aps a morte" era uma construo humana.., um conto de fadas destinado a atenuar a terrvel verdade da nossa mortalidade.
     At que...
     Um ano antes, Katherine e o irmo estavam conversando sobre uma das questes mais perenes da filosofia - a existncia da alma -, e em particular se os humanos 
possuem ou no algum tipo de conscincia capaz de sobreviver fora do corpo.
     Ambos intuam que essa alma humana provavelmente existia. A maioria das filosofias antigas tambm acreditava nisso. O budismo e o bramanismo endossavam a metempsicose 
- a reencarnao, a transmigrao da alma para um novo corpo aps a morte. Os platnicos sustentavam que o corpo  uma "priso" da qual a alma escapa. E os esticos 
a chamavam de apospasma tou theu - "uma partcula de Deus" - e acreditavam que, na hora da morte, ela volta para junto Dele.
     A existncia da alma humana, percebeu Katherine com alguma frustrao, era provavelmente um conceito que jamais seria provado pela cincia. Confirmar que uma 
conscincia sobrevive fora do corpo humano aps a morte equivalia a soltar uma nuvem de fumaa pela boca e esperar encontr-la
     anos depois.
     Aps a conversa com o irmo, Katherine teve uma idia estranha. Peter havia mencionado o Livro do Gnesis e sua descrio da alma como Neshemah - um sopro de 
vida, uma espcie de "inteligncia" espiritual separada do corpo. Ocorreu-lhe que a palavra inteligncia sugeria a presena de
     pensamento. A cincia notica prope que os pensamentos tm massa, portanto, era lgico que a alma humana tambm poderia ter.
     Ser possvel pesar a alma humana?
     Era um conceito absurdo,  claro... o simples fato de cogitar isso era tolice.
     Trs dias depois, Katherine despertou de repente de um sono pesado, sentando-se com as costas retas na cama. Depois de se levantar com um pulo, foi de carro 
at o laboratrio e comeou imediatamente a trabalhar no projeto de uma experincia surpreendentemente simples... e ao mesmo tempo de uma ousadia assustadora.
     No sabia se aquilo iria funcionar e decidiu s revelar sua idia a Peter quando o trabalho estivesse pronto. Depois de quatro meses de pesquisa, Katherine 
chamou o irmo ao laboratrio e lhe mostrou um equipamento grande sobre rodinhas que tinha escondido em um depsito nos fundos.
     - Fui eu que projetei e constru esta mquina - disse ela, apresentando sua inveno a Peter.
     - Faz alguma idia do que seja?
     Seu irmo encarou fixamente o estranho aparelho.
     - Uma incubadora?
     Katherine riu e sacudiu a cabea, embora fosse um chute razovel. De fato a mquina se parecia um pouco com as incubadoras para bebs prematuros dos hospitais, 
mas tinha o tamanho de um adulto - era uma cpsula de plstico transparente comprida e hermeticamente fechada, parecendo
     algum tipo de compartimento futurista para dormir. Estava montada em cima de um grande aparelho eletrnico.
     - Veja se isto aqui ajuda voc a adivinhar - disse Katherine, ligando o equipamento em uma tomada. Um mostrador digital se acendeu e os nmeros comearam a 
mudar depressa enquanto ela calibrava cuidadosamente alguns botes.
     Quando terminou, o mostrador exibia:
     
     0,0000000000 kg
     
     - Uma balana? - perguntou Peter com ar intrigado.
     - No  uma balana qualquer. - Katherine pegou um pedacinho de papel de uma bancada ali perto, depositando-o cuidadosamente em cima da cpsula. Os nmeros 
do mostrador tornaram a mudar, apresentando uma nova leitura.
     
     0,0008194325 kg
     
     - Uma microbalana de alta preciso - disse ela. - A resoluo chega a alguns microgramas.
     Peter ainda parecia intrigado.
     - Voc construiu uma balana de preciso para... uma pessoa?
     - Exatamente. - Ela ergueu a tampa transparente da mquina. - Se eu puser uma pessoa dentro desta cpsula e fechar a tampa, o indivduo estar em um sistema 
totalmente isolado. Nada entra nem sai. Nenhum gs, lquido ou partcula de poeira. Nada pode escapar: nem as expiraes da pessoa, nem o suor por evaporao, nem 
fluidos corporais, nada.
     Peter passou uma das mos pela cabeleira prateada, um gesto de nervosismo que a irm tambm fazia.
     - Hum...  claro que uma pessoa morreria a dentro bem depressa.
     Ela aquiesceu.
     - Em uns seis minutos, dependendo do ritmo respiratrio.
     Ele se virou para a irm.
     - No estou entendendo.
     Ela sorriu.
     - Mas vai entender.
     Deixando a mquina para trs, Katherine conduziu Peter at a sala de controle do Cubo e o fez se sentar diante do telo de plasma. Comeou a digitar e acessou 
uma srie de arquivos de vdeo armazenados nas unidades hologrficas. Quando o telo ganhou vida, a imagem  frente deles parecia um vdeo caseiro.
     A cmera se movia ao longo de um modesto quarto de dormir com uma cama desfeita, frascos de remdios, um respirador artificial e um monitor cardaco. Peter 
exibia uma expresso atnita enquanto a filmagem continuava, revelando por fim, mais ou menos no centro do quarto, a balana de Katherine.
     Os olhos de Peter se arregalaram.
     - Mas o que...?
     A tampa transparente da cpsula estava aberta e havia um homem muito velho usando uma mscara de oxignio deitado l dentro. Sua mulher, tambm idosa, e um 
enfermeiro estavam em p ao lado da mquina. O homem respirava com dificuldade e seus olhos estavam fechados.
     - Esse homem dentro da cpsula foi meu professor de cincia em Yale - disse Katherine. - Ns mantivemos contato ao longo dos anos. Ele estava muito doente. 
Sempre disse que queria doar o corpo  cincia, ento, quando expliquei minha idia para esse experimento, ele quis participar na mesma hora.
     Peter parecia mudo de choque diante da cena que se desenrolava no telo.
     O enfermeiro ento se virou para a mulher do paciente.
     - Est na hora. Ele est pronto.
     A senhora de idade enxugou os olhos lacrimejantes e assentiu com uma calma decidida.
     - Est bem.
     Com muita delicadeza, o enfermeiro esticou a mo para dentro da cpsula e retirou a mscara de oxignio do velho. O homem se remexeu um pouco, mas continuou 
de olhos fechados. O enfermeiro ento afastou o respirador artificial e os outros equipamentos, deixando o velho dentro da cpsula
     isolado no meio do quarto.
     A mulher do moribundo se aproximou da mquina, curvou-se e beijou delicadamente a testa do marido. O velho no abriu os olhos, mas seus lbios se moveram muito 
de leve, num sorriso fraco e cheio de ternura.
     Sem a mscara de oxignio, a respirao do homem foi se tornando rapidamente mais penosa. Era bvio que o fim estava prximo. Com uma fora e uma calma admirveis, 
a mulher abaixou devagar a tampa da cpsula, lacrando-a em seguida, exatamente como Katherine lhe ensinara.
     Alarmado, Peter se retraiu.
     - Pelo amor de Deus, Katherine, o que  isso?
     - Est tudo bem - sussurrou ela. - H bastante ar dentro da cpsula. - Katherine j havia assistido quele vdeo dezenas de vezes, mas as imagens ainda faziam 
sua pulsao se acelerar. Ela apontou para a balana debaixo da cpsula lacrada do moribundo. O mostrador digital indicava:
     
     51,4534644 kg
     
     -  o peso corporal dele - disse Katherine.
     A respirao do homem ficou mais fraca, ao que Peter chegou mais perto do telo, fascinado.
     - Era isso que ele queria - sussurrou ela. - Veja o que acontece.
     A esposa do homem tinha recuado alguns passos e estava agora sentada na cama, assistindo em silncio ao lado do enfermeiro.
     Durante os 60 segundos seguintes, a respirao fraca do homem foi ficando mais rpida at que, de repente, como se houvesse escolhido o momento por conta prpria, 
ele deu seu ltimo suspiro. Tudo parou.
     Era o fim.
     A mulher e o enfermeiro consolaram um ao outro em silncio.
     Nada mais aconteceu.
     Alguns segundos depois, Peter olhou para Katherine, parecendo confuso.
     Espere mais um instante, pensou ela, fazendo um gesto para que Peter continuasse olhando para o monitor digital da cpsula que ainda brilhava discretamente, 
exibindo o peso do homem morto.
     Foi ento que aconteceu.
     Quando Peter viu aquilo, deu um pulo para trs e quase caiu da cadeira.
     - Mas... isto ... - Ele cobriu a boca, chocado. - No pode ser...
     No era sempre que o grande Peter Solomon ficava sem palavras. Katherine tivera uma reao parecida nas primeiras vezes que vira aquilo acontecer.
     Segundos depois da morte do homem, os nmeros da balana diminuram de repente. Ele se tornara mais leve imediatamente aps a morte. A diferena de peso era 
minscula, porm mensurvel... e aquilo tinha implicaes assombrosas.
     Katherine se lembrava de ter feito suas anotaes cientficas com a mo trmula: "Parece existir um 'material' invisvel que sai do corpo humano no momento 
da morte. Ele possui uma massa quantificvel que no pode ser contida por barreiras fsicas. Sou obrigada a supor que se move em uma dimenso que ainda no consigo 
apreender."
     Pela expresso chocada no rosto do irmo, Katherine soube que ele alcanava a importncia de seu experimento.
     - Katherine... - gaguejou Peter, piscando os olhos cinzentos como se quisesse certificar-se de que no estava sonhando. - Acho que voc acabou de pesar a alma 
humana.
     Houve um longo silncio entre os dois.
     Katherine sentiu que o irmo tentava processar todas as srias e impressionantes implicaes daquilo. Vai levar tempo. Se o que haviam acabado de testemunhar 
fosse de fato o que parecia ser - ou seja, a prova de que uma alma, conscincia, ou fora vital podia se movimentar fora dos limites do corpo -, ento uma nova e 
surpreendente luz acabara de ser lanada sobre incontveis questes msticas: transmigrao, conscincia csmica, experincias de quase morte, projeo astral, visualizao 
remota, sonhos lcidos, e assim por diante. As revistas de medicina estavam repletas de histrias de pacientes que morreram na mesa de cirurgia e viram seus corpos 
de cima antes de serem trazidos de volta  vida.
     Peter estava calado, e Katherine viu lgrimas em seus olhos. Ela entendeu. Tambm havia chorado. Peter e Katherine tinham perdido pessoas que amavam e, para 
qualquer um naquela posio, o mais ligeiro indcio de que o esprito humano perdurava aps a morte trazia um raio de esperana.
     Ele est se lembrando de Zachary, pensou Katherine, reconhecendo a tristeza profunda nos olhos do irmo. Durante anos, Peter havia carregado o fardo da responsabilidade 
pela morte do filho. Ele dissera muitas vezes a Katherine que deixar Zachary na priso fora o pior erro de sua vida e que jamais conseguiria perdoar a si mesmo. 
     Uma porta batendo chamou a ateno de Katherine e, de repente, ela se viu de volta ao subsolo, deitada sobre uma fria mesa de pedra. A porta de metal no alto 
da rampa havia se fechado com um estrondo, e o homem tatuado estava descendo. Ela pde ouvi-lo entrar em um dos cmodos ao longo do corredor, fazer alguma coisa 
l dentro e ento prosseguir em direo ao lugar onde ela estava. Quando o homem entrou, Katherine viu que ele empurrava alguma coisa. Algo pesado... sobre rodas. 
Quando o vulto ficou debaixo da luz, ela o encarou, incrdula. O homem tatuado estava empurrando uma pessoa sobre uma cadeira de rodas.
     Katherine reconheceu o homem na cadeira, mas sua mente mal conseguia aceitar o que via.
     Peter?
     Ela no sabia se deveria ficar eufrica por seu irmo ainda estar vivo... ou totalmente horrorizada. O corpo de Peter havia sido raspado. Seus grossos cabelos 
prateados tinham desaparecido, assim como as sobrancelhas, e sua pele lisa reluzia como se tivesse sido untada com leo. Ele vestia um roupo de seda preto. Onde 
deveria estar sua mo direita via-se apenas um coto enrolado em uma atadura limpa e nova. Os olhos carregados de dor do irmo procuraram os seus, cheios de arrependimento 
e tristeza.
     - Peter! - A voz dela rateou.
     Seu irmo tentou falar, mas s conseguiu emitir sons abafados e guturais. Katherine ento percebeu que ele estava preso  cadeira de rodas e que tinha sido 
amordaado.
     O homem tatuado estendeu a mo e afagou delicadamente o couro cabeludo raspado de Peter.
     - Eu preparei seu irmo para uma grande honra. Ele tem um papel a desempenhar hoje  noite.
     Todo o corpo de Katherine se retesou. No...
     - Peter e eu vamos embora daqui a pouco, mas achei que voc fosse querer se despedir.
     - Para onde voc vai levar meu irmo? - indagou ela com a voz fraca.
     Ele sorriu.
     - Peter e eu precisamos viajar at a montanha sagrada.  l que est o tesouro. A Pirmide Manica revelou o local. Seu amigo Robert Langdon foi muito prestativo.
     Katherine encarou o irmo nos olhos.
     - Ele... matou Robert.
     A expresso de Peter se contorceu de agonia, e ele sacudiu a cabea com violncia, como se no conseguisse mais suportar nenhuma dor.
     - Ora, ora, Peter - disse o homem, tornando a lhe afagar o couro cabeludo. - No deixe isso estragar o momento. Diga adeus  sua irmzinha. Esta  sua ltima 
reunio de famlia.
     Katherine sentiu sua mente se encher de desespero.
     - Por que voc est fazendo isso? - gritou para o homem. - O que foi que ns lhe fizemos?
     Por que odeia tanto a minha famlia?!
     O homem tatuado se aproximou, colando a boca ao seu ouvido.
     - Eu tenho meus motivos, Katherine. - Ele ento caminhou at a bancada lateral e pegou a estranha faca. Levando-a at onde ela estava, correu a lmina polida 
por sua bochecha. - Esta  provavelmente a faca mais famosa da histria.
     Katherine no sabia nada sobre facas famosas, mas aquela parecia sinistra e muito antiga. A lmina estava afiadssima.
     - No se preocupe - disse ele. - No tenho a menor inteno de desperdiar o poder disto aqui com voc. Estou guardando a faca para um sacrifcio mais digno... 
em um lugar mais sagrado. - Ele se virou para Peter. - Est reconhecendo esta faca, no est?
     Os olhos de seu irmo estavam arregalados, com uma mistura de medo e descrena.
     - Sim, Peter, este antigo artefato ainda existe. Paguei caro para consegui-lo... e o venho guardando para voc. Finalmente, vamos poder terminar juntos nossa 
dolorosa jornada.
     Com essas palavras, embalou a faca cuidadosamente em um pano com o restante de suas coisas - incenso, frascos contendo lquidos, um pedao de seda branca e 
outros objetos cerimoniais. Ento ps o embrulho dentro da bolsa de couro de Robert Langdon junto com a Pirmide Manica e o cume. Katherine observou, impotente, 
o homem fechar o zper e se voltar para seu irmo.
     - Pode carregar isto aqui para mim, Peter? - Ele depositou a pesada bolsa no colo do outro.
     Em seguida, andou at uma gaveta e comeou a vasculhar l dentro. Katherine pde ouvir o tilintar de pequenos objetos. Quando voltou, segurou seu brao direito. 
Ela no podia ver o que ele estava fazendo, mas Peter, que recomeou a se debater com violncia, aparentemente sim.
     Katherine sentiu uma picada sbita e dolorida na dobra interna do brao direito, e um calor nefasto comeou a irradiar dali. Peter emitia sons angustiados, 
tentando em vo se levantar da pesada cadeira de rodas. Katherine sentiu uma dormncia fria se espalhar cotovelo abaixo, descendo pelo seu
     antebrao at as pontas dos dedos.
     Quando o homem se afastou, Katherine viu por que seu irmo estava to horrorizado. Uma agulha tinha sido inserida em sua veia, como se ela estivesse doando 
sangue. Porm, no estava presa a nenhum tubo. Em vez disso, o sangue escorria livremente por ela... descendo por seu cotovelo e antebrao at a mesa de pedra.
     - Uma ampulheta humana - disse o homem, virando-se para Peter. - Dentro em breve, quando eu lhe pedir que desempenhe seu papel, quero que pense em Katherine... 
morrendo aqui, sozinha, no escuro.
     A expresso de Peter era de tormento absoluto.
     - Ela tem mais ou menos uma hora de vida - disse o homem. - Se voc cooperar comigo depressa, terei tempo suficiente para salv-la. Mas  claro que, se oferecer 
a menor resistncia que seja... sua irm no sair viva daqui.
     Peter berrava algo ininteligvel atravs da mordaa.
     - Eu sei, eu sei - disse o homem tatuado, pousando uma das mos sobre o ombro de Peter -, isso  difcil para voc. Mas no deveria ser. Afinal, esta no  
a primeira vez que abandona um membro da famlia. - Ele fez uma pausa curvando-se para sussurrar no ouvido de Peter. Estou me referindo ao seu filho, Zachary, no 
presdio de Soganlik,  claro.
     Peter forou as correias que o prendiam, soltando outro grito abafado atravs do pano que lhe servia de mordaa.
     - Pare com isso! - gritou Katherine.
     - Eu me lembro bem daquela noite - provocou o homem enquanto terminava de arrumar suas coisas. - Eu ouvi tudo. O diretor da priso ofereceu libertar seu filho, 
mas voc decidiu ensinar uma lio a Zachary... e o abandonou l. Seu menino aprendeu mesmo a lio, no foi? - O homem sorriu.
     - O prejuzo dele... foi meu lucro.
     O homem apanhou um pedao de linho e o enfiou bem fundo na boca de Katherine.
     - A morte - sussurrou-lhe ele - deve ser silenciosa.
     Peter se debatia furiosamente. Sem mais nenhuma palavra, andando de costas, o homem tatuado foi puxando devagar a cadeira de Peter para fora dali, proporcionando-lhe 
uma derradeira viso de sua irm.
     Katherine e Peter se entreolharam uma ltima vez.
     Ento ele se foi.
     Ela pde ouvi-los subindo a rampa e atravessando a porta de metal. Quando saram, escutou o homem tatuado trancar a porta atrs de si e seguir adiante atravs 
do quadro giratrio das Trs Graas. Poucos minutos depois, ouviu um carro dar a partida.
     Ento o silncio dominou a manso.
     Totalmente sozinha no escuro, Katherine sangrava.
     
     CAPTULO 108
     
     A mente de Robert Langdon pairava sobre um abismo sem fim.
     Nenhuma luz. Nenhum som. Nenhuma sensao.
     Somente um vazio infinito e silencioso.
     Suavidade.
     Ausncia de peso.
     Seu corpo o havia libertado. Nada mais o prendia.
     O mundo fsico deixara de existir. O tempo deixara de existir.
     Ele agora era pura conscincia... uma inteligncia descarnada suspensa no vazio de um
     Universo incomensurvel.
     
     
     
     
     CAPTULO 109
     
     O UH-60 modificado sobrevoou em baixa altitude os extensos telhados de Kalorama Heights, rugindo em direo s coordenadas fornecidas pela equipe de apoio. 
O agente Simkins foi o primeiro a ver o Escalade preto estacionado de qualquer maneira no gramado em frente a uma das manses. O porto de entrada estava fechado, 
e a casa estava escura e silenciosa.
     Sato deu o sinal para a aterrissagem.
     A aeronave pousou com grande impacto no gramado, em meio a vrios carros... entre eles um sed com uma luz giratria sobre o cap, que pertencia a uma firma 
de segurana.
     Simkins e sua equipe saltaram do helicptero, sacaram as armas e subiram correndo at a varanda. Ao ver que a porta da frente estava trancada, Simkins uniu 
as mos em concha e espiou atravs de uma janela. O hall estava escuro, mas ele pde distinguir o tnue contorno de um corpo estendido no cho.
     - Merda - sussurrou ele. -  Hartmann.
     Um de seus agentes apanhou uma cadeira da varanda e a arremessou contra a janela de sacada. O barulho de vidro se estilhaando mal se fez ouvir acima do rugido 
do helicptero atrs deles.
     Segundos depois, estavam todos dentro da casa. Simkins correu at o hall e se ajoelhou junto a Hartmann para tomar seu pulso. Nada. Havia sangue por toda parte. 
Ento ele viu a chave de fenda espetada na garganta do colega.
     Meu Deus. Simkins se levantou e acenou para os homens darem incio a uma busca completa.
     Os agentes se espalharam pelo trreo, vasculhando com as miras de raio laser a escurido da casa luxuosa. No encontraram nada na sala de estar nem no escritrio, 
porm na sala de jantar descobriram uma agente de segurana estrangulada. Simkins estava perdendo depressa as esperanas de que Robert Langdon e Katherine Solomon 
estivessem vivos. Aquele assassino brutal obviamente montara uma armadilha para os dois. E, se conseguira matar um agente da CIA e uma segurana armada, tudo levava 
a crer que um professor universitrio e uma cientista no tinham a menor chance de escapar.
     Uma vez terminada a revista do trreo, Simkins mandou dois agentes verificarem o andar de cima. Enquanto isso, encontrou na cozinha uma escada que conduzia 
a um subsolo. Desceu os degraus e, ao chegar l embaixo, acendeu a luz. O subsolo era espaoso e impecvel, como se quase nunca fosse usado. Caldeiras, paredes fluas 
de cimento, algumas caixas. No h absolutamente nada aqui. Simkins tornou a subir para a cozinha bem na hora em que seus homens desciam do andar de cima. Todos 
sacudiram as cabeas.
     A casa estava deserta.
     No havia ningum ali. Tampouco outros corpos.
     Simkins chamou Sato pelo rdio para dizer que a casa havia sido revistada e dar a m notcia: o seqestrador conseguira fugir.
     Quando ele chegou ao hall, a diretora estava subindo a escada da frente. Vislumbrou Warren Bellamy atrs dela, sozinho dentro do helicptero com a maleta de 
titnio a seus ps. O laptop da diretora do ES dava a ela acesso aos sistemas computacionais da CIA onde quer que estivesse, graas a links de satlite protegidos. 
Ela havia usado o computador para compartilhar com Bellamy algum tipo de informao que o abalara to profundamente a ponto de garantir sua total cooperao. Simkins 
no fazia idia do que o Arquiteto tinha visto, mas, fosse o que fosse, o deixara em estado de choque.
     Ao entrar no hall, Sato se deteve por alguns segundos, baixando a cabea diante do corpo de Hartmann. Logo em seguida, ergueu os olhos e os fixou em Simkins.
     - Nenhum sinal de Langdon ou Katherine? Nem de Peter Solomon?
     O agente fez que no com a cabea.
     - Se ainda estiverem vivos, ele os levou.
     - Voc encontrou algum computador na casa?
     - Sim, senhora. No escritrio.
     - Me mostre.
     Simkins conduziu Sato em direo  sala de estar. O carpete felpudo estava coberto de cacos de vidro da janela estilhaada. Eles passaram por uma lareira, por 
um quadro grande e por vrias estantes de livros antes de chegar  porta do escritrio. O cmodo tinha as paredes revestidas de madeira, uma escrivaninha antiga 
e um monitor grande. Sato contornou a escrivaninha e olhou para a tela, fazendo uma careta.
     - Droga - disse baixinho.
     Simkins deu a volta e encarou o monitor. Estava apagado.
     - O que houve?
     Sato apontou para um lugar na escrivaninha com vrios cabos para conectar um laptop.
     - Ele levou o computador.
     Simkins no entendeu.
     - Esse homem tem informaes que a senhora quer ver?
     - No - respondeu Sato, em tom grave. - Ele tem informaes que no quero que ningum veja.
     
     L embaixo, no subsolo secreto, Katherine Solomon havia escutado o barulho do helicptero, seguido pelo som de vidro se quebrando e botas pesadas pisando o 
cho acima dela. Tentou gritar por socorro, mas a mordaa em sua boca tornava isso impossvel. Ela mal conseguia emitir qualquer som. Quanto mais tentava, mais depressa 
o sangue escorria de seu brao.
     Katherine estava ofegante e um pouco tonta.
     Ela sabia que precisava se acalmar. Use a mente, Katherine. Com toda a fora de vontade que conseguiu reunir, ela se convenceu a entrar em um estado de meditao.
     
     A mente de Robert Langdon flutuava pelo vazio do espao. Ele olhou para aquele vcuo infinito em busca de algum ponto de referncia. No encontrou nada.
     Breu total. Silncio total. Paz total.
     No havia sequer a fora da gravidade para lhe dizer qual lado ficava para cima.
     Seu corpo havia sumido.
     Isto deve ser a morte.
     O tempo parecia estar se deformando, esticando-se e comprimindo-se, como se ali no fosse possvel dimension-lo. Langdon havia perdido qualquer noo de quanto 
tempo se passara.
     Dez segundos? Dez minutos? Dez dias?
     No entanto, de repente, como exploses incandescentes vindas de galxias distantes, lembranas comearam a se materializar, flutuando em sua direo como ondas 
de choque por um vasto nada.
     Na mesma hora, Robert Langdon comeou a se lembrar. As imagens o invadiram com violncia... vvidas, perturbadoras. Ele estava olhando para um rosto coberto 
de tatuagens. Um par de mos potentes erguia sua cabea e batia com ela no cho.
     Uma dor surgia... depois a escurido.
     Uma luz cinzenta.
     Um latejar.
     Filetes de memria. Langdon sendo arrastado, semiconsciente, cada vez mais para baixo. Seu captor cantando alguma coisa.
     Verbum significatium... Verbum omnificum... Verbum perdo...
     
     CAPTULO 110
     
     A diretora Sato estava sozinha no escritrio, esperando a diviso de imagens por satlite da CIA processar sua solicitao. Um dos luxos de se trabalhar na 
rea de Washington era a cobertura por satlites. Com sorte, talvez um deles estivesse numa posio adequada para tirar fotos da casa naquela noite... e poderia 
ter registrado um carro saindo dali na ltima meia hora.
     - Sinto muito, senhora - disse o tcnico de satlite. - No houve cobertura nessas coordenadas hoje  noite. Quer que eu faa uma solicitao de reposicionamento?
     - No, obrigada. Agora  tarde. - Ela desligou.
     Sato deu um suspiro. J no sabia mais como poderia descobrir aonde seu alvo tinha ido. Foi at o hall, onde seus homens haviam acabado de ensacar o corpo do 
agente Hartmann e o carregavam em direo ao helicptero. Sato ordenara a Simkins que reunisse seus homens e se preparasse para retornar a Langley, mas o agente 
estava de quatro no cho da sala de estar. Parecia estar passando mal.
     - Voc est bem?
     Ele ergueu os olhos com uma expresso esquisita no rosto.
     - A senhora viu isto aqui? - Ele apontou para o cho da sala.
     Sato se aproximou, baixando o olhar para o carpete felpudo. Fez que no com a cabea, sem
     enxergar nada ali.
     - Agache-se - disse Simkins. - D uma olhada nas fibras do carpete.
     Ela se agachou. Em um instante, viu do que ele estava falando. As fibras do carpete pareciam ter sido amassadas... afundadas em duas linhas retas, como se as 
rodas de alguma coisa pesada tivessem sido empurradas pela sala.
     - O mais estranho - disse Simkins -  o lugar para onde as marcas vo. - Ele apontou.
     O olhar de Sato seguiu as tnues linhas paralelas que cruzavam o carpete da sala. O rastro parecia sumir debaixo de um quadro que ia do cho at o teto, junto 
 lareira. Mas que diabo  isso?
     Simkins se aproximou do quadro e tentou ergu-lo da parede, mas ele no se mexeu.
     - Est afixado - disse, correndo os dedos pelas bordas. - Espere um pouco. tem alguma coisa aqui embaixo... - Seu dedo tocou uma pequena alavanca sob a borda 
inferior, e ouviu-se um clique.
     Sato deu um passo  frente enquanto Simkins empurrava a moldura e o quadro inteiro rodava lentamente sobre o prprio eixo, como uma porta giratria.
     Ele ergueu a lanterna e iluminou o espao escuro mais adiante.
     Sato apertou os olhos. Aqui vamos ns.
     Ao final de um corredor curto via-se uma pesada porta de metal.
     
     As lembranas que haviam ondulado pela escurido da mente de Langdon tinham surgido e ido embora, deixando para trs uma trilha de fagulhas, acompanhada por 
aquele mesmo sussurro sinistro e distante.
     Verbum significatium... Verbum omnificum... Verbum perdo.
     O cntico prosseguia como a ladainha de vozes em um hino medieval.
     Verbum significatium... Verbum omnificum. As palavras ento comearam a despencar pelo vcuo, e novas vozes ecoaram por toda a sua volta.
     Apocalypsis... Franklin... Apocalypsis... Verbum... Apocalypsis...
     Sem aviso, o lamento de um sino comeou a soar em algum lugar ao longe. O sino seguiu badalando, cada vez mais alto. Passou a repicar com mais urgncia, como 
que torcendo para Langdon compreender, instando sua mente a segui-lo.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 111
     
     O sino do campanrio badalou por trs minutos inteiros, estremecendo o candelabro de cristal acima da cabea de Langdon. Dcadas antes, ele havia assistido 
a muitas palestras naquele estimado auditrio da Academia Phillips Exeter. Naquele dia, porm, estava ali para escutar um amigo querido
     falar para o corpo estudantil. Quando as luzes diminuram, Langdon se sentou junto  parede do fundo, debaixo de um panteo de retratos de diretores.
     Um silncio recaiu sobre a platia.
     Em meio quela escurido completa, uma silhueta alta e indefinida atravessou o palanque e subiu ao pdio.
     - Bom dia - sussurrou a voz sem rosto ao microfone.
     Todos se empertigaram nas cadeiras, tentando ver quem falava.
     Um projetor de slides ento ganhou vida, revelando uma fotografia em spia desbotada - um estonteante castelo com fachada de arenito vermelho, altas torres 
quadradas e adornos gticos.
     A sombra tornou a falar.
     - Quem pode me dizer onde fica isso?
     - Na Inglaterra! - declarou uma menina no escuro. - Essa fachada  um misto de gtico primitivo com romnico tardio, ou seja,  um tpico castelo normando, 
o que o situa na Inglaterra por volta do sculo XII.
     - Uau - respondeu a voz sem rosto. - Uma especialista em arquitetura.
     Houve um burburinho generalizado.
     - Infelizmente - acrescentou a sombra -, voc errou por 5 mil quilmetros e meio milnio.
     Aquilo prendeu a ateno do auditrio inteiro.
     O projetor ento exibiu uma fotografia moderna e colorida do mesmo castelo visto de outro ngulo. Suas torres de arenito dominavam o primeiro plano, mas, ao 
fundo, surpreendentemente prximo, erguia-se o domo majestoso, branco e rodeado de colunas do Capitlio dos Estados Unidos.
     - Espere a! - exclamou a garota. - Existe um castelo normando em Washington?
     - Desde 1855 - respondeu a voz. - Data em que esta prxima imagem foi feita.
     Um novo slide surgiu - uma fotografia em preto e branco de um interior, mostrando um imenso salo de baile com teto abobadado cheio de esqueletos de animais, 
vitrines de exibio de artigos cientficos, vidros contendo amostras biolgicas, artefatos arqueolgicos e moldes em gesso de rpteis pr-histricos.
     - Esse estupendo castelo - disse a voz - foi o primeiro verdadeiro museu de cincias dos Estados Unidos, um presente dado por um rico cientista britnico que, 
assim como nossos pais fundadores, acreditava que este pas recm-nascido poderia se tornar a terra do conhecimento. Ele legou aos pais da nossa nao uma imensa 
fortuna e lhes pediu que construssem no centro do pas uma "instituio para o desenvolvimento e a difuso do saber' - O homem fez uma longa pausa. - Algum sabe 
me dizer o nome desse generoso cientista?
     Uma voz tmida na primeira fileira arriscou:
     - James Smithson?
     Um burburinho de reconhecimento percorreu a platia.
     - Isso mesmo: Smithson - retrucou o homem em cima do palanque, dando um passo para a frente e parando debaixo da luz, seus olhos cinzentos reluzindo, brincalhes. 
- Bom dia. Meu nome  Peter Solomon. Sou secretrio do Instituto Smithsonian.
     Os alunos irromperam em palmas calorosas.
     Das sombras, Langdon observou admirado seu amigo fascinar aquelas mentes jovens com um tour fotogrfico pelos primrdios do instituto. O espetculo comeou 
com o Castelo Smithsonian, seus laboratrios subterrneos, seus corredores com objetos em exposio, um salo cheio de moluscos, cientistas que se autodenominavam 
"curadores de crustceos" e at mesmo uma velha fotografia dos dois moradores mais clebres do castelo - um falecido casal de corujas chamadas Difuso e Aumento. 
O slide show de meia hora terminou com uma impressionante imagem por satlite do National Mall, atualmente cercado de imensos museus Smithsonian.
     - Como disse no comeo da palestra, James Smithson e nossos pais fundadores imaginaram este grande pas como uma terra de iluminao. Hoje acredito que ficariam 
orgulhosos. Seu grandioso Instituto Smithsonian  um smbolo de cincia e saber no corao da Amrica. Um tributo vivo e atuante ao sonho que nossos fundadores nutriram 
para os Estados Unidos: o de um pas baseado nos princpios do conhecimento, do saber e da cincia concluiu Solomon, desligando o projetor sob uma salva de palmas.
     As luzes do auditrio se acenderam ao mesmo tempo que dezenas de mos se levantaram para fazer perguntas.
     Solomon chamou um menino ruivo baixinho no meio da platia.
     - Sr. Solomon - comeou o menino, parecendo intrigado. - O senhor disse que nossos pais fundadores fugiram da opresso religiosa na Europa para criar um pas 
baseado nos princpios do avano cientfico.
     - Isso mesmo.
     - Mas... eu tinha a impresso de que eles eram muito religiosos e que fundaram os Estados Unidos como uma nao crist.
     Solomon sorriu.
     - No me entendam mal: nossos pais fundadores eram profundamente religiosos, mas destas, ou seja, acreditavam em Deus de forma universal e libertaria. O nico 
ideal religioso que pregavam era a liberdade religiosa. - Ele retirou o microfone do suporte e avanou at a beira do palanque. - Os pais fundadores do Estados Unidos 
tinham a viso de uma sociedade utpica espiritualmente iluminada,
     na qual a liberdade de pensamento, a educao das massas e o avano cientfico pudessem substituir as trevas de uma superstio religiosa ultrapassada.
     Uma menina loura nos fundos levantou a mau.
     - Pois no?
     - Senhor - disse ela, suspendendo o celular , pesquisei seu nome na internet, e a Wikipdia o descreve como um francomaom importante.
     Solomon levantou seu anel manico.
     - Se voc tivesse me perguntado antes, teria economizado a tarifa que pagou para acessar os dados pelo celular.
     Os alunos riram.
     - Enfim - continuou a menina, hesitante -, o senhor acabou de falar em "superstio religiosa ultrapassada", e me parece que, se existe alguma instituio responsvel 
por disseminar supersties ultrapassadas...  a Maonaria.
     Solomon no pareceu abalado.
     - Ah, ? Como assim?
     - Bom, j li muita coisa sobre os maons e sei que vocs tm vrios ritos antigos e estranhos. Um artigo na internet diz at que acreditam no poder de um antigo 
saber mgico... capaz de alar o homem ao reino dos deuses.
     Todos se viraram para a garota e a encararam como se estivesse maluca.
     - Na verdade, ela tem razo - disse Solomon.
     Os alunos tornaram a se virar para a frente, com os olhos arregalados.
     Solomon reprimiu um sorriso e perguntou  menina loura:
     - A Wikipdia tem alguma outra prola sobre esse saber mgico?
     Parecendo insegura, ela comeou a ler o contedo do site:
     - "Para assegurar que esse poderoso saber no fosse usado pelos no merecedores, os primeiros adeptos escreveram seu conhecimento em cdigo... cobrindo essa 
poderosa verdade com uma linguagem metafrica de smbolos, mitos e alegorias. At hoje, esse saber cifrado est por toda
     parte... codificado em nossa mitologia, em nossa arte e nos textos ocultos de todos os tempos. Infelizmente, o homem moderno no possui mais a capacidade de 
decifrar essa complexa rede de simbolismo... e a grande verdade se perdeu."
     Solomon aguardou.
     - S isso?
     A aluna se remexeu na cadeira.
     - H mais uma coisa, sim.
     - Por favor... continue.
     Depois de um instante de hesitao, ela pigarreou e retomou a leitura:
     - "Segundo a lenda, os sbios que codificaram os Antigos Mistrios muito tempo atrs deixaram uma espcie de chave... uma senha que poderia ser usada para destrancar 
os segredos
     cifrados. Essa senha mgica, conhecida como verbum significatium, supostamente detm o poder de dissipar a escurido e revelar os Antigos Mistrios, possibilitando 
que sejam compreendidos por toda a humanidade."
     Solomon deu um sorriso melanclico.
     - Ah, sim... o verbum significatium. - Ele passou alguns segundos fitando o vazio e, em seguida, baixou os olhos para a menina. - E onde est essa maravilhosa 
palavra nos dias de hoje?
     Estava claro pela apreenso no rosto da aluna que ela se arrependera de ter questionado o palestrante. Mas agora o melhor a fazer era terminar a leitura:
     - "Segundo a lenda, o verbum significatium est enterrado bem fundo em algum lugar, onde espera pacientemente um momento-chave da histria... E, quando essa 
hora chegar, a humanidade no poder mais sobreviver sem a verdade, o conhecimento e o saber de todos os tempos. Nessa obscura encruzilhada, o homem finalmente ir 
desenterrar a Palavra e anunciar o comeo de uma nova e maravilhosa era de iluminao."
     A menina desligou o celular e afundou na cadeira.
     Aps um longo silncio, outro aluno levantou a mo.
     - Sr. Solomon, o senhor no acredita mesmo nisso, acredita?
     Solomon sorriu.
     - Por que no? As nossas mitologias tm uma longa tradio de palavras mgicas capazes de proporcionar uma compreenso profunda e poderes divinos, At hoje, 
as crianas ainda gritam "abracadabra" na esperana de criar algo a partir do nada.  claro que todos ns esquecemos que essa palavra no tem nada a ver com brincadeira. 
Suas razes esto no antigo misticismo aramaico: Avra Kedabra significa "Eu crio ao falar".
     Silncio.
     - Mas - insistiu o menino - no  possvel que o senhor acredite que uma nica palavra... esse tal verbum significatium... tenha o poder de desvendar um antigo 
saber... e provocar uma iluminao mundial.
     Peter Solomon ficou impassvel.
     - Minha crena no deveria preocupar vocs, mas... o fato de essa profecia sobre uma poca de iluminao existir em praticamente todas as crenas e tradies 
filosficas do mundo, sim. Os hindus a chamam de Era de Krita; os astrlogos, de Era de Aqurio; os judeus descrevem a vinda do Messias; os tesofos intitulam-na 
Nova Era; e os cosmologistas, Convergncia Harmnica, chegando a dar sua
     data exata.
     -  21 de dezembro de 2012! - gritou algum.
     - Sim, uma data assustadoramente prxima... se voc acreditar no calendrio maia.
     Langdon deu uma risadinha, lembrando-se de como, 10 anos antes, Solomon havia previsto de forma certeira a atual enxurrada de especiais televisivos anunciando 
que o ano de 2012 marcaria o fim do mundo.
     - Deixando de lado o "quando" - disse Solomon -, acho incrvel que, ao longo da histria, as mais diversas filosofias humanas tenham concordado em relao a 
uma coisa: que uma grande iluminao est por vir. Em todas as culturas, em todas as pocas e em todos os cantos do mundo, o sonho humano se concentrou neste mesmo 
exato conceito: a futura apoteose do homem... a iminente transformao de nossas mentes e a descoberta de seu verdadeiro potencial. - Ele sorriu. - O que poderia 
explicar tamanha sincronicidade de crenas?
     - A verdade - falou baixinho algum na platia.
     Solomon girou o corpo na direo da voz.
     - Quem disse isso?
     A mo que se levantou pertencia a um rapazinho asitico cujos traos suaves sugeriam origem nepalesa ou tibetana.
     - Quem sabe no existe uma verdade universal embutida na alma de todas as pessoas? - continuou o rapaz. - Talvez todos carreguemos a mesma histria dentro de 
ns, como uma constante compartilhada em nosso DNA. Talvez essa verdade coletiva seja a responsvel pela semelhana em todas as nossas histrias.
     Sorrindo, Solomon uniu as mos em frente ao corpo e fez uma mesura reverente para o menino.
     - Obrigado.
     Todos ficaram calados.
     - A verdade... - disse Solomon, dirigindo-se ao auditrio -... tem poder. E, se todos gravitamos em torno de idias semelhantes, talvez isso se d porque elas 
sejam verdadeiras.., e estejam escritas bem no fundo de nosso ser. E, quando ouvimos a verdade, mesmo que no a compreendamos, sentimos que ela ecoa dentro de ns... 
em sintonia com nosso conhecimento inconsciente. Talvez no possamos apreender a verdade, mas sim reinvoc-la... relembr-la... e reconhec-la... como aquilo que 
j existe dentro de ns.
     O silncio no auditrio era total.
     Solomon esperou algum tempo antes de dizer bem baixinho:
     - Para concluir, eu deveria alertar vocs que revelar a verdade nunca  fcil. Ao longo da histria, todos os perodos de iluminao foram acompanhados por 
trevas lhe opondo resistncia. Tais so as leis da natureza e do equilbrio. E, olhando para a escurido que hoje se espalha pelo mundo, somos obrigados a admitir 
que isso significa que uma quantidade de luz equivalente est crescendo. Estamos s vsperas de uma era de iluminao realmente grandiosa, e todos ns... todos vocs.., 
so profundamente abenoados por estarem vivenciando esse momento decisivo da histria. De todas as pessoas que j viveram, em todas as eras... ns estamos nesta 
estreita janela de tempo que nos permite testemunhar nosso derradeiro renascimento. Aps milnios de trevas, veremos a cincia, a mente e mesmo a religio desvendarem 
a verdade.
     Solomon estava prestes a receber os aplausos da platia quando ergueu a mo pedindo silncio.
     - Senhorita? - Ele apontou para a combativa menina loura no fundo do auditrio. - Sei que ns dois no concordamos em muita coisa, mas quero lhe agradecer. 
Sua paixo  um catalisador importante das mudanas que esto por vir. As trevas se alimentam de apatia... e a convico  nosso mais potente antdoto. Continue 
cultivando sua f. Estude a Bblia. - Ele sorriu. - Principalmente as ltimas pginas.
     - O Apocalipse? - indagou ela.
     - Claro, O Livro do Apocalipse  um exemplo vibrante de nossa verdade compartilhada. Ele conta a mesmssima histria que inmeras outras tradies. Todas elas 
predizem a futura revelao de um grande saber.
     - Mas o Apocalipse no fala sobre o fim do mundo? - perguntou outra pessoa.
     - O senhor sabe... o Anticristo, o Armagedom, a batalha decisiva entre o bem e o mal?
     Solomon deu uma risadinha.
     - Quem aqui estuda grego?
     Vrias mos se levantaram.
     - Qual o significado literal da palavra apocalipse?
     - Apocalipse significa... - comeou a responder um aluno, parando no meio como se estivesse surpreso - "desvendar".. ou "revelar".
     Solomon balanou a cabea para o menino em um gesto de aprovao.
     - Isso mesmo. Apocalipse quer dizer literalmente revelao. O ltimo livro da Bblia prev o desvendamento de uma grande verdade e de um conhecimento inimaginvel. 
O Apocalipse no  o fim do mundo, mas sim o fim do mundo tal como ns o conhecemos. Essa profecia  apenas uma das lindas mensagens da Bblia que foram distorcidas. 
- Solomon caminhou at a frente do tablado. - Podem acreditar em mim, o Apocalipse est chegando... e no vai se parecer em nada com o que nos ensinaram.
     Bem alto acima de sua cabea, o sino comeou a dobrar.
     Os alunos irromperam atnitos em uma estrondosa salva de palmas.
     
     CAPTULO 112
     
     Katherine Solomon estava  beira da inconscincia quando foi sacudida pela onda de choque de uma exploso ensurdecedora.
     Logo em seguida, sentiu cheiro de fumaa.
     Seus ouvidos zumbiam.
     Escutou o som de vozes abafadas. Ao longe. Gritos. Passos. De repente, comeou a respirar mais livremente. Algum havia tirado a mordaa de sua boca.
     - Est tudo bem - sussurrou uma voz masculina. - Agente firme.
     Ela esperava que o homem fosse retirar a agulha de seu brao, mas, em vez disso, ele comeou a gritar ordens:
     - Tragam o kit de primeiros socorros... prendam uma sonda intravenosa a essa agulha... injetem soluo de Ringer com lactato... tirem a presso dela.
     - Enquanto verificava seus sinais vitais, o agente comeou a falar: - Sra. Solomon, o homem que fez isso com a senhora... para onde ele foi?
     Katherine tentou responder, mas no conseguiu.
     - Sra. Solomon? - repetiu a voz. - Para onde ele foi?
     Katherine se esforou para abrir os olhos, mas sentiu que estava desmaiando.
     - Precisamos descobrir para onde ele foi - insistiu o homem.
     Embora soubesse que no fazia sentido, Katherine sussurrou trs palavras em resposta.
     - A... montanha... sagrada...
     
     A diretora Sato passou por cima da porta de ao destruda e desceu uma rampa de madeira at o subsolo secreto. Um de seus agentes veio encontr-la no p da 
rampa.
     - Diretora, acho que a senhora vai querer ver isso.
     Sato seguiu o agente por um corredor estreito at um pequeno cmodo. O recinto iluminado estava vazio, exceto por uma pilha de roupas no cho. Ela reconheceu 
o palet de tweed e os sapatos de Robert Langdon.
     Seu agente apontou para um grande recipiente parecido com um caixo junto a parede.
     Mas que diabo  isso?
     Sato se aproximou do recipiente, notando que era alimentado por uma srie de tubos de plstico que corriam rente  parede. Com cautela, aproximou-se do tanque. 
Ento viu que havia um pequeno painel deslizante na tampa. Estendeu a mo e o afastou para um dos lados, revelando uma janelinha transparente.
     Sato se retraiu.
     Debaixo do vidro... flutuava o rosto submerso e sem vida do professor Robert Langdon.
     
     Luz!
     O vazio sem fim em que Langdon pairava foi subitamente preenchido por um sol ofuscante. Raios de intensa luz branca penetraram a escurido, queimando sua mente.
     Havia luz por toda parte.
     De repente, de dentro da nuvem radiante  sua frente, surgiu uma linda silhueta. Um rosto... embaado e indistinto... dois olhos que o fitavam do vazio. Raios 
de luz cercavam aquela face, e Langdon imaginou se estaria fitando o semblante de Deus.
     
     Sato olhava para o tanque e se perguntava se o professor Langdon tinha alguma idia do que havia acontecido. Duvidava muito. Afinal de contas, a desorientao 
era justamente o objetivo daquela tecnologia.
     Os tanques de privao sensorial existiam desde a dcada de 1950, e ainda eram uma atividade popular entre os ricos adeptos da Nova Era. "Flutuar", como se 
dizia, proporcionava uma experincia transcendental de retorno ao tero materno... uma espcie de auxlio  meditao que moderava a atividade cerebral por meio 
da remoo de todos os estmulos sensoriais: luz, som, tato e at mesmo a fora da gravidade. Nos tanques convencionais, a pessoa ficava boiando dentro de um soro 
fisiolgico muito denso que mantinha seu rosto fora d'gua de modo que pudesse respirar.
     Recentemente, contudo, esses tanques tinham evoludo.
     Perfluorocarbonos oxigenados.
     A nova tecnologia - conhecida como Ventilao Lquida Total (VLT) - era to inusitada que poucos acreditavam na sua existncia.
     Lquido respirvel.
     A respirao lquida  uma realidade desde 1966, quando Leland C. Clark conseguiu manter vivo um camundongo que passou horas submerso dentro de uma soluo 
de perfluorocarbono oxigenado. Em 1989, a tecnologia da VLT fez uma apario dramtica no filme O Segredo do Abismo, embora poucos espectadores tenham se dado conta 
de que estavam assistindo de fato a uma realidade cientfica.
     A Ventilao Lquida Total nasceu das tentativas da medicina moderna de ajudar bebs prematuros a respirar, levando-os de volta ao meio lquido intrauterino. 
Depois de nove meses no tero, os pulmes humanos j estavam familiarizados com aquele meio. Antigamente, os perfluorocarbonos no podiam ser respirados por serem 
viscosos demais, porm avanos modernos os deixaram quase com a mesma consistncia da gua.
     A Diretoria de Cincia e Tecnologia da CIA - "os Magos de Langley", como eram conhecidos na comunidade de inteligncia - havia trabalhado exaustivamente com 
os perfluorocarbonos oxigenados de modo a desenvolver tecnologias para as foras armadas norte-americanas. Os mergulhadores de elite da marinha descobriram que respirar 
oxignio lquido no lugar das misturas gasosas habituais - como o heliox e o trimix - lhes permitia mergulhar muito mais fundo sem risco de sentir o mal-estar causado 
pela presso. Da mesma forma, a NASA e a aeronutica haviam descoberto que pilotos equipados com um aparato de respirao lquida, em vez do tradicional cilindro 
de oxignio, podiam suportar foras G muito acima do normal, porque o lquido espalhava a fora da gravidade pelos rgos internos de maneira mais uniforme do que 
o gs.
     Sato ouvira dizer que hoje em dia existiam "laboratrios de experincias extremas" nos quais era possvel testar esses tanques de Ventilao Lquida Total - 
ou "Mquinas de Meditao", como eram chamados. Aquele tanque ali provavelmente havia sido instalado para as experincias particulares de seu dono, embora o acrscimo 
de trincos pesados fizesse Sato ter quase certeza de que aquele tanque tambm fora usado para propsitos mais obscuros... uma tcnica de interrogatrio que a CIA 
conhecia bem.
     A infame tcnica de interrogatrio conhecida como water boarding  altamente eficaz porque a vtima acredita mesmo estar se afogando. Sato sabia de vrias operaes 
confidenciais em que tanques de privao sensorial como aquele haviam sido usados para levar essa iluso a nveis aterrorizantes. Uma vtima submersa em lquido 
respirvel podia ser literalmente "afogada". O pnico associado  experincia do afogamento em si fazia com que a vtima, em geral, nem percebesse que o
     lquido que estava respirando era mais viscoso do que a gua. Quando ele entrava em seus pulmes, a pessoa em geral desmaiava de medo, acordando em seguida 
no mais perfeito "confinamento solitrio".
     Anestsicos tpicos e drogas de efeito paralisante e alucingeno eram misturados ao lquido oxigenado para dar ao prisioneiro a sensao de que ele estava totalmente 
separado do prprio corpo. Quando sua mente enviava comandos para mover pernas e braos, nada acontecia. O estado de "morte" por si s j era apavorante, mas a verdadeira 
desorientao vinha do processo de "renascimento", que, com o auxlio de luzes intensas, ar frio e barulho ensurdecedor, podia ser extremamente traumtico e doloroso. 
Aps um punhado de "renascimentos" e afogamentos subseqentes, o prisioneiro ficava to desorientado que no fazia mais idia se estava vivo ou morto... e contava 
absolutamente qualquer coisa a quem estivesse conduzindo o interrogatrio.
     Sato ficou na dvida se deveria esperar a chegada de uma equipe mdica para retirar Langdon do tanque, mas sabia que no tinha tempo para isso. Preciso descobrir 
o que ele sabe.
     - Apaguem as luzes - disse ela. - E arrumem uns cobertores.
     
     O sol ofuscante havia desaparecido.
     O rosto tambm sumira.
     A escurido estava de volta, mas Langdon agora podia ouvir sussurros distantes ecoando pelos anos-luz de vazio. Vozes abafadas... palavras ininteligveis. Em 
seguida comearam as vibraes... como se o mundo estivesse prestes a se despedaar.
     Ento aconteceu.
     Sem aviso, o Universo se rasgou ao meio. Um imenso abismo se abriu no vazio.., como se as costuras do prprio espao houvessem arrebentado. Uma nvoa acinzentada 
se derramou pela abertura, e Langdon viu uma imagem aterradora. Mos soltas no ar de repente se estendiam para peg-lo, agarrando seu corpo, tentando arranc-lo 
de seu mundo.
     No! Ele tentou se desvencilhar das mos, mas no tinha braos... nem punhos. Ou ser que tinha? De repente, sentiu o prprio corpo se materializar ao redor 
de sua mente. Sua carne voltara a existir e estava sendo agarrada por mos fortes que o puxavam para cima. No! Por favor!
     Mas era tarde demais.
     A dor fustigou seu peito enquanto as mos o suspendiam pela abertura. Seus pulmes pareciam cheios de areia. No consigo respirar! De repente, estava deitado 
de costas na superfcie mais fria e dura que poderia imaginar. Alguma coisa no parava de pressionar seu trax, com fora, dolorosamente. Ele estava cuspindo o calor.
     Eu quero voltar.
     Tinha a sensao de ser uma criana saindo do tero.
     Em meio a convulses, Langdon tossia para eliminar o lquido. Seu peito e pescoo doam. Uma dor excruciante. Sua garganta estava em chamas. Pessoas falavam, 
tentando sussurrar, mas o barulho era ensurdecedor. Com a viso embaada, tudo o que conseguia ver eram formas indistintas. Sua pele estava dormente e parecia feita 
de couro.
     Sentia o peito mais pesado... sob presso. No consigo respirar!
     Tossiu mais lquido. Ento um reflexo instintivo fez com que inspirasse com fora, o ar frio penetrando-lhe os pulmes, como se fosse um recm-nascido respirando 
pela primeira vez. O mundo era um tormento. Tudo o que Langdon queria era voltar para o tero.
     
     Robert Langdon no fazia idia de quanto tempo havia transcorrido. Podia sentir que estava deitado de lado sobre um cho duro, envolto em toalhas e cobertores. 
Um rosto conhecido o olhava de cima... mas a luz gloriosa tinha sumido. Os ecos de cnticos distantes ainda soavam em sua mente.
     Verbum significatium... Verbum omnificum...
     - Professor Langdon? - sussurrou algum. - O senhor sabe onde est?
     Langdon assentiu com fraqueza, ainda tossindo.
     O mais importante, no entanto, era que ele havia comeado a perceber o que estava acontecendo naquela noite.
     
     CAPTULO 113
     
     Em p sobre as pernas bambas, envolto em cobertores de l, Langdon olhava para o tanque aberto. Seu corpo voltara a lhe pertencer, embora ele desejasse que 
no fosse o caso. Sua garganta e seus pulmes ardiam. O mundo parecia rduo e cruel.
     Sato havia acabado de lhe explicar sobre o tanque de privao sensorial.. acrescentando que, se no o houvesse tirado de l, ele teria morrido de fome ou coisa 
pior. Langdon no duvidava que Peter tivesse passado por experincia semelhante. O Sr. Solomon est no mundo intermedirio, no
     Hamistagan, dissera-lhe o homem tatuado mais cedo. No purgatrio, conclura Langdon. Se Peter tivesse sido submetido a mais de um daqueles processos de nascimento, 
no seria de admirar que houvesse revelado ao seqestrador tudo o que ele desejava saber.
     Sato gesticulou para que Langdon a seguisse e ele obedeceu, descendo vagarosamente um estreito corredor e penetrando mais fundo naquele antro bizarro que via 
pela primeira vez. Os dois entraram em um recinto quadrado com uma mesa de pedra e uma sinistra iluminao colorida. Katherine estava l, e Langdon suspirou de alvio. 
Ainda assim, a cena era inquietante.
     Ela estava deitada sobre a mesa de pedra. Toalhas encharcadas de sangue cobriam o cho. Um agente da CIA mantinha suspensa uma bolsa para administrao intravenosa 
cujo tubo estava conectado ao seu brao.
     Ela soluava baixinho.
     - Katherine? - disse Langdon com a voz embargada, mal conseguindo falar.
     Ela virou a cabea, parecendo desorientada e confusa.
     - Robert? - Seus olhos se arregalaram de incredulidade e depois de alegria.
     - Mas... eu vi voc se afogar!
     Ele se encaminhou para a mesa de pedra.
     Katherine se ergueu at ficar sentada, ignorando a sonda intravenosa e as objees do agente.
     Langdon chegou  mesa e Katherine estendeu os braos, envolvendo seu corpo embrulhado em cobertores e abraando-o apertado.
     - Graas a Deus - sussurrou ela, beijando-lhe a bochecha. Ento tornou a beij-lo, apertando-o como se no acreditasse que fosse real. - No estou entendendo... 
como...
     Sato comeou a dizer alguma coisa sobre tanques de privao sensorial e perfluorocarbonos oxigenados, mas era bvio que Katherine no estava escutando. Simplesmente 
continuou a abraar Langdon.
     - Robert - disse ela -, Peter est vivo. - Sua voz rateou enquanto relatava o horripilante encontro com o irmo. Ela descreveu seu estado fsico, falou da cadeira 
de rodas, da estranha faca, das aluses a algum tipo de "sacrifcio" e contou como fora deixada sangrando tal qual uma ampulheta humana para convencer Peter a cooperar 
depressa.
     Langdon mal conseguia falar.
     - Voc faz... alguma idia... de para onde eles foram?
     - Ele disse que iria levar Peter para a montanha sagrada.
     Langdon se afastou e ps-se a encar-la.
     Os olhos de Katherine estavam marejados.
     - Ele falou que tinha decifrado a grade da base da pirmide e que ela indicara que fosse at a montanha sagrada.
     - Professor - atalhou Sato -, isso significa alguma coisa para o senhor?
     - No - disse Langdon, balanando a cabea. - Mas, se ele conseguiu essa informao na base da pirmide, ns tambm podemos obt-la... - falou, esperanoso. 
Fui eu que lhe mostrei como solucion-la.
     Sato sacudiu a cabea.
     - A pirmide no est mais aqui. Ele a levou.
     Langdon permaneceu alguns segundos em silncio, fechando os olhos para tentar visualizar a base da pirmide. A grade de smbolos havia sido uma das ltimas 
imagens que ele vira antes de se afogar, e o trauma costumava gravar as lembranas bem fundo na mente. Ele no conseguia se lembrar de toda a grade, apenas de parte, 
mas quem sabe no bastaria?
     Virando-se para Sato, falou, atropelando as palavras:
     - Talvez eu consiga lembrar o suficiente, mas preciso que faa uma pesquisa na internet.
     A diretora sacou o BlackBerry.
     - Faa uma busca por "Quadrado de Franklin de Ordem Oito".
     Sato lanou-lhe um olhar espantado, mas digitou sem fazer perguntas.
     A viso de Langdon ainda estava embaada, e ele s agora comeava a assimilar o estranho ambiente em que se encontravam. Percebeu que a mesa de pedra estava 
coberta de manchas de sangue antigas e a parede  sua direita, cheia de pginas de texto, fotografias, desenhos e mapas, com uma gigantesca teia de barbantes a interlig-los.
     Meu Deus.
     Langdon foi em direo quela estranha colagem, ainda apertando os cobertores em volta do corpo. Presa  parede havia uma bizarra coleo de informaes - textos 
antigos que abrangiam desde magia negra at as Escrituras crists, desenhos de smbolos e sigilos, cpias impressas de sites sobre teorias da conspirao e fotos 
de satlite de Washington rabiscadas com anotaes e pontos de interrogao. Uma das folhas era uma longa lista de palavras em diversas lnguas. Ele reconheceu algumas 
delas como termos manicos sagrados outras como antigas palavras mgicas e outras ainda como encantamentos cerimoniais.
     Ser que  isso que ele est procurando?
     Uma palavra?
     Algo simples assim?
     O arraigado ceticismo de Langdon em relao  Pirmide Manica se devia em grande parte quilo que ela supostamente revelava: a localizao dos Antigos Mistrios. 
Essa descoberta teria de significar um imenso esconderijo cheio de milhares e milhares de volumes que, de alguma forma, tivessem sobrevivido a extintas bibliotecas 
que um dia os tinham abrigado. Um esconderijo desse tamanho? Debaixo de Washington? Agora, porm, aquela lista de palavras mgicas, combinada  lembrana da palestra 
de Peter na Phillips Exeter, abrira outra possibilidade surpreendente.
     Langdon certamente no acreditava no poder de palavras mgicas... mas parecia bvio que o homem tatuado, sim. Sua pulsao se acelerou enquanto ele tornava 
a examinar as notas rabiscadas, os mapas, textos, cpias impressas e todos os barbantes e post-its na parede.
     Estava claro que havia um tema recorrente.
     Meu Deus, ele est procurando o verbum significatium... a Palavra Perdida. Langdon deixou esse pensamento tomar forma, relembrando trechos da palestra de Peter. 
O que ele est procurando  a Palavra Perdida!  isso que ele acredita estar enterrado aqui em Washington.
     Sato chegou ao seu lado.
     - Era isso que o senhor queria? - Ela lhe mostrou o BlackBerry.
     Langdon olhou para a grade numrica de oito por oito estampada na tela.
     - Exatamente. - Ele pegou um pedao de papel. - Preciso de uma caneta.
     Sato tirou uma do bolso e lhe entregou.
     - Por favor, seja rpido.
     No escritrio subterrneo da Diretoria de Cincia e Tecnologia, Nola Kaye analisava mais uma vez o documento editado que lhe fora trazido por Rick Parrish, 
da segurana de sistemas. O que o diretor da CIA est fazendo com um arquivo sobre antigas pirmides e localizaes subterrneas secretas?
     Ela pegou o telefone e discou.
     Sato atendeu na hora, com a voz tensa.
     - Nola, eu ia mesmo ligar para voc.
     - Tenho novas informaes - disse Nola. - No sei muito bem qual a conexo com o que est acontecendo, mas descobri que existe um arquivo editado...
     - O que quer que seja, esquea - interrompeu Sato. - No temos mais tempo. No conseguimos capturar o alvo, e tenho todos os motivos para crer que ele est 
prestes a cumprir a ameaa que fez.
     Nola sentiu um calafrio.
     - A boa notcia  que sabemos exatamente aonde ele est indo. - Sato respirou fundo. - A ruim  que ele est com um laptop.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 114
     
     A pouco mais de 15 quilmetros dali, Mal'akh ajeitou o cobertor em volta de Peter Solomon e empurrou a cadeira de rodas por um estacionamento iluminado pelo 
luar, parando debaixo da sombra de um imenso prdio. A estrutura tinha exatamente 33 colunas externas... cada qual com 33 ps de altura, o equivalente a 10 metros. 
A construo descomunal estava deserta quela hora, de modo que ningum jamais os veria ali atrs. No que isso tivesse qualquer importncia. De longe, ningum daria 
ateno a um homem alto de aspecto bondoso usando um casaco preto comprido e levando um invlido careca para um passeio noturno.
     Quando chegaram  entrada dos fundos, Mal'akh empurrou a cadeira de Peter at perto do teclado de segurana. Peter o fitou com ar de desafio, obviamente sem 
a menor inteno de digitar a senha.
     Mal'akh riu.
     - Voc acha que est aqui para me fazer entrar? J se esqueceu que sou um de seus irmos?
     - Ele estendeu a mo e digitou a senha de acesso que recebera aps sua iniciao ao grau 33.
     A porta pesada se abriu com um clique.
     Peter soltou um grunhido e comeou a se debater na cadeira de rodas.
     - Peter, Peter - murmurou Mal'akh -, pense em Katherine. Coopere comigo, e ela viver.
     Voc pode salv-la. Eu lhe dou minha palavra.
     Mal'akh empurrou o prisioneiro para dentro do prdio e trancou a porta atrs deles, seu corao disparado de ansiedade. Empurrou Peter por alguns corredores 
at um elevador, apertando um boto para cham-lo. As portas se abriram e Mal'akh entrou de costas, puxando a cadeira de rodas. Ento, certificando-se de que Peter 
pudesse ver o que estava fazendo, estendeu a mo e apertou o boto mais alto.
     Uma expresso de pavor cruzou o semblante atormentado de Peter.
     - Shh... - sussurrou Mal'akh, acariciando delicadamente a cabea raspada de Peter enquanto as portas do elevador se fechavam. - Como voc bem sabe... o segredo 
 saber como morrer.
     
     No consigo me lembrar de todos os smbolos!
     Langdon fechou os olhos, esforando-se ao mximo para recordar a localizao precisa dos smbolos na base da pirmide, mas sua memria fotogrfica no chegava 
a esse ponto. Ele anotou os poucos smbolos dos quais conseguia se lembrar, posicionando cada um deles no compartimento indicado pelo quadrado mgico de Franklin.
     No entanto, at ali nada parecia fazer sentido.
     
     
     
     - Olhe! - disse Katherine, incentivando-o. - Voc deve estar no caminho certo. A primeira fileira  toda de letras gregas: os smbolos do mesmo tipo esto se 
juntando!
     Langdon tambm percebera isso, mas no conseguia pensar em nenhuma palavra grega que se encaixasse naquela configurao de letras e espaos. Eu preciso da primeira 
letra. Tornou a olhar para o quadrado mgico, tentando se recordar do caractere que ocupava o lugar correspondente ao nmero
     1, junto ao canto inferior esquerdo. Pense! Fechou os olhos para tentar visualizar a base da pirmide. A fileira de baixo... perto do canto esquerdo... que 
letra estava ali?
     Durante alguns segundos, Langdon se viu de volta ao tanque, dominado pelo terror, olhando para a base da pirmide atravs do vidro.
     Ento, de repente, ele lembrou. Abriu os olhos, com a respirao ofegante.
     - A primeira letra  H!
     Langdon retornou  grade e escreveu a primeira letra. A palavra ainda estava incompleta, mas ele tinha visto o bastante. Subitamente, percebeu qual poderia 
ser a palavra.
     ?e?ed?! 
     Com a pulsao disparada, Langdon digitou uma nova busca no BlackBerry.
     Inseriu o equivalente em ingls quela conhecida palavra grega. A primeira ocorrncia que surgiu foi um verbete de enciclopdia. Assim que o leu, viu que fazia 
sentido.
     
     HEREDOM s. importante termo entre os francomaons de "alto grau", derivado dos rituais rosa-cruzistas franceses, nos quais h referncias a uma montanha mstica 
na Esccia, lendria localizao do primeiro de seus Captulos. Vem do grego ?e?ed?, cuja origem  hieros-domos, Casa Sagrada.
     
     -  isso! - exclamou Langdon, mal acreditando naquilo. -  para l que eles foram!
     Sato, que estava lendo por cima do seu ombro, fez cara de perdida.
     - Para uma montanha mstica na Esccia?
     Langdon balanou a cabea.
     - No, para um prdio em Washington cujo nome secreto  Heredom.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 115
     
     A Casa do Templo - conhecida entre os irmos como Heredom - sempre foi a jia da coroa do Rito Escocs nos Estados Unidos. Com seu telhado piramidal muito ngreme, 
o prdio tinha sido batizado em homenagem a uma montanha escocesa imaginria. Mal'akh, no entanto, sabia que no havia nada de fantasioso em relao ao tesouro escondido 
ali.
      este o lugar, ele sabia. A Pirmide Manica indicou o caminho.
      medida que o velho elevador subia lentamente at o terceiro andar, Mal'akh sacou o pedao de papel em que havia reorganizado a grade de smbolos usando o 
Quadrado de Franklin. Todas as letras gregas tinham se movido para a primeira fileira... juntamente com um smbolo simples.
     
     
     
     A mensagem no poderia ser mais clara.
     Debaixo da Casa do Templo.
     Heredom. 
     A Palavra Perdida est aqui... em algum lugar.
     Embora Mal'akh no soubesse exatamente como localiz-la, estava confiante em que a resposta residia nos demais smbolos da grade. Para sua convenincia, quando 
se tratava de desvendar os segredos da Pirmide Manica e daquele prdio, no havia ningum mais qualificado do que Peter Solomon. O Venervel Mestre em pessoa.
     Peter continuava a se debater na cadeira de rodas, emitindo sons abafados atravs da mordaa.
     - Eu sei que est preocupado com Katherine - disse Mal'akh -, mas estamos quase acabando.
     Para Mal'akh, o fim parecia ter se materializado de repente. Depois de todos os anos de dor e planejamento, de espera e procura... o momento havia chegado.
     O elevador comeou a desacelerar, e ele sentiu uma onda de entusiasmo.
     A cabine parou com um solavanco.
     As portas de bronze se abriram e Mal'akh olhou para o glorioso aposento a sua frente, O imenso salo quadrado estava adornado com smbolos e banhado pelo luar 
que entrava pela clarabia no ponto mais elevado do teto.
     Eu completei o crculo, pensou Mal'akh.
     A Sala do Templo. O mesmo local em que Peter e seus irmos haviam cometido o erro de iniciar Mal'akh como um dos seus. Agora, o segredo mais sublime dos maons 
- algo que a maioria dos irmos sequer acreditava que existisse - estava prestes a ser desenterrado.
     
     - Ele no vai encontrar nada - disse Langdon, ainda grogue e desorientado enquanto subia a rampa de madeira para sair do subsolo junto com Sato e outros. - 
Na verdade, no existe uma Palavra. Tudo no passa de uma metfora... um smbolo dos Antigos Mistrios.
     Katherine vinha logo atrs, com dois agentes amparando seu corpo enfraquecido.
     Enquanto o grupo passava com cuidado pelos destroos da porta de ao, atravessando o quadro giratrio e entrando na sala de estar, Langdon explicou para Sato 
que a Palavra Perdida era um dos smbolos mais longevos da Francomaonaria - uma nica palavra escrita na linguagem misteriosa que o homem no era mais capa! de 
decifrar. A Palavra, assim como os Mistrios, prometia desvendar seu poder oculto apenas queles iluminados o bastante para decodific-la.
     - Dizem que, se voc conseguir se apossar da Palavra Perdida e compreend-la... ento os Antigos Mistrios lhe sero revelados - concluiu Langdon.
     Sato olhou para ele.
     - O senhor acha que esse homem est procurando uma palavra?
     Langdon teve de admitir que, dito dessa forma, parecia absurdo, mas ainda assim respondia a muitas perguntas.
     - Veja bem - disse ele -, no sou especialista em mgica cerimonial, mas, com base nos documentos pregados nas paredes do subsolo... e na descrio que Katherine 
fez do pedao de pele no tatuado no topo da cabea dele... eu diria que nosso homem espera encontrar a Palavra Perdida e escrev-la no prprio corpo.
     Sato conduziu o grupo em direo  sala de jantar. Do lado de fora, o helicptero os aguardava, suas hlices fazendo um barulho cada vez mais alto.
     Langdon seguiu falando, como se pensasse em voz alta:
     - Se esse cara acredita mesmo que est prestes a desvendar o poder dos Antigos Mistrios, nenhum smbolo seria mais poderoso do que a Palavra Perdida. Se ele 
conseguir encontr-la e tatu-la no topo da cabea, um local sagrado, sem dvida passar a se considerar perfeitamente adornado e
     ritualisticamente preparado para... - Ele fez uma pausa, vendo Katherine empalidecer ao pensar no destino iminente de Peter.
     - Mas, Robert - disse ela com a voz dbil, mal se fazendo ouvir acima do rudo das hlices do helicptero -, isso  uma boa notcia, no ? Se ele quer inscrever 
a Palavra Perdida no topo da cabea antes de sacrificar Peter, ento ns temos tempo. Ele no o matar antes de encontrar a Palavra. E, se no houver Palavra...
     Langdon tentou parecer esperanoso enquanto os agentes ajudavam Katherine a se sentar em uma cadeira.
     - Infelizmente, Peter pensa que voc est morrendo de hemorragia. Ele acha que a nica forma de salv-la  cooperar com esse maluco... provavelmente ajudando-o 
a encontrar a Palavra Perdida.
     - E da? - insistiu ela. - Se a Palavra no existir...
     - Katherine - disse Langdon, fitando-a bem dentro dos olhos. - Se eu acreditasse que voc estivesse morrendo e um doido dissesse que me deixaria salv-la caso 
eu achasse a Palavra Perdida, garanto que encontraria uma palavra... qualquer palavra... e depois rezaria para ele cumprir a promessa.
     
     - Diretora Sato! - gritou um agente do andar de cima. -  melhor a senhora ver isto aqui!
     Sato saiu apressada da sala de jantar e deparou com um dos agentes descendo a escada. Ele trazia nas mos uma peruca loura. Mas o que  isso?
     - Uma peruca de homem - disse ele, entregando-lhe o objeto. - Encontrei-a no quarto. D uma boa olhada.
     A peruca loura era muito mais pesada do que Sato imaginava. O forro parecia ter sido moldado em gel. Estranhamente, um fio saa da parte de baixo dela.
     - Uma bateria em gel que se molda ao couro cabeludo - disse o agente. - Para alimentar uma microcmera de fibra tica escondida nos cabelos.
     - O qu? - Sato tateou at encontrar a minscula lente aninhada de forma quase imperceptvel no meio da franja loura. - Este troo  uma cmera escondida?
     - Uma cmera de vdeo. Ela armazena imagens neste minsculo carto de memria - disse o agente, apontando para um quadradinho de silcio do tamanho de um selo 
embutido no gel. - Provavelmente  ativada por sensores de movimento.
     Meu Deus, pensou ela. Ento foi assim que ele conseguiu.
     Aquela verso engenhosa da cmera secreta "de lapela" tinha desempenhado um papel decisivo na crise que a diretora do ES estava enfrentando naquela noite. Sato 
encarou o dispositivo com raiva antes de devolv-lo ao agente.
     - Continue revistando a casa - disse ela. - Quero todas as informaes que conseguir sobre esse sujeito. Sabemos que ele levou o laptop, por isso preciso descobrir 
exatamente como ele planeja se conectar ao mundo exterior enquanto estiver em trnsito. Vasculhe o escritrio em busca de manuais, cabos, ou qualquer coisa que possa 
nos dar uma pista sobre o hardware que ele usa.
     - Sim, senhora. - O agente se afastou depressa.
     Hora de sair daqui. Sato podia ouvir o rudo ensurdecedor das hlices em velocidade mxima.
     Voltou a passos rpidos at a sala de estar, para onde Simkins tinha acabado de conduzir Warren Bellamy depois de tir-lo do helicptero. O agente lhe fazia 
perguntas sobre o prdio que acreditavam ser o destino do seqestrador.
     A Casa do Templo.
     - As portas da frente so trancadas por dentro - dizia Bellamy, enrolado em um cobertor de emergncia e tremendo visivelmente depois de ter ficado um bom tempo 
esperando no frio, na Franklin Square. - O nico jeito de entrar  pelos fundos. A porta tem um teclado com um cdigo de acesso que s os irmos conhecem.
     - Qual  a senha? - perguntou Simkins, tomando notas.
     Bellamy se sentou, parecendo fraco demais para ficar em p. Batendo os dentes, recitou o nmero, acrescentando em seguida:
     - O endereo  Rua 16, 1.733, mas  melhor usarem o acesso  garagem e ao estacionamento, nos fundos do prdio.  meio escondido, mas...
     - Sei exatamente onde fica - disse Langdon. - Quando chegarmos l, eu mostro.
     Simkins balanou a cabea.
     - O senhor no vai com a gente, professor. Esta  uma operao...
     - No vou uma ova! - disparou Langdon. - Peter est l dentro! E aquele prdio  um labirinto! Sem algum para servir de guia, vocs vo levar 10 minutos s 
para encontrar o caminho at a Sala do Templo!
     - Ele tem razo - disse Bellamy. - Aquilo l  um labirinto. At existe um elevador, mas ele  velho, barulhento e d de cara para a Sala do Templo. Se quiserem 
entrar discretamente, tero que subir a p.
     - Vocs nunca vo se achar l dentro - alertou Langdon. - Se entrarem pelos fundos, tero que passar pelo Salo das Vestimentas, pelo Salo de Honra, pelo patamar 
intermedirio, pelo trio, pela Grande Escad...
     - Chega - disse Sato. - Langdon vem conosco.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 116
     
     A energia estava aumentando.
     Mal'akh podia senti-la pulsar dentro de si, subindo e descendo por seu corpo enquanto empurrava Peter Solomon em direo ao altar. Vou sair deste prdio infinitamente 
mais poderoso do que entrei. Tudo o que restava era localizar o ltimo ingrediente.
     - Verbum significatium - sussurrou para si mesmo. - Verbum omnificum.
     Mal'akh parou a cadeira de rodas junto ao altar, contornando-a em seguida e abrindo o zper da pesada bolsa de viagem no colo de Peter. Ps a mo l dentro 
e retirou a pirmide de pedra, suspendendo-a sob o luar bem diante dos olhos do outro, mostrando-lhe a grade de smbolos gravada na base.
     Durante todos esses anos - provocou ele -, voc nunca soube como a pirmide guardava seus segredos. - Mal'akh pousou o artefato no canto do altar e tornou a 
andar at a bolsa. - E este talism aqui - continuou, apanhando o cume de ouro - de fato gerou ordem a partir do caos, conforme o prometido. - Com cuidado, posicionou 
o cume de metal em cima da pirmide de pedra, depois recuou para que Peter pudesse ver. - Olhe: seu symbolon est completo.
     O rosto de Peter se contorceu, enquanto tentava em vo dizer alguma coisa.
     - Muito bem. Estou vendo que voc quer me contar alguma coisa. - Mal'akh arrancou a mordaa com violncia.
     Peter Solomon passou vrios segundos tossindo e arquejando antes de finalmente conseguir falar.
     - Katherine...
     - O tempo de Katherine  curto. Se quiser salvar sua irm, sugiro que faa exatamente o que eu disser. - Mal'akh desconfiava que ela provavelmente j estava 
morta ou, ento, muito perto disso.
     No fazia diferena. Katherine tinha sorte de ter vivido o suficiente para dizer adeus ao irmo.
     - Por favor - implorou Peter, com a voz entrecortada. - Mande uma ambulncia para ela...
     -  exatamente isso que vou fazer. Mas primeiro voc precisa me dizer como chegar  escadaria secreta.
     A expresso de Peter passou a ser de incredulidade.
     - O qu?
     - A escadaria. A lenda manica fala de uma escada que desce dezenas de metros at um lugar secreto onde a Palavra Perdida est enterrada.
     Peter agora parecia em pnico.
     - Voc conhece a lenda - incitou Mal'akh. - Uma escadaria secreta escondida debaixo de uma pedra. - Ele apontou para o altar central, um imenso bloco de mrmore 
com uma inscrio em hebraico em letras douradas: DEUS DISSE "HAJA LUZ", E HOUVE LUZ. -  bvio que este  o lugar certo. A entrada para a escadaria deve estar escondida 
em algum dos pisos abaixo de ns.
     - No existe escada secreta alguma neste prdio! - gritou Peter.
     Mal'akh sorriu com pacincia e gesticulou para cima.
     - Este edifcio tem a forma de uma pirmide. - Ele apontou para o teto quadrilateral que subia at a clarabia quadrada no centro.
     - Sim, a Casa do Templo  uma pirmide, mas o que ...
     - Peter, eu tenho a noite inteira. - Mal'akh alisou a tnica de seda branca por cima do corpo perfeito. - Mas Katherine no. Se quiser que ela viva, vai ter 
que me dizer como chegar a escadaria.
     - Eu j falei - declarou ele -, no existe escadaria secreta neste prdio.
     - No? - Mal'akh sacou calmamente a folha de papel na qual havia reorganizado a grade de smbolos da base da pirmide. - Esta  a mensagem final da Pirmide 
Manica. Seu amigo Robert Langdon me ajudou a decifr-la.
     Mal'akh ergueu o papel e segurou-o diante dos olhos de Peter. Ao ver aquilo, o Venervel Mestre respirou fundo. Os 64 smbolos haviam sido organizados em grupos 
com um significado claro; alm disso, uma imagem de verdade se materializara a partir do caos.
     A imagem de uma escadaria... debaixo de uma pirmide.
     
     Peter Solomon no conseguia acreditar na grade de smbolos  sua frente. A Pirmide Manica tinha guardado seu segredo por muitas geraes. Agora, de repente, 
estava sendo desvendada, e ele sentiu um agourento frio na barriga.
     O cdigo final da pirmide.
      primeira vista, o verdadeiro significado daqueles smbolos continuava sendo um mistrio para Peter; apesar disso, ele entendeu na mesma hora por que o homem 
tatuado acreditava no que acreditava.
     Ele acha que existe uma escadaria escondida debaixo da pirmide chamada Heredom.
     Est interpretando deforma errada esses smbolos.
     
     
     
     - Onde fica a escadaria? - exigiu saber o homem tatuado. - Me diga como encontr-la e salvarei Katherine.
     Quem me dera poder fazer isso, pensou Peter. Mas a escadaria no  real. Aquele era um mito puramente simblico.., pertencente s grandes alegorias da Maonaria. 
A Escada em Caracol, como era conhecida, aparecia nas tbuas de delinear - painis que simbolizam os graus manicos - do grau 2. Ela representa a ascenso intelectual 
do homem rumo  Verdade Divina. Assim como a Escada de Jac, a Escada em Caracol  um smbolo do caminho para o cu... da jornada do homem em direo a Deus... do 
vnculo entre os remos terreno e espiritual. Seus degraus ilustram as muitas virtudes da mente.
     Ele deveria saber isso, pensou Peter. Afinal, passou por todas as iniciaes.
     Todo maom iniciado aprende sobre a escadaria simblica pela qual poder ascender e que lhe possibilitar "participar dos mistrios da cincia humana". A Francomaonaria, 
assim como a cincia notica e os Antigos Mistrios, reverencia o potencial inexplorado da mente, e muitos de seus smbolos esto relacionados  fisiologia humana.
     A mente  como um cume de ouro que encima o corpo fsico. A pedra filosofal. Pela escadaria da coluna vertebral, a energia sobe e desce, circulando, unindo 
a mente celeste ao corpo fsico.
     Peter sabia que no era coincidncia o fato de a coluna vertebral ser composta exatamente por 33 vrtebras. Trinta e trs so os graus da Maonaria. A base 
da coluna, ou sacro, significa literalmente "osso sagrado". O corpo  de fato um templo. A cincia humana reverenciada pelos maons  a antiga compreenso de como 
usar esse templo para seu objetivo mais poderoso e mais nobre.
     Infelizmente, explicar a verdade quele homem no ajudaria Katherine em nada. Peter baixou os olhos para a grade de smbolos e deu um suspiro, derrotado.
     - Voc tem razo - mentiu ele. - Existe mesmo uma escadaria secreta debaixo deste prdio. Assim que voc mandar ajuda para Katherine, eu o levarei at l.
     O homem tatuado simplesmente o encarou.
     Solomon o encarou de volta com um olhar desafiador.
     - Ou voc salva minha irm e descobre a verdade... ou mata ns dois e continua ignorante para sempre!
     O homem baixou o papel com calma e sacudiu a cabea.
     - Estou decepcionado, Peter. Voc falhou no teste. Ainda acha que eu sou um idiota. Acredita mesmo que eu no entenda o que estou buscando? Que ainda no tenha 
compreendido meu verdadeiro potencial?
     Com essas palavras, o homem virou de costas e despiu a tnica. Quando a seda branca flutuou at o cho, Peter viu pela primeira vez a comprida tatuagem que 
percorria sua coluna vertebral.
     Meu Deus do cu...
     Partindo da tanga branca, uma elegante escadaria em espiral subia pelo meio das costas musculosas. Cada degrau estava posicionado sobre uma vrtebra. Sem palavras, 
Peter deixou seus olhos subirem pela escada at a base do crnio do homem.
     Tudo o que conseguia fazer era olhar.
     O homem tatuado ento inclinou a cabea raspada para trs, revelando o crculo de pele nua no cocuruto. A pele virgem estava margeada por uma serpente enrolada 
em crculo, devorando a si mesma.
     Unio.
     Ento, bem devagar, o homem ergueu a cabea e ficou de frente para Peter. A imensa fnix de duas cabeas em seu peito o fitava com olhos mortos.
     - Estou procurando a Palavra Perdida - disse o homem. - 
     Voc vai me ajudar... ou prefere morrer junto com sua irm?
     
     Voc sabe como encontr-la, pensou Mal'akh. Sabe de alguma coisa que no est me dizendo.
     Durante seu interrogatrio, Peter Solomon havia revelado coisas das quais provavelmente nem se lembrava. As vrias sesses dentro do tanque de privao sensorial 
o deixaram delirante e obediente. Por incrvel que parea, quando ele finalmente falou, tudo o que disse a Mal'akh se encaixava na lenda da Palavra Perdida.
     A Palavra Perdida no  uma metfora...  real. Est escrita em uma linguagem antiga... e passou muitos sculos escondida. Ela  capaz de conferir um poder 
inimaginvel a qualquer pessoa que compreenda seu verdadeiro significado. A Palavra permanece oculta at hoje... e a Pirmide Manica tem o poder de revel-la.
     - Peter - falou Mal'akh, encarando o prisioneiro nos olhos -, quando voc olhou para essa grade de smbolos... viu alguma coisa. Teve uma revelao. Ela significa 
alguma coisa para voc. Me diga o que .
     - No vou dizer nada antes de voc mandar ajuda para Katherine!
     Mal'akh sorriu para ele.
     - Acredite: a possibilidade de perder sua irm  a menor das suas preocupaes agora. - Sem dizer mais nada, ele se voltou para a bolsa de Langdon e comeou 
a retirar os objetos que havia recolhido no subsolo da sua casa. Ento os disps meticulosamente sobre o altar de sacrifcio.
     Um pano de seda dobrado. Branco como a neve.
     Um incensrio de prata. Mirra do Egito.
     Um frasco contendo o sangue de Peter. Misturado com cinzas.
     Uma pena de corvo. Seu estilo sagrado.
     A faca sacrificial. Forjada a partir do ferro de um meteorito encontrado no deserto de Cana.
     - Voc acha que tenho medo de morrer? - gritou Peter com a voz embargada de angstia. - Se Katherine se for, no me resta mais nada! Voc assassinou minha famlia 
inteira! Tirou tudo de mim!
     - Tudo no - retrucou Mal'akh. - Ainda no. - Ele enfiou a mo na bolsa e tirou de dentro o laptop que trouxera do escritrio. Ligou o computador e olhou para 
o prisioneiro. - Infelizmente, acho que voc ainda no entendeu a gravidade da sua situao.
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 117
     
     Langdon sentiu um frio na barriga quando o helicptero da CIA levantou vo do gramado, inclinou-se bruscamente e, em seguida, acelerou at uma velocidade que 
ele jamais imaginara possvel para uma aeronave daquelas. Para se recuperar, Katherine havia ficado na manso com Bellamy, enquanto um dos agentes da CIA terminava 
de revistar o local e aguardava uma equipe de apoio.
     Antes de Langdon ir embora, ela o havia beijado no rosto e sussurrado:
     - Tome cuidado, Robert.
     Agora, Langdon se segurava com todas as foras enquanto o helicptero militar finalmente se aprumava e seguia em disparada rumo  Casa do Templo.
     Sentada ao seu lado, Sato dava ordens ao piloto.
     - V para Dupont Circle! - berrou ela acima do barulho ensurdecedor. - Vamos pousar l!
     Espantado, Langdon se virou para ela.
     - Dupont Circle? Mas isso fica a quarteires da Casa do Templo! Ns podemos pousar no estacionamento do prdio!
     Sato fez que no com a cabea.
     - Precisamos entrar l discretamente. Se nosso alvo nos ouvir chegando...
     - No temos tempo para isso! - argumentou Langdon. - Esse maluco est prestes a assassinar Peter! O barulho do helicptero pode assust-lo e faz-lo parar!
     Sato o encarava com olhos frios como gelo.
     - Como j disse ao senhor, a segurana de Peter Solomon no  minha prioridade. Acho que deixei isso bem claro.
     Langdon no estava a fim de ouvir mais um sermo sobre segurana nacional.
     - Olhe aqui, eu sou a nica pessoa a bordo que sabe se movimentar dentro daquele prdio...
     - Cuidado, professor - avisou a diretora. - O senhor est aqui como membro da minha equipe, e exijo sua total cooperao. - Ela se deteve por alguns segundos 
antes de arrematar: - Talvez seja uma boa idia eu lhe explicar de uma vez a gravidade da crise que estamos vivendo esta noite.
     Sato esticou a mo, pegou uma lustrosa maleta de titnio debaixo do banco e a abriu, revelando um computador de aspecto particularmente complexo. Quando o ligou, 
a logo da CIA se materializou junto com uma janela de login.
     Enquanto entrava no sistema, ela perguntou:
     - Professor, o senhor se lembra da peruca loura que encontramos na casa desse homem?
     - Sim.
     - Bem, camuflada dentro da peruca havia uma minscula cmera de fibra tica... escondida no meio da franja.
     - Uma cmera escondida? No estou entendendo.
     Sato tinha o semblante fechado.
     - Mas vai entender. - Ela abriu um arquivo no laptop.
     
     UM INSTANTE...
     DECODIFICANDO ARQUIVO...
     
     Uma janela de vdeo apareceu, ocupando a tela inteira. Sato ergueu a maleta e a ps no colo de Langdon, proporcionando-lhe uma viso privilegiada.
     Uma imagem inusitada se materializou na tela.
     Langdon se retraiu, surpreso. Meu Deus, o que  isso?
     Nebuloso e escuro, o vdeo mostrava um homem vendado. Ele usava as roupas de um herege medieval sendo conduzido  forca - uma corda em volta do pescoo, a perna 
esquerda da cala arregaada at o joelho, a manga direita enrolada at o cotovelo e a camisa aberta para exibir o peito nu. Langdon encarou aquilo, incrdulo. J 
tinha lido o suficiente sobre rituais manicos para reconhecer exatamente o que via.
     Um iniciado maom... preparando-se para ingressar no grau 1.
     O homem era muito alto e musculoso, com a familiar peruca loura e a pele bem bronzeada. Langdon reconheceu no mesmo instante os traos do rosto. As tatuagens 
obviamente haviam sido disfaradas com uma maquiagem bronzeadora. Ele estava em p diante de um espelho de corpo inteiro, filmando o prprio reflexo por meio da 
cmera escondida na peruca.
     Mas... por qu?
     A tela ficou preta.
     Ento surgiu outra imagem. Um recinto pequeno, mal iluminado e retangular. Um vistoso piso de ladrilhos quadriculado em preto e branco. Um altar de madeira 
baixo, ladeado por trs colunas, acima das quais ardiam velas tremeluzentes.
     Langdon sentiu uma apreenso repentina.
     Ai, meu Deus.
     Sacolejando como em um vdeo caseiro amador, a cmera girou at o fundo da sala para revelar um grupo de homens observando o iniciado. Eles usavam vestes rituais 
manicas. Na penumbra, Langdon no conseguiu distinguir seus rostos, mas no teve dvidas quanto ao local onde aquela cerimnia estava ocorrendo.
     A disposio tradicional poderia situar aquela sala manica em qualquer lugar do mundo, mas o fronto triangular azul-claro acima da cadeira do mestre a identificava 
como a Loja de Potomac n 5 - a mais antiga da capital norte-americana, freqentada por George Washington e pelos pais fundadores
     maons que haviam assentado a pedra angular da Casa Branca e a do Capitlio.
     A loja continuava em atividade at hoje.
     Alm de supervisionar a Casa do Templo, Peter Solomon era mestre de sua loja local. E era em lojas como aquela que a jornada de um iniciado maom comeava... 
era l que ele ingressava nos primeiros trs graus da Francomaonaria.
     - Irmos - disse a conhecida voz de Peter -, em nome do Grande Arquiteto do Universo, declaro aberta esta loja para a prtica da Maonaria no grau 1!
     Um martelo bateu bem alto.
     Langdon seguiu assistindo, sem conseguir acreditar no que via, enquanto o vdeo apresentava uma sucesso de imagens editadas que mostravam Peter Solomon presidindo 
alguns dos momentos mais intensos do ritual.
     Apertando uma adaga reluzente contra o peito nu do iniciado... ameaando-o de empalamento caso viesse a "revelar de forma inadequada os Mistrios da Maonaria"... 
descrevendo o cho preto e branco como uma representao "dos vivos e dos mortos"... enumerando punies que incluam "ter a garganta cortada de orelha a orelha, 
a lngua arrancada pela raiz e o corpo enterrado nas speras areias do mar"...
     Langdon no descolava os olhos do vdeo. Estou mesmo testemunhando isso? Havia sculos que os ritos de iniciao manicos permaneciam velados. As nicas descries 
que vazaram tinham sido feitas por alguns irmos dissidentes. Langdon lera esses relatos,  claro, mas ver uma iniciao com os prprios olhos... era algo totalmente 
diferente.
     Sobretudo com as imagens editadas dessa forma. Langdon j podia perceber que aquele vdeo era uma propaganda injusta, que omitia todos os aspectos nobres da 
iniciao, enfatizando apenas os mais perturbadores. Se a gravao fosse divulgada, Langdon sabia que iria virar sensao na internet da noite para o dia. Os antimaons 
adeptos da teoria da conspirao cairiam em cima deste vdeo feito tubares. A instituio manica - e em particular Peter Solomon - se veria enredada numa tempestade 
de controvrsia e teria que fazer um esforo desesperado para conter os estragos... muito embora o ritual fosse incuo e puramente simblico.
     Como um toque sinistro, o vdeo inclua uma referncia bblica ao sacrifcio humano, "a submisso de Abrao ao Ser Supremo ao ofertar Isaac, seu primognito" 
Langdon pensou em Peter e desejou que o helicptero voasse mais depressa.
     Ento as imagens do vdeo mudaram.
     A mesma sala. Uma noite diferente. Um grupo mais numeroso de maons na platia. Peter Solomon observava sentado na cadeira de mestre. Aquele era o grau 2. O 
ritual era mais intenso. O iniciado se ajoelhava no altar... jurava "ocultar para sempre os enigmas existentes na Francomaonaria".. aceitava a punio de "ter o 
peito rasgado e o corao pulsante lanado  terra como alimento para as feras famintas"...
     O corao do prprio Langdon batia com violncia quando as imagens mudaram novamente. Outra noite. Um grupo bem maior. Uma tbua de delinear em forma de caixo 
desenhada no cho.
     O grau 3.
     Aquele era o ritual da morte - o mais rigoroso de todos os graus -, o momento em que o iniciado era forado a "enfrentar o desafio final da extino de si mesmo" 
Era um interrogatrio terrvel e, embora Langdon conhecesse os relatos acadmicos da cerimnia, no estava de forma alguma
     preparado para o que via agora.
     O assassinato.
     Em cortes violentos e rpidos, o vdeo mostrava uma viso aterrorizante do brutal assassinato do iniciado sob a perspectiva da vtima. Havia golpes simulado 
na cabea, inclusive com um malhete manico. Durante toda a seqncia um dicono contava em tom de lamento a histria do "filho da viva" - Hiram Abi -, principal 
arquiteto do Templo do Rei Salomo, que preferiu morrer a revelar o saber secreto que detinha.
     O ataque era encenado,  claro, mas seu efeito em vdeo era de gelar o sangue. Depois do golpe de misericrdia, o iniciado - agora "com seu antigo eu morto" 
- era deitado em um caixo simblico e, ali, tinha os olhos fechados e os braos cruzados como os de um cadver. Os irmos maons ento se levantavam, circundando 
com pesar o corpo enquanto um rgo tocava uma marcha fnebre.
     A cena macabra era perturbadora.
     E s piorava.
     Quando os homens se reuniram em volta do irmo morto, a cmera escondida mostrou claramente seus rostos. Langdon percebeu ento que Solomon no era a nica 
figura ilustre ali. Um dos homens que olhava para o iniciado deitado em seu caixo aparecia na TV quase diariamente.
     Um importante senador dos Estados Unidos.
     Meu Deus...
     A cena mudou outra vez. Ao ar livre agora...  noite... a mesma cmera nervosa... o homem percorria a rua de uma cidade... fios louros esvoaavam diante da 
lente... ele virava uma esquina... a cmera baixava para mostrar alguma coisa na sua mo... uma nota de um dlar... um dose do Grande Selo... o olho que tudo v... 
a Pirmide Inacabada... e ento, abruptamente, a imagem se afastava para revelar um contorno parecido ao longe... uma imensa construo em forma de pirmide... cujas 
laterais inclinadas se erguiam at um topo decepado.
     A Casa do Templo.
     Um medo profundo brotou dentro de Langdon.
     O vdeo prosseguia... o homem agora corria at o prdio... subindo a escadaria de vrios nveis.., em direo s gigantescas portas de bronze... entre as duas 
esfinges guardis com 17 toneladas.
     Um nefito adentrando a pirmide da iniciao.
     Ento tudo escureceu.
     Um rgo poderoso tocava ao longe... e uma nova imagem se materializou.
     A Sala do Templo.
     Langdon engoliu em seco.
     A atmosfera naquele ambiente sombrio e grandioso era de grande expectativa. Sob a clarabia, o altar de mrmore preto cintilava ao luar. Ao seu redor, sentado 
em cadeiras estofadas com couro de porco trabalhado  mo, um sbrio conselho de renomados maons de grau 33 aguardava para servir de testemunha. O vdeo ento percorreu 
seus rostos com uma preciso lenta e deliberada.
     Langdon encarou a cena, horrorizado.
     Embora tivesse sido pego de surpresa, o que via fazia todo o sentido. Uma reunio dos maons mais condecorados e eminentes na mais poderosa cidade do mundo 
obviamente incluiria muitas pessoas influentes e conhecidas. De fato, sentados em volta do altar, adornados com suas compridas luvas de seda, seus aventais manicos 
e suas jias reluzentes, estavam alguns dos homens mais poderosos da nao.
     Dois juzes da Suprema Corte...
     O secretrio de Defesa...
     O presidente da Cmara...
     Langdon sentiu um mal-estar enquanto o vdeo continuava a percorrer os rostos dos presentes.
     Trs importantes senadores... incluindo o lder da maioria no Senado...
     O secretrio de Segurana Nacional...
     E... o diretor da CIA...
     Tudo o que Langdon queria era desviar os olhos, mas no conseguiu. A cena, alarmante at mesmo para ele, o deixara totalmente hipnotizado. Em um segundo, ele 
havia compreendido por que Sato estava to preocupada e aflita.
     Ento, na tela, a imagem deu lugar a uma cena chocante.
     Um crnio humano... cheio de um lquido vermelho-escuro. A famosa caput mortuum estava sendo oferecida ao iniciado pelas mos esguias de Peter Solomon, cujo 
anel manico de ouro cintilava  luz das velas. O lquido vermelho era vinho... mas brilhava feito sangue. O efeito visual era assustador.
     A Quinta Libao, percebeu Langdon, que j tinha lido relatos em primeira mo daquele sacramento no livro Cartas sobre a Instituio Manica, de John Quincy 
Adams. Mesmo assim, ver aquilo acontecendo... e sendo calmamente presenciado pelos homens mais poderosos dos Estados Unidos... era estarrecedor. Aquela era uma das 
imagens mais chocantes que Langdon havia testemunhado na vida.
     O iniciado tomou o crnio nas mos... e seu rosto se refletiu na superfcie do vinho. "Que este vinho que agora bebo se transforme em veneno mortal para mim", 
declarou ele, "caso algum dia eu descumpra meu juramento deforma consciente ou voluntria."
     Evidentemente, a inteno daquele iniciado era violar seu juramento de um modo inconcebvel.
     Langdon mal conseguia pensar no que poderia acontecer caso aquele vdeo viesse a pblico. Ningum entenderia. O governo enfrentaria uma grave turbulncia. O 
noticirio seria tomado por grupos antimanicos, fundamentalistas e adeptos da teoria da conspirao alardeando dio e medo, dando incio a uma nova caa s bruxas 
puritana.
     A verdade ser distorcida, Langdon sabia. Como sempre acontece com os maons.
     A realidade  que a nfase da irmandade na morte representa, no fundo, uma intensa celebrao da vida. O objetivo do ritual manico  despertar o homem adormecido 
dentro de cada um, tir-lo de seu escuro caixo de ignorncia, al-lo  luz e dar-lhe olhos para ver. Somente por meio da morte o homem pode compreender totalmente 
sua experincia de vida. Apenas depois de entender que seus dias na Terra so finitos ele pode compreender a importncia de viv-los com honra, integridade e altrusmo.
     Essas iniciaes causam desconcerto porque pretendem ser transformadoras. Os votos manicos so implacveis porque visam lembrar que a honra de um homem e 
sua "palavra" so tudo o que ele pode levar deste mundo. E seus ensinamentos so misteriosos porque tm como objetivo ser universais... transferidos por meio de 
uma linguagem comum de smbolos e metforas que transcendem religies, culturas e raas... criando uma "conscincia mundial" unificada de amor fraterno.
     Durante um breve instante, Langdon sentiu uma centelha de esperana. Tentou reconfortar a si mesmo dizendo que, se aquele vdeo de fato vazasse, o pblico provaria 
ser tolerante e ter a mente aberta. Se analisassem melhor a situao, as pessoas perceberiam que todos os rituais espirituais contm aspectos que podem parecer macabros 
quando retirados do contexto - reconstituies da crucificao, ritos judaicos de circunciso, batismo dos mortos pelos mrmons, exorcismos catlicos, o niqab islmico, 
as curas xamansticas pelo transe, a cerimnia judaica de Kaparot e at mesmo a comunho do corpo e do sangue de Cristo.
     Eu estou sonhando, sabia Langdon. Este vdeo vai gerar o caos. Ele podia imaginar o que aconteceria caso os lderes mais importantes da Rssia ou do mundo islmico 
fossem vistos em um vdeo apertando facas contra peitos nus, fazendo juramentos brutais, simulando assassinatos, deitando-se em caixes simblicos e bebendo vinho 
em um crnio humano. A indignao global seria instantnea e arrasadora.
     Que Deus nos ajude...
     Na tela, o iniciado levou o crnio  boca. Ele o inclinou... e sorveu todo o vinho cor de sangue... selando seu juramento. Ento baixou o crnio e olhou para 
o grupo  sua volta. Os homens mais poderosos dos Estados Unidos, aqueles nos quais o pas mais confiava, menearam a cabea em um gesto de aprovao. "Bem-vindo, 
irmo", disse Peter Solomon.
     Enquanto a imagem escurecia, Langdon percebeu que tinha prendido a respirao.
     Sem dizer nada, Sato fechou a maleta e tirou-a do colo de Langdon. O professor se virou para ela tentando falar, mas no encontrou palavras. Pouco importava. 
Estava na cara que ele havia compreendido. Sato tinha razo. A crise daquela noite era de segurana nacional... e alcanara propores inimaginveis.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 118
     
     Vestido com sua tanga, Mal'akh andava de um lado para outro em frente  cadeira de rodas de Peter Solomon.
     - Peter - sussurrou ele, saboreando cada instante de horror do prisioneiro -, voc se esqueceu de que tem uma segunda famlia.., seus irmos maons. E vou destru-los 
tambm... a menos que voc me ajude.
      luz brilhante do computador em seu colo, Solomon parecia quase catatnico depois de assistir ao vdeo.
     - Por favor - gaguejou ele por fim, erguendo os olhos. - Se isso vier a pblico...
     - Se? - Mal'akh riu, gesticulando para o pequeno modem de celular plugado na lateral do laptop. - Estou conectado ao mundo.
     - Voc no iria...
     Eu vou, pensou Mal'akh, se deliciando com o pavor de Solomon.
     - Voc tem o poder de me deter - disse ele. - E de salvar sua irm. Mas precisa revelar o que eu quero saber. A Palavra Perdida est escondida em algum lugar, 
Peter, e sei que esta grade indica exatamente onde encontr-la.
     Peter tornou a olhar para a grade de smbolos, mas sua expresso era vazia.
     - Talvez isto aqui ajude voc a se inspirar. - Mal'akh estendeu a mo e pressionou algumas teclas do laptop. Um programa de e-mail carregou na tela, e Peter 
se retesou. O monitor agora exibia uma mensagem eletrnica que Mal'akh tinha deixado na caixa de sada: um arquivo de vdeo endereado a uma longa lista de importantes 
veculos de mdia.
     Mal'akh sorriu.
     - Acho que est na hora de compartilhar, no?
     - No faa isso!
     Mal'akh estendeu a mo e clicou no boto de enviar do programa. Peter se debateu contra as amarras que o prendiam, tentando sem sucesso derrubar o laptop no 
cho.
     - Relaxe, Peter - sussurrou Mal'akh. - O arquivo  muito pesado. Vai levar alguns minutos para ser enviado. - Ele apontou para a barra de progresso:
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 2%
     
     - Se voc me disser o que eu quero saber, interrompo o envio do e-mail e ningum jamais ver isso.
     Peter tinha o rosto lvido enquanto observava a barra de progresso avanar lentamente.
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 4%
     
     Mal'akh ento ergueu o computador do colo de Peter e o ps sobre uma das cadeiras estofadas
     com couro de porco, virando o monitor para que o prisioneiro pudesse acompanhar o progresso do envio. Em seguida, voltou para junto dele e ps em seu colo a 
pgina cheia de smbolos.
     - A lenda diz que a Pirmide Manica ir desvendar a Palavra Perdida. Este  o cdigo final da pirmide. Acho que voc sabe decifr-lo.
     Mal'akh relanceou os olhos para o laptop.
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 8%
     
     Mal'akh tornou a olhar para Peter, que o encarava com os olhos cinzentos inflamados de dio.
     Isso, me odeie, pensou Mal'akh. Quanto mais intensa a emoo, mais potente a energia liberada quando o ritual se completar.
     
     Em Langley, Nola Kaye apertou o fone junto ao ouvido, mal conseguindo escutar Sato tamanho o barulho do helicptero.
     - Eles disseram que  impossvel impedir a transferncia do arquivo! - gritou Nola. - Desabilitar os provedores de internet da regio levaria pelo menos uma 
hora e, mesmo assim, se esse homem tiver acesso a um provedor sem fio, desativar a rede fixa no vai impedi-lo de enviar o vdeo.
     Hoje em dia, deter o fluxo de informaes digitais havia se tornado praticamente impossvel. O nmero de rotas de acesso  rede era grande demais. Contando 
as linhas fixas, os hot spots sem fio, os modems de celular, os telefones por satlite, os supertelefones e os palmtops com recurso de e-mail, a nica forma de conter 
um potencial vazamento de dados era destruir a mquina de origem.
     - Eu baixei as especificaes do UH-60 em que vocs esto voando - disse Nola -, e parece que a aeronave est equipada com PEM.
     As armas de pulso eletromagntico, ou PEM, tinham se tornado comuns nas agncias de segurana pblica, que as usavam principalmente em perseguies, para deter 
automveis a distncia. Graas ao disparo de um pulso de radiao eletromagntica de alta concentrao, uma arma de PEM era capaz de fritar de maneira eficaz os 
componentes eletrnicos de qualquer aparelho em sua mira - carros, telefones celulares, computadores. Segundo a folha de especificaes de Nola, o UH-60 tinha uma 
magntron de 6 gigahertz com mira a laser montada no chassi, com um difusor de 50 decibis, capaz de emitir um pulso de 10 gigawatts. Se disparado bem em cima de 
um laptop, o pulso fritaria a placa-me do sistema e apagaria na mesma hora o disco rgido.
     - Um PEM no vai adiantar nada - gritou Sato de volta. - O alvo est dentro de um edifcio de pedra. Sem linha de viso e com forte isolamento eletromagntico. 
Voc j tem algum indcio de que o vdeo foi enviado?
     Nola olhou para um segundo monitor, que fazia uma busca contnua por notcias de ltima hora sobre os maons.
     - Ainda no. Mas, se o arquivo se tornar pblico, vamos saber em segundos.
     - Mantenha-me informada. - Sato desligou.
     
     Langdon prendeu a respirao quando o helicptero comeou a despencar do cu em direo a Dupont Circle. Um punhado de pedestres se afastou enquanto a aeronave 
descia em uma clareira nas rvores, aterrissando com fora no gramado, ao sul do famoso chafariz de dois nveis projetado pelos mesmos dois homens que criaram o 
Lincoln Memorial.
     Trinta segundos depois, Langdon estava sentado no banco do carona de um utilitrio esportivo Lexus confiscado a um civil, voando pela New Hampshire Avenue em 
direo  Casa do Templo.
     
     Peter Solomon tentava desesperadamente decidir o que fazer. Sua mente estava tomada por imagens de Katherine sangrando no subsolo da manso... e por cenas do 
vdeo que acabara de ver. Virou a cabea devagar em direo ao laptop sobre a cadeira, a vrios metros de distncia. Quase um tero da barra de progresso j estava 
preenchido.
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 29%
     
     O homem tatuado descrevia crculos vagarosos em volta do altar quadrado, balanando um incensrio aceso e entoando um cntico. Espessas nuvens de fumaa branca 
subiam em espiral em direo  clarabia. O homem tinha os olhos arregalados e parecia estar num transe demonaco. Peter voltou sua ateno para a faca antiga sobre 
o pano de seda branca estendido no altar.
     Peter Solomon no tinha a menor dvida de que iria morrer ali, naquela noite. A questo era como morrer. Ser que conseguiria encontrar uma forma de salvar 
sua irm e sua fraternidade.., ou sua morte seria totalmente em vo?
     Ele baixou os olhos para a grade de smbolos. Na primeira vez em que a vira, o choque do momento o havia deixado cego... impedindo que sua viso penetrasse 
o vu do caos... para vislumbrar a espantosa verdade. Agora, porm, o verdadeiro significado daqueles smbolos lhe parecia cristalino. Ele passara a ver a grade 
sob uma luz totalmente diferente.
     Peter Solomon sabia exatamente o que precisava fazer.
     Ele respirou fundo e ergueu os olhos para a lua atravs da clarabia do teto. Ento comeou a falar.
     
     Todas as grandes verdades so simples.
     Mal'akh havia aprendido isso muito tempo atrs.
     A soluo que Peter Solomon agora explicava era to graciosa, to pura, que Mal'akh tinha certeza de que s poderia ser verdadeira. Por incrvel que parecesse, 
a resposta para o cdigo final da pirmide era muito mais simples do que ele jamais havia imaginado.
     A Palavra Perdida estava bem diante dos meus olhos.
     Em um instante, um raio de luz brilhante varou a nvoa da histria e do mito em torno da Palavra Perdida. Como prometido, ela estava de fato escrita em uma 
linguagem antiga e tinha poderes msticos em todas as filosofias, religies e cincias conhecidas pelo homem. Da Francomaonaria  Cabala, passando por alquimia, 
astrologia, cristianismo, budismo, rosa-cruzismo, astronomia, fsica, notica...
     Em p naquela cmara de iniciao no alto da grande pirmide de Heredom, Mal'akh encarou o tesouro que passara todos aqueles anos buscando e soube que sua preparao 
no poderia ter sido mais perfeita.
     Logo estarei completo.
     A Palavra Perdida foi encontrada.
     
     Em Kalorama Heights, um solitrio agente da CIA estava parado em meio a um mar de lixo que havia despejado das latas encontradas na garagem.
     - Sra. Kaye? - falou ele ao telefone com a analista de Sato. - tima idia vasculhar este lixo. Acho que acabei de encontrar uma coisa.
     
     Dentro da casa, Katherine Solomon se sentia mais forte a cada segundo que passava. A soluo de Ringer com lactato havia conseguido aumentar sua presso sangunea 
e aliviar a dor de cabea que a atormentava. Ela agora descansava sentada na sala de jantar, com instrues explcitas para ficar quieta. Tinha os nervos em frangalhos 
e estava cada vez mais ansiosa por notcias do irmo.
     Onde est todo mundo? A equipe de criminalstica da CIA ainda no tinha chegado, e o agente que ficara com eles estava terminando de revistar a casa. Bellamy 
antes estava sentado junto dela na sala de jantar, enrolado em um cobertor, mas depois tambm sara em busca de qualquer informao que pudesse ajudar a salvar Peter.
     Incapaz de ficar sem fazer nada, Katherine se levantou, cambaleou um pouco e foi bem devagar at a sala de estar. Encontrou Bellamy no escritrio. O Arquiteto 
estava parado diante de uma gaveta aberta, de costas para ela, aparentemente entretido demais com o que havia encontrado para ouvi-la entrar.
     Ela chegou por trs dele.
     - Warren?
     O homem de idade se sobressaltou e girou o corpo, fechando rapidamente a gaveta com o quadril. Seu rosto estava repleto de choque e tristeza e suas bochechas, 
riscadas de lgrimas.
     - O que houve? - Ela relanceou os olhos para a gaveta. - O que foi?
     Bellamy parecia no conseguir falar. Tinha o aspecto de um homem que acabara de ver algo que desejava profundamente no ter visto.
     - O que tem dentro dessa gaveta? - perguntou ela.
     Os olhos marejados de Bellamy fitaram os dela por um longo e pesaroso instante. Por fim, ele falou.
     - Voc e eu ficamos nos perguntando o porqu disso tudo... Por que esse homem odeia tanto sua famlia?
     As sobrancelhas de Katherine se franziram.
     - Sim, e da?
     - Bom... - A voz de Bellamy falhou. - Acabei de encontrar a resposta.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 119
     
     Na cmara do ltimo andar da Casa do Templo, aquele que chamava a si mesmo de Mal'akh estava diante do grande altar, massageando com delicadeza a pele virgem 
no topo de sua cabea. Verbum significatium, entoava  guisa de preparao. Verbum omnificum. O ltimo ingrediente finalmente fora encontrado.
     Os tesouros mais preciosos muitas vezes so os mais simples.
     Acima do altar, volutas de fumaa aromtica rodopiavam, emanando do incensrio. As nuvens subiam pelo facho de luar, abrindo um canal em direo ao cu que 
uma alma libertada poderia percorrer livremente.
     A hora havia chegado.
     Mal'akh pegou o frasco cheio do sangue escurecido de Peter e o desarrolhou. Sob o olhar atento do prisioneiro, ele mergulhou a ponta da pena de corvo no lquido 
escarlate, erguendo-a at o crculo de pele no alto da cabea. Ento se deteve por um instante... pensando em quanto tinha esperado por aquela noite. Finalmente 
sua grande transformao se aproximava. Quando a Palavra Perdida for escrita na mente do homem, ele estar pronto para receber um poder inimaginvel. Era essa a 
antiga promessa da apoteose. At o momento, a humanidade fora incapaz de concretizar essa promessa - e Mal'akh tinha feito todo o possvel para que isso no se modificasse.
     Com a mo firme, ele encostou a ponta da pena na pele. No precisava de espelho nem de ajuda, apenas do prprio tato e da imaginao. Lenta e meticulosamente, 
comeou a inscrever a Palavra Perdida dentro do ouroboros circular em seu couro cabeludo.
     Peter Solomon assistia quilo com uma expresso de horror.
     Quando Mal'akh terminou, fechou os olhos, pousou a pena e soltou todo o ar dos pulmes. Pela primeira vez em sua vida, teve uma sensao que nunca havia experimentado 
antes.
     Agora estou completo.
     E sou um.
     Mal'akh havia passado anos aprimorando o artefato que era seu corpo. E, agora que se aproximava o momento de sua derradeira transformao, podia sentir cada 
linha gravada em sua carne. Eu sou uma verdadeira obra-prima. Perfeita e completa.
     - Eu lhe dei o que voc pediu - disse Peter, interrompendo o enlevo de seu captor. - Mande ajuda para Katherine. E cancele o envio do arquivo.
     Mal'akh abriu os olhos e sorriu.
     Voc e eu ainda no terminamos. - Ele se virou para o altar e pegou a faca sacrificial, correndo o dedo pelo fio da lmina de ferro lustrosa. - Esta faca antiga 
foi encomendada por Deus - disse ele - para ser usada em um sacrifcio humano. Voc a reconhece, no ?
     Os olhos cinzentos de Solomon pareciam de pedra.
     - Ela  nica, e eu conheo a lenda.
     - Lenda? O relato est nas Escrituras Sagradas. Voc no acredita que seja verdade?
     Peter se limitou a encar-lo.
     Mal'akh tinha gastado uma fortuna para localizar e obter aquele artefato. Conhecida como faca da Akedah, a arma havia sido forjada 3 mil anos atrs com pedaos 
de um meteorito de ferro que cara na Terra. Ferro do cu, como a chamavam os primeiros msticos. Acreditava-se que fosse a mesma faca usada por Abrao na Akedah, 
o quase sacrifcio de seu filho Isaac no monte Mori descrito no Gnesis. A espantosa histria daquela faca inclua a passagem pelas mos de papas, msticos nazistas, 
alquimistas europeus e colecionadores particulares.
     Eles a protegeram e admiraram, pensou Mal'akh, mas ningum se atreveu a liberar seu poder
     usando-a para seu verdadeiro propsito. Naquela noite, a faca da Akedah cumpriria seu destino.
     No ritual manico, a Akedah sempre fora sagrada. No primeiro de todos os graus, os maons celebravam "o mais augusto presente j oferecido a Deus... a submisso 
de Abrao ao Ser Supremo ao ofertar Isaac, seu primognito..."
     Eufrico ao sentir o peso da faca em sua mo, Mal'akh se agachou e usou a lmina recm-afiada para cortar as cordas que prendiam Peter  cadeira de rodas. As 
amarras caram no cho.
     Peter Solomon se encolheu de dor ao tentar mover os membros dormentes.
     - Por que voc est fazendo isso comigo? Aonde pensa que vai chegar?
     - Voc, mais do que ningum, deveria entender - respondeu Mal'akh. - Afinal, estuda os costumes antigos. Sabe que o poder dos mistrios est no sacrifcio... 
na libertao da alma humana do invlucro do corpo.  assim desde o incio.
     - Voc no sabe nada sobre sacrifcio - disse Peter com a voz cheia de dor e repugnncia.
     Excelente, pensou Mal'akh. Alimente seu dio. Ele s vai tornar tudo mais fcil.
     A barriga vazia de Mal'akh roncou enquanto ele andava de um lado para outro.
     - O derramamento de sangue humano  extremamente poderoso. Todos compreenderam isso, dos antigos egpcios aos druidas celtas; dos chineses aos astecas. Existe 
magia no sacrifcio, mas o homem moderno se tornou fraco e temeroso demais para fazer oferendas de verdade. Sua fragilidade o impede de entregar a vida em troca 
da transformao espiritual. Mas os textos antigos so claros. Somente ofertando aquilo que  mais sagrado pode o homem ter acesso ao maior de todos os poderes.
     - Voc considera a mim uma oferenda sagrada?
     Mal'akh deu uma risada sonora.
     - Voc realmente ainda no entendeu, no ?
     Peter lanou-lhe um olhar esquisito.
     - Sabe por que eu tenho um tanque de privao sensorial em casa? - Mal'akh ps as mos nos quadris e flexionou os msculos de seu corpo adornado com esmero, 
coberto apenas por uma tanga. - Eu venho treinando... me preparando...  espera do momento em que serei apenas mente... depois de me libertar desta concha mortal... 
e ter ofertado este lindo corpo aos deuses em sacrifcio. Quem  precioso sou eu! Sou eu o cordeiro imaculado!
     A boca de Peter se escancarou, mas nenhuma palavra saiu.
     - Sim, Peter, um homem deve ofertar aos deuses aquilo que lhe  mais caro. A sua mais pura pomba branca... sua oferenda mais preciosa e digna. Voc no  precioso 
para mim. Voc no  uma oferenda digna. - Mal'akh o fuzilou com o olhar. - Ser que no entende? Voc no  o sacrifcio, Peter... o sacrifcio sou eu. A minha 
carne  a oferenda. Eu sou o presente. Olhe para mim. Eu me preparei e me tornei digno para minha derradeira jornada. O presente sou eu!
     Peter continuou mudo.
     - O segredo  saber como morrer - prosseguiu Mal'akh. - Os maons entendem isso. - Ele apontou para o altar. -Vocs reverenciam os antigos princpios, mas, 
apesar disso, so covardes. Entendem o poder do sacrifcio, mas mantm uma distncia segura da morte, encenando seus assassinatos de mentira e seus rituais sem sangue. 
Hoje  noite, este altar simblico ir testemunhar seu verdadeiro poder... e seu verdadeiro objetivo.
     Mal'akh estendeu o brao e agarrou a mo esquerda de Peter Solomon, pressionando em sua palma o cabo da faca da Akedah. A mo esquerda serve s trevas. Isso 
tambm havia sido planejado. Peter no teria escolha. Mal'akh no conseguia imaginar sacrifcio mais potente e mais simblico do que um feito naquele altar, por 
aquele homem, com aquela faca cravada no corao de uma oferenda cuja carne mortal estava envolta, como um presente, numa mortalha de smbolos msticos.
     Ao entregar a si mesmo, Mal'akh garantiria seu lugar na hierarquia dos demnios. O poder residia nas trevas e no sangue. Os antigos sabiam disso: os adeptos 
escolhiam seu lado cada qual de acordo com sua natureza. Mal'akh tinha feito uma escolha sbia. O caos era a lei natural do Universo. A indiferena era o que impulsionava 
a entropia. A apatia do homem era o solo frtil no qual os esprito obscuros plantavam suas sementes.
     Eu os servi, e eles me recebero como um deus.
     Peter no se mexeu. Simplesmente baixou os olhos para a faca ancestral em sua mo.
     - Isso  uma ordem - provocou Mal'akh. - Eu sou um sacrifcio voluntrio. Seu derradeiro papel foi escrito. Voc vai me transformar. Vai me libertar do meu 
corpo. Ou ento vai perder sua irm e sua fraternidade. E ficar realmente sozinho. - Ele fez uma pausa, sorrindo para o prisioneiro. -
     Considere isso sua punio final.
     Os olhos de Peter se ergueram lentamente para fitar os de Mal'akh.
     - Matar voc? Uma punio? Voc acha que vou hesitar? Voc assassinou meu filho, minha me, minha famlia inteira.
     - No! - explodiu Mal'akh com uma fora que surpreendeu at a ele prprio - Voc est errado! Eu no assassinei sua famlia! Quem fez isso foi voc! Foi voc 
quem tomou a deciso de deixar Zachary na priso! E, a partir da, a roda comeou a girar! Quem matou sua famlia foi voc, Peter, no eu!
     Os ns dos dedos de Peter embranqueceram enquanto ele apertava a faca com raiva.
     - Voc no sabe nada sobre os meus motivos para deixar Zachary na priso.
     - Eu sei tudo! - disparou Mal'akh em resposta. - Eu estava l. Voc alegou que estava tentando ajudar seu filho. Foi por isso que ofereceu a ele a escolha entre 
riqueza e saber? Seu objetivo tambm era ajud-lo quando lhe deu o ultimato para se tornar maom? Que tipo de pai d ao filho a escolha entre "riqueza e saber" e 
espera que ele tenha condies de lidar com isso? Que tipo de pai deixa o prprio filho na priso em vez de mand-lo para casa em segurana? Mal'akh ento ficou 
bem na frente de Peter e se agachou, aproximando o rosto tatuado at poucos centmetros do seu. - E o mais importante... que tipo de pai  capaz de olhar o filho 
nos olhos... mesmo depois de todos esses anos... e nem sequer o reconhecer?
     As palavras de Mal'akh ecoaram por vrios segundos na cmara de pedra.
     Ento, silncio.
     Naquela quietude repentina, era como se Peter Solomon tivesse sido sacudido do transe em que se encontrava. Sua expresso era de total incredulidade.
     Sim, pai. Sou eu. Mal'akh tinha esperado anos por aquele momento... para se vingar do homem que o abandonara... para encarar aqueles olhos cinzentos e dizer 
a verdade que passara tantos anos enterrada. Essa hora havia chegado, e ele falou devagar, desejando ver todo o peso de suas palavras esmagar aos poucos a alma de 
Peter Solomon.
     - Voc deveria estar feliz, pai. Seu filho prdigo voltou.
     O rosto de Peter estava plido como a morte.
     Mal'akh saboreava cada instante daquilo.
     - Meu prprio pai decidiu me deixar na priso... e, naquele instante, jurei que ele havia me rejeitado pela ltima vez. Eu no era mais seu filho. Zachary Solomon 
deixou de existir.
     Duas lgrimas brotaram de repente dos olhos de seu pai, e Mal'akh pensou que eram a coisa mais linda que ele j vira.
     Peter tentou conter as lgrimas, fitando o rosto de Mal'akh como se o visse pela primeira vez.
     - Tudo o que o diretor da priso queria era dinheiro - disse Mal'akh -, mas voc se recusou. Nunca lhe ocorreu que o meu dinheiro era to verde quanto o seu. 
Para o diretor, no importava quem estivesse pagando, desde que ele recebesse. Quando ofereci uma soma generosa, ele escolheu um prisioneiro doente mais ou menos 
do meu tamanho, vestiu nele as minhas roupas e o espancou at deix-lo irreconhecvel. As fotos que voc viu... e o caixo lacrado que enterrou... no eram meus. 
Pertenciam a um desconhecido.
     O rosto molhado de lgrimas de Peter tornou a se contorcer de angstia e descrena.
     - Ah, meu Deus... Zachary.
     - No mais. Quando Zachary saiu da priso, ele estava transformado.
     O fsico de adolescente e o rosto infantil mudaram radicalmente quando Zachary inundou seu corpo jovem com hormnios de crescimento experimentais e anabolizantes. 
At mesmo suas cordas vocais foram deformadas, transformando a voz de menino em um sussurro permanente.
     Zachary se transformou em Andros.
     Andros se transformou em Mal'akh.
     E hoje  noite... Mal'akh se transformar em sua encarnao suprema.
     
     Naquele mesmo instante, em Kalorama Heights, Katherine Solomon estava parada diante da gaveta aberta olhando para velhos recortes de jornal e fotografias que 
compunham o que s podia ser descrito como a coleo de um fetichista.
     - No estou entendendo - disse ela, virando-se para Bellamy. -  bvio que esse maluco estava obcecado pela minha famlia, mas...
     - Continue olhando... - insistiu Bellamy, sentando-se com um ar profundamente abalado.
     Katherine seguiu examinando os recortes de jornal, todos relacionados  famlia Solomon - os sucessos de Peter, a pesquisa de Katherine, o terrvel assassinato 
de sua me, Isabel, e todo o alarde em torno do uso de drogas, da priso e do assassinato brutal de Zachary Solomon em um presdio na
     Turquia.
     A obsesso daquele homem pelos Solomon ia alm do fanatismo, mas Katherine ainda no tinha visto nada que sugerisse por qu.
     Foi ento que se deparou com as fotografias. A primeira delas mostrava Zachary com gua azul-turquesa at os joelhos, de p em uma praia salpicada de casas 
caiadas de branco. Isso  a Grcia? Ela imaginou que a foto s poderia ter sido tirada durante a louca temporada que o sobrinho passara na Europa e que culminara 
em sua priso. No entanto, estranhamente, Zach tinha um aspecto mais saudvel do que nas fotos dos paparazzi, que mostravam um jovem emaciado farreando com outros 
drogados. Parecia mais em forma, mais forte, mais maduro. Katherine no se lembrava de algum dia t-lo visto to saudvel.
     Intrigada, verificou a data impressa na foto.
     Mas...  impossvel.
     A data era quase um ano depois de Zachary ter morrido na priso.
     De repente, Katherine comeou a percorrer desesperada a pilha de fotos. Todas mostravam Zachary Solomon... envelhecendo pouco a pouco. A coleo parecia uma 
espcie de autobiografia pictogrfica, registrando uma lenta transformao.  medida que as imagens avanavam, Katherine notava uma drstica mudana. Via, horrorizada, 
o corpo de Zachary sofrer uma metamorfose, os msculos ficando mais salientes e os traos do rosto se deformando graas ao evidente uso pesado de anabolizantes. 
Sua estrutura pareceu dobrar de tamanho e uma ferocidade assustadora surgiu em seu olhar.
     No consigo reconhecer esse homem!
     Ele no se parecia em nada com as lembranas que Katherine tinha do jovem sobrinho.
     Quando chegou a uma fotografia dele de cabea raspada, sentiu os joelhos fraquejarem. Ento viu uma foto de seu corpo nu... adornado com os primeiros sinais 
de tatuagens.
     Seu corao quase parou.
     - Ah, meu Deus...
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 120
     
     - Dobre  direita! - gritou Langdon do banco do carona do Lexus confiscado pela CIA.
     Simkins fez uma curva fechada, pegando a Rua S e seguindo em disparada por um bairro residencial margeado de rvores. Quando se aproximaram da esquina da Rua 
16, a Casa do Templo surgiu qual uma montanha  direita.
     O agente ergueu os olhos para a imensa estrutura. Era como se algum tivesse construdo uma pirmide no alto do Panteo de Roma. Ele se preparou para dobrar 
 direita na Rua 16, em direo  entrada do prdio.
     - No, no vire aqui! - ordenou Langdon. - Siga em frente! Continue na Rua S.
     Simkins obedeceu, mantendo-se paralelo  face leste do prdio.
     - Dobre  direita na Rua 15! - disse Langdon.
     O agente seguiu as instrues de seu co-piloto e, pouco depois, Langdon apontou para uma rua no asfaltada e quase invisvel que cortava os jardins atrs da 
Casa do Templo. O agente pegou o acesso e acelerou o Lexus rumo aos fundos do prdio.
     - Olhe! - disse Langdon, apontando para o solitrio veculo estacionado junto  porta dos fundos. Era um furgo grande. - Eles esto aqui.
     Simkins estacionou o Lexus e desligou o motor. Em silncio, desceram do carro e se prepararam para entrar. O agente ergueu os olhos para a estrutura monoltica 
 sua frente.
     - A Sala do Templo fica no ltimo andar?
     Langdon aquiesceu e apontou para o topo do prdio.
     - Na verdade, aquela rea plana no topo da pirmide  uma clarabia.
     Simkins se virou para encarar Langdon.
     - A Sala do Templo tem uma clarabia?
     Langdon lanou-lhe um olhar estranho.
     -  claro. Uma janela para o cu... bem em cima do altar.
     
     O UH-60 estava pousado em Dupont Circle com o motor ligado.
     Sentada ao lado do piloto, Sato roa as unhas enquanto aguardava notcias de sua equipe.
     Por fim, a voz de Simkins saiu do rdio com um chiado:
     - Diretora?
     - Sato falando - bradou ela.
     - Estamos entrando no prdio, mas tenho um dado novo que talvez seja interessante para a senhora.
     - Pode falar.
     - O Sr. Langdon acaba de me informar que a sala em que o alvo provavelmente est tem uma clarabia bem grande.
     Sato refletiu sobre essa informao por vrios segundos.
     - Entendido. Obrigada.
     Simkins desligou.
     Sato cuspiu uma unha e virou-se para o piloto.
     - Vamos subir.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 121
     
     Como qualquer pai ou me que houvesse perdido um filho, Peter Solomon muitas vezes imaginara como seu menino estaria agora... qual seria seu aspecto... e em 
que ele teria se transformado.
     Agora tinha suas respostas.
     A imensa criatura tatuada  sua frente comeara a vida como um beb pequenino e muito amado... o pequeno Zach, aninhado no berinho... ensaiando os primeiros 
passos no escritrio de Peter... aprendendo a falar as primeiras palavras.
     O fato de o mal poder brotar de uma criana inocente no seio de uma famlia amorosa continuava sendo um dos paradoxos da alma humana. Peter muito cedo fora 
forado a aceitar que,
     embora seu prprio sangue corresse nas veias de Zach, o corao que o bombeava pertencia apenas ao filho. nico e singular... como se escolhido aleatoriamente 
pelo Universo.
     Meu filho... Ele matou minha me, meu amigo Robert Langdon e possivelmente minha irm.
     Um torpor glido inundou o corao de Peter enquanto ele examinava os olhos do filho  procura de alguma ligao... de qualquer coisa conhecida. Mas os olhos 
daquele homem, embora cinzentos como os seus, eram os de um total desconhecido e estavam tomados por um dio e um desejo de vingana quase sobrenaturais.
     - Voc  forte o suficiente? - provocou o filho, olhando de relance para a faca da Akedah na mo de Peter. Consegue terminar o que comeou tantos anos atrs?
     - Filho... - Solomon mal conseguiu reconhecer a prpria voz. - Eu... eu amei voc.
     - Voc tentou me matar duas vezes. Primeiro, me abandonou na priso. Depois, me deu um tiro na ponte do Zach. Agora acabe com isso!
     Por um instante, Solomon teve a sensao de estar flutuando fora do prprio corpo. No reconhecia mais a si mesmo. Sua mo tinha sido cortada, ele estava inteiramente 
careca, vestido com uma tnica preta, sentado numa cadeira de rodas e segurando uma faca ancestral.
     - Acabe com isso! - tornou a gritar o homem, fazendo as tatuagens em seu peito nu se contrarem. - Me matar  sua nica chance de salvar Katherine... e de salvar 
sua irmandade!
     Solomon sentiu o prprio olhar se mover na direo do laptop sobre a cadeira de couro de porco.
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 92%
     
     No conseguia apagar as imagens de Katherine se esvaindo em sangue... nem de seus irmos maons.
     - Ainda h tempo - sussurrou o homem. - Voc sabe que  a nica alternativa. Liberte-me da minha forma mortal.
     - Por favor - implorou Solomon. - No faa isso...
     - Quem fez isso foi voc! - sibilou o homem. - Voc forou seu filho a fazer uma escolha impossvel! Est lembrado daquela noite? Riqueza ou saber? Aquela foi 
a noite em que voc me afastou para sempre. Mas eu voltei, pai... e hoje  a sua vez de escolher. Zachary ou Katherine? Qual dos dois vai ser? Voc vai matar seu 
filho para salvar sua irm? Ou vai matar seu filho para salvar sua irmandade? Seu pas? Ou vai esperar at ser tarde demais? At Katherine morrer... o vdeo ser 
divulgado... e voc ter de passar o resto da vida sabendo que poderia ter evitado essas tragdias? O tempo est se esgotando. Voc sabe o que deve ser feito.
     O corao de Peter doa. Voc no  Zachary, disse ele a si mesmo. Zachary morreu muito, muito tempo atrs. O que quer que voc seja... e de onde quer que tenha 
sado... no foi de mim. E, embora Peter Solomon no acreditasse naquelas palavras, sabia que precisava fazer uma escolha.
     No havia mais tempo.
     
     Encontre a Grande Escadaria!
     Robert Langdon disparava por corredores escuros, serpenteando em direo ao centro do prdio. Turner Simkins seguia em seu encalo. Como Langdon esperava, os 
dois irromperam no trio principal do templo.
     Com oito colunas dricas de granito verde, o trio parecia um sepulcro hbrido - a um s tempo grego, romano e egpcio - com esttuas de mrmore negro, lustres 
que lembravam piras ardentes, cruzes teutnicas, medalhes da fnix de duas cabeas e arandelas ornadas com a cabea de Hermes.
     Langdon se virou e correu em direo  grandiosa escadaria de mrmore depois do trio.
     - Essa escada conduz diretamente  Sala do Templo - sussurrou ele enquanto os dois subiam os degraus o mais rpido e silenciosamente possvel.
     No primeiro patamar, Langdon se viu frente a frente com um busto de bronze do ilustre maom Albert Pike, acompanhado por uma inscrio de sua mais famosa frase: 
O QUE FIZEMOS APENAS POR NS MESMOS MORRE CONOSCO. O QUE FIZEMOS PELOS OUTROS E PELO MUNDO PERMANECE E  IMORTAL.
     
     Mal'akh havia percebido uma mudana palpvel na atmosfera da Sala do Templo, como se toda a frustrao e toda a dor de Peter Solomon tivessem vindo  tona... 
e se concentrado nele como um raio laser.
     Sim... chegou a hora.
     Peter Solomon tinha se levantado da cadeira de rodas e estava agora em p diante do altar, segurando a faca.
     - Salve Katherine - instigou Mal'akh, recuando de modo a atrair o pai para o altar e, depois, reclinando o prprio corpo sobre a mortalha branca que havia preparado. 
- Faa o que tem que fazer.
     Como em um pesadelo, Peter se aproximou devagar.
     Deitado de costas, Mal'akh ergueu os olhos para a lua de inverno visvel atravs da clarabia. O segredo  saber como morrer. Aquele instante no poderia ser 
mais perfeito. Adornado com a Palavra Perdida ancestral, eu me ofereo por meio da mo esquerda de meu pai. Mal'akh respirou fundo. Recebei-me, demnios, pois este 
 meu corpo que ser entregue a vs.
     Erguendo-se acima de Mal'akh, Peter Solomon tremia. Seus olhos banhados de lgrimas brilhavam com desespero, indeciso, angstia. Ele olhou uma ltima vez para 
o laptop conectado ao modem do outro lado da sala.
     - Tome sua deciso - sussurrou Mal'akh. - Liberte-me da minha carne. Deus quer isso. Voc quer isso. - Ele estendeu os braas do longo do corpo e arqueou o 
peito para a frente, oferecendo a magnfica fnix de duas cabeas em sacrifcio. Ajude-me a me livrar do corpo que veste minha alma.
     Os olhos marejados de Peter pareciam atravessar Mal'akh, como se nem mesmo o vissem.
     - Eu matei sua me! - sussurrou Mal'akh. - Matei Robert Langdon! Estou matando sua irm! Estou destruindo sua irmandade! Faa o que tem que fazer!
     O semblante de Peter Solomon se contorceu em uma mscara de pesar e arrependimento absolutos. Inclinando a cabea para trs, ele soltou um grito angustiado 
ao mesmo tempo que erguia a faca no ar.
     
     Robert Langdon e o agente Simkins chegaram ofegantes diante das portas da Sala do Templo na mesma hora em que um grito de gelar o sangue irrompeu l de dentro. 
Era a voz de Peter. Langdon tinha certeza.
     Seu grito era de completa agonia.
     Cheguei tarde demais!
     Ignorando Simkins, Langdon agarrou as maanetas e escancarou as portas. A cena aterradora  sua frente confirmou seus piores temores. Ali, no centro da cmara 
mal iluminada, um homem de cabea raspada e tnica preta estava em p diante do grande altar, com uma faca na mo.
     Antes que Langdon conseguisse se mexer, o homem baixou a lmina em direo ao corpo estendido sobre o altar.
     
     Mal'akh havia fechado os olhos.
     To lindo. To perfeito.
     A antiga lmina da faca da Akedah cintilou sob o luar ao descrever um arco acima dele. Filetes de fumaa perfumada subiam em espiral  sua volta, preparando 
um caminho para sua alma, que logo estaria liberta. O nico grito de tormento e desespero de seu assassino ainda ecoava pelo espao sagrado quando a lmina desceu.
     Estou ungido com o sangue do sacrifcio humano e com as lgrimas de meu pai.
     Mal'akh se preparou para o glorioso impacto.
     Seu momento de transformao havia chegado.
     Incrivelmente, ele no sentiu dor.
     Uma vibrao estrondosa preencheu seu corpo, ensurdecedora e profunda. A sala comeou a sacudir e uma forte luz branca vinda das alturas o cegou. O cu rugiu.
     E Mal'akh soube que havia acontecido.
     Exatamente como ele planejara.
     
     Langdon no se lembrava de estar correndo rumo ao altar quando o helicptero surgiu l em cima. Tampouco de ter pulado com os braos estendidos... lanando-se 
em direo ao homem de tnica preta... numa tentativa desesperada de derrub-lo antes que pudesse desferir outro golpe com a faca.
     Seus corpos colidiram e Langdon viu uma luz brilhante descer pela clarabia, iluminando o altar. Esperava ver o corpo ensangentado de Peter Solomon sobre a 
pedra, mas o peito nu resplandecente no exibia sangue nenhum... apenas uma tapearia de tatuagens. A faca jazia quebrada a seu lado, depois de ter sido aparentemente 
cravada na pedra em vez de em carne humana.
     Quando os dois desabaram no cho duro, Langdon viu o coto enfaixado na ponta do brao direito do homem de preto e percebeu, para seu espanto, que acabara de 
derrubar Peter Solomon.
     Enquanto deslizavam juntos pelo piso de pedra, as luzes do helicptero vieram descendo, ofuscantes. A aeronave voava baixo, seus patins de aterrissagem quase 
tocando a grande superfcie de vidro da clarabia.
     Na frente do helicptero, uma arma estranha girou, mirando para baixo atravs do vidro. O facho vermelho da mira a laser varou a clarabia e se agitou, indo 
na direo de Langdon e Solomon.
     No!
     Mas no se ouviu nenhum disparo... apenas o barulho das hlices.
     Langdon no sentiu nada, exceto uma sinistra vibrao de energia que percorreu todas as suas clulas. Atrs de sua cabea, sobre a cadeira de couro de porco, 
o laptop emitiu um chiado estranho. Ele se virou a tempo de ver a tela ficar preta de repente. Infelizmente, a ltima mensagem visvel tinha sido clara.
     
     ENVIANDO MENSAGEM: 100%
     
     Suba! Mas que droga! Para cima!
     O piloto do UH-60 colocou os rotores no mximo para evitar tocar na clarabia. Sabia que as quase trs toneladas de empuxo geradas pelos rotores J estavam 
forando o vidro para baixo quase a ponto de quebr-lo. Infelizmente, a inclinao da pirmide sob o helicptero estava desviando o empuxo impedindo-o de subir.
     Para cima! Agora!
     O piloto inclinou o nariz da aeronave para tentar se afastar dali, mas o patim de aterrissagem esquerdo tocou o centro do vidro. Foi s por um instante, mas 
bastou.
     A imensa clarabia da Sala do Templo explodiu em um turbilho de vidro e vento... fazendo uma enxurrada de cacos afiados mergulhar na sala abaixo.
     Estrelas caindo do cu.
     Mal'akh ergueu os olhos para a bela luz branca e se deparou com um vu de jias cintilantes esvoaando em sua direo... cada vez mais depressa... como se corressem 
para envolv-lo com seu esplendor.
     De repente, a dor.
     Por toda parte.
     Aguda. Lancinante. Cortante. Facas afiadssimas penetrando na carne tenra. Peito, pescoo, coxas, rosto. Seu corpo se contraiu todo de uma vez, encolhendo-se. 
Sua boca cheia de sangue gritou  medida que a dor o arrancava de seu transe. A luz branca se transformou e, como em um passe de mgica, surgiu um helicptero escuro 
pairando acima dele. As hlices estrondosas sopravam um vento glido para dentro da Sala do Templo, congelando Mal'akh at os ossos e dispersando as espirais de 
incenso para os confins do salo.
     Mal'akh virou a cabea e viu a faca da Akedah quebrada a seu lado, esmagada sobre o altar de mrmore coberto por uma camada de vidro estilhaado. Mesmo depois 
de tudo o que eu fiz a ele... Peter Solomon se negou a usar a faca. Ele se recusou a derramar meu sangue.
     Com um horror crescente, Mal'akh levantou a cabea e olhou para o prprio corpo. Aquele artefato vivo deveria ter sido sua grande oferenda. Mas agora estava 
em frangalhos, banhado em sangue... sua carne crivada de imensos cacos de vidro que despontavam em todas as direes.
     Debilmente, Mal'akh pousou a cabea de volta sobre o mrmore e ergueu a vista para o espao aberto no telhado. O helicptero havia desaparecido e, em seu lugar, 
surgira uma lua silenciosa e invernal.
     Com os olhos arregalados, Mal'akh ficou deitado, arquejante... completamente sozinho sobre o grande altar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 122
     
     O segredo  saber como morrer.
     Mal'akh sabia que tudo tinha sado errado. No houve luz brilhante. Nenhuma recepo maravilhosa. Apenas a escurido e uma dor excruciante. At mesmo em seus 
olhos. Ele no conseguia ver nada, mas podia sentir movimento  sua volta. Ouvia vozes... vozes humanas... e uma delas, estranhamente, pertencia a Robert Langdon. 
Como  possvel?
     - Ela est bem - repetia Langdon sem parar. - Katherine est bem, Peter. Sua irm est bem.
     No, pensou Mal'akh. Katherine est morta. Tem de estar.
     Mal'akh no conseguia mais enxergar, no sabia nem ao menos dizer se estava de olhos abertos, mas ouviu o helicptero se afastando. Uma sbita calma se espalhou 
pela Sala do Templo. Ele pde sentir os ritmos constantes da Terra se tornarem irregulares... como se as mars estivessem sendo perturbadas pela chegada de uma tempestade.
     Chao ab ordo.
     Vozes desconhecidas gritavam, dirigindo-se com urgncia a Robert Langdon e falando sobre o laptop e o arquivo de vdeo.  tarde demais, sabia Mal'akh. O estrago 
est feito. quela altura, as imagens chocantes que gravara estavam se espalhando como fogo descontrolado por todos os cantos do mundo, destruindo o futuro da irmandade. 
Os que tm mais capacidade de divulgar o conhecimento precisam ser destrudos. A ignorncia da humanidade era o que ajudava o caos a crescer. A ausncia de Luz na 
Terra era o que alimentava as Trevas que aguardavam Mal'akh.
     Eu realizei grandes feitos e logo serei acolhido como um rei.
     Mal'akh sentiu que uma pessoa sozinha havia se aproximado em silncio. Ele soube quem era. Pde sentir o cheiro dos leos sagrados com os quais besuntara o 
corpo raspado do pai.
     - No sei se voc est me escutando - sussurrou Peter Solomon em seu ouvido. - Mas quero que saiba de uma coisa. Ele levou um dedo at o local sagrado no topo 
do crnio de Mal'akh. - O que voc escreveu aqui... - Ele fez uma pausa. - Isto no  a Palavra Perdida.
      claro que , pensou Mal'akh. Voc me convenceu disso, sem deixar qualquer sombra de dvida.
     Segundo a lenda, a Palavra Perdida estava escrita em uma lngua to antiga e misteriosa que a humanidade havia praticamente esquecido como l-la. Esse idioma 
misterioso, como Peter lhe revelara, era a linguagem mais antiga da Terra.
     A linguagem dos smbolos.
     Na simbologia, um smbolo reinava supremo acima dos outros. Sendo o mais antigo e o mais universal de todos, ele unia todas as tradies antigas em uma nica 
imagem que representava a iluminao do deus-sol egpcio, o triunfo do ouro alqumico, a sabedoria da pedra filosofal, a pureza da rosa dos rosa-cruzes, o instante 
da Criao, o Todo, o domnio do sol astrolgico e at mesmo o olho onisciente que tudo v a flutuar no topo da Pirmide Inacabada.
     O circumponto. O smbolo da Fonte. A origem de todas as coisas.
     Era isso que Peter Solomon havia lhe contado pouco antes. Mal'akh no incio se mostrara ctico, porm, quando tornou a olhar para a grade, percebeu que a imagem 
da pirmide apontava diretamente para o smbolo especfico do circumponto - um crculo com um pontinho no meio. A Pirmide Manica  um mapa, pensou ele, que aponta 
para a Palavra Perdida. Parecia que, no fim das contas, seu pai estava dizendo a verdade.
     Todas as grandes verdades so simples.
     A Palavra Perdida no  uma palavra...  um smbolo.
     Ansioso, Mal'akh havia tatuado o grande smbolo do circumponto no prprio couro cabeludo. Ao faz-lo, sentira uma onda de poder e satisfao. Minha obra-prima 
e minha oferenda esto completas. As foras da escurido o aguardavam. Ele seria recompensado por seu trabalho. Aquele seria seu instante de glria...
     Mas, no ltimo segundo, tudo sara terrivelmente errado.
     E l estava Peter, ainda atrs dele, dizendo palavras que Mal'akh mal conseguia apreender.
     - Eu menti para voc - dizia ele. - Voc no me deu escolha. Se eu tivesse lhe revelado a Palavra Perdida, voc no teria acreditado em mim nem teria entendido.
     A Palavra Perdida... no  o circumponto?
     - A verdade - disse Peter -  que todos conhecem a Palavra Perdida... mas poucos sabem reconhec-la.
     As palavras ecoaram na mente de Mal'akh.
     - Voc continua incompleto - disse Peter, pousando a palma da mo com delicadeza sobre a cabea de Mal'akh. - Seu trabalho ainda no terminou. Mas, para onde 
quer que v, por favor, saiba de uma coisa... voc foi amado.
     Por algum motivo, o toque carinhoso da mo de seu pai pareceu queim-lo, dando incio, como um poderoso catalisador, a uma reao qumica dentro de seu corpo. 
Sem aviso, Mal'akh sentiu uma vigorosa onda de energia, como se todas as suas clulas estivessem se dissolvendo.
     Em um instante, toda a dor terrena evaporou.
     Transformao. Est comeando.
     
     Eu estou olhando para mim mesmo, uma runa de carne ensangentada sobre a plataforma sagrada de mrmore. Meu pai est ajoelhado atrs de mim, segurando minha 
cabea sem vida com a nica mo que lhe resta.
     Sinto uma onda crescente de raiva... e de confuso.
     A hora no  de compaixo... mas de vingana, de transformao... porm, mesmo assim, meu pai se recusa a ceder, a cumprir seu papel, a canalizar sua dor e 
sua raiva para a lmina da faca e crav-la no meu corao.
     Estou amarrado aqui, suspenso... preso  minha casca terrena.
     Meu pai passa suavemente a palma da mo pelo meu rosto para fechar meus olhos que se apagam.
     Sinto as amarras se soltarem.
     Um vu esvoaante se materializa  minha volta, tornando-se mais espesso e fazendo a luz diminuir, escondendo o mundo de mim. De repente, o tempo se acelera 
e estou mergulhando em um abismo muito mais escuro do que algum dia pude imaginar. Ali, dentro de um vazio estril, ouo um sussurro... sinto uma fora se acumular. 
Ela vai ficando mais potente, crescendo a uma velocidade espantosa, me rodeando. Assustadora e poderosa. Sombria e imponente.
     Eu no estou sozinho aqui.
     Este  meu triunfo, minha grande recepo. No entanto, por algum motivo, sinto-me cheio no de alegria, mas de um medo sem limites.
      totalmente diferente do que eu esperava.
     A fora ento se agita, rodopiando ao meu redor com uma potncia irrefrevel, ameaando me partir ao meio. De repente, sem aviso, as trevas se adensam como 
uma grande fera pr-histrica, empinando-se  minha frente.
     Estou diante de todas as almas obscuras que me precederam.
     Estou gritando com um terror sem fim... enquanto a escurido me devora por inteiro.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 123
     
     Dentro da Catedral Nacional, o decano Galloway sentiu uma estranha mudana no ar. No sabia dizer ao certo por que, mas foi como se uma sombra espectral houvesse 
evaporado... como se um peso tivesse sido erguido... muito longe dali, mas ao mesmo tempo bem prximo.
     Sozinho diante de sua escrivaninha, ele estava imerso em pensamentos. No poderia precisar quantos minutos haviam se passado quando seu telefone tocou. Era 
Warren Bellamy.
     - Peter est vivo - disse seu irmo maom. - Acabei de receber a notcia. Sabia que gostaria de ser informado na mesma hora. Ele vai ficar bem.
     - Graas a Deus. - Galloway suspirou aliviado. - Onde ele est?
     O reverendo ficou ouvindo Bellamy contar a extraordinria histria do que havia acontecido depois de eles deixarem o Cathedral College.
     - Vocs esto todos bem?
     - Sim, estamos nos recuperando - respondeu Bellamy. - Mas h um porm.
     - Ele fez uma pausa.
     - Sim?
     - A Pirmide Manica... acho que Langdon talvez a tenha decifrado.
     Galloway no pde evitar um sorriso. De certa forma, no estava surpreso.
     - E me diga uma coisa: Langdon descobriu se a pirmide cumpria ou no sua promessa? Se ela de fato revelava o que a lenda sempre alegou que fosse capaz de revelar?
     - Ainda no sei.
     Ela vai revelar, pensou Galloway.
     - Voc precisa descansar - disse o decano.
     - Voc tambm.
     No, eu preciso  rezar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 124
     
     Quando a porta do elevador se abriu, as luzes da Sala do Templo estavam todas acesas.
     Katherine Solomon ainda sentia as pernas bambas quando entrou s pressas em busca do irmo. O ar na imensa cmara era frio e recendia a incenso. E a cena  
sua frente a fez estacar na hora.
     No centro daquele magnfico recinto, sobre um altar baixo de pedra, jazia um corpo ensangentado cheio de tatuagens, perfurado por lanas de caco de vidro. 
L no alto, um grande rombo no teto se abria para o cu.
     Meu Deus. Katherine desviou o rosto na mesma hora, olhando em volta  procura de Peter. Achou o irmo sentado do outro lado da cmara, sendo assistido por um 
paramdico enquanto conversava com Langdon e a diretora Sato.
     - Peter! - gritou Katherine, correndo para l. - Peter!
     Peter ergueu os olhos e seu rosto se encheu de alvio. Pondo-se de p no mesmo instante, comeou a andar em direo a ela. Ele vestia uma camisa branca simples 
e uma cala preta que algum provavelmente buscara em seu escritrio em um dos andares de baixo. Tinha o brao direito em uma tipia, e seu abrao delicado foi canhestro, 
porm Katherine mal deu ateno a isso. Uma conhecida sensao de reconforto a envolveu feito um casulo, como sempre acontecia, mesmo na
     infncia, quando seu irmo mais velho, seu protetor, a tomava nos braos.
     Os dois ficaram abraados em silncio.
     Por fim, Katherine sussurrou:
     - Voc est bem? Quer dizer... est bem mesmo? - Ela o soltou, baixando os olhos para a tipia e as ataduras onde antes ficava sua mo direita. Lgrimas tornaram 
a marejar seus olhos. - Eu sinto... eu sinto tanto.
     Peter deu de ombros, como se aquilo no tivesse a menor importncia.
     -  s carne mortal. Corpos no duram para sempre. O importante  voc estar bem.
     A resposta tranqila de Peter calou fundo em Katherine, fazendo com que lembrasse todos os motivos pelos quais amava o irmo. Ela acariciou sua cabea, sentindo 
os laos inquebrantveis da famlia... o sangue em comum que corria por suas veias.
     Tragicamente, ela sabia que havia um terceiro Solomon ali naquela noite. O cadver sobre o altar atraiu seu olhar, e Katherine sentiu um calafrio, tentando 
no pensar nas fotos que tinha visto.
     Ao desviar os olhos, se deparou com Robert Langdon. Havia compaixo em seu rosto, uma compaixo profunda e compreensiva, como se Langdon de certa forma soubesse 
exatamente o que se passava na mente dela. Peter sabe. Emoes intensas tomaram conta de Katherine - alvio, empatia, desespero. Ela sentiu o corpo do irmo comear 
a tremer como o de uma criana. Aquilo era algo que nunca tinha visto na vida.
     - Est tudo bem - sussurrou ela. - Vai passar.
     Os tremores de Peter aumentaram.
     Ela tornou a abra-lo, acariciando-lhe a nuca.
     - Peter, voc sempre foi o mais forte... sempre me amparou. Mas hoje sou eu que estou aqui para voc. Est tudo bem. Eu estou aqui.
     Katherine pousou com delicadeza a cabea do irmo sobre seu ombro... e o grande Peter Solomon desabou em seus braos aos soluos.
     
     A diretora Sato se afastou para atender um telefonema.
     Era Nola Kaye. Suas notcias, pelo menos desta vez, eram boas.
     - Ainda nenhum sinal de distribuio, senhora. - Ela parecia esperanosa. - Tenho certeza de que a essa altura j teramos visto alguma coisa. Parece que vocs 
conseguiram conter a mensagem.
     Graas a voc, Nola, pensou Sato, olhando para o laptop que, segundo Langdon, havia enviado a mensagem. Foi por muito pouco.
     Seguindo uma sugesto de Nola, o agente que revistava a manso tinha verificado as latas de lixo e encontrado a embalagem de um modem de celular recm-comprado. 
De posse do nmero exato do modelo, Nola conseguira cruz-lo com as empresas, larguras de banda e redes de servio compatveis, isolando assim o ponto de acesso 
mais provvel do laptop - um pequeno transmissor na esquina das ruas 16 e Corcoran -, a trs quarteires do Templo.
     Nola rapidamente transmitira a informao para Sato no helicptero. No trajeto at a Casa do Templo, o piloto havia sobrevoado o ponto de acesso em baixa altitude 
e disparado sobre ele um pulso de radiao eletromagntica, desabilitando-o segundos antes de o laptop concluir a transferncia do arquivo.
     - timo trabalho hoje  noite - disse Sato. - Agora v dormir um pouco. Voc merece.
     - Obrigada, senhora. - Nola hesitou.
     - Algo mais?
     Nola passou vrios segundos em silncio, aparentemente pensando se deveria ou no falar.
     - Nada que no possa esperar at amanh de manh, senhora. Tenha uma boa noite.
     
     CAPTULO 125
     
     No silncio de um banheiro luxuoso no trreo da Casa do Templo, Robert Langdon encheu uma pia com gua morna e se olhou no espelho. Mesmo sob aquela luz tnue, 
sua aparncia condizia com a maneira como se sentia... exausto.
     Tinha novamente a bolsa de viagem sobre o ombro, agora muito mais leve, pois continha apenas seus pertences e algumas anotaes amassadas. No pde conter uma 
risadinha. Sua visita a Washington naquela noite para dar uma palestra havia se revelado um pouco mais cansativa do que ele imaginara.
     Ainda assim, Langdon tinha muitos motivos para se sentir grato.
     Peter est vivo.
     E o vdeo no foi enviado.
     Enquanto lavava o rosto com gua morna usando as mos em concha, Langdon sentiu que ia aos poucos voltando  vida. Tudo ainda estava embaado, mas a adrenalina 
em seu corpo finalmente se dissipava.., fazendo-o se sentir ele mesmo novamente. Depois de secar as mos, conferiu seu relgio do Mickey Mouse.
     Meu Deus, como  tarde.
     Langdon saiu do banheiro e seguiu andando rente  parede sinuosa do Salo de Honra - um corredor graciosamente arqueado, coberto por retratos de maons famosos... 
presidentes, filantropos e celebridades norte-americanas, alm de outros personagens influentes do pas. Deteve-se diante de um leo de Harry S. Truman e tentou 
imaginar aquele homem passando pelos rituais, cerimnias e estudos necessrios para se tornar maom.
     Existe um mundo escondido por trs do que todos ns vemos.
     - Voc saiu de fininho - disse uma voz no final do corredor.
     Langdon se virou.
     Era Katherine. Ela havia comido o po que o diabo amassou naquela noite, mas, apesar disso, parecia subitamente radiante... rejuvenescida, de alguma forma.
     Langdon abriu um sorriso cansado.
     - Como ele est?
     Katherine se aproximou e deu-lhe um abrao apertado.
     - Como algum dia vou conseguir agradecer?
     Ele riu.
     - Voc sabe que eu no fiz nada, no sabe?
     Katherine continuou abraando-o por um bom tempo.
     - Peter vai ficar bem... - Ela o soltou, encarando-o fixamente. - E ele acabou de me dizer uma coisa incrvel... uma coisa maravilhosa. - A voz dela tremia 
de tanta expectativa. - Preciso ver com meus prprios olhos. Volto daqui a pouquinho.
     - O qu? Aonde voc vai?
     - No vou demorar. Agora Peter quer falar com voc... a ss. Ele est esperando na biblioteca.
     - Ele disse o motivo?
     Katherine deu uma risadinha e fez que no com a cabea.
     - Voc conhece Peter e os segredos dele.
     - Mas...
     - Nos vemos daqui a pouco.
     Ento ela se foi.
     Langdon suspirou. Achava que bastava de segredos por uma noite. Havia perguntas no respondidas,  claro - sobre a Pirmide Manica e a Palavra Perdida, inclusive 
-, mas ele sentia que as respostas, caso existissem, no eram para ele. Afinal, no sou maom.
     Reunindo o que lhe restava de energia, seguiu at a biblioteca manica. Encontrou Peter sozinho, sentado a uma mesa, com a pirmide de pedra  sua frente.
     - Robert? - Peter sorriu e acenou para que ele entrasse. - Eu queria dar uma palavra com voc.
     Langdon arrumou um jeito de sorrir.
     - , fiquei sabendo que voc perdeu uma.
     
     
     
     CAPTULO 126
     
     A biblioteca da Casa do Templo era a sala de leitura pblica mais antiga de Washington. Suas elegantes prateleiras transbordavam com mais de 250 mil volumes, 
incluindo um exemplar raro do Ahiman Rezon - Segredos de um Irmo Preparado. Alm disso, guardava preciosas jias e artefatos ritualsticos manicos, e at mesmo 
um volume raro impresso manualmente pelo prprio Benjamin Franklin.
     Mas o tesouro preferido de Langdon naquela biblioteca passava despercebido  maioria das pessoas. A iluso.
     Peter Solomon lhe mostrara tempos atrs que, vistas da perspectiva certa, a mesa de leitura e a luminria dourada da biblioteca criavam uma inconfundvel iluso 
de tica... a de uma pirmide com um cume de ouro brilhante. Solomon dizia que sempre havia considerado aquela iluso um lembrete silencioso de que os mistrios 
da Francomaonaria eram perfeitamente visveis a qualquer um e a todos, se observados do ngulo correto.
     Naquela noite, porm, os mistrios da irmandade tinham se materializado bem na sua frente. Langdon se sentou diante do Venervel Mestre e da Pirmide Manica.
     Peter estava sorrindo.
     - A "palavra"  qual voc se refere, Robert, no  uma lenda.  uma realidade.
     Langdon o encarou do outro lado da mesa. Depois de algum tempo, falou:
     - Mas... no estou entendendo. Como  possvel?
     - O que  to difcil de aceitar?
     Tudo!, quis dizer Langdon, vasculhando os olhos do velho amigo em busca de qualquer vestgio de bom senso.
     - Voc est dizendo que acredita que a Palavra Perdida  real... e que tem poder de verdade?
     - Um poder enorme - disse Peter. - Ela tem o poder de transformar a humanidade ao desvendar os Antigos Mistrios.
     - Uma palavra? - retrucou Langdon. - Peter, desculpe, no posso acreditar que uma palavra...
     - Voc vai acreditar - afirmou Peter com calma.
     Langdon ficou olhando para ele em silncio.
     - Como voc sabe - prosseguiu Solomon, agora em p e andando em volta da mesa -, h muito tempo foi profetizado que chegar um dia em que a Palavra Perdida 
ser redescoberta e desenterrada... ento a humanidade mais uma vez ter acesso a seu poder esquecido.
     Langdon teve um lampejo da palestra de Peter sobre o Apocalipse. Embora muitas pessoas interpretassem equivocadamente apocalipse como o cataclsmico fim do 
mundo, a palavra na verdade significava "revelao":.. o "desvelamento", como os antigos prediziam, de um grande saber. A futura era da iluminao. Ainda assim, 
Langdon no conseguia imaginar uma mudana to grande sendo iniciada por... uma palavra.
     Peter indicou a pirmide de pedra sobre a mesa, ao lado de seu cume de ouro.
     - A Pirmide Manica - disse ele. - O symbolon lendrio. Hoje  noite, ela est unificada... e completa. - Com reverncia, ele ergueu o cume de ouro e o pousou 
sobre a pirmide. A pesada pea se encaixou com um leve dique. - Esta noite, meu amigo, voc fez o que nunca tinha sido feito antes. Unificou a Pirmide Manica, 
decifrou todos os seus cdigos e, no final, desvendou... isto aqui.
     Solomon sacou um pedao de papel, colocando-o sobre a mesa. Langdon reconheceu a grade de smbolos reorganizada por meio do Quadrado de Franklin de Ordem Oito. 
Ele havia passado algum tempo a estud-la na Sala do Templo.
     - Estou curioso para saber se voc consegue ler este conjunto de smbolos - disse Peter. - Afinal de contas, o especialista  voc.
     Langdon fitou a grade.
     Heredom, circumponto, pirmide, escadaria...
     Ele deu um suspiro.
     - Bem, Peter, como voc provavelmente pode ver, isto aqui  um pictograma alegrico.
     Obviamente a linguagem no  literal, mas sim metafrica e simblica.
     
     
     
     Solomon deu uma risadinha.
     -  nisso que d fazer uma pergunta simples a um simbologista... Tudo bem, diga-me o que est vendo.
     Peter quer mesmo ouvir isso? Langdon puxou o papel mais para perto.
     - Bem, eu dei uma olhada nestes smbolos mais cedo e, em termos simples, vejo que esta grade  uma imagem... que retrata o cu e a Terra.
     Peter arqueou as sobrancelhas com ar de surpresa.
     - Ah, ?
     - Claro. No alto da imagem temos a palavra Heredom, a "Casa Sagrada", que eu interpreto como a Casa de Deus... ou o cu.
     - Certo.
     - A flecha apontando para baixo depois de Heredom significa que o resto do pictograma est situado claramente no reino abaixo do cu... ou seja... na Terra. 
- Os olhos de Langdon ento se dirigiram para a base da grade. - As duas ltimas fileiras, as que esto abaixo da pirmide, correspondem  terra firma. Esses remos 
inferiores contm os 12 signos astrolgicos antigos, que representam a religio primordial das primeiras almas humanas a olhar para o cu e enxergar a mo de Deus 
no movimento das estrelas e dos planetas.
     Solomon aproximou a cadeira e estudou a grade.
     - Tudo bem, o que mais?
     - Tomando por base a astrologia - prosseguiu Langdon -, a grande pirmide se ergue da Terra... elevando-se rumo ao cu... o eterno smbolo do saber perdido. 
Ela est preenchida pelas grandes filosofias e religies da histria.., egpcia, pitagrica, budista, hindusta, islmica, judaico-crist, e assim por diante... 
todas fluindo para cima, fundindo-se, afunilando-se para atravessar o portal transformador da pirmide... onde finalmente se juntam em uma s filosofia humana unificada. 
- Ele fez uma pausa. - Uma nica conscincia universal.., uma viso global compartilhada de Deus... representada pelo antigo smbolo que paira acima do cume.
     - O circumponto - disse Peter. - Um smbolo universal de Deus.
     - Isso. Ao longo da histria, o circumponto representou todas as coisas para todas as pessoas... ele  o deus-sol R, o ouro alqumico, o olho que tudo v, 
o ponto que deu origem ao Big Bang, o...
     - O Grande Arquiteto do Universo.
     Langdon assentiu, com a sensao de que aquele provavelmente havia sido o argumento usado por Peter na Sala do Templo para vender a idia do circumponto como 
a Palavra Perdida.
     - E por ltimo? - indagou Peter. - E a escadaria?
     Langdon baixou os olhos para a imagem dos degraus sob a pirmide.
     - Peter, eu tenho certeza de que voc sabe melhor do que ningum que isto aqui simboliza a Escada em Caracol da Francomaonaria... que sobe das trevas terrenas 
em direo  luz... como a Escada de Jac subindo at o cu... ou a coluna vertebral humana, que conecta o corpo mortal  mente eterna. - Ele fez uma pausa. - Quanto 
ao resto dos signos, eles parecem ser uma mistura de smbolos celestes, manicos e cientficos, todos corroborando os Antigos Mistrios.
     Solomon acariciou o queixo.
     - Uma interpretao elegante, professor. Concordo,  claro, que esta grade pode ser lida como uma alegoria, mas ainda assim... - Um brilho misterioso cintilou 
em seus olhos. - Esta coleo de smbolos conta tambm outra histria, muito mais reveladora.
     - Ah, ?
     Solomon recomeou a andar pela biblioteca, contornando a mesa.
     - Hoje, na Sala do Templo, quando eu achei que ia morrer, olhei para essa grade e de alguma forma consegui ver alm da metfora, alm da alegoria. Enxerguei 
a essncia do que esses smbolos esto nos dizendo. - Ele fez uma pausa e se virou abruptamente para Langdon. - Essa grade revela o local exato onde est enterrada 
a Palavra Perdida.
     - Como?
     Langdon se remexeu na cadeira, pouco  vontade, temendo que o trauma daquela noite pudesse ter deixado Peter desorientado e confuso.
     - Robert, a lenda sempre descreveu a Pirmide Manica como um mapa, um mapa muito especfico, capaz de guiar quem fosse merecedor  localizao secreta da 
Palavra Perdida. - Solomon bateu com o dedo na grade de smbolos diante de Langdon. - Garanto a voc que estes smbolos so
     exatamente o que a lenda diz que so... um mapa. Um diagrama que revela com preciso onde podemos encontrar a escadaria que conduz  Palavra Perdida.
     Langdon soltou uma risada nervosa, assumindo um tom cauteloso.
     - Mesmo que eu acreditasse na Lenda da Pirmide Manica, esta grade de smbolos no pode ser um mapa. Olhe s para ela. No se parece em nada com um.
     Solomon sorriu.
     - s vezes basta uma nfima mudana de perspectiva para vermos algo conhecido sob uma luz totalmente nova.
     Langdon tornou a olhar, mas no viu nada de novo.
     - Deixe-me fazer uma pergunta a voc - disse Peter. - Quando os maons assentam suas pedras angulares, voc sabe por que eles as colocam no canto nordeste de 
um prdio?
     - Claro, porque esse canto recebe os primeiros raios de luz da manh.  um smbolo do poder da arquitetura, o de subir da terra em direo  luz.
     - Isso mesmo - disse Peter. - Ento talvez voc devesse procurar aqui os primeiros raios de luz. - Ele indicou a grade de smbolos. - No canto nordeste.
     Langdon tornou a olhar para o papel, em direo ao canto superior direito, ou nordeste. O smbolo nesse canto era...
     - Uma flecha apontando para baixo - disse Langdon, tentando entender aonde Solomon estava querendo chegar. - O que significa... debaixo de Heredom.
     - No, Robert, debaixo, no - retrucou Solomon. - Pense. Essa grade no  um labirinto metafrico. Ela  um mapa. E, neles, uma flecha que aponta para baixo 
significa...
     - O sul! - exclamou Langdon, surpreso.
     - Exatamente! - respondeu Solomon, abrindo um sorriso. - O sul geogrfico! Em um mapa, para baixo significaria o sul e a palavra Heredom no seria uma metfora 
de cu, mas sim o nome de uma localizao geogrfica.
     - A Casa do Templo? Voc est dizendo que este mapa aponta... para o sul deste prdio?
     - Louvado seja Deus! - disse Solomon, rindo. - Finalmente uma luz.
     Langdon analisou a grade de smbolos.
     - Mas, Peter... mesmo que voc esteja certo, o sul deste prdio poderia ser qualquer lugar em uma reta de quase 40 mil quilmetros.
     - No, Robert. Voc est ignorando a lenda, que afirma que a Palavra Perdida est escondida em Washington. Isso delimita substancialmente a rea de que estamos 
falando. Alm do mais, a lenda tambm afirma que a entrada da escadaria est sob uma grande pedra... que, por sua vez, tem uma mensagem gravada em lngua antiga... 
como uma espcie de sinal para quem for merecedor poder encontr-la.
     Langdon estava achando difcil levar aquilo a srio e, embora no conhecesse Washington bem o suficiente para saber o que ficava ao sul do ponto em que estavam, 
tinha certeza quase absoluta de que no existia ali nenhuma grande pedra gravada sobre uma escadaria subterrnea.
     - A mensagem gravada na pedra - falou Peter - est bem aqui, diante dos seus olhos. - Ele indicou a terceira fileira da grade. - Esta  a inscrio, Robert! 
Voc solucionou o quebra-cabea!
     Estupefato, Langdon analisou os sete smbolos.
     
     
     
     Solucionei? Langdon no fazia a menor idia do que aqueles sete smbolos dspares poderiam significar e tinha absoluta certeza de que eles no estavam gravados 
em nenhum lugar da capital norte-americana... sobretudo no em uma pedra gigante sobre uma escadaria.
     - Peter - disse ele -, no entendo o que isso esclarece. No conheo nenhuma pedra aqui em Washington gravada com essa... mensagem.
     Solomon deu-lhe um tapinha no ombro.
     - Voc passou por ela e nunca a viu. Ns todos passamos. Ela est bem na nossa frente, assim como os prprios mistrios. E, hoje  noite, quando eu vi esses 
sete smbolos, percebi na mesma hora que a lenda era verdade. A Palavra Perdida est enterrada em Washington... e ela est ao p de uma longa escadaria debaixo de 
uma imensa pedra gravada.
     Atnito, Langdon continuou em silncio.
     - Robert, hoje  noite voc conquistou o direito de saber a verdade.
     Langdon ficou encarando Peter, tentando processar o que havia acabado de ouvir.
     - Voc vai me dizer onde a Palavra Perdida est enterrada?
     - No - respondeu Solomon, levantando-se com um sorriso. - Vou lhe mostrar.
     
     Cinco minutos depois, Langdon estava prendendo o cinto de segurana no banco de trs de um Escalade, ao lado de Peter Solomon. Simkins assumiu o volante na 
mesma hora em que Sato se aproximou pelo estacionamento.
     - Sr. Solomon? - falou a diretora, acendendo um cigarro ao chegar. - Acabei de dar o telefonema que o senhor solicitou.
     - E? - perguntou Peter pela janela aberta do carro.
     - Dei ordem para que eles o deixem entrar. Mas no por muito tempo.
     - Obrigado.
     Sato o analisou com ar curioso.
     - Devo dizer que  um pedido bem incomum.
     Solomon deu de ombros, enigmtico.
     Sato desistiu do assunto, deu a volta at a janela de Langdon e bateu no vidro com o n dos dedos.
     Langdon abaixou o vidro.
     - Professor - disse ela, sem o menor indcio de simpatia -, sua ajuda hoje  noite, embora relutante, foi fundamental para o nosso sucesso.., e por isso eu 
lhe agradeo. - Ela deu uma longa tragada no cigarro e soprou a fumaa para o lado. - No entanto, permita-me uma ltima palavra de alerta. Da prxima vez que um 
alto funcionrio da CIA lhe disser que est diante de uma crise de segurana nacional... - os olhos dela escureceram -... seria bom o senhor deixar a babaquice l 
em Cambridge.
     Langdon abriu a boca para falar, mas a diretora Inoue Sato j havia virado as costas e andava pelo estacionamento em direo ao helicptero que a aguardava.
     Simkins olhou por cima do ombro com uma expresso impassvel.
     - Os senhores esto prontos?
     - Na verdade - disse Solomon -, espere um instantinho s. - Ele sacou um pequeno pedao de pano escuro dobrado que entregou a Langdon. - Robert, eu gostaria 
que voc pusesse isto aqui antes de partirmos.
     Intrigado, Langdon examinou o pano. Era de veludo preto. Ao desdobr-lo, percebeu que estava segurando uma venda manica - a tradicional venda de um iniciado 
do grau 1. Mas que diabo  isto?
     - Eu prefiro que voc no veja para onde estamos indo - disse Peter.
     Langdon se virou para o amigo.
     - Voc quer me vendar durante o trajeto?
     Solomon sorriu.
     - Meu segredo. Minhas regras.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 127
     
     Do lado de fora da sede da CIA, em Langley, soprava uma brisa fria. Nola Kaye tremia enquanto seguia Rick Parrish pelo ptio central da agncia sob a luz do 
luar.
     Para onde Rick est me levando?
     A crise do vdeo sobre os rituais manicos tinha sido evitada, graas a Deus, mas Nola continuava aflita. O arquivo editado na partio de disco reservada 
ao diretor da CIA permanecia um mistrio, e isso a atormentava. Ela e Saio conversariam pela manh, e Nola queria dispor de todos os fatos, por isso acabara pedindo 
ajuda ao especialista em segurana de sistemas.
     Agora, enquanto seguia Rick para algum lugar desconhecido ali fora, Nola no conseguia tirar da cabea as expresses bizarras do arquivo.
     Uma localizao subterrnea secreta onde... lugar em Washington, D.C., as coordenadas... revelou um antigo portal que conduzia.., que a pirmide reserva perigosas... 
decifrar esse symbolon gravado para revelar...
     - Ns, dois concordamos - disse Parrish enquanto caminhavam - que o hacker que obteve essas palavras usando um spider certamente estava procurando informaes 
sobre a Pirmide Manica.
      claro, pensou Nola.
     - S que o hacker topou com uma faceta da Pirmide Manica que acho que ele no esperava.
     - Como assim?
     - Nola, sabe o frum de discusso interna que o diretor da CIA mantm para os funcionrios da agncia compartilharem suas idias sobre todo tipo de coisa?
     -  claro que sei.
     Os fruns ofereciam um ambiente seguro para o pessoal da agncia conversar on-line sobre vrios assuntos, proporcionando ao diretor uma espcie de portal virtual 
para sua equipe.
     - Os fruns do diretor so armazenados na partio pessoal dele, mas, para que funcionrios de qualquer nvel de acesso possam participar, essas discusses 
ficam fora do firewall confidencial dele.
     - Aonde voc est querendo chegar? - perguntou ela enquanto os dois dobravam uma esquina perto do refeitrio da agncia.
     - Em uma palavra... - Parrish apontou para a escurido. - Ali.
     Nola olhou para cima. Do outro lado da praa  sua frente, uma imensa escultura de metal cintilava sob o luar.
     Em uma agncia que se gabava de ter mais de 500 obras de arte originais, aquela escultura - chamada Kryptos - era de longe a mais famosa. A obra do artista 
norte-americano James Sanborn, cujo ttulo significa "oculto" em grego, se tornara uma espcie de lenda ali na CIA.
     A pea consistia em um imenso painel de cobre que parecia um S deitado, como uma parede curva de metal. Gravadas na ampla superfcie da escultura havia quase 
2 mil letras... organizadas em um cdigo incompreensvel. Como se isso no fosse enigmtico o bastante, diversos outros elementos esculturais tinham sido cuidadosamente 
posicionados na rea ao redor da parede em S - placas de granito em ngulos esdrxulos, uma rosa dos ventos, um pedao de magnetita e at mesmo uma mensagem em cdigo 
Morse fazendo referncia a "memria lcida" e "foras ocultas". A maioria dos fs acreditava que essas peas seriam pistas que revelariam como decifrar a escultura.
     A Kryptos era uma obra de arte... mas era tambm um enigma.
     Tentar desvendar aquele segredo cifrado se tornara uma obsesso para criptlogos dentro e fora da CIA. Por fim, alguns anos atrs, parte do cdigo havia sido 
quebrada, e a notcia teve repercusso nacional. Embora o enigma da Kryptos como um todo ainda continuasse sem soluo, as partes que tinham sido decodificadas eram 
to bizarras que s tornavam a escultura ainda mais misteriosa. Elas aludiam a localizaes subterrneas secretas, portais que conduziam a tumbas antigas, longitudes 
e latitudes...
     Nola ainda se lembrava de alguns trechos decifrados: A informao foi reunida e transmitida at uma localizao subterrnea desconhecida... Era totalmente invisvel... 
Como  possvel?... Eles usaram o campo magntico da Terra...
     Nola nunca prestara muita ateno na escultura nem dera bola para o fato de ela nunca ter sido decodificada por completo. Naquele momento, porm, queria respostas.
     - Por que voc est me mostrando a Kryptos?
     Parrish deu um sorrisinho conspiratrio e, com um gesto teatral, tirou do bolso uma folha de papel dobrada.
     - Voil! Aqui est o misterioso arquivo editado com o qual voc estava to preocupada. Eu acessei o texto integral.
     Nola levou um susto.
     - Voc bisbilhotou a partio confidencial do diretor?
     - No. Era isso que eu estava tentando explicar. D uma olhada. - Ele lhe entregou o arquivo.
     Nola pegou o papel e o desdobrou. Quando viu o cabealho-padro da agncia no topo da pgina, inclinou a cabea, espantada.
     Aquele documento no era confidencial. No chegava nem perto disso.
     
     FRUM DE DISCUSSO DE FUNCIONRIOS: KRYPTOS
     ARMAZENAMENTO COMPACTADO: THREAD N 2456282.5
     
     Nola se viu diante de uma srie de posts que haviam sido compactados em uma s pgina para um armazenamento mais eficiente.
     - Seu arquivo com as expresses-chave - disse Rick - no passa de um bate-papo de fissurados em criptografia a respeito do enigma da Kryptos.
     Nola correu os olhos pelo documento at chegar a uma frase que continha uma conhecida seqncia de palavras-chave.
     
     Jim, a escultura diz que a informao foi transmitida para uma localizao SUBTERRNEA secreta onde foi escondida.
     
     - Esse texto  do frum on-line do diretor sobre a Kryptos - explicou Rick. - O frum existe h anos. So literalmente milhares de posts. No me espanta que 
um deles por acaso contenha todas as palavras-chave.
     Nola continuou a correr os olhos pela folha at encontrar outro trecho contendo palavras-chave.
     
     Apesar de Mark ter dito que as indicaes de latitude e longitude apontam para algum lugar em WASHINGTON, DC., as coordenadas que ele usou estavam erradas por 
um grau - a Kryptos basicamente aponta de volta para si mesma.
     
     Parrish caminhou at a escultura e passou a palma da mo por cima do mar de letras cifradas.
     - Grande parte deste cdigo ainda precisa ser quebrado, e muitas pessoas acham que a mensagem pode estar mesmo relacionada a antigos segredos manicos.
     Nola se lembrou de boatos sobre um vnculo entre a Kryptos e a Maonaria, mas tendia a ignorar esse tipo de maluquice. Pensando bem, no entanto, ao olhar em 
volta para os vrios componentes da escultura espalhados pela praa, percebeu que aquilo era um cdigo em pedaos - um symbolon -, igualzinho  Pirmide Manica.
     Que estranho.
     Por alguns instantes, ela quase pde ver na Kryptos uma Pirmide Manica moderna - um cdigo em muitas partes, feito de materiais diferentes, cada qual com 
seu papel.
     - Voc acha que existe alguma possibilidade de a Kryptos e a Pirmide Manica estarem escondendo o mesmo segredo?
     - Vai saber? - Parrish lanou um olhar frustrado para a Kryptos. - Duvido que algum dia a mensagem toda venha a ser conhecida. Quer dizer, a menos que algum 
convena o diretor a destrancar seu cofre e consiga dar uma espiadinha na soluo.
     Nola aquiesceu. Estava comeando a se lembrar de tudo. Quando a Kryptos foi montada, o ento diretor da CIA, William Webster, recebeu um envelope lacrado contendo 
a decodificao completa dos cdigos da escultura. Ele trancou o envelope com a soluo do enigma no cofre de sua sala. O documento supostamente continuava l, depois 
de ter sido transferido de diretor para diretor ao longo dos anos.
     Estranhamente, pensar em William Webster fez com que Nola recordasse mais uma parte do texto decifrado da Kryptos:
     
     EST ENTERRADO L EM ALGUM LUGAR.
     QUEM PODER SABER O LOCAL EXATO?
     SOMENTE WW.
     
     Embora ningum soubesse exatamente o que estava enterrado em algum lugar, a maioria das pessoas acreditava que WW fosse uma referncia a William Webster. Nola, 
no entanto, j ouvira rumores de que as iniciais na verdade se referiam a um homem chamado William Whiston - um telogo da Real Sociedade -, embora nunca tivesse 
se dado o trabalho de pensar seriamente no assunto.
     Rick voltara a falar.
     - Tenho que reconhecer que no sou muito chegado a artistas, mas acho esse tal de Sanborn um gnio. Estava lendo na internet sobre um trabalho dele chamado 
Projetor Cirlico, sabe? O negcio projeta letras russas gigantescas tiradas de um documento da KGB a respeito de controle da mente. Sinistro.
     Nola havia parado de escutar. Estava examinando a folha de papel na qual acabara de encontrar a terceira expresso-chave em outro post.
     
     T, toda essa parte reproduz textualmente o dirio de um famoso arquelogo falando sobre o momento em que ele desenterrou e revelou um ANTIGO PORTAL que conduzia 
 tumba de Tutancmon.
     
     Nola sabia que o arquelogo mencionado na Kryptos era, na verdade, o clebre egiptlogo Howard Carter. O post seguinte o citava nominalmente.
     
     Acabei de examinar o resto das anotaes de campo de Carter
     na internet e parece que ele encontrou uma tabuleta de argila
     alertando que a PIRMIDE reserva perigosas conseqncias
     para quem incomodar a paz do fara. Uma maldio! Ser que
     devemos ficar preocupados? :)
     
     Nola fechou a cara.
     - Rick, pelo amor de Deus, esse idiota s fala bobagem. Tutancmon no foi enterrado numa pirmide. Ele foi enterrado no vale dos Reis. Ser que os criptlogos 
no assistem ao Discovery Channel?
     Parrish deu de ombros.
     - Nerds.
     Nola ento encontrou a ltima expresso-chave.
     
     Pessoal, vocs sabem que no sou de acreditar em teorias da
     conspirao, mas seria melhor Jim e Dave conseguirem decifrar esse SYMBOLON GRAVADO para revelar o ltimo segredo dele antes de o mundo acabar em 2012... At 
mais.
     
     - Enfim - disse Parrish -, achei que seria melhor voc saber sobre o frum da Kryptos antes de acusar o diretor da CIA de guardar documentos secretos sobre 
uma antiga lenda manica. Alis, duvido que um homem poderoso como ele tenha tempo para esse tipo de coisa.
     Nola pensou no vdeo que mostrava tantos homens influentes participando de um ancestral rito manico. Ah, se Rick soubesse...
     No fim das contas, ela sabia, qualquer que fosse a revelao da Kryptos, a mensagem com certeza teria um vis mstico. Nola ergueu os olhos para a obra de arte 
reluzente - um cdigo tridimensional silenciosamente plantado no corao de uma das mais importantes agncias de inteligncia do pas - e imaginou se ela algum dia 
iria revelar seu derradeiro segredo.
     Enquanto ela e Rick voltavam para dentro, Nola teve de sorrir.
     Est enterrado l em algum lugar.
     
     CAPTULO 128
     
     Isso  loucura.
     Com os olhos vendados, Robert Langdon no conseguia ver nada enquanto o Escalade disparava pelas ruas desertas rumo ao sul. Sentado ao seu lado, Peter Solomon 
se mantinha em silncio.
     Para onde ele est me levando?
     A curiosidade de Langdon era um misto de interesse e apreenso, e sua imaginao estava a toda enquanto ele tentava desesperadamente juntar as peas. Peter 
no demonstrava a menor dvida em relao s suas afirmaes. A Palavra Perdida? Enterrada ao p de uma escadaria coberta por uma imensa pedra gravada? Tudo isso 
parecia impossvel.
     A suposta inscrio da pirmide no saa da cabea de Langdon... mesmo assim, at onde ele sabia, os sete smbolos no faziam nenhum sentido juntos.
     
     
     
     O esquadro do pedreiro: smbolo de honestidade e sinceridade.
     A seqncia Au: smbolo do elemento qumico ouro.
     O sigma: a letra grega S, smbolo matemtico da soma de todas as partes.
     A pirmide: smbolo egpcio do homem se erguendo aos cus.
     O delta: a letra grega D, smbolo matemtico de mudana.
     Mercrio: representado por seu mais antigo smbolo alqumico.
     O ouroboros: smbolo de inteireza e de unio.
     
     Solomon insistira que aqueles sete smbolos eram uma "mensagem". Contudo, se isso fosse verdade, Langdon no fazia idia de como l-la.
     O Escalade desacelerou de repente e fez uma curva abrupta para a direita, passando por uma superfcie diferente, como a de uma entrada de garagem ou rua de 
acesso. Langdon se empertigou no assento, escutando com ateno para ver se conseguia obter alguma pista de onde estavam. O trajeto levara menos de 10 minutos e, 
embora Langdon houvesse tentado tra-lo em sua mente, logo perdera o senso de direo. At onde sabia, eles poderiam muito bem estar de volta  Casa do Templo.
     O Escalade parou e Langdon ouviu a janela baixar.
     - Agente Simkins, da CIA - anunciou o motorista. - Acho que vocs esto nos esperando.
     - Sim, senhor - retrucou com veemncia uma voz militar. - A diretora Sato ligou para avisar. Espere um instante enquanto abro a cancela.
     Langdon seguiu escutando, cada vez mais confuso, percebendo que eles entravam numa base militar. Quando o carro voltou a andar, percorrendo um trecho asfaltado 
particularmente liso, ele virou a cabea na direo de Solomon.
     - Onde estamos, Peter? - perguntou.
     - No tire a venda. - O tom de Peter era taxativo.
     O veculo percorreu uma distncia curta e tornou a diminuir a velocidade at parar. Simkins desligou o motor. Mais vozes. Vozes militares. Algum pediu para 
ver a identificao de Simkins. O agente saltou do carro e conversou com os homens em voz baixa.
     De repente, algum abriu a porta de Langdon e mos fortes o ajudaram a descer do carro. O ar estava frio. Ventava.
     Solomon surgiu ao seu lado.
     - Robert, deixe o agente Simkins guiar voc at l dentro.
     Langdon ouviu chaves metlicas numa fechadura... e ento o rangido de uma porta de ferro pesada se abrindo. Parecia uma porta blindada antiga. Para onde eles 
esto me levando?
     Simkins conduziu Langdon at a porta de metal. Eles atravessaram uma soleira.
     - Siga em frente, professor.
     De repente, tudo ficou silencioso. Morto. Deserto. O ar l dentro tinha um cheiro estril, artificial.
     Simkins e Solomon agora ladeavam Langdon, guiando-o por um corredor cheio de ecos. O piso sob seus sapatos parecia de pedra.
     Atrs deles, a porta de metal bateu com fora e Langdon se sobressaltou. As fechaduras giraram. Ele suava sob a venda. Tudo o que queria era arranc-la do rosto.
     Ento pararam de andar.
     Simkins soltou o brao de Langdon e ouviu-se uma srie de bipes eletrnicos, seguidos por um barulho inesperado  sua frente. Langdon imaginou que aquele s 
poderia ser o som de uma porta de segurana se abrindo automaticamente.
     - Sr. Solomon, pode seguir sozinho com o Sr. Langdon. Eu os espero aqui - disse Simkins. - Leve a minha lanterna.
     - Obrigado - agradeceu Solomon. - No vamos demorar.
     Lanterna? quela altura, o corao de Langdon batia furiosamente.
     Peter segurou o brao do amigo e avanou devagar.
     - Venha comigo, Robert.
     Lentamente, os dois atravessaram juntos outra soleira, e a porta de segurana se fechou com um estrpito atrs deles.
     Peter estacou.
     - Algum problema?
     Langdon de repente se sentiu enjoado e desequilibrado.
     - Acho que s preciso tirar esta venda.
     - Ainda no, estamos quase chegando.
     - Quase chegando aonde? - Langdon sentia um peso cada vez maior na boca do estmago.
     - J disse... estou levando voc at a escadaria que desce em direo  Palavra Perdida.
     - Peter, isto no tem graa!
     - No  para ter graa. A idia  abrir sua mente, Robert. Faz-lo se lembrar de que existem mistrios neste mundo que nem mesmo voc j viu. E, antes de darmos 
mais um passo, quero lhe pedir uma coisa. Quero que acredite... s por um instante.. que acredite na lenda. Acredite que est prestes a olhar para uma escadaria 
em caracol que mergulha centenas de metros at um dos grandes tesouros perdidos da humanidade.
     Langdon estava tonto. Por mais que quisesse acreditar em seu amigo querido, no conseguia.
     - Falta muito? - A venda de veludo estava encharcada de suor.
     - No. Na verdade, s mais alguns passos. Uma ltima porta. Vou abri-la agora.
     Solomon o soltou por um instante e, quando fez isso, Langdon cambaleou, sentindo-se fraco.
     Vacilando, o professor estendeu a mo para se equilibrar enquanto Peter voltava rapidamente para seu lado, O rudo de uma pesada porta automtica se fez ouvir 
diante dos dois. Peter segurou o brao de Langdon e eles voltaram a andar.
     - Por aqui.
     A passos lentos, atravessaram outro limiar e a porta se fechou atrs deles.
     Silncio. Frio.
     Langdon sentiu na mesma hora que, independentemente do que fosse aquele lugar, no tinha nada a ver com o mundo do outro lado das portas de segurana. O ar 
ali era mido e gelado, como o de uma tumba. A acstica era abafada. Ele sentiu uma onda irracional de claustrofobia comear a surgir.
     - Mais alguns passos. - Solomon o fez virar e o posicionou no local exato. Por fim, tornou a falar. - Pode tirar a venda.
     Langdon arrancou a venda de veludo do rosto. Olhou em volta para tentar descobrir onde estava, mas continuava cego. Esfregou os olhos. Nada.
     - Peter, isto aqui est um breu!
     - , eu sei. Estenda a mo para a frente. Tem uma grade. Segure-se nela.
     Langdon tateou no escuro e encontrou uma grade de ferro.
     - Agora olhe. - Ele pde ouvir Peter remexer alguma coisa e, de repente, o intenso facho de uma lanterna varou a escurido. A luz estava apontada para o cho 
e, antes que Langdon conseguisse entender onde se encontrava, Solomon mirou a lanterna por sobre a grade e apontou o facho direto
     para baixo.
     De repente, Langdon estava olhando para um p o sem fundo... uma escada em caracol infinita que mergulhava para as profundezas da Terra. Meu Deus!
     Seus joelhos quase vergaram e ele se agarrou  grade em busca de apoio. Aquela era uma escadaria em espiral quadrada clssica, e ele pde ver pelo menos 30 
patamares para baixo at onde a luz da lanterna alcanava. No consigo nem ver o fundo!
     - Peter - gaguejou ele. - Que lugar  este?
     - Daqui a pouco vou levar voc at o p da escada, mas antes preciso que veja outra coisa.
     Estupefato demais para protestar, Langdon deixou Peter gui-lo para longe da escadaria at o outro lado daquela cmara estranha e exgua. Peter manteve a lanterna 
apontada para o piso de pedra gasto sob seus ps, e Langdon no conseguiu ter uma noo clara do espao  sua volta... percebeu apenas que ele era pequeno.
     Um pequeno cubculo de pedra.
     Os dois logo chegaram  parede oposta do recinto, na qual estava incrustado um retngulo de vidro. Langdon pensou que talvez fosse uma janela para uma segunda 
cmara, mas, de onde estava, s conseguia ver escurido do outro lado.
     - V em frente - disse Peter. - D uma olhada.
     - O que h l dentro? - Langdon se lembrou da Cmara de Reflexes sob o Capitlio e de como havia acreditado, por um instante, que ela pudesse conter um portal 
para alguma gigantesca caverna subterrnea.
     -  s olhar, Robert. - Solomon o empurrou de leve para a frente. - E prepare-se, porque a viso vai deix-lo chocado.
     Sem ter a menor idia do que esperar, Langdon andou em direo ao vidro. Quando chegou mais perto, Peter desligou a lanterna, mergulhando a pequena cmara na 
mais completa escurido.
     Enquanto seus olhos se adaptavam, Langdon tateou  sua frente, encontrando primeiro a parede e depois o vidro, seu rosto se aproximando do portal transparente.
     Mas havia apenas trevas.
     Ele chegou mais perto ainda... at encostar o rosto no vidro.
     Ento viu.
     A onda de choque e desorientao que varou o corpo de Langdon virou de cabea para baixo sua bssola interna. Ele quase caiu para trs enquanto sua mente se 
esforava para aceitar aquela viso totalmente inesperada. Nem mesmo em seus sonhos mais loucos Robert Langdon teria sido capaz de adivinhar o que havia do outro 
lado daquele vidro.
     A viso era gloriosa.
     Ali, no escuro, uma luz branca muito forte reluzia como uma jia cintilante.
     Langdon ento entendeu tudo - a cancela na rua de acesso... os vigias na entrada principal... a pesada porta de metal do lado de fora... as portas automticas 
que abriam e fechavam com estardalhao... o peso em seu estmago... a tontura que sentiu... e agora aquele pequeno cubculo de pedra.
     - Robert - sussurrou Peter atrs dele -, s vezes basta uma mudana de perspectiva para se ver a luz.
     Sem palavras, Langdon continuou a olhar pela janela. Seu olhar percorreu a escurido da noite, atravessando quase dois quilmetros de espao aberto, descendo 
mais... e mais... por entre as trevas... at pousar no domo todo branco e fortemente iluminado do Capitlio dos Estados Unidos.
     Langdon nunca tinha visto o Capitlio daquele ngulo - a 170 metros de altura, no topo do grande obelisco egpcio dos Estados Unidos. Naquela noite, pela primeira 
vez na vida, ele havia tomado o elevador at o pequeno cubculo de observao.., bem no alto do Monumento a Washington.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 129
     
     Robert Langdon estava parado diante do portal de vidro, hipnotizado, absorvendo a fora do cenrio  sua frente. Depois de subir mais de uma centena de metros 
sem perceber, ele agora admirava uma das paisagens mais espetaculares que tinha visto na vida.
     O domo reluzente do Capitlio se erguia como uma montanha na extremidade leste do National Mall. Em cada lado do prdio, duas linhas paralelas de luz se estendiam 
na sua direo... as fachadas iluminadas dos museus do Instituto Smithsonian... basties da arte, da histria, da cincia e da cultura.
     Langdon ento percebeu com assombro que grande parte do que Peter havia afirmado era verdade. Existe realmente uma escada em caracol... que desce mais de uma 
centena de metros sob uma imensa pedra. O grande cume daquele obelisco estava logo acima da sua cabea, e Langdon ento se lembrou de uma curiosidade que parecia 
ter uma estranha relevncia: o cume do Monumento a Washington pesa exatamente 3.300 libras, o equivalente a 1,5 tonelada.
     Outra vez o nmero 33.
     Mais surpreendente, porm, era saber que o ponto mais elevado daquele cume, o znite daquele obelisco,  coroado por uma ponta de alumnio polido - um metal 
que j foi considerado to precioso quanto o ouro. O brilhante pice do Monumento a Washington tem apenas 30 centmetros de altura, o mesmo tamanho da Pirmide Manica. 
Por incrvel que parea, essa pequena pirmide de metal trazia uma famosa inscrio - Laus Deo. 
     Langdon subitamente entendeu.  essa a verdadeira mensagem da base da pirmide de pedra.
     
     
     
     Os sete smbolos so uma transliterao!
     O mais simples dos cdigos.
     Os smbolos so letras.
     O esquadro do pedreiro - L
     O elemento ouro - AU
     O sigma grego - S
     O delta grego - D
     O mercrio alqumico - E
     O ouroboros - O
     - Laus Deo - sussurrou Langdon. A clebre expresso em latim, que significa "louvado seja Deus", est gravada na ponta do Monumento a Washington em letras cursivas 
de apenas 2,5cm de altura. Bem  vista... e, no entanto, invisvel para todos.
     Laus Deo
     - Louvado seja Deus - disse Peter atrs dele, acendendo a luz suave do cubculo. - O cdigo final da Pirmide Manica.
     Langdon se virou. O amigo tinha um largo sorriso estampado no rosto, e ele se lembrou que Peter chegara a dizer "louvado seja Deus" mais cedo na biblioteca 
manica. Nem assim eu percebi.
     O professor sentiu um calafrio ao constatar como fazia sentido que a lendria Pirmide Manica o tivesse guiado at ali... at o grande obelisco dos Estados 
Unidos - smbolo de um antigo saber mstico -, que se erguia em direo ao cu no corao do pas.
     Maravilhado, Langdon comeou a contornar o permetro do cubculo em sentido anti-horrio, at chegar a outra janelinha.
     Norte.
     Pela janela que dava para o norte, Langdon admirou o contorno familiar da Casa Branca. Ergueu os olhos at o horizonte, vendo a linha reta da Rua 16 se estender 
em direo  Casa do Templo.
     Estou ao sul de Heredom.
     Seguiu dando a volta at a janela seguinte. Mirou o oeste, percorreu com os olhos o comprido retngulo do espelho d'gua at o Lincoln Memorial, com sua arquitetura 
grega clssica inspirada no Partenon, o templo a Palas Atena, deusa dos feitos hericos.
     Annuit coeptis, pensou Langdon. Deus aprecia nossos feitos.
     Prosseguindo at a ltima janela, olhou para o sul, alm das guas escuras da Tidal Basin, onde o Jefferson Memorial brilhava intensamente contra o cu noturno. 
Sabia que a cpula levemente arredondada tivera por modelo o Panteo, primeira morada dos grandes deuses romanos da mitologia.
     Depois de olhar nas quatro direes, Langdon pensou nas fotografias areas que tinha visto do National Mall - seus quatro braos estendidos a partir do Monumento 
a Washington em direo aos pontos cardeais. Estou na encruzilhada dos Estados Unidos.
     Ele terminou de dar a volta, indo at onde Peter estava. Seu mentor parecia radiante.
     - Bem, Robert,  isso. A Palavra Perdida.  aqui que ela est enterrada. Foi para c que a Pirmide Manica nos conduziu.
     Langdon demorou a entender. Tinha quase se esquecido da Palavra Perdida.
     - Robert, no conheo ningum mais digno de confiana do que voc. E, depois de uma noite como a de hoje, acho que voc merece saber a histria toda. Conforme 
prometido na lenda, a Palavra Perdida est de fato enterrada no fundo de uma escada em caracol. - Ele apontou para a comprida escadaria do monumento.
     Langdon havia finalmente comeado a retomar o controle da situao, mas voltou a ficar intrigado.
     Peter se apressou a levar a mo ao bolso, retirando um pequeno objeto l de dentro.
     - Est lembrado disto aqui?
     Langdon pegou a caixa em forma de cubo que Peter lhe havia confiado tanto tempo atrs.
     - Estou... mas, infelizmente, acho que no fui muito bom guardio.
     Solomon deu uma risadinha.
     - Talvez tenha chegado a hora de esta caixa ver a luz do dia.
     Langdon examinou o cubo de pedra, perguntando-se por que Peter acabara de lhe entregar aquilo.
     - O que isto lhe parece? - perguntou Peter.
     Langdon olhou para a inscrio 1514  e lembrou-se da primeira impresso que teve quando Katherine desfez o embrulho.
     - Uma pedra angular.
     - Isso mesmo - retrucou Peter. - Mas existem algumas coisas que voc talvez no saiba sobre as pedras angulares. Em primeiro lugar, o conceito de assent-las 
vem do Antigo Testamento.
     Langdon aquiesceu.
     - Do Livro dos Salmos.
     - Isso. E uma verdadeira pedra angular est sempre enterrada... simbolizando o primeiro estgio do edifcio a ser erguido, saindo da terra em direo  luz 
celestial.
     Langdon lanou um olhar para o Capitlio, recordando que sua pedra angular est enterrada to fundo que, at hoje, no se conseguiu encontr-la.
     - E, por ltimo - disse Solomon -, assim como a caixa de pedra na sua mo, muitas pedras angulares so pequenos cofres e tm cavidades ocas para armazenar tesouros 
enterrados... talisms, se preferir... smbolos de esperana para o futuro da construo a ser erigida.
     Langdon tambm conhecia muito bem essa tradio. At hoje, os maons assentam pedras angulares dentro das quais lacram objetos cheios de significado - cpsulas 
do tempo, fotografias, proclamaes e at mesmo as cinzas de pessoas importantes.
     - Preciso deixar claro o que pretendo ao lhe contar isso - disse Solomon, olhando na direo da escadaria.
     - Voc acha que a Palavra Perdida est enterrada na pedra angular do Monumento a Washington?
     - Acho, no, Robert. Eu sei. A Palavra Perdida foi enterrada na pedra angular deste monumento no dia 4 de julho de 1848, durante um ritual manico.
     Langdon o encarou.
     - Nossos pais fundadores maons enterraram uma palavra?
     Peter fez que sim com a cabea.
     - Isso mesmo. Eles compreendiam o poder do que estavam enterrando.
     Langdon havia passado a noite inteira se esforando para aceitar conceitos vagos, etreos... os Antigos Mistrios, a Palavra Perdida, os Segredos de Todos os 
Tempos. Agora, queria algo concreto e, por mais que Peter afirmasse que a chave de tudo estava enterrada em uma pedra angular 170 metros abaixo de seus ps, Langdon 
achava difcil acreditar nisso. As pessoas passam a vida inteira estudando os mistrios e, mesmo assim, continuam incapazes de acessar o poder supostamente escondido 
neles. Langdon se lembrou da gravura Melancolia I, de Drer - a imagem do adepto arrasado, cercado pelas ferramentas de seus esforos fracassados em desvendar os 
segredos msticos da alquimia. Se os segredos de fato puderem ser desvendados, no estaro todos no mesmo lugar!
     Langdon sempre acreditara que qualquer resposta estaria espalhada pelo mundo em milhares de volumes... codificada nos escritos de Pitgoras, Hermes, Herclito, 
Paracelso e centenas de outros. A resposta estaria em tomos empoeirados e esquecidos sobre alquimia, misticismo, magia e filosofia. Escondida na antiga Biblioteca 
de Alexandria, nas tabuletas de argila dos sumrios, nos hierglifos do Egito.
     - Peter, sinto muito - disse Langdon baixinho, sacudindo a cabea. - Compreender os Antigos Mistrios  um processo que leva a vida inteira. No consigo entender 
como a chave poderia estar em uma nica palavra.
     Peter levou a mo ao ombro de Langdon.
     - Robert, a Palavra Perdida no  uma "palavra". - Ele deu um sorriso confiante. - Ns s a chamamos de "Palavra", ou "Verbo", porque era assim que os antigos 
a chamavam... no princpio.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 130
     
     No princpio era o Verbo.
     O decano Galloway estava ajoelhado junto  Grande Divisria da Catedral Nacional, rezando pelos Estados Unidos. Rezava para que seu amado pas em breve compreendesse 
o verdadeiro poder do Verbo, da Palavra - o registro por escrito do saber de todos os antigos mestres, as verdades espirituais ensinadas pelos grandes sbios.
     A histria havia abenoado a humanidade com os mais eruditos professores almas profundamente iluminadas cuja compreenso dos mistrios espirituais e mentais 
ultrapassava qualquer entendimento. As preciosas palavras desses adeptos - Buda, Jesus, Maom, Zoroastro e inmeros outros - foram transmitidas ao longo da histria 
por meio dos suportes mais antigos e preciosos.
     Os livros.
     Toda cultura no mundo tinha seu livro sagrado, seu prprio Verbo. Um diferente do outro, mas, no fundo, todos iguais. Para os cristos, a Palavra era a Bblia; 
para os muulmanos, o Alcoro; para os judeus, a Tor; para os hindus, os Vedas, e assim por diante.
     A Palavra iluminar o caminho.
     Para os pais fundadores dos Estados Unidos, a Palavra tinha sido a Bblia. No entanto, poucos na histria compreenderam sua verdadeira mensagem.
     Naquela noite, ajoelhado sozinho na grande catedral, o decano Galloway ps a mo sobre a Palavra - um surrado exemplar de sua Bblia manica. Aquele precioso 
livro, como todas as Bblias manicas, continha o Velho Testamento, o Novo Testamento e uma valiosa coleo de escritos filosficos da Maonaria.
     Embora Galloway j no pudesse ler o texto, ele conhecia o prefcio de cor. Sua gloriosa mensagem tinha sido lida por milhes de seus irmos em incontveis 
lnguas mundo afora:
     
     O TEMPO  UM RIO... E OS LIVROS SO BARCOS. MUITOS VOLUMES NAVEGAM POR ESSAS GUAS E ACABAM NAUFRAGADOS E IRREMEDIAVELMENTE PERDIDOS EM SUAS AREIAS. POUQUSSIMOS 
SO AQUELES QUE SUPORTAM OS RIGORES DO TEMPO E VIVEM PARA ABENOAR AS POCAS FUTURAS.
     
     Existe um motivo para esses volumes terem sobrevivido quando outros desapareceram. Como estudioso da f, o decano Galloway sempre achara espantoso que os antigos 
textos espirituais - os livros mais estudados do mundo - fossem na verdade os menos compreendidos.
     Escondido nessas pginas existe um segredo magnfico.
     Em breve, a luz surgiria e a humanidade finalmente comearia a entender a verdade simples e transformadora dos antigos ensinamentos. E ento ela daria um salto 
evolutivo, rumo  compreenso de sua prpria natureza esplendorosa.
     CAPTULO 131
     
     A escada que desce pela espinha dorsal do Monumento a Washington  composta de 896 degraus de pedra em espiral ao redor de um vo de elevador. Enquanto Langdon 
e Solomon seguiam rumo ao trreo, o professor tentava processar a espantosa informao que Peter acabara de compartilhar com ele: Robert, dentro da pedra angular 
deste monumento, nossos pais fundadores guardaram um nico exemplar da Palavra - a Bblia -, que aguarda na escurido ao p desta escada.
     De repente, Peter parou em um patamar e iluminou com a lanterna um grande medalho de pedra incrustado na parede.
     O que  isto? Langdon deu um pulo ao ver a inscrio.
     O medalho retratava uma assustadora figura vestida com um manto, segurando uma foice e ajoelhada ao lado de uma ampulheta. Seu brao estava erguido e o indicador 
apontava diretamente para uma grande Bblia aberta, como quem diz: "A resposta est aqui!"
     Langdon analisou a inscrio, depois se virou para Peter.
     Os olhos de seu mentor reluziam de mistrio.
     - Eu gostaria que refletisse sobre uma coisa, Robert. - Sua voz ecoou pela escadaria deserta.
     - Por que voc acha que a Bblia sobreviveu a acontecimentos turbulentos nesses milhares de anos?
     Por que ela continua aqui? Ser por conta do fascnio exercido por suas histrias?  claro que no.
     Existe um motivo para os monges cristos passarem a vida inteira tentando decifrar as Escrituras e para os msticos e cabalistas judeus se debruarem sobre 
o Antigo Testamento. E a razo, Robert,  que as pginas desse livro ancestral escondem poderosos segredos, um vasto acervo de conhecimento inexplorado  espera 
de ser desvendado.
     Langdon conhecia a teoria segundo a qual as Escrituras continham uma camada oculta de significado, uma mensagem escondida cercada de alegorias, simbolismos 
e parbolas.
     - Os profetas nos alertam - continuou Peter - que a linguagem usada para compartilhar seus mistrios secretos  cifrada. O Evangelho segundo Marcos diz: "A 
vs vos  dado saber os mistrios... mas... todas essas coisas se dizem por parbolas." Os Provrbios advertem que as palavras dos sbios
     so "enigmas", enquanto Corntios fala em "sabedoria oculta" O Evangelho segundo Joo avisa: "Falarei em parbolas... e direi coisas ocultas."
     Coisas ocultas, refletiu Langdon, sabendo que esse conceito aparecia nos Provrbios, assim como no Salmo 78. Abrirei minha boca numa parbola; falarei enigmas 
da antiguidade. Langdon havia aprendido que a idia por trs da expresso "coisas ocultas" no era que elas fossem "ms", mas sim que seu verdadeiro significado 
no estava claro, mas encoberto.
     - E, se voc tiver alguma dvida - acrescentou Peter -, Corntios diz abertamente que as parbolas tm duas camadas de significado: "leite para as crianas 
e alimento slido para os adultos", ou seja, leite  uma leitura diluda para as mentes infantis e alimento slido, a verdadeira mensagem, acessvel apenas s mentes 
maduras.
     Peter ergueu a lanterna, tornando a iluminar a inscrio do personagem que vestia um manto e apontava para a Bblia.
     - Sei que voc  ctico, Robert, mas pense no seguinte: se a Bblia no contm um significado oculto, por que tantas das melhores mentes de todos os tempos, 
incluindo cientistas brilhantes da Real Sociedade de Londres, ficaram to obcecadas com o seu estudo? Sir Isaac Newton escreveu mais de um milho de palavras na 
tentativa de decifrar o verdadeiro significado das Escrituras, incluindo um manuscrito de 1704 alegando que ele havia extrado informaes cientficas ocultas da 
Bblia!
     Langdon sabia que isso era verdade.
     - E Sir Francis Bacon - prosseguiu Peter -, o erudito contratado pelo rei Jaime para literalmente criar a verso oficial da Bblia King James, ficou to convencido 
de que as Escrituras continham um significado cifrado que escreveu seus prprios cdigos, ainda estudados at hoje! Como voc sabe,  claro, Bacon era rosa-cruz 
e escreveu A Sabedoria dos Antigos. - Peter sorriu. - At mesmo o poeta iconoclasta William Blake sugeriu que deveramos ler nas entrelinhas.
     Langdon conhecia o verso:
     
     NS DOIS LEMOS A BBLIA DIA E NOITE
     MAS TU LS NEGRO ONDE EU LEIO BRANCO.
     
     - E no foram s os eruditos europeus - continuou Peter, comeando a descer os degraus mais depressa. - Foi aqui, Robert, bem no corao desta jovem nao norte-americana, 
que os mais brilhantes de nossos pais fundadores, John Adams, Ben Franklin, Thomas Paine, alertaram sobre os graves perigos de se interpretar a Bblia de forma literal. 
Na verdade, Thomas Jefferson estava to convencido de que a verdadeira mensagem das Escrituras estava escondida que recortou as pginas e reeditou o livro, tentando, 
em suas prprias palavras, "eliminar a estrutura artificial e restaurar as
     doutrinas genunas".
     Langdon conhecia muito bem esse estranho fato. A Bblia de Jefferson continua a ser impressa at hoje, incluindo muitas de suas controversas revises, entre 
as quais a retirada da imaculada concepo e da ressurreio de Cristo. Por mais incrvel que possa parecer, durante a primeira metade do sculo XIX a Bblia de 
Jefferson era dada de presente a todos os novos membros do Congresso.
     - Peter, voc sabe que acho esse assunto fascinante e posso entender a tentao das mentes brilhantes de imaginar que as Escrituras contenham um significado 
oculto, mas isso no tem lgica alguma para mim. Qualquer professor experiente lhe diria que ensinamentos jamais podem ser transmitidos em cdigo.
     - Como assim?
     - Os professores ensinam, Peter. Ns falamos abertamente. Por que os profetas, os maiores professores da histria, iriam cifrar sua linguagem? Se queriam mudar 
o mundo, por que falariam em cdigo? Por que no se expressariam com clareza para que todos pudessem entender?
     Enquanto descia, Peter olhou para trs por cima do ombro, parecendo espantado com aquela pergunta.
     - Robert, a Bblia no fala abertamente pelo mesmo motivo que as antigas Escolas de Mistrios se mantinham escondidas... ou que os nefitos precisavam ser iniciados 
antes de aprenderem os ensinamentos secretos de todos os tempos... ou que os cientistas do Colgio Invisvel se recusavam a compartilhar seu conhecimento com outras 
pessoas. Essa informao tem poder, Robert. Os Antigos Mistrios no podem ser gritados aos quatro ventos. Eles so uma chama acesa que, nas mos de um mestre, pode 
iluminar o caminho, mas que, nas mos de um louco, pode abrasar a Terra.
     Langdon estacou. O que ele est dizendo?
     - Peter, estou falando da Bblia. Por que voc est falando dos Antigos Mistrios?
     Peter se virou para ele.
     - Robert, voc ainda no entendeu? Os Antigos Mistrios e a Bblia so a mesma coisa.
     Langdon o encarou, pasmo.
     Peter ficou em silncio, esperando o amigo processar aquela informao.
     - A Bblia  um dos livros que serviram para transmitir os mistrios ao longo da histria. Suas pginas tentam desesperadamente nos revelar o segredo. Entende 
o que eu estou dizendo? As "coisas ocultas" da Bblia so os sussurros dos antigos, que compartilham ao p do nosso ouvido todo o seu saber secreto.
     Robert Langdon ficou calado. Os Antigos Mistrios, em sua concepo, eram uma espcie de manual de instrues sobre como controlar o poder latente da mente 
humana... a receita de uma apoteose pessoal. Ele jamais conseguira aceitar esse suposto poder dos mistrios - e, sem dvida, a idia de que a Bblia de alguma forma 
escondia uma chave para eles era uma hiptese absurdamente forada.
     - Peter, a Bblia e os Antigos Mistrios so opostos completos. Os mistrios falam do deus dentro de ns... do homem como deus. A Bblia fala do Deus acima 
de ns... e nela o homem  um pecador impotente.
     - Isso! Exatamente! Voc tocou no xis da questo! No instante em que a humanidade se separou de Deus, o verdadeiro significado da Palavra se perdeu. As vozes 
dos antigos mestres foram engolidas pela ladainha catica daqueles que se autoproclamam escolhidos e gritam serem os nicos a compreender a Palavra.., que est escrita 
na sua lngua e em nenhuma outra.
     Peter continuou descendo a escada.
     - Robert, ns dois sabemos que os antigos ficariam horrorizados se vissem como seus ensinamentos foram deturpados... como a religio acabou virando uma cabine 
de pedgio para o cu... como soldados vo para a guerra acreditando que Deus est do lado deles. Ns perdemos a Palavra, mas seu verdadeiro significado continua 
a nosso alcance, bem diante de nossos olhos. Ele existe em todos os textos duradouros, da Bblia ao Bhagavad Gita, passando pelo Alcoro e muitos outros. Todos esses 
textos so reverenciados nos altares da Francomaonaria porque os maons entendem o que o mundo parece ter esquecido... que cada uma dessas obras,  sua maneira, 
est sussurrando baixinho exatamente a mesma mensagem. - A voz de Peter se embargou de emoo. - "No sabeis que sois deuses?"
     Para espanto de Langdon, esse antigo adgio no parava de vir  baila naquela noite. Ele j havia pensado nisso durante a conversa com Galloway e tambm no 
Capitlio, enquanto tentava explicar A Apoteose de Washington.
     Peter baixou a voz, falando num sussurro:
     - Buda disse: "Voc mesmo  Deus." Jesus ensinou que "O reino de Deus est entre vs" e chegou at a nos prometer que "Quem cr em mim far as obras que fao 
e far at maior do que elas":
     At mesmo o primeiro antipapa, Hiplito de Roma, citou a mesma mensagem, dita pela primeira vez pelo erudito gnstico Monoimus: "Abandone a busca por Deus... 
em vez disso, procure por ele tomando a si mesmo como ponto de partida."
     Langdon se lembrou da Casa do Templo, onde a cadeira do Cobridor da loja trazia, em seu espaldar, a inscrio: CONHECE-TE A TI MESMO.
     - Um homem sbio me disse certa vez: a nica diferena entre voc e Deus  que voc se esqueceu de que  divino - contou Peter com um fiapo de voz.
     - Peter, entendo o que voc est falando... de verdade. E adoraria acreditar que somos divinos, mas no vejo deuses andando sobre a Terra. No vejo pessoas 
com poderes sobre-humanos. Voc pode citar os supostos milagres da Bblia, ou qualquer outro texto religioso, mas tudo isso no passa de velhas histrias fabricadas 
pelo homem que o tempo se encarregou de exagerar.
     - Pode ser - disse Peter. - Ou talvez seja preciso que a nossa cincia alcance a sabedoria dos antigos. - Ele fez uma pausa. - O engraado  que... eu acho 
que a pesquisa de Katherine pode estar prestes a fazer justamente isso.
     Langdon recordou de repente que Katherine tinha sado correndo da Casa do Templo.
     - Para onde ela foi, afinal?
     - Ela volta j - respondeu Peter com um sorriso. - Foi s confirmar uma notcia maravilhosa.
     
     Do lado de fora, junto  base do monumento, Peter Solomon sentiu-se revigorado ao respirar o ar da noite. Achando graa, ficou observando Langdon examinar atentamente 
o cho, coar a cabea e olhar em volta para o p do obelisco.
     - Professor - brincou Peter -, a pedra angular que contm a Bblia est debaixo da terra. No d para termos acesso ao livro, mas garanto que ele est l.
     - Eu acredito em voc - disse Langdon, parecendo imerso em pensamentos. - Mas  que... percebi uma coisa.
     Langdon ento recuou e correu os olhos pela grande esplanada sobre a qual se erguia o Monumento a Washington. O espao que circundava o obelisco era feito inteiramente 
de pedra branca... com exceo de dois caminhos decorativos de pedra escura, que formavam dois crculos concntricos em volta do monumento.
     - Um crculo dentro de um crculo - disse Langdon. - Nunca percebi que o Monumento a Washington ficava no meio de um crculo dentro de um crculo.
     Peter teve de rir. Ele no deixa escapar nada.
     - , o grande circumponto... o smbolo universal de Deus... na encruzilhada dos Estados Unidos. - Ele encolheu os ombros, fingindo modstia. - Tenho certeza 
de que  s coincidncia.
     Langdon, que agora olhava para o cu, parecia muito longe dali. Seus olhos subiam pelo obelisco iluminado, que brilhava muito branco em contraste com o cu 
negro de inverno.
     Peter sentiu que o amigo estava comeando a ver aquela criao como o que era de fato... um lembrete silencioso do conhecimento antigo... um cone do homem 
esclarecido bem no centro de uma grande nao. Embora Peter no pudesse ver o pequeno cume de alumnio no topo, sabia que a pea estava l: a mente iluminada do 
homem tentando alcanar o cu.
     Laus Deo.
     - Peter? - Langdon se aproximou, parecendo ter acabado de passar por algum tipo de iniciao mstica. - Quase esqueci - disse ele, pondo a mo no bolso e sacando 
o anel manico do amigo. - Passei a noite inteira querendo devolver isto aqui a voc.
     - Obrigado, Robert. - Peter estendeu a mo esquerda e pegou o anel, admirando-o. - Todo esse segredo e mistrio em torno deste anel e da Pirmide Manica... 
teve uma influncia enorme na minha vida, sabe? Quando eu era jovem, a pirmide me foi entregue com a promessa de que escondia segredos msticos. O simples fato 
de ela existir me levou a acreditar que havia grandes mistrios no mundo. Atiou minha curiosidade, no me deixou perder a capacidade de me maravilhar e me inspirou 
a abrir a mente aos Antigos Mistrios. - Ele deu um sorriso discreto e guardou o anel no bolso. - Agora vejo que a verdadeira finalidade da Pirmide Manica era 
criar esse fascnio, e no revelar as respostas.
     Os dois passaram um bom tempo em silncio ao p do obelisco.
     Quando Langdon finalmente falou, seu tom foi srio.
     - Preciso pedir um favor a voc, Peter... como amigo.
     -  claro. Qualquer coisa.
     Langdon fez o pedido... com firmeza.
     Solomon aquiesceu, sabendo que o outro tinha razo.
     - Est bem.
     - Agora mesmo - acrescentou Langdon, acenando para o Escalade que os aguardava.
     - Certo... mas com uma condio.
     Langdon revirou os olhos com uma risadinha.
     - Voc sempre arruma um jeito de dar a ltima palavra.
     -  verdade, mas quero mesmo que voc e Katherine vejam uma ltima coisa.
     - A esta hora? - Langdon verificou o relgio.
     Solomon dirigiu um sorriso afetuoso ao velho amigo.
     -  o tesouro mais espetacular de Washington... e algo que pouqussimas pessoas j viram.
     
     CAPTULO 132
     
     O corao de Katherine Solomon estava leve quando ela subiu a passos rpidos a colina em direo  base do Monumento a Washington. Naquela noite, ela sofrera 
um grande choque e passara por momentos traumticos, mas agora seus pensamentos tinham recuperado o foco, mesmo que apenas temporariamente, graas  maravilhosa 
notcia que Peter lhe dera... e que ela havia acabado de confirmar com os prprios olhos.
     Minha pesquisa est salva. Toda ela.
     Os drives de armazenamento hologrfico de dados de seu laboratrio haviam sido destrudos na exploso, mas Peter lhe contara pouco antes, na Casa do Templo, 
que vinha fazendo, escondido, backups da pesquisa dela no escritrio da administrao do CAMS. Voc sabe que sou totalmente fascinado por seu trabalho, explicara 
ele, e queria acompanhar seus avanos sem incomod-la.
     - Katherine? - chamou uma voz grave.
     Ela ergueu os olhos.
     Uma figura solitria se delineava na base do monumento iluminado.
     - Robert! - Ela correu para abra-lo.
     - Fiquei sabendo da boa notcia - sussurrou Langdon. - Voc deve estar aliviada.
     A voz dela falhou de emoo.
     - Voc no imagina quanto.
     A pesquisa salva por Peter era um tour de force cientfico: uma enorme coleo de experimentos
     provando que o pensamento humano era uma fora real e mensurvel. As experincias de Katherine demonstravam o efeito do pensamento humano em tudo, desde cristais 
de gelo, passando por Geradores de Eventos Aleatrios, at o movimento de partculas subatmicas. Os resultados eram conclusivos e irrefutveis, com o potencial 
de transformar cticos em crentes e afetar a conscincia global em grande escala.
     - Tudo vai mudar, Robert. Tudo.
     - Peter com certeza acha isso.
     Katherine olhou em volta  procura do irmo.
     - Ele foi para o hospital - disse Langdon. - Insisti que fosse, como um favor para mim. 
     Katherine suspirou aliviada.
     - Obrigada.
     - Ele me disse para esperar voc aqui.
     Katherine assentiu, seu olhar subindo pelo obelisco branco reluzente.
     - Peter me avisou que iria traz-lo para c. Alguma coisa a ver com Laus Deo. Ele no deu detalhes.
     Langdon soltou uma risadinha cansada.
     - Nem eu sei direito se entendi bem. - Ele ergueu os olhos para o topo do monumento. - Seu irmo disse hoje  noite muita coisa que no consegui compreender.
     - Deixe-me adivinhar - falou Katherine. - Antigos Mistrios, cincia e Escrituras Sagradas?
     - Exato.
     - Bem-vindo ao meu mundo. - Ela deu uma piscadela. - Peter me apresentou a essa histria faz tempo. Foi ela que abasteceu boa parte da minha pesquisa.
     - Intuitivamente, parte do que ele disse fez sentido para mim. - Langdon sacudiu a cabea. - Mas intelectualmente...
     Katherine sorriu e passou o brao em volta dele.
     - Sabe, Robert, talvez eu consiga ajudar voc com isso.
     
     Na imensido do Capitlio, o Arquiteto Bellamy andava por um corredor deserto.
     Resta apenas uma coisa a fazer esta noite, pensou.
     Quando chegou  sua sala, retirou da gaveta da escrivaninha uma chave bem antiga. Era de ferro preto, longa e fina, com inscries apagadas. Ele a ps no bolso 
e se preparou para receber seus convidados.
     Robert Langdon e Katherine Solomon estavam a caminho do Capitlio. A pedido de Peter, Bellamy daria aos dois uma oportunidade muito rara: a de ver o mais magnfico 
segredo daquele prdio... algo que s podia ser revelado pelo Arquiteto.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 133
     
     Bem acima do cho da Rotunda do Capitlio, Robert Langdon avanava com nervosismo pela passarela circular situada logo abaixo do teto da cpula. Ele espiou 
hesitante por sobre o parapeito, tonto por causa da altura, ainda sem conseguir acreditar que menos de 10 horas atrs a mo de Peter tinha surgido no meio do piso 
l embaixo.
     Agora, de onde Langdon estava, o Arquiteto do Capitlio no passava de um minsculo pontinho, movendo-se com passos firmes 55 metros abaixo e depois sumindo 
de vista. Bellamy havia acompanhado Langdon e Katherine at aquela galeria, deixando-os l em cima com instrues bem especficas.
     As instrues de Peter.
     Langdon olhou para a velha chave de ferro que Bellamy lhe entregara, depois para a escadinha estreita que subia daquele nvel.., para outro mais alto ainda. 
Deus me ajude. Segundo o Arquiteto, aqueles degraus apertados conduziam a uma pequena porta de metal que a chave de ferro destrancava.
     Do outro lado da porta havia algo que Peter queria que Langdon e Katherine vissem. Ele no lhes dera detalhes, mas deixara instrues precisas com relao  
hora exata em que a porta deveria ser aberta. Precisamos esperar para abrir a porta? Por qu?
     Langdon tornou a conferir o relgio e resmungou.
     Enfiou a chave no bolso e correu os olhos pelo imenso vazio  sua frente at a outra ponta da galeria. Katherine tinha seguido adiante sem medo, aparentemente 
insensvel  altura. Ela j havia cruzado metade da circunferncia, admirando cada centmetro de A Apoteose de Washington, de Brumidi, que pairava acima de suas 
cabeas. Daquela perspectiva rara, os personagens de 4,5m de altura que enfeitavam os 433 metros quadrados do domo do Capitlio podiam ser vistos em um nvel de 
detalhe surpreendente.
     Langdon se virou de costas para Katherine, encarou a parede curva e sussurrou bem baixinho:
     - Katherine, aqui  sua conscincia falando. Por que voc abandonou Robert?
     Katherine parecia j conhecer as espantosas propriedades acsticas da cpula... pois a parede sussurrou de volta.
     - Porque Robert est sendo um medroso. Ele deveria vir at aqui comigo. Ainda temos muito tempo antes de podermos abrir a porta.
     Langdon sabia que ela estava certa e, com relutncia, foi contornando a galeria, mantendo-se grudado  parede o tempo todo.
     - Este teto  absolutamente incrvel - comentou Katherine maravilhada, com o pescoo esticado para abarcar o imenso esplendor da Apoteose acima dela. - Deuses 
mticos misturados com inventores e suas criaes? E pensar que esta  a imagem no centro do nosso Capitlio.
     Langdon voltou os olhos para cima na direo das gigantescas formas de Franklin, Fulton e Morse ao lado de seus inventos tecnolgicos. Um arco-ris brilhante 
se projetava a partir desses personagens, guiando o olhar de Langdon para George Washington, que subia aos cus em cima de uma nuvem. A grande promessa do homem 
que se torna Deus.
     -  como se toda a essncia dos Antigos Mistrios estivesse pairando sobre a Rotunda - disse Katherine.
     Langdon tinha de admitir que no havia muitos afrescos no mundo que fundiam invenes cientficas com deuses mticos e apoteose humana. A espetacular coleo 
de imagens do teto era de fato uma mensagem dos Antigos Mistrios e estava ali por um motivo. Os pais fundadores tinham imaginado os Estados Unidos como uma tela 
em branco, um campo frtil sobre o qual poderiam lanar as sementes dos mistrios. Hoje, aquele cone sublime - o pai da nao subindo aos cus - pairava silenciosamente 
sobre os legisladores, lderes e presidentes do pas... um lembrete arrojado, um mapa para o futuro, a promessa de um tempo em que o homem iria evoluir rumo  maturidade 
espiritual completa.
     - Robert - sussurrou Katherine com os olhos ainda fixos nas enormes figuras dos grandes
     inventores norte-americanos acompanhados por Minerva -, esse afresco  proftico. Hoje em dia, as invenes mais avanadas esto sendo usadas para estudar as 
idias mais antigas. A notica pode ser uma disciplina nova, mas  a cincia mais antiga do mundo: o estudo da mente humana. - Ela se virou para Langdon, maravilhada. 
- E estamos aprendendo que os antigos compreendiam o pensamento de
     modo mais profundo do que compreendemos hoje.
     - Faz sentido - retrucou o professor. - A mente humana era a nica tecnologia  disposio dos antigos. Os primeiros filsofos a estudaram de forma incansvel.
     - Isso mesmo! Os textos antigos so obcecados pelo poder da mente humana. Os Vedas descrevem o fluxo da energia mental. A Pistis Sophia fala sobre a conscincia 
universal. O Zohar explora a natureza da mente-esprito. Os textos xamansticos predizem a "influncia remota" de Einstein em termos de cura a distncia. Est tudo 
l! E olhe que eu nem comecei a falar da Bblia.
     - Voc tambm? - brincou Langdon. - Seu irmo tentou me convencer de que a Bblia est cheia de informaes cientficas cifradas.
     - Mas est mesmo - disse ela. - E, se voc no acredita em Peter, leia alguns dos textos esotricos de Newton sobre as Escrituras. Quando comear a entender 
as parbolas crpticas, Robert, voc vai perceber que a Bblia  um estudo da mente humana.
     Langdon encolheu os ombros.
     - Acho que vou ter que ler tudo de novo.
     - Deixe-me fazer uma pergunta - disse ela, obviamente sem apreciar seu ceticismo. - Quando a Bblia nos diz que devemos "construir nosso templo" e fazer isso 
"sem ferramentas e sem rudo", de que templo voc acha que ela est falando?
     - Bem, o texto diz que o nosso corpo  um templo.
     - Sim, em Corntios 3:16. Vs sois o templo de Deus. - Ela sorriu. - E o Evangelho segundo Joo diz exatamente a mesma coisa. Robert, as Escrituras sabem muito 
bem o poder que existe latente em ns, e nos incentivam a dominar esse poder... a construir os templos de nossas mentes.
     - Infelizmente, acho que grande parte do mundo religioso est esperando que um templo de verdade seja reconstrudo. Isso faz parte da Profecia Messinica.
     - Sim, mas deixa de lado um ponto importante. O Segundo Advento  o do homem, o instante em que a humanidade finalmente constri o templo de sua mente.
     - No sei - disse Langdon, esfregando o queixo. - No sou nenhum estudioso da Bblia, mas tenho quase certeza de que as Escrituras descrevem em detalhes um 
templo fsico que precisa ser construdo. Segundo a descrio, a estrutura seria dividida em duas partes: um templo externo chamado Santo e um santurio interno 
chamado Santo dos Santos. As duas partes esto separadas uma da outra por um fino vu.
     Katherine sorriu novamente.
     - Bela memria bblica para um ctico. Alis, voc j viu um crebro humano de verdade? Ele  constitudo por duas partes: uma externa, chamada dura-mter e 
outra interna, chamada pia-mter. Essas duas partes so separadas pela membrana aracnide, um vu de tecido que parece uma teia de aranha.
     Langdon inclinou a cabea, surpreso.
     Com delicadeza, ela ergueu a mo e tocou a tmpora de Langdon.
     - Existe um motivo para temple, em ingls, significar tanto "tmpora" quanto "templo", Robert.
     Enquanto Langdon tentava processar o que Katherine acabara de dizer, lembrou-se inesperadamente do Evangelho gnstico segundo Maria: Onde a mente est, l est 
o tesouro.
     - Talvez voc tenha ouvido falar - disse Katherine, baixando o tom de voz - nos exames de ressonncia magntica feitos em iogues meditando. Quando em estado 
avanado de concentrao, o crebro humano produz, por meio da glndula pineal, uma substncia parecida com cera. Essa secreo cerebral no se parece com nenhuma 
outra substncia do corpo. Ela tem um efeito incrivelmente curativo,  capaz de regenerar clulas e talvez seja um dos motivos por trs da longevidade dos iogues. 
Isso  cincia, Robert. Essa substncia tem propriedades inconcebveis e s
     pode ser criada por uma mente em estado de profunda concentrao.
     - Eu me lembro de ter lido sobre isso alguns anos atrs.
     - E, falando nisso, voc conhece o relato da Bblia sobre o "man dos cus"?
     Langdon no via ligao alguma entre os dois assuntos.
     - Est se referindo  substncia mgica que caiu do cu para alimentar os famintos?
     - Exatamente. Dizia-se que essa substncia curava os doentes, dava a vida eterna e, estranhamente, no produzia dejetos depois de consumida. - Katherine fez 
uma pausa, como se estivesse esperando que ele entendesse. - Robert - insistiu ela -, um alimento que caiu do cu? - Ela cutucou a prpria tmpora. - Que cura o 
corpo por magia? Que no gera dejetos? Ainda no entendeu? So palavras em cdigo, Robert! Templo  um cdigo para "corpo": Cu  um cdigo para "mente" A Escada 
de Jac  a sua coluna vertebral. E o man  essa rara secreo produzida pelo crebro. Quando voc vir essas palavras cifradas nas Escrituras, preste ateno. Elas 
muitas vezes so sinais de um significado mais profundo escondido sob a superfcie.
     Katherine passou a falar rpido, explicando como a mesma substncia mgica aparecia em todos os Antigos Mistrios: nctar dos deuses, elixir da vida, fonte 
da juventude, pedra filosofal, ambrosia, orvalho, ojas, soma. Depois comeou a dar uma longa explicao sobre como a glndula pineal representava o olho de Deus 
que tudo v.
     - Segundo Mateus 6:22 - disse ela com animao -, "Quando o teu olho for bom, todo o teu corpo ter luz": Esse conceito tambm  representado pelo chacra ajna 
e pelo pontinho na testa dos hindus que...
     Katherine se deteve abruptamente, parecendo encabulada.
     - Desculpe... sei que estou falando sem parar. Mas  que acho tudo isso to emocionante!
     Passei anos estudando as afirmaes dos antigos sobre o incrvel poder mental do homem, e agora a cincia est nos mostrando que o acesso a esse poder se d, 
na verdade, por meio de um processo fsico. Se usado corretamente, nosso crebro pode invocar poderes literalmente sobre-humanos. A
     Bblia, como muitos textos antigos,  uma exposio detalhada da mquina mais sofisticada de todos os tempos... a mente humana. - Ela deu um suspiro. - Por 
incrvel que parea, a cincia ainda no alcanou todo o potencial da mente.
     - Parece que seu trabalho com a notica vai representar um salto  frente nessa rea.
     - Talvez seja um salto para trs - disse ela. - Os antigos j conheciam muitas das verdades cientficas que estamos redescobrindo atualmente. Em questo de 
anos, o homem moderno ser forado a aceitar algo hoje impensvel: nossas mentes podem gerar energia capaz de transformar a matria fsica. - Ela fez uma pausa. 
-As partculas reagem aos pensamentos... o que significa que nossos pensamentos tm o poder de mudar o mundo.
     Langdon abriu um leve sorriso.
     - Minha pesquisa me fez acreditar nisto: Deus  muito real... uma energia mental que permeia tudo - disse Katherine. - E ns, seres humanos, fomos criados a 
essa imagem...
     - Como assim? - interrompeu Langdon. - Criados  imagem de... uma energia mental?
     - Exatamente. Nossos corpos fsicos evoluram com o tempo, mas nossas mentes  que foram criadas  semelhana de Deus. Ns estamos levando a Bblia muito ao 
p de letra. Aprendemos que Deus nos criou  sua imagem, mas no so nossos corpos fsicos que se assemelham a Deus, so nossas mentes.
     Langdon se calara, totalmente fascinado.
     -  esse o verdadeiro presente, Robert, e Deus est esperando que entendamos isso. Pelo mundo todo, ficamos olhando para o cu  procura de Deus... sem nunca 
perceber que Ele est esperando por ns. - Katherine fez uma pausa, dando tempo para aquelas palavras serem absorvidas.
     - Ns somos criadores, mas ainda assim ficamos ingenuamente fazendo o papel de criaturas. Vemos a ns mesmos como ovelhas indefesas, manipuladas pelo Deus que 
nos criou. Nos ajoelhamos como crianas assustadas, implorando ajuda, perdo, boa sorte. Mas, quando percebermos que somos realmente feitos  imagem do Criador, 
vamos comear a entender que ns tambm devemos ser criadores. Assim que entendermos esse fato, as portas do potencial humano iro se escancarar.
     Langdon se lembrou de um trecho da obra do filsofo Manly P. Hall: Se o infinito no quisesse que o homem fosse sbio, no teria lhe dado a faculdade de saber. 
Langdon tornou a erguer os olhos para A Apoteose de Washington - a ascenso simblica do homem  divindade. A criatura... se transformando em Criador.
     - O mais incrvel de tudo - disse Katherine -  que, assim que ns, humanos, comearmos a dominar nosso verdadeiro poder, teremos enorme controle sobre o mundo. 
Seremos capazes de projetar a realidade em vez de simplesmente reagir a ela.
     Langdon baixou os olhos.
     - Parece... perigoso.
     Katherine ficou surpresa... e impressionada.
     - Isso, exatamente! Se os pensamentos afetam o mundo, ento precisamos tomar muito cuidado com a maneira como pensamos. Pensamentos destrutivos tambm tm influncia, 
e todos sabemos que  muito mais fcil destruir do que criar.
     Langdon pensou em todas as histrias sobre a necessidade de proteger o antigo saber dos no merecedores e de compartilh-lo apenas com os iluminados. Pensou 
no Colgio Invisvel e no pedido do grande cientista Isaac Newton a Robert Boyle para que guardasse "total silncio" sobre seu estudo secreto. Ele no pode ser divulgado, 
escreveu Newton
     em 1676, sem imensos danos para o mundo.
     - Houve, no entanto, uma reviravolta interessante - disse Katherine. - A grande ironia  que, durante sculos, todas as religies do mundo incentivaram seus 
seguidores a abraar os conceitos de f e crena. Agora a cincia, que passou muitos sculos desprezando a religio ao consider-la mera superstio, est sendo 
obrigada a admitir que sua prxima grande fronteira  literalmente a cincia da f e da crena... o poder da convico e da inteno. A mesma cincia que erodiu 
nossa f nos milagres est agora construindo uma ponte para atravessar o abismo que criou.
     Langdon passou um bom tempo pensando nas palavras dela. Bem devagar, tornou a erguer os olhos para a Apoteose.
     - Quero fazer uma pergunta - falou, olhando de volta para Katherine. - Mesmo que eu conseguisse aceitar, apenas por um instante, que tenho o poder de modificar 
matria fsica com a mente e de criar tudo aquilo que desejo... como poderia acreditar nisso se, infelizmente, no vejo nenhum indcio desse poder na minha vida?
     Ela deu de ombros.
     - Ento voc no est procurando direito.
     - Calma l, quero uma resposta de verdade. Isso est parecendo uma resposta de padre.
     Quero uma de cientista.
     - Voc quer uma resposta de verdade? Aqui est. Se eu lhe der um violino e disser que voc tem a capacidade de us-lo para tocar msicas lindas, no estarei 
mentindo. Voc tem essa capacidade, mas vai precisar treinar muito para que ela se manifeste. Aprender a usar a mente  a mesma coisa, Robert. O pensamento bem direcionado 
 uma habilidade que se adquire. Manifestar uma inteno requer um foco digno de um raio laser, uma visualizao sensorial completa e uma crena profunda. Ns demonstramos 
isso no laboratrio. E, como no caso do violino, existem pessoas que demonstram uma aptido natural maior que outras. Olhe para a histria. Veja os relatos de mentes 
iluminadas que realizaram feitos milagrosos.
     - Katherine, por favor, no me diga que voc realmente acredita nesses milagres. Quer dizer, francamente... transformar gua em vinho, curar os doentes com 
um toque da mo?
     Katherine inspirou fundo e soltou o ar lentamente.
     - Eu j vi pessoas transformarem clulas cancerosas em clulas saudveis apenas pensando nelas. Vi mentes humanas afetando o mundo fsico de inmeras formas. 
E quando voc testemunha isso, Robert, quando essas coisas se tornam parte da sua realidade, a nica diferena entre elas e alguns dos milagres sobre os quais j 
lemos passa a ser a intensidade.
     Langdon estava pensativo.
     -  um jeito inspirador de ver o mundo, Katherine, mas fico com a sensao de que isso  um salto de f impossvel. E, como voc sabe, a f nunca foi uma coisa 
fcil para mim.
     - Ento no pense nisso como f. Pense que  apenas uma mudana de perspectiva: aceitar que o mundo no  exatamente como voc imagina. Historicamente, todos 
os grandes avanos cientficos comearam com uma idia simples que ameaou virar todas as crenas de cabea para baixo. A simples afirmao "A Terra  redonda" foi 
desprezada e taxada de impossvel porque a maioria das pessoas acreditava que, se fosse assim, os oceanos se derramariam do planeta. O heliocentrismo foi chamado 
de heresia. As mentes medocres sempre atacaram aquilo que no entendem. H aqueles que criam... e aqueles que destroem. Essa dinmica existe desde que o mundo  
mundo. Mas os criadores sempre acabam encontrando quem acredite neles. Ento a quantidade de seguidores cresce at que alcana um nmero crtico e, de repente, o 
mundo se torna redondo, ou o sistema solar passa a ser heliocntrico. A percepo se transforma e uma nova realidade nasce.
     Langdon aquiesceu, agora com o pensamento longe.
     - Voc est com uma cara engraada - disse ela.
     - , sei l. Por algum motivo, estava me lembrando de como eu costumava pegar um pequeno barco e ir at o meio do lago  noite, s para ficar deitado debaixo 
das estrelas pensando nesse tipo de coisa.
     Ela assentiu, compreendendo.
     - Acho que todos ns temos uma lembrana parecida. Ficar deitado olhando para o cu... isso de alguma forma abre a mente. - Ela ergueu os olhos para o teto 
e ento falou: - Me d seu palet.
     - O qu? - Ele tirou o palet e o entregou a ela.
     Katherine o dobrou duas vezes, estendendo-o no cho da galeria como um travesseiro comprido.
     - Deite-se.
     Langdon se deitou de costas e Katherine ajeitou a cabea dele sobre metade do palet dobrado. Ento ela se deitou ao lado dele - duas crianas, com os ombros 
colados sobre aquela passarela estreita, olhando para o enorme afresco de Brumidi.
     - Muito bem - sussurrou Katherine. - Procure entrar naquele mesmo estado de esprito.., uma criana deitada em um barco.., observando as estrelas... com a mente 
aberta e cheia de assombro.
     Langdon tentou obedecer, embora, naquele instante, deitado e  vontade, uma sbita onda de exausto tomasse conta de seu corpo.  medida que sua viso se embaava, 
ele percebeu uma forma difusa l em cima que o despertou na mesma hora. Ser possvel? No conseguia acreditar que no tivesse percebido isso antes, mas os personagens 
de A Apoteose de Washington estavam obviamente posicionados em dois crculos concntricos - um crculo dentro de um crculo. Ser que a Apoteose tambm  um circumponto? 
Langdon se perguntou que outro detalhe deixara passar naquela noite.
     - Tenho uma coisa importante para dizer a voc, Robert. Existe outra pea que considero o aspecto mais espantoso da minha pesquisa.
     Ainda tem mais?
     Katherine se apoiou no cotovelo.
     - E juro... se ns, seres humanos, formos capazes de apreender de forma honesta essa nica verdade simples... o mundo vai mudar da noite para o dia.
     Ela passou a ter toda a sua ateno.
     - Para comear - disse ela -, eu deveria lembr-lo dos mantras manicos que nos incitam a "reunir o que est disperso", "criar ordem a partir do caos" e encontrar 
a "unio".
     - Continue. - Langdon estava intrigado.
     Katherine sorriu para ele.
     - Ns provamos cientificamente que o poder do pensamento humano cresce exponencialmente em proporo  quantidade de mentes que compartilham um mesmo pensamento.
     Langdon continuou em silncio, perguntando-se aonde ela queria chegar com essa idia.
     - O que estou dizendo  o seguinte: duas cabeas pensam melhor do que uma, mas no so duas vezes melhor, e sim muitas vezes melhor. Vrias mentes trabalhando 
em unssono ampliam o efeito de um pensamento... de forma exponencial.  esse o poder inerente aos grupos de orao, aos crculos de cura, aos cantos coletivos e 
s devoes em massa. A idia de uma conscincia universal no  um conceito etreo da Nova Era.  uma realidade cientfica palpvel.., e dominar essa conscincia 
tem o potencial de transformar o mundo. Essa  a descoberta fundamental da cincia notica. E o que  mais importante: isso est acontecendo agora.  possvel sentir 
essa mudana  nossa volta. A tecnologia est nos conectando de formas que jamais imaginamos: veja o Twitter, o Google, a Wikipdia e tantas outras coisas.., tudo 
isso se une para criar uma rede de mentes interconectadas. - Ela riu. - E garanto a voc: assim que eu publicar meu livro, todo mundo vai comear a postar no Twitter 
coisas do tipo "aprendendo sobre cincia notica", e o interesse por essa disciplina vai explodir de forma exponencial.
     As plpebras de Langdon estavam incrivelmente pesadas.
     - Sabe que at hoje eu no aprendi a mandar um twitter?
     - Um tweet - corrigiu ela, rindo.
     - Como?
     - Deixe para l. Feche os olhos. Eu acordo voc quando chegar a hora.
     Langdon percebeu que havia quase se esquecido da chave que o Arquiteto lhe dera... e do motivo que levara os dois a subirem at ali. Engolido por uma nova onda 
de exausto, fechou os olhos.
     Na escurido de sua mente, se surpreendeu pensando na conscincia universal... nos escritos de Plato sobre "a mente do mundo" e o "deus da unio"... no "inconsciente 
coletivo" de Jung. O conceito era ao mesmo tempo simples e espantoso.
     Deus est na unio de Muitos... e no em Um s.
     - Elohim - falou Langdon de repente, reabrindo os olhos ao perceber um vnculo inesperado.
     - Como? - Katherine ainda o olhava de cima.
     - Elohim - repetiu ele. - A palavra hebraica usada no Antigo Testamento para se referir a Deus! Ela sempre me intrigou.
     Katherine abriu um sorriso de cumplicidade.
     - Sim. A palavra est no plural.
     Exatamente! Langdon nunca tinha entendido por que os primeiros trechos da Bblia se referiam a Deus como um ser plural. Elohim. O Deus Todo-Poderoso do Gnesis 
era descrito no como Um... mas como Muitos.
     - Deus  plural - sussurrou Katherine - porque as mentes dos homens so plurais.
     Os pensamentos de Langdon estavam a mil... sonhos, lembranas, esperanas, medos, revelaes... tudo rodopiava acima dele no domo da Rotunda.  medida que seus 
olhos comeavam a se fechar novamente, ele se viu encarando trs palavras em latim que faziam parte da Apoteose.
     E PLURIBUS UNUM.
     De muitos, um s, pensou, pegando no sono.
     
     
     
     
     
     
     
     
     EPLOGO
     
     Robert Langdon acordou devagar.
     Rostos o fitavam de cima. Que lugar  este?
     Logo em seguida, ele se lembrou de onde estava. Sentou-se lentamente debaixo da Apoteose. Tinha as costas doloridas de tanto ficar deitado no cho duro da galeria.
     Onde est Katherine?
     Langdon verificou o relgio do Mickey Mouse. Est quase na hora. Ps-se de p, olhando com cautela por cima do parapeito para o espao aberto mais abaixo.
     - Katherine? - chamou.
     A palavra ecoou de volta para ele no silncio da Rotunda deserta.
     Langdon apanhou o palet de tweed do cho, tirou a poeira com as mos e tornou a vesti-lo.
     Verificou os bolsos. A chave de ferro que o Arquiteto lhe dera no estava mais ali.
     Contornando de volta a passarela, foi em direo  abertura que Bellamy havia lhes mostrado... Ali, uma escada de metal ngreme subia at um lugar apertado 
e escuro. Comeou a galgar os degraus. Foi subindo cada vez mais alto. Aos poucos, a escadaria se tornou mais estreita e mais inclinada. Mesmo assim, Langdon seguiu 
em frente.
     S mais um pouquinho.
     Os degraus ficaram to verticais quanto os de uma escada de mo e a passagem, assustadoramente exgua. Por fim, a subida terminou e Langdon pisou em um pequeno 
patamar.  sua frente havia uma porta de metal pesada. A chave de ferro estava na fechadura, e a porta, um pouco entreaberta. Ele a empurrou e ela se abriu com um 
rangido. O ar do outro lado era frio. Quando Langdon cruzou a soleira para entrar na escurido, percebeu que estava do lado de fora.
     - Eu j ia descer para buscar voc - disse-lhe Katherine com um sorriso. - Est quase na hora.
     Ao reconhecer que lugar era aquele, Langdon soltou um arquejo de espanto. Ele estava em p sobre uma minscula plataforma que circundava o topo do domo do Capitlio. 
Logo acima dele, a esttua de bronze Liberdade Armada fitava a capital adormecida. Ela estava voltada para o leste, onde as primeiras tintas vermelhas da aurora 
haviam comeado a pintar o horizonte.
     Katherine guiou Langdon ao redor da plataforma at os dois ficarem de frente para o oeste, perfeitamente alinhados com o National Mall, Ao longe, o contorno 
do Monumento a Washington se erguia em meio  luz da aurora. Daquele ponto, o altssimo obelisco parecia ainda mais impressionante
     do que antes.
     - Quando ele foi construdo - sussurrou Katherine -, era a estrutura mais alta do planeta.
     Langdon imaginou as antigas fotografias em spia de pedreiros sobre andaimes suspensos a mais de 150 metros do solo, assentando cada tijolo  mo, um a um.
     Ns somos construtores, pensou ele. Somos criadores.
     Desde o incio dos tempos, o homem pressentia que havia nele algo especial... algo a mais. Ele ansiava por poderes que no possua. Havia sonhado em voar, em 
curar e em transformar seu mundo de todas as formas possveis.
     E foi exatamente isso que fez.
     Hoje, os santurios em homenagem aos feitos humanos enfeitavam o National Mall. Os museus Smithsonian transbordavam de invenes e obras de arte, com cincia 
e idias de grandes pensadores.
     Eles contavam a histria do homem como criador - das ferramentas de pedra no Museu de Histria indgena Norte-americana aos jatos e foguetes do Museu Aeroespacial.
     Se nossos ancestrais pudessem nos ver hoje, com certeza nos considerariam deuses.
     Enquanto Langdon admirava atravs da bruma da aurora a vasta geometria dos museus e monumentos  sua frente, seu olhar retornou ao Monumento a Washington. Ele 
imaginou a solitria Bblia dentro da pedra angular enterrada e pensou em como a Palavra de Deus era na verdade a palavra do homem.
     Pensou no grande circumponto e em como ele fora encravado na esplanada circular ao p do monumento na encruzilhada dos Estados Unidos. De repente, pensou na 
pequena caixa de pedra que Peter lhe confiara. O cubo, ele agora percebia, havia se desmontado e se aberto para formar exatamente a mesma figura geomtrica: uma 
cruz com um circumponto no centro. Langdon teve de rir. At mesmo aquela caixinha estava indicando esta encruzilhada.
     - Olhe, Robert! - Katherine apontou para o alto do monumento.
     Langdon ergueu os olhos, mas no viu nada.
     Ento, observando com mais ateno, percebeu.
     Do outro lado do National Mall, um diminuto pontinho de luz dourada do sol refletia no pico do imenso obelisco. Seu brilho foi aumentando rapidamente, tornando-o 
mais radiante e fazendo-o cintilar na ponta de alumnio do cume. Maravilhado, Langdon viu aquela luz se transformar em um farol que pairou sobre a cidade escurecida. 
Pensou na pequena inscrio na lateral leste do cume de alumnio e se deu conta, para seu espanto, de que o primeiro raio de luz do sol a atingir a capital todos 
os dias iluminava duas palavras:
     Laus Deo.
     - Robert - sussurrou Katherine -, ningum nunca vem aqui ao nascer do sol. Era isso que Peter queria que ns vssemos.
     Langdon sentiu seu corao bater mais rpido  medida que o brilho no alto do obelisco se intensificava.
     - Peter acha que foi por isso que os pais fundadores ergueram esse monumento to alto. No sei se  verdade, mas de uma coisa tenho certeza... existe uma lei 
muito antiga decretando que nada mais alto pode ser construdo na nossa capital. Nunca.
     A luz foi descendo pelo cume de alumnio  medida que o sol subia no horizonte atrs deles. Enquanto assistia quilo, Langdon quase podia sentir  sua volta 
as esferas celestiais traando suas rbitas eternas pelo vazio do espao. Pensou no Grande Arquiteto do Universo e em como Peter dissera especifica- mente que o 
tesouro que desejava mostrar a Langdon s podia ser desvendado pelo Arquiteto. Langdon imaginara que ele estivesse se referindo a Warren Bellamy. Errei de Arquiteto.
     Quando os raios de luz ficaram mais fortes, o brilho dourado engoliu todo o cume. A mente do homem... recebendo a iluminao. A luz ento comeou a deslizar 
pelo monumento abaixo, iniciando a mesma descida que realizava a cada manh. O cu se movendo em direo  Terra... Deus se conectando ao homem. Langdon se deu conta 
de que esse processo iria se reverter no final do dia. O sol mergulharia a oeste e a luz tornaria a subir da Terra para o cu... preparando-se para um novo dia.
     Ao seu lado, Katherine estremeceu e chegou um pouco mais perto dele. Langdon passou o brao em volta do corpo dela. Com os dois ali em p, em silncio, o professor 
pensou sobre tudo o que havia aprendido naquela noite. Pensou na crena de Katherine de que o mundo estava prestes a mudar. Na f de Peter de que uma idade de iluminao 
era iminente. E nas palavras de um grande profeta que havia declarado com ousadia: No h nada oculto que no ser revelado, nem segredo que no vir  luz.
     Enquanto o sol nascia sobre Washington, Langdon olhou para o cu, onde o ltimo resqucio das estrelas da noite se apagava. Pensou na cincia, na f, no homem. 
Pensou em como todas as culturas, de todos os pases, em todos os tempos, sempre haviam compartilhado uma coisa. Ns todos temos um Criador. Usamos nomes diferentes, 
rostos diferentes e preces diferentes, mas Deus  a constante universal do homem. Ele  o smbolo que todos compartilhamos... o smbolo de todos os mistrios da 
vida que no somos capazes de compreender. Os antigos louvavam a Deus como smbolo de nosso potencial humano ilimitado, porm esse smbolo antigo tinha se perdido 
com o tempo. At agora.
     Naquele instante, parado no topo do Capitlio, com o calor do sol se espalhando ao seu redor,
     Robert Langdon sentiu uma poderosa onda brotar no mago de seu ser. Era uma emoo que ele nunca havia sentido com tamanha profundidade na vida.
     Esperana.
     
